“Caos
climático” pode ser evitado: veja os caminhos indicados pela Ciência
Evitar
cada fração de grau do aquecimento global é criticamente importante e, ainda
que estejamos caminhando a passos largos para o “caos climático”, há caminhos
possíveis para evitar o pior. Esse é um dos principais recados de um relatório
escrito por alguns dos principais cientistas climáticos do planeta, publicado
pouco antes do início da 30ª Conferência do Clima da ONU (COP30), em Belém
(PA).
É
necessário, alertam os especialistas, cortar emissões de gases do efeito
estufa, reduzir o consumo excessivo – especialmente entre os mais ricos – e
promover mudanças estruturais, inclusive com a adoção de “modelos econômicos
ecológicos e que priorizem o bem-estar, a equidade e a sustentabilidade ao
invés de crescimento [econômico] perpétuo”.
O
relatório “Estado do Clima 2025”, publicado na revista científica BioScience, é
co-assinado por 20 cientistas, liderados por William Ripple, da Universidade do
Estado do Oregon, e por Christopher Wolf, afiliado à Associação de Pesquisa em
Ecossistemas Terrestres, também do Oregon, nos Estados Unidos. A primeira
edição do monitoramento foi publicada em 2019, no artigo “Aviso dos Cientistas
do Mundo sobre uma Emergência Climática”, que já recebeu mais de 15 mil
assinaturas de cientistas de 167 países.
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Por que isso importa?
• O aquecimento global está causando
mudanças no clima que podem acarretar o fim de várias espécies da fauna global
e o aumento do nível do mar a ponto de cidades desaparecerem.
• Para evitar essa situação, é necessário
diminuir drasticamente as emissões de carbono que ocorrem, em sua maioria, com
a queima de combustíveis fósseis.
A lista
de estudiosos que assinam o relatório de 2025 inclui Johan Rockström, diretor
do Instituto Potsdam de Pesquisas sobre o Impacto Climático e um dos maiores
especialistas na temática no mundo, e o brasileiro Roberto Schaeffer, da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que colabora com o Painel
Intergovernamental de Mudanças do Clima (IPCC) da ONU há mais de duas décadas.
Para os
pesquisadores, “estratégias de mitigação das mudanças climáticas estão
disponíveis, são economicamente viáveis e urgentemente necessárias” e “ainda
podemos limitar o aquecimento se agirmos com ousadia e rapidez”. Os estudiosos
ressaltam ainda que os custos de frear as mudanças climáticas são muito menores
do que os danos à economia global que seus impactos podem causar.
Com
base no último relatório do IPCC, eles listam 43 opções de mitigação das
mudanças climáticas até 2030 e seus respectivos potenciais de redução de
emissões. A expansão do uso de energias renováveis (como eólica e solar) em
substituição aos combustíveis fósseis – um consenso científico de longa data –
é reforçada como a medida com maior potencial de redução de emissões. Mas o
estudo aponta outras abordagens, que vão de proteção das florestas, restauração
florestal e sequestro de carbono na agricultura, até dietas ricas em vegetais,
redução das perdas e desperdício de alimentos, aumento da reciclagem e do uso
de transporte público.
Para a
professora da Universidade de Brasília (UnB), Mercedes Bustamante, que
colaborou com o último relatório do IPCC e foi co-coordenadora do Grupo de
Trabalho “Mitigação”, do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, “as ações de
mitigação têm que ser amplas e multifacetadas”. “No nível que a gente está de
emissões e no tempo de resposta [que temos], as ações de mitigação têm que
estar em todos os setores, independente das suas contribuições. Tudo isso nos
[permite ganhar] tempo até 2030, reduzindo o incremento das emissões. Mas,
vamos ter que fazer muito mais [dali] para frente, realmente neutralizando as
emissões até 2040, 2050, e chegando no final do século com emissões negativas”,
diz.
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Sinais vitais da terra estão “em alerta máximo”
Se as
políticas atuais forem mantidas, aponta o relatório, a Terra caminhará para um
aquecimento de 3,1 ºC, bem acima do compromisso firmado no Acordo de Paris, em
2015, de limitá-lo ao máximo de 2,0 ºC, idealmente a 1,5 ºC.
Segundo
Bustamante, isso pode nos levar a alterações “que não vão ser reversíveis na
escala de tempo humana”. “A redução da cobertura de gelo, a elevação do nível
do mar pela expansão térmica dos oceanos e a sua acidificação (…) são sistemas
que não necessariamente vão chegar a um ponto de não retorno – mas pode ser que
cheguem –, mas que o retorno talvez seja muito lento. Isso abre a perspectiva
de entrarmos em um território desconhecido”, aponta.
De
acordo com o estudo, 22 dos 34 “sinais vitais” planetários bateram recordes, a
maior parte deles em indicativos negativos para a “saúde” da Terra. O ano de
2024 foi o mais quente e com o maior número de dias extremamente quentes da
história, teve a maior emissão de CO₂ de todos os tempos e a maior perda de
cobertura arbórea por incêndios já registrada. Além disso, o fogo em florestas
tropicais primárias foi 370% acima do ano anterior.
Os
últimos anos registraram ainda o menor nível histórico de gelo na Groenlândia e
na Antártida e o maior consumo de carvão, petróleo e gás, principais
responsáveis pelo avanço das mudanças climáticas. O consumo de energia solar e
eólica também bateu recordes – em um dos poucos sinais positivos –, mas ainda é
31 vezes menor do que o consumo energético de fontes fósseis. As energias
poluentes, como petróleo, gás e carvão, tiveram o segundo maior montante de
subsídios da história em 2023, 616 bilhões de dólares.
Outra
das poucas exceções positivas entre os sinais vitais monitorados pelos
pesquisadores foi o desmatamento da Amazônia brasileira, que em 2024 caiu 30%,
em seu mais baixo nível em nove anos. “A queda é atribuída ao fortalecimento da
fiscalização ambiental durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, que priorizou os esforços de conservação”, afirmam os pesquisadores. A
próxima edição do estudo, no ano que vem, terá novamente o desmatamento na
região como um dos pontos positivos, já que o sistema Prodes, do Inpe,
registrou nova queda de 11%.
Em
contrapartida, a população humana, o consumo de carne per capita, o número de
cabeças de gado e o PIB global também estão em máximos históricos. “Embora esse
crescimento [econômico] seja frequentemente celebrado como um sinal de
progresso, a expansão econômica contínua permanece amplamente associada ao
aumento do consumo de recursos, à degradação ecológica e ao aumento das
emissões de gases de efeito estufa”, aponta o relatório.
“Em
conjunto, essas tendências sugerem que a humanidade está em um estado de
sobrecarga ecológica – uma condição na qual os recursos são consumidos mais
rapidamente do que podem ser repostos, em um indicativo de sobrecarga ecológica
do planeta”, diz o texto.
Parte
dos pesquisadores argumenta que, para haver mudanças, é necessária “a
mobilização de movimentos sociais de base que defendam uma eliminação justa dos
combustíveis fósseis e limites à influência financeira e política da indústria
de combustíveis fósseis”.
Uma
seção do relatório é dedicada aos “tipping points” (pontos de inflexão)
sociais, que “podem desencadear ações climáticas aceleradas por meio de efeitos
em cascata nas sociedades, instituições e sistemas econômicos”. Um dos estudos
citados pelos especialistas revela que protestos não violentos e sustentados
envolvendo uma pequena parcela da população, cerca de 3,5%, “podem ajudar a
desencadear mudanças transformadoras”.
O
relatório ecoa algo que o “The 89 Percent Project”, idealizado pelo Covering
Climate Now e que tem a participação da Agência Pública, tem enfatizado: apesar
da maior parte da população ser a favor de medidas efetivas para conter a crise
climática (em uma média entre 80% e 89% da população mundial), a maioria dos
indivíduos acreditam compor uma minoria pró-clima – o que as inibe de cobrar
por ações concretas da classe política.
O
estudo destaca ainda que dois terços do aquecimento global desde 1990 são
atribuíveis aos 10% mais ricos da população, graças a seus estilos de vida de
alto consumo, elevado uso per capita de combustíveis fósseis e investimentos.
Para
Mercedes Bustamante, da UnB, é preciso se questionar “qual é o nível de riqueza
aceitável”, em um momento em que Elon Musk, da Tesla, pode estar prestes a se
tornar o primeiro trilionário da história.
“Quando
a gente fala da proteção do clima, de repensar a nossa relação com a natureza –
da qual a gente faz parte –, isso vai melhorar a vida das pessoas de uma forma
geral. Um sistema que opera melhor, com menos desigualdade, traz benefícios
para todo mundo. Não significa as pessoas terem que abrir mão da sua riqueza,
não precisa ter uma sociedade em que todo mundo é homogêneo, mas não pode ter
indignidade convivendo com acúmulo de riqueza”, afirma a pesquisadora.
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Desastres já causaram prejuízo trilionário para o planeta
Cada
décimo adicional de grau de aquecimento global, lembra o relatório, “leva a um
aumento desproporcionalmente maior nos desastres relacionados a eventos
climáticos extremos”, que estão ficando mais frequentes, intensos e caros.
Segundo o estudo, desastres ligados às mudanças climáticas já causaram
prejuízos da ordem de 18 trilhões de dólares desde 2000.
No
Brasil, por exemplo, a passagem de um ciclone extratropical e de tornados pela
região Sul no início de novembro causou um prejuízo de mais de R$ 335 milhões,
segundo a Confederação Nacional de Municípios (CNM). As enchentes que atingiram
o Rio Grande do Sul em 2024, por sua vez, geraram um impacto de quase R$ 89
bilhões, de acordo com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID).
“Embora
todos os eventos climáticos e meteorológicos extremos tenham múltiplos fatores
físicos, esses desastres fazem parte de um padrão mais amplo de risco crescente
impulsionado por um planeta em aquecimento. Temperaturas mais altas alimentam
tempestades mais poderosas, amplificam secas e chuvas extremas e aumentam a
probabilidade de incêndios florestais de grande escala”, afirma o estudo.
A
mudança do clima, ressaltam os pesquisadores, afeta especialmente comunidades
vulneráveis em países de baixa renda, que já vêm “sofrendo impactos duradouros
na segurança alimentar, na disponibilidade e qualidade da água, na
infraestrutura e na saúde pública”, diz o relatório.
O
artigo aponta que a aceleração da crise climática apresenta risco
“profundamente interconectados que ameaçam desestabilizar o sistema terrestre e
a sociedade”, destacando “quatro ameaças particularmente urgentes”: os riscos
para os animais selvagens do planeta; o possível colapso da Circulação
Meridional do Atlântico (AMOC, na sigla em inglês), que tem papel crucial na
regulação do clima global; as perdas na qualidade e na disponibilidade de água;
e o risco de ultrapassarmos pontos de inflexão climáticos que podem levar a
Terra a uma retroalimentação do efeito estufa, o que impediria a queda da
temperatura, mesmo com a diminuição de emissão gases pelos humanos.
Fonte:
Por Rafael Oliveira, da Agencia Pública

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