Bolsonaro
na Papuda ou Papudinha? Como são as prisões que podem recebê-lo
O
famoso Complexo Penitenciário da Papuda, em Brasília, pode receber, em breve,
mais um preso ilustre: o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a 27 anos
e três meses de prisão por tentativa de golpe de Estado.
O local
— alvo de denúncias por superlotação e estrutura precária — já recebeu outros
condenados políticos célebres no passado, como o ex-ministro petista José
Dirceu e Valdemar da Costa Neto, presidente do PL.
O
destino de Bolsonaro, porém, ainda não foi decidido pelo ministro do Supremo
Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, relator da ação penal em que o
ex-presidente foi condenado. Isso acontecerá quando a Corte determinar o
trânsito em julgado do processo, ou seja, quando se esgotarem os recursos da
defesa, o que pode ocorrer em breve.
Nesta
terça-feira (18/11), foi publicado o acórdão oficializando o julgamento da
Primeira Turma que rejeitou, por unanimidade, um recurso apresentado por
Bolsonaro contra sua condenação, os chamados embargos de declaração.
Agora,
a defesa terá até domingo (23/11) para apresentar um segundo recurso, conhecido
como embargos dos embargos.
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A atual situação de Bolsonaro
Segundo
a criminalista Marina Coelho Araújo, professora do Insper e vice-presidente do
Instituto dos Advogados de São Paulo, esse segundo recurso pode ser julgado
mais rapidamente, apenas por Moraes, caso ele considere que se trata de uma
manobra da defesa para adiar o cumprimento da pena.
Nesse
caso, é possível que o ministro determine o fim do processo e defina onde
Bolsonaro deve ser preso.
"Ele
pode julgar [que são apenas] protelatórios e decidir monocraticamente",
disse à reportagem.
Outra
opção é ele levar o caso novamente ao plenário virtual da Primeira Turma, o que
demandaria mais dias para o julgamento do recurso.
A
defesa ainda pode tentar apresentar outro tipo de recurso, os embargos
infringentes, que servem para questionar decisões tomadas sem unanimidade.
No
entanto, é provável que o Supremo rejeite esse recurso sem nem analisar seu
conteúdo. A jurisprudência atual da Corte estabelece que apenas decisões das
Turmas que tenham ao menos dois votos divergentes podem ser contestadas por
embargos infringentes. E, no caso de Bolsonaro, o placar ficou em 4 votos a 1
por sua condenação.
Atualmente,
Bolsonaro está preso preventivamente em sua casa em Brasília e, devido a
problemas de saúde do ex-presidente, a defesa deve tentar manter a prisão
domiciliar, caso eventuais novos recursos sejam rejeitados.
Outro
ex-presidente está nesta situação: condenado por corrupção, Fernando Collor foi
autorizado a cumprir pena em sua casa, em Alagoas, devido ao diagnóstico de
Parkinson.
Collor,
porém, chegou a ficar preso poucos dias em uma cela individual, numa ala
especial do Presídio Baldomero Cavalcanti de Oliveira, em Alagoas, antes de
receber a prisão domiciliar.
Caso
Bolsonaro também seja enviado a uma prisão, há dois destinos possíveis dentro
do complexo da Papuda. Ou pode ser enviado para uma das cinco unidades
gerenciadas pela Secretaria de Administração Penitenciária ou para o 19º
Batalhão da Polícia Militar, que fica dentro do complexo e é conhecido como
Papudinha.
Esse
batalhão tem condições melhores que as prisões da Papuda e costuma receber
presos com direito à prisão especial, principalmente policiais militares.
Outra
possibilidade é que ele fique preso em uma sala da Superintendência da PF no
Distrito Federal, como ocorreu com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que
ficou 580 dias detido na Superintendência da PF em Curitiba, quando foi
condenado na Operação Lava Jato.
O
petista foi solto em 2019, quando o STF reviu sua decisão de autorizar o
cumprimento da pena após condenação em segunda instância, antes do esgotamento
dos recursos. Depois, sua condenação foi anulada em 2021 pela Corte, devido a
ilegalidades na condução dos processos na Lava Jato.
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As condições precárias da Papuda
Segundo
reportagem do jornal Folha de S.Paulo, Moraes enviou uma assessora ao Complexo
da Papuda, no início de novembro, para avaliar se há um espaço adequado para
receber o ex-presidente. O STF não confirmou nem negou a informação
oficialmente.
Já o
governo do Distrito Federal (GDF), comandado por Ibanês Rocha (MDB), aliado de
Bolsonaro, pediu a Moraes, no início de novembro, que fosse feita uma avaliação
médica do ex-presidente para determinar se ele teria condições de cumprir pena
no sistema prisional do DF.
Moraes
não atendeu ao pedido, considerando que ele não era pertinente no momento. A
expectativa é que a solicitação de avaliação médica seja analisada pelo STF
apenas após o esgotamento dos recursos, quando for decretado o cumprimento da
pena.
O
Complexo Penitenciário da Papuda fica a menos de 20 quilômetros da Praça dos
Três Poderes, na região administrativa de São Sebastião.
O nome
foi herdado da fazenda Papuda, que ocupava o local antes da inauguração da
primeira unidade prisional, em 1979.
O
folclore local diz que o nome veio de uma moradora da fazenda que sofria de
bócio, uma doença que causa o aumento da glândula tireoide.
Atualmente,
o complexo tem cinco unidades: o Centro de Detenção Provisória (CDP), destinado
a custodiados em regime provisório; o Centro de Internamento e Reeducação
(CIR), destinado ao regime semiaberto; e as Penitenciárias I, II e IV do
Distrito Federal, voltadas ao regime fechado — já a Penitenciária III está em
construção.
O
sistema enfrenta problema crônico de superlotação. Segundo a Secretaria de
Administração Penitenciária informou à BBC News Brasil, a Papuda possui 8.072
vagas e abriga 14.173 custodiados, ou seja, 75% a mais que sua capacidade.
Relatórios
da Defensoria Pública do DF também apontam queixas dos presos sobre a qualidade
da comida oferecida e a falta de materiais básicos de higiene e de ventilação.
Outro problema é a demora na prestação de atendimento médico às pessoas com
comorbidades.
"Nas
inspeções que a gente faz, a reclamação número um é sobre a comida, fornecida
por duas empresas terceirizadas. Chegam relatos de comida apodrecida",
contou à BBC News Brasil o defensor público Alexandre Fernandes da Silva.
Outras
queixas, contou, são banhos de sol e horários de visitas pouco frequentes, além
da água do chuveiro, que às vezes vem turva.
Coordenador
do Núcleo de Assistência Jurídica de Audiências de Custódia e Tutela Coletiva
dos Presos Provisórios do Distrito Federal, Silva conhece de perto a realidade
da Papuda.
Ele
explicou à reportagem que o Centro de Internamento e Reeducação (CIR),
destinado a presos em regime semiaberto, também recebe alguns presos em regime
fechado, com uma ala especial para policiais e outra para idosos.
Pela
"lógica" de funcionamento da Papuda, afirma o defensor, Bolsonaro,
por ter 70 anos, seria encaminhado para esta parte do presídio.
O
local, no entanto, também sofre com superlotação. Relatório do início de
novembro da Defensoria apontou, inclusive, que o CIR não possui condições de
abrigar pessoas idosas.
Para
receber Bolsonaro, o local precisaria ser adaptado, nota o defensor, caso a
intenção seja garantir ao ex-presidente condições semelhantes às que foram
dadas a Lula em Curitiba.
A cela
do petista era uma sala de cerca de 15 metros quadrados adaptada para recebê-lo
isoladamente, com uma cama de solteiro e uma mesa.
O
ex-presidente tinha também acesso a banheiro privativo e a uma televisão com
sinal de TV aberta, mas não tinha ar-condicionado, nem frigobar. As janelas
eram do tipo basculante – podiam ser abertas, mas não permitiam uma boa visão
de fora.
Já as
celas do Centro de Internamento e Reeducação (CIR), na Papuda, são coletivas.
Segundo o defensor, o banheiro não possui vaso sanitário, mas uma bacia turca
(um buraco diretamente no chão que se usa agachado). Há também chuveiro e pia.
Os presos não têm direito à televisão.
Na
avaliação de Silva, uma alternativa seria adaptar uma sala da área
administrativa da Papuda para Bolsonaro, que ficaria isolado dos demais presos.
"O
que a gente espera, enquanto defensoria, é que a preocupação que se tem com a
forma de cumprimento de pena dele, que seja estendido ao restante da
população". defendeu.
"É
óbvio que, por ser uma ex presidente, há toda uma preocupação legítima, mas
essa preocupação poderia ser universalizada [para todos os presos]", disse
ainda.
'Papudinha
tem condições mais humanas'
O
advogado Newton Rubens De Oliveira contou à BBC News Brasil detalhes do
interior da Papudinha, outro possível destino de Bolsonaro. Como presidente de
Prerrogativas da Ordem dos Advogados do DF, ele costuma visitar o local para
verificar as condições de atuação dos defensores, além de já ter tido clientes
detidos no batalhão.
Segundo
Oliveira, há celas coletivas e individuais no batalhão da PM, com estrutura e
confortos melhores do que nas unidades prisionais da Papuda, local que ele
também frequenta como advogado.
"A
cela individual da Papudinha é bem diferente de uma cela comum, de grade de
aço. São mais condignas, efetivamente. Com a cama comum, daquelas que a gente
está acostumado a ver, e não como no sistema prisional, que praticamente é só o
concreto", descreveu.
"Tem
um banheiro próprio. É possível ter as instalações de chuveiro elétrico,
televisão e até ventilador".
A
alimentação também é melhor, disse, tanto pela comida fornecida na Papudinha,
como pela possibilidade de as famílias levarem mantimentos, que os presos do
batalhão podem armazenar em geladeiras individuais ou coletivas.
Segundo
ele, os contratos de fornecimento de comida são diferentes nos dois locais, já
que a Papuda é administrada pela Secretaria de Estado de Administração
Penitenciária do DF, enquanto a Papudinha é de responsabilidade da Polícia
Militar.
"Eu
nunca comi [a refeição oferecida na Papudinha], mas, pela nossa experiência,
ciente de ambas as unidades, seja do sistema prisional comum, seja do batalhão,
os presos indicam que a alimentação do batalhão, sem dúvida nenhuma, é bem
melhor".
"Até
porque a família também pode levar mais coisa do que o sistema prisional
permite. É claro que isso tudo sob o rigor da avaliação da Vara de Execuções
Penais, do Ministério Público. Não é nada também extravagante", ressaltou.
A BBC
News Brasil solicitou à PMDF informações sobre a estrutura da Papudinha e a
quantidade de pessoas presas, mas a instituição não forneceu detalhes.
"O
local recebe militares do Distrito Federal presos provisoriamente e pessoas com
prerrogativa legal de prisão especial, conforme artigo 295 do Código de
Processo Penal. O funcionamento e a segurança da unidade seguem as normas
previstas nos decretos que regulam o apoio da PMDF ao sistema penal do Distrito
Federal", disse nota da instituição.
"A
estrutura opera exclusivamente dentro dos parâmetros legais e sob
acompanhamento permanente das autoridades competentes", continuou o
comunicado, destacando ainda que a Papudinha "é unidade oficialmente
reconhecida e fiscalizada pela Vara de Execuções Penais do Distrito Federal e
integra a listagem do TJDFT de estabelecimentos autorizados para
custódia".
Segundo
Oliveira, além de policiais militares, o batalhão pode receber criminosos de
outras categorias com direito à cela individual, chamada de sala de
Estado-Maior — é o caso de advogados, membros do Ministério Público e juízes.
"Tem
hoje sua lotação, mas nada parecido com o sistema prisional", afirmou.
"As
condições, obviamente, no meu ponto de vista, são bem mais humanas do que no
sistema prisional. A forma como os policiais lidam com aquelas pessoas, o
próprio atendimento, é realmente bem diferente."
Na sua
visão, faz sentido que Bolsonaro, como ex-presidente, cumpra pena na Papudinha
ao invés de ir para a Papuda, caso seja enviado a uma prisão.
"Isso
considerando aspectos de saúde e aspectos da mais alta autoridade do país.
Afinal de contas, um líder do Executivo também tem como uma das suas metas
combater o crime. Vai colocar com criminosos comuns? Eu acho um perigo".
"Realmente,
vai ter que fazer uma avaliação médica [do Bolsonaro] e verificar também se a
equipe médica que atende a Polícia Militar tem condições de assegurar que ele
vai ser bem atendido. Não havendo essa certificação, o caminho seria uma prisão
domiciliar", pondera.
<><>Relembre
a condenação de Bolsonaro
Bolsonaro
foi considerado pelo STF como líder de uma organização criminosa, com
militares, policiais e aliados, que atuou para impedir a transição de poder
após as eleições de 2022, vencidas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O
ex-presidente foi declarado culpado de cinco crimes: organização criminosa
armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe
de Estado, dano qualificado pela violência e grave ameaça e deterioração de
patrimônio tombado.
Além de
Bolsonaro, os outros sete réus na ação penal também foram condenados: Alexandre
Ramagem, Almir Garnier, Anderson Torres, Augusto Heleno, Mauro Cid, Paulo
Sérgio Nogueira e Walter Braga Netto.
Para o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, a organização criminosa agiu em
várias frentes desde 2021 para tentar executar o plano de ruptura, desde
discursos públicos para descreditar o sistema eleitoral até supostas pressões
sobre o Alto Comando das Forças Armadas para apoiar um decreto de cunho
golpista — a chamada "minuta do golpe".
Gonet
citou ainda na denúncia movimentos para tentar atrapalhar o andamento da
eleição, citando os bloqueios da Polícia Rodoviária Federal (PRF) no dia da
eleição em 2022, em especial em regiões com eleitores favoráveis ao adversário
Lula.
A PGR
destacou ainda os ataques de 8 de janeiro de 2023 como o ato final da tentativa
golpista.
Ao fim
do julgamento, o STF considerou haver provas suficientes das acusações da PGR e
condenou os réus.
Fonte:
BBC News Brasil

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