Após
Câmara aprovar o projeto 'antifacção', o que irá ocorrer?
Após
muito desentendimento entre governo e oposição, a Câmara dos Deputados aprovou
nesta terça-feira (18/11) o PL Antifacção, um projeto de lei que endurece o
combate a organizações criminosas.
Foram
370 votos a favor e 110 contra. Agora, a proposta segue para análise do Senado.
O
presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), escolheu o senador
Alessandro Vieira (MDB-SE) para relatar a proposta, visto como moderado.
Alcolumbre
rejeitou entregar a relatoria para um bolsonarista, como ocorreu na Câmara —
algo que irritou o Palácio do Planalto.
O texto
aprovado na Câmara cria novos crimes, amplia poderes de investigação e prevê
penas de 20 a 40 anos para crimes cometidos por facções classificadas como
"ultraviolentas".
Além
disso, determina que líderes de facções cumpram obrigatoriamente suas penas em
presídios federais de segurança máxima e amplia a possibilidade de intervenção
judicial em empresas utilizadas por facções criminosas.
Já a
tentativa de parlamentares bolsonaristas de equiparar facções criminosas com
grupos terroristas foi retirada do PL, após críticas do governo e de
especialistas em segurança pública.
O PL
foi enviado ao Congresso pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no
final de outubro.
A
proposta já vinha sendo elaborada pelo Ministério da Justiça, mas seu envio foi
acelerado após a operação policial contra o Comando Vermelho, no Rio de
Janeiro, que deixou 121 mortos.
Depois,
o texto passou por diversas alterações realizadas pelo relator, o deputado
Guilherme Derrite (PP-SP), que se licenciou do cargo de secretário de Segurança
Pública de São Paulo para relatar o processo.
O texto
aprovado nesta terça foi a sexta versão do projeto.
A
escolha do relator pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), foi
considerada uma traição pelo Palácio do Planalto, já que Derrite integra o
governo de Tarcísio de Freitas, de oposição a Lula.
"O
enfrentamento do crime organizado no Brasil exige legislação de guerra em
tempos de paz – normas que asfixiem financeiramente as organizações criminosas,
silenciem os líderes, alcancem o patrimônio ilícito, desestimulem o ingresso de
membros e restabeleçam o monopólio estatal da força", defendeu Derrite, em
discurso antes da votação.
O texto
aprovado, porém, passou por muitas alterações devido a críticas ao trabalho do
relator.
As
versões apresentadas por Derrite geraram forte reação do Planalto e de
especialistas em segurança pública e, por isso, parte de suas propostas foi
abandonada, desagradando à bancada bolsonarista na Câmara.
Uma das
principais bandeiras do secretário de Tarcísio era equiparar as facções
criminosas a grupos terroristas, mas ele acabou recuando.
Defensores
da medida dizem que isso daria mais ferramentas ao poder público para lidar com
as facções.
Já
críticos dizem que não é correto, tecnicamente, fazer essa equiparação, uma vez
que as facções que atuam no Brasil teriam foco em ganhos econômicos, enquanto
terroristas agiriam por motivação ideológica.
Além
disso, especialistas alertaram para o risco de impactos negativos na economia
brasileira, já que poderia haver sanções internacionais contra a suposta
atuação de grupos terroristas aqui, em especial por parte dos Estados Unidos.
Segundo
Roberto Uchôa, ex-policial e pesquisador do Centro de Estudos Sociais da
Universidade de Coimbra, o crime organizado está profundamente infiltrado na
economia brasileira, atuando em diversos setores.
Por
isso, empresas e indivíduos de todos esses setores estariam teoricamente
expostos a sanções internacionais que visem combater o terrorismo, caso
houvesse indício de alguma conexão com o crime organizado.
O
ex-policial deu como exemplo um fundo de investimento que seja eventualmente
apontado, em investigações brasileiras, como possivelmente conectado a uma
organização criminosa.
Esse
tipo de conexão entre o mercado financeiro e o crime foi alvo de uma operação
em agosto contra a facção Primeiro Comando da Capital (PCC).
"Você
imagina que essa empresa que tem um fundo de investimento ligado ao PCC seria a
primeira a ser sancionada [internacionalmente]. Começa-se sancionando ela, e
depois pode se ir sancionando outras tantas empresas que tiveram de alguma
forma ligações com esse fundo de investimento. A escala disso, nós não sabemos
onde pode parar", exemplificou Uchôa em reportagem publicada pela BBC News
Brasil no início de novembro.
Um dos
principais defensores da equiparação de facções a grupos terroristas, o
deputado federal Danilo Forte (União Brasil-CE) refuta que isso ameaçaria a
soberania brasileira.
"A
soberania nacional é garantida, inclusive pelas convenções internacionais, e
ninguém vai entrar no Brasil se não tiver a permissão do governo brasileiro pra
fazer um tipo de enfrentamento aqui dentro", disse, ao discursar antes da
votação do PL.
"Nós
não somos um país de quinta categoria. Nós somos uma das maiores nações do
mundo. O que a gente precisa resgatar é a soberania do nosso povo, que está
sendo humilhado, que está sendo roubado, que está sendo ultrajado e oprimido
pelo crime organizado", continuou.
Por
outro lado, Derrite e outros parlamentares bolsonaristas criticaram a versão
enviada pelo governo, dizendo que ela seria branda com o crime organizado.
A
versão alterada e aprovada na Câmara endureceu mais as penas previstas para
facções.
"O
projeto [do governo] que ora se analisa traz um aumento extremamente tênue de
penas, silencia completamente sobre recrudescimento de progressão de regime,
sobre corte de benefícios aos apenados, sobre medidas de captação dos bens e
valores utilizados pelo crime organizado ultraviolento, sobre meios de
perdimento de bens na esfera cível, dentre outros. Em suma, não resolve o
problema efetivamente", destacou Derrite em seu relatório sobre o PL.
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Impacto sobre a Polícia Federal
Outro
ponto que gerou polêmica foi a tentativa de Derrite de criar novas regras para
a atuação da Polícia Federal (PF).
Uma das
versões do PL apresentadas por ele previa que "a investigação criminal
caberá às Polícias Civis e a competência para processamento e julgamento será
da Justiça Estadual", enquanto a atuação federal dependeria de autorização
do governador.
Críticos
dessa versão viram uma tentativa de limitar a atuação da PF.
"Eu
estou convencido de que teve gente que quis se aproveitar do projeto para
combater a facção criminosa pra criar uma blindagem, pra enfraquecer a Polícia
Federal, pra proteger os criminosos do andar de cima", disse o líder do PT
na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (RJ), ao discursar da tribuna.
"De
onde vem tanto medo? Por que esse pânico com a operação Carbono Oculto?",
continuou, citando a operação contra o PCC realizada em agosto.
Na
ocasião, a própria PF manifestou preocupação, afirmando que a exigência da
autorização do governador poderia restringir o alcance das operações.
O
relator recuou desse trecho, mas manteve mudanças no seu financiamento que
foram criticadas pela instituição.
A
versão final aprovada prevê uma redistribuição de recursos provenientes de bens
apreendidos em operações entre a PF e fundos estaduais.
O
diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, criticou a mudança, ao
participar de uma audiência na CPI do Crime Organizado, no Senado, horas antes
da votação na Câmara.
Segundo
ele, a última versão do relatório de Derrite retirou recursos de três fundos
que financiam o combate ao crime: o Fundo para Aparelhamento e
Operacionalização das Atividades-Fim da Polícia Federal (Funapol), o Fundo
Nacional de Segurança Pública (FNSP) e o Fundo Nacional Antidrogas (Funad).
"Tenho
certeza de que o Parlamento vai se debruçar sobe isso e encontrar uma solução.
Estamos falando de descapitalizar o crime organizado. Não podemos fazer uma
proposta que descapitalize a Polícia Federal. Isso traria um prejuízo, uma
redução de recursos quando a gente busca o contrário: a ampliação do orçamento
da Polícia Federal" disse Andrei Rodrigues.
• 'Críticas ao PL Antifacção de Derrite
não são falsas narrativas', diz líder do PT na Câmara
O líder
do PT na Câmara dos Deputados, Lindbergh Farias (RJ), usou sua conta no X
(antigo Twitter) para denunciar que o parecer apresentado pelo deputado
Guilherme Derrite (PP-SP) sobre o PL Antifacção , aprovado na Câmara dos
Deputados, representa uma “aberração jurídica” e fragiliza tanto a Polícia
Federal quanto a Receita Federal. O parlamentar também rebateu as críticas da
oposição e do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), de que “o governo optou pelo caminho errado” e cria
“falsas narrativas” acerca do projeto.
“Não
são ‘falsas narrativas’ as críticas à aberração jurídica em seis versões
apresentadas no relatório do Derrite aprovado ontem na Câmara. Contra fatos não
há argumentos! O relatório asfixia financeiramente a Polícia Federal e
fragiliza as operações da Receita Federal”, postou Lindbergh.
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Lindbergh afirma que relatório tenta paralisar investigações
Na
publicação, o deputado defende que o texto aprovado surge justamente quando a
Polícia Federal vive “a sua melhor atuação no combate ao crime organizado”,
citando a prisão do banqueiro Daniel Vorcaro e ações recentes contra o PCC,
como as operações Carbono Oculto e Compliance Zero. Para ele, “apresenta-se um
texto com o objetivo de tentar paralisar as investigações”.
Lindbergh
classificou todo o processo como uma “lambança legislativa”, criticando a
escolha de Derrite – ex-secretário de Segurança Pública do governo de Tarcísio
de Freitas – como relator. Segundo o petista, o substitutivo apresentado
“repleto de erros técnicos, inconstitucionalidades e dispositivos que
fragilizavam justamente quem combate o crime organizado” retirou a identidade
do PL antifacção originalmente proposto pelo governo Lula.
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Críticas à tentativa de subordinar a PF a governadores
Entre
os pontos mais graves apontados pelo parlamentar está a proposta inicial de
subordinar ações da Polícia Federal à aprovação dos governadores. De acordo com
ele, esse movimento configuraria “uma lógica de blindagem que invertia o pacto
federativo”, algo que descreveu como um retorno à “política da República
Velha”. “Não é narrativa, é fato documentado na primeira versão do texto!”,
destacou. Lindbergh observou ainda que houve recuo após forte reação da
sociedade civil, mas defendeu que o simples fato de a proposta ter sido
apresentada já evidencia o caráter político-partidário do relatório.
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Cortes de recursos e riscos de caos jurídico
O líder
do PT também denunciou que o texto aprovado reduz significativamente recursos
de fundos essenciais à atuação federal, como Funad, Funapol, FNSP e Funpen,
resultando em quase meio bilhão de reais a menos por ano para segurança
pública.
Ele
criticou a falta de adoção adequada do perdimento extraordinário de bens —
instrumento central para descapitalizar facções — e afirmou que o relatório
criou “tipos autônomos inconstitucionais”, o que poderia gerar “caos jurídico”
e favorecer nulidades processuais.
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Governo rebate desinformação e disputa narrativa se intensifica
Ao
concluir sua publicação, Lindbergh afirmou que, se há desinformação, ela não
parte do governo, mas “de quem tenta vender um texto improvisado, rejeitado por
especialistas e que funciona no sentido de blindar o crime organizado”.
O
debate ganhou nova dimensão após manifestações públicas de outras autoridades.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, defendeu o texto aprovado e disse que “não
se pode desinformar a população com inverdades”. Já o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT) afirmou que a redação aprovada “favorece quem quer escapar
da lei”. O texto do PL Antifacção ainda será votado pelo Senado.
Fonte:
BBC News Brasil/Brasil 247

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