A
pequena ilha do Caribe prestes a fazer história na Copa do Mundo de futebol
Os
jogadores da bela e minúscula ilha caribenha de Curaçao estão a 90 minutos de
fazer história na Copa do Mundo.
Basta
um empate com a Jamaica, na terça-feira (18/11) às 22 horas (Brasília), para
que a seleção de Curaçao se classifique para a Copa pela primeira vez.
O
técnico da seleção da ilha, o holandês Dick Advocaat, tem 78 anos de idade. Ele
já dirigiu, entre outras, a seleção da Holanda.
Advocaat
chegou no final de semana à capital jamaicana, Kingston, mas precisou voltar
quase imediatamente por "razões familiares", segundo a federação de
futebol de Curaçao.
"É
uma decisão muito difícil precisar deixar os meninos aqui", afirmou
Advocaat, em declaração por escrito. "Precisei tomar esta decisão com dor
no coração, mas a família é mais importante que o futebol."
"Da
Holanda, ficarei em contato próximo com a equipe e tenho total confiança neste
grupo de jogadores."
"É
uma má notícia para nós, mas entendemos que a família é sempre
prioridade", declarou à TV pública holandesa NOS o goleiro Eloy Room, um
dos 22 jogadores nascidos na Holanda que jogam pela seleção de Curaçao.
"O
técnico não precisa se preocupar, daremos tudo contra a Jamaica."
Se
conseguir a classificação, Curaçao se tornará o menor país a disputar uma Copa
do Mundo.
O
recorde atual é da Islândia, que disputou em 2018, na Rússia. Mas Curaçao é
muito menor.
A ilha
tem pouco mais de 150 mil habitantes — uma população equivalente, por exemplo,
às cidades de Rio das Ostras (RJ) ou Santana de Parnaíba, vizinha à capital
paulista — que moram em uma área do tamanho de Curitiba (PR).
"É
uma loucura e seria um dos maiores feitos da história de Curaçao", segundo
o meio-campista Juninho Bacuna — que nasceu em Groningen, na Holanda, e já
jogou nos clubes britânicos Huddersfield Town, Birmingham e Glasgow Rangers.
Em
entrevista à BBC Rádio 5 Live, ele destacou que "é maravilhoso e
inacreditável. Ainda poucos anos atrás, você nem imaginaria isso, mas agora
estamos muito próximos".
"Certamente,
queremos dar o melhor para nos classificarmos para a Copa do Mundo. Seria
incrível fazer este sonho se tornar realidade."
Curaçao
fica a 60 km do litoral da Venezuela. O país só passou a existir como parte do
Reino dos Países Baixos em 2010, após a dissolução das Antilhas Holandesas.
Dez
anos atrás, Curaçao estava em 150° lugar no ranking mundial da Fifa. Agora, é o
82°.
O
formato ampliado da Copa do Mundo de 2026, com 48 nações em vez de 32, e a
classificação automática dos três países anfitriões (Canadá, México e Estados
Unidos) ofereceram a Curaçao uma possibilidade muito maior de classificação.
Em nove
partidas pelas eliminatórias, a seleção de Curaçao venceu sete. A vitória
contra a Jamaica em casa por 2 x 0 em outubro, um empate por 1 x 1 com Trinidad
e Tobago e uma goleada de 7 x 0 sobre Bermuda, na sexta-feira passada (14/11),
deixaram a ilha no primeiro lugar do grupo, faltando uma rodada para o final.
No
último jogo, Curaçao joga fora de casa contra a Jamaica, que está um ponto
atrás e só se classificará com a vitória.
Advocaat
em busca da vaga aos 78 anos
O homem
que levou Curaçao à beira da Copa do Mundo é um dos técnicos mais experientes
do planeta.
Desde
janeiro de 2024, o holandês Advocaat dirige pela oitava vez uma seleção
nacional, após três passagens como técnico da Holanda, além dos Emirados Árabes
Unidos, Coreia do Sul, Bélgica, Rússia, Sérvia e Iraque.
Ele
ajudou a Holanda a chegar às quartas de final da Copa de 1994, nos Estados
Unidos. Já a seleção sul-coreana dirigida por ele foi desclassificada na fase
de grupos em 2006, na Alemanha.
Advocaat
também foi técnico de diversos clubes europeus, incluindo os holandeses
Feyenoord e PSV Eindhoven, o Glasgow Rangers, da Escócia, o Zenit São
Petersburgo, da Rússia, e o Sunderland, da Inglaterra.
Ele só
passou a ser o técnico de Curaçao após a resolução de uma disputa sobre
pagamentos entre os jogadores e a associação de futebol do país. E,
imediatamente, ele começou a preparação rumo à Copa do Mundo de 2026.
Se
Curaçao se classificar e ele continuar como técnico, Advocaat passará a ser o
técnico mais idoso a atuar em uma Copa do Mundo masculina, superando o recorde
do alemão Otto Rehhagel, que dirigiu a Grécia aos 71 anos de idade em 2010, na
África do Sul.
"Todos
sabem que Dick Advocaat é um grande nome", destaca Bacuna. "É um
grande técnico e todos respeitam suas decisões e a forma como ele
trabalha."
"Sua
presença é muito importante para nós como equipe e também para o país. Ele tem
sido realmente uma grande influência."
"Começamos
a trabalhar com ele na classificação para a Liga das Nações e observamos o
crescimento da equipe, na forma em que trabalhamos e disputamos os jogos",
segundo o jogador.
Mas
Advocaat não estará presente no próximo jogo, já que ele deixou a concentração
por "circunstâncias particulares" no sábado (15/11).
Na
ausência do titular, a equipe de Curaçao deve ser dirigida pelos técnicos
assistentes Dean Gorre e Cor Pot. Advocaat permanecerá em comunicação com seus
assistentes sobre a preparação tática da equipe.
Talento
holandês e passagens pelo Reino Unido
Além do
técnico holandês, a maioria dos jogadores da seleção de Curaçao nasceu na
Holanda. Mas seus laços familiares permitiram que eles jogassem no time de
Advocaat.
A
equipe conta com um lateral do time escocês Livingston, Joshua Brenet, e vários
jogadores de times ingleses. Eles incluem o meio-campista do Rotherham Ar'jany
Martha, o atacante do Middlesbrough Sontje Hansen e o meio-campista do
Sheffield United Tahith Chong, que nasceu em Curaçao e já jogou na Premier
League, pelo Manchester United.
Para
Bacuna, a seleção de Curaçao também ofereceu a chance de jogar partidas
internacionais com seu irmão mais velho, Leandro, o capitão da equipe. Este foi
um importante incentivo para ele, depois de ter jogado pela seleção holandesa
sub-21.
"Comecei
a jogar por Curaçao em 2019 e foi uma grande decisão para mim", afirma
Juninho Bacuna. "Na época, eu tinha apenas 21 anos e muito tempo pela
frente, para jogar pela seleção nacional holandesa."
"Mas
tomei logo a decisão de jogar por Curaçao. Um dos motivos foi que posso jogar
no mesmo time do meu irmão e a família pode nos ver jogar juntos."
"A
outra razão foi que, realisticamente falando, eu não tive chance de jogar pela
seleção nacional holandesa na época", ele conta.
"Vi
muitos jogadores da minha idade jogarem pela seleção nacional da Holanda, mas
eu não tive a chance de ser convocado. Por isso, decidi rapidamente jogar por
Curaçao."
Bacuna
sente que o recente progresso futebolístico da ilha pode inspirar outros
jogadores nascidos na Holanda a representar a equipe conhecida como A Família
Azul.
"Estamos
observando mais jogadores ainda jovens, capazes de jogar pela Holanda, vindo
jogar por Curaçao — fortalecendo ainda mais a equipe", destaca Bacuna.
A
Jamaica, no caminho de Curaçao
Curaçao
joga pelo empate, mas a Jamaica do ex-técnico da Inglaterra, Steve McClaren, é
a favorita para conseguir a vitória em casa, liderar o grupo e se classificar
para a Copa do Mundo pela segunda vez (a Jamaica participou da Copa de 1998, na
França, dirigida pelo técnico brasileiro René Simões).
"O
futebol talvez seja o esporte mais popular da Jamaica", segundo a
jornalista esportiva jamaicana Karen Madden. "Mas esta é uma época muito
difícil para o país, pois estamos lutando contra a devastação causada pelo
furacão Melissa".
"O
que estamos vendo é uma força mobilizadora e tivemos imensa ajuda dos nossos
parceiros internacionais e de muitos países que vieram ao nosso resgate, além
de indivíduos que estão reunindo os jamaicanos e oferecendo apoio."
"Quando
conversamos com o técnico Steve McClaren, ele disse que os jogadores estão sob
certa pressão", conta Madden. "A classificação para a Copa do Mundo
seria de extraordinária importância e, realmente, levantaria o nosso
ânimo."
Quem
perder entre Curaçao e a Jamaica ainda terá uma segunda chance de se
classificar para a Copa do Mundo. O perdedor deverá enfrentar a repescagem
intercontinental em março, que classificará apenas duas das seis nações
participantes.
Madden
sentiu que os jogadores jamaicanos estão ansiosos para uma revanche contra
Curaçao, depois da derrota sofrida em outubro passado.
"Eu
me lembro de assistir à partida pela televisão e o estádio estava repleto de
torcedores de Curaçao", ela conta. "A Jamaica e a comunidade
jamaicana de futebol ficaram surpresos e abalados pela derrota por 2 x 0."
"Agora,
com os papéis invertidos e Curaçao vindo jogar na Jamaica, no estádio nacional,
a sensação é que a vitória será da Jamaica e ninguém imagina que possa
acontecer o contrário", conclui Madden.
Fonte:
BBC Sport

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