terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

Smartwatches são bons para sua saúde e coletam dados confiáveis? O que dizem especialistas

Os smartwatches, ou relógios inteligentes, estão se tornando cada vez mais populares, com muitas pessoas contando com eles para monitorar tudo, desde a pressão arterial e os níveis de oxigênio até a atividade física e os padrões de sono.

A promessa é atraente: um dispositivo que pode ser usado junto ao corpo para ajudar a viver uma vida melhor, ou pelo menos mais saudável.

·        Mas será que eles funcionam e são precisos?

Vamos começar com a medição pela qual eles são talvez mais famosos: a contagem de passos.

"É o que a maioria das pessoas associa a rastreadores de condicionamento físico e smartwatches", diz Cailbhe Doherty, da University College Dublin, na Irlanda.

Doherty testa relógios inteligentes com sua equipe na Faculdade de Saúde Pública, Fisioterapia e Ciências do Esporte.

"A contagem de passos é feita usando um acelerômetro, que geralmente é baseado no movimento do pulso."

Para medir a pressão arterial, "ele emite uma luz, geralmente verde, através da pele até os vasos sanguíneos abaixo".

"O que o relógio inteligente faz é medir a quantidade de luz que é refletida."

Isso depende do volume de sangue nos vasos sanguíneos, que aumenta e diminui à medida que o coração bombeia sangue por todo o corpo: mais sangue significa menos luz.

"Essa tecnologia é chamada de fotopletismografia ou PPG e é usada para uma variedade de resultados biométricos diferentes em smartwatches."

Para medir a saturação de oxigênio no sangue, "a luz, em vez de ser verde, é infravermelha e vermelha. Se a hemoglobina estiver ligada a uma molécula de oxigênio, ela absorve mais luz infravermelha e menos luz vermelha."

Outro dado que muitos relógios inteligentes oferecem é o valor do VO2 máximo.

Ele informa o volume máximo de oxigênio que seu corpo pode absorver, transportar e consumir em um determinado período.

Esse é um ótimo indicador de saúde.

Quanto maior for seu VO2 máximo, menor será a probabilidade de você ter um derrame ou ataque cardíaco.

"É por isso que é tão crucial avaliar se os smartwatches são precisos", disse Rory Lambe, um dos alunos de doutorado que trabalha com Doherty, à BBC.

"O padrão de ouro para VO2 máximo é medido em laboratório, mas o smartwatch usa frequência cardíaca, GPS e também algum aprendizado de máquina para prever ou estimar seu VO2 máximo", explica Lambe.

A confiabilidade dos relógios nesse sentido é "uma das principais questões que estamos investigando".

·        Às vezes sim, às vezes não

Em relação ao VO2 máximo, uma extensa pesquisa conduzida pela equipe liderada por Doherty "indica que há entre 5% e 13% de erro, o que na verdade é bem grande", revela Lambe.

Quão confiáveis ​​os smartwatches são em outras áreas?

"Quando se trata de coisas como frequência cardíaca ou GPS, a precisão pode ser muito boa."

Mas se for sobre o sono, os smartwatches não são tão bons, dizem os especialistas.

"Isso provavelmente ocorre devido ao número de sinais individuais que você precisa levar em conta para rastrear o sono", afirma Doherty.

"Quaisquer erros na sua frequência cardíaca, na sua frequência respiratória, na quantidade de movimentos que você faz... tudo isso se soma. Além disso, a separação entre o sinal original, que é 'sonho', e o final, quando ele fornece a pontuação final do seu sonho, é muito maior."

Os smartwatches são bons em medir o gasto energético — ou seja, a quantidade de calorias que você queima?

"As evidências sugerem que não", responde Doherty. "Isso provavelmente ocorre porque a maneira como a maioria dos smartwatches estima calorias é usando apenas acelerometria e fotometria."

"Ou seja, eles medem a frequência cardíaca e alguma variação na atividade física por meio do movimento. Isso é muito diferente de medir o gás que alguém inspira e expira, que é o necessário para medir calorias."

Doherty diz: "Essencialmente, o sinal usado pelos relógios está tão distante do ritmo biométrico original que um alto grau de erro pode ser introduzido."

E quando ele diz "alto grau de erro" ele não está exagerando.

"Nossa recente revisão sistemática identificou que o erro pode estar entre 30% e 150%."

Isso significa que seu smartwatch pode dizer que você queimou mil calorias quando, na verdade, queimou pouco mais de 300.

·        Precisão

Às vezes os smartwatches são precisos.

Eles são ótimos para medir algo diretamente, como frequência cardíaca ou contagem de passos.

No entanto, nem todos os dados fornecidos são medidos diretamente.

Como não conseguem medir calorias da maneira prescrita, por exemplo, eles fazem outras medições e as usam para calcular estimativas.

Esse cálculo depende de diferentes suposições feitas pelo algoritmo do aparelho, que podem estar certas ou totalmente imprecisas.

Mas o quanto a precisão desses dispositivos importa quando se trata de melhorar nossas vidas e saúde?

"Observando a contagem de passos, as pessoas estavam dando cerca de 1.800 passos a mais por dia, ou caminhando cerca de 40 minutos por dia. As pessoas estavam fazendo cerca de 6 minutos por dia de atividade física moderada a vigorosa."

Motivação, diz Ferguson, é algo que vem de fora.

"Geralmente somos péssimos juízes de nossos próprios níveis de atividade, e obter esses números abre nossos olhos para a realidade.

"Mesmo que você esteja fazendo muito pouco, o monitoramento lhe dará uma base para trabalhar."

A pesquisa deles mostra que os rastreadores tornam as pessoas mais ativas. Mas importa se eles não são tão precisos?

Ferguson conduziu recentemente um estudo analisando por que algumas pessoas desistiram de seus smartwatches.

"Havia uma mistura de usuários atuais e antigos. A confiança é importante com esses dispositivos. Uma reclamação comum entre aqueles que pararam de usá-los era que não estavam recebendo informações precisas", afirma.

A precisão é importante porque, se você não confiar no seu smartwatch, é mais provável que pare de usá-lo.

Mas estamos falando de tecnologia aqui, então certamente a precisão dos smartwatches pode ser melhorada... certo?

"Há dois componentes: a tecnologia de detecção subjacente e os algoritmos que dependem dela para extrair um determinado sinal", diz Doherty.

"É improvável que as tecnologias de detecção subjacentes mudem muito no futuro próximo."

"No entanto, os algoritmos provavelmente melhorarão porque, à medida que mais e mais pessoas começarem a usar esses dispositivos, os conjuntos de dados que a Apple, o Google e todas as outras grandes empresas têm ficarão cada vez maiores, e os algoritmos se tornarão mais refinados e, portanto, mais precisos", disse ele.

Em 2024, cerca de 225 milhões de pessoas usaram smartwatches no mundo todo, de acordo com a Statista.

¨      Vale a pena ter smartwatches e anéis inteligentes para monitorar dados de saúde?

tecnologia dos relógios e anéis inteligentes é uma indústria multibilionária com foco acentuado no monitoramento da saúde.

Muitos produtos prometem monitorar com precisão rotinas de exercícios, temperatura corporal, frequência cardíaca, ciclo menstrual e padrões de sono, entre outros.

O secretário de Saúde britânico, Wes Streeting, falou sobre uma proposta para dar esses monitores a milhões de pacientes do serviço público de saúde (NHS) na Inglaterra, permitindo que eles monitorem, de casa, sintomas como reações a tratamentos de câncer.

Mas muitos médicos e especialistas em tecnologia são cautelosos sobre o uso de dados de saúde capturados por essas tecnologias.

No momento, estou testando um anel inteligente da empresa Ultrahuman. E, ao que parece, ele soube que eu estava ficando doente antes de mim.

O anel me alertou em um fim de semana que minha temperatura estava ligeiramente elevada e meu sono estava agitado. Ele me avisou que isso poderia ser um sinal de que eu estava ficando doente.

Eu resmunguei algo sobre os sintomas da perimenopausa e ignorei. Mas dois dias depois eu estava de cama com virose.

Eu não precisava de assistência médica, mas se eu tivesse precisado, os dados do meu anel inteligente teriam ajudado os profissionais de saúde com meu tratamento? Muitas fabricantes dizem que sim.

O anel inteligente Oura, por exemplo, oferece um serviço onde os pacientes podem baixar seus dados na forma de um relatório para compartilhar com seu médico.

¨      'Monitoramento excessivo'

Jake Deutsch, um clínico dos EUA que também aconselha a Oura, diz que esses aparelhos "avaliam a saúde geral com mais precisão". Mas nem todos os médicos concordam que eles são genuinamente úteis o tempo todo.

Helen Salisbury, médica de uma clínica movimentada em Oxford, diz que ainda são poucos os pacientes que chegam com um dispositivo desses, mas ela percebeu que isso aumentou, e isso a preocupa.

"Acho que, para o número de vezes em que é útil, provavelmente há mais vezes em que é inútil, e me preocupa que estejamos construindo uma sociedade de hipocondria e monitoramento excessivo de nossos corpos", diz ela.

Salisbury diz que pode haver muitas razões pelas quais podemos obter dados temporariamente anormais, como um aumento da frequência cardíaca, seja por um problema em nossos corpos ou um mau funcionamento do dispositivo — e muitos deles não exigem investigação adicional.

"Estou preocupada porque estamos encorajando as pessoas a monitorar tudo o tempo todo e consultar o médico sempre que a máquina achar que estão doentes."

E ela faz outro comentário sobre o uso desses dados como "diagnóstico confiável" — um tumor cancerígeno, por exemplo, não será necessariamente sinalizado por um relógio ou um aplicativo, ela diz.

O que esses aparelhos fazem é incentivar bons hábitos. Mas a melhor mensagem que você pode tirar deles é o mesmo conselho que os médicos nos dão há anos.

"O que você pode realmente fazer é caminhar mais, não beber muito álcool, tentar manter um peso saudável. Isso nunca muda", acrescenta Salisbury

O Apple Watch é considerado o relógio inteligente mais vendido do mundo, embora as vendas tenham diminuído ultimamente.

A Apple não comenta, mas a gigante da tecnologia usa em seu marketing histórias reais de pessoas cujas vidas foram salvas pela função de monitoramento cardíaco do dispositivo, e, como anedota, eu também ouvi muitas delas. O que eu não ouvi, no entanto, é quantos casos de falsos positivos existem.

Em muitos casos, quando os pacientes apresentam seus dados aos profissionais de saúde, os médicos preferem tentar recriá-los usando seus próprios equipamentos, em vez de simplesmente confiar no que o aparelho capturou.

Há várias razões para isso, diz Yang Wei, professor associado em tecnologias na Nottingham Trent University. E todas são muito práticas.

"Quando você vai ao hospital e mede seu ECG [eletrocardiograma, um teste que verifica a atividade do seu coração], você não se preocupa com o consumo de energia porque a máquina está conectada à parede", diz ele.

"No seu relógio, você não vai medir seu ECG continuamente porque isso drenaria sua bateria."

Além disso, o movimento — tanto do aparelho em si no pulso, por exemplo, quanto o movimento geral da pessoa que o usa — pode "criar ruído" nos dados que ele coleta, ele acrescenta, tornando-o menos confiável.

Wei aponta para o anel no meu dedo.

"O 'padrão ouro' para medir a frequência cardíaca é do pulso ou diretamente do coração", ele diz. "Se você medir a partir do dedo, estará sacrificando a precisão."

É papel do software preencher essas lacunas de dados, ele diz. Mas não há um padrão internacional para esses aparelhos, nem para os sensores e software que alimentam esses dispositivos, nem para os dados em si, e até mesmo para o formato em que são coletados.

Quanto mais consistentemente um dispositivo for usado, mais precisos seus dados provavelmente serão.

Pritesh Mistry, pesquisador de tecnologias digitais no Kings Fund, concorda que há desafios significativos em torno da inclusão de dados atuais gerados por pacientes em nossos sistemas de saúde e acrescenta que a discussão já está acontecendo há vários anos no Reino Unido sem nenhuma resolução clara.

Ele diz que pode ser positiva a iniciativa do governo do Reino Unido de empurrar o atendimento para fora dos hospitais e para ambientes comunitários por meio desses aparelhos inteligentes.

"Mas sem essa base de sustentação da capacitação tecnológica em termos de infraestrutura e suporte à força de trabalho para ter as habilidades, conhecimento, capacidade e confiança, acho que será um desafio", acrescenta.

Fonte: BBC World Service

 

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