quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Heleno Araújo: Educação de qualidade se faz com trabalho decente

Retomando nossa avaliação sobre as Recomendações inscritas no Documento da ONU que trata sobre os desafios globais para lidar com o fenômeno mundial do chamado apagão docente, o artigo dessa semana vai tratar sobre a importância do trabalho decente nas profissões da educação. Aqui, especialmente, trataremos das dimensões do trabalho decente no magistério, sem nunca esquecer a importância que todos devemos dar àquelas profissões chamadas de profissão de apoio: os profissionais da educação que, também educadores, devem ter sempre o seu exercício profissional valorizado.

Trabalho decente é um conceito introduzido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e se refere a empregos que são seguros, justos, dignos e oferecem condições adequadas de trabalho. Na educação, sabemos bem o que isso significa e do porquê isso ser e representar uma bandeira histórica dos trabalhadores em educação: a valorização profissional, agenda e pauta de luta do movimento sindical de educadores, representa para nós, da CNTE, carreira, formação e salário dignos. Ainda hoje essa é uma pauta central de nossas lutas e mobilizações. Esse é o nosso trabalho decente.

Em muitos lugares aqui no Brasil ainda sequer conseguimos que as gestões municipais honrem com o cumprimento de uma lei federal, como é a que indica o pagamento de um piso salarial nacional para os trabalhadores do magistério no Brasil. Todo ano é uma luta para conseguirmos isso, que é o mínimo. E ainda acontece de muitos municípios pagarem o piso, mas desvinculando-o da carreira, sem fazer a necessária repercussão em todos os steps da progressão de sua estrutura. Formação inicial e continuada adequadas, então, é outro enorme desafio pelo qual nossos profissionais do magistério ainda têm de superar.

O documento da ONU fala sobre a necessidade de termos empregos seguros aos profissionais do magistério, garantindo que aos sindicatos que representam os trabalhadores da educação sejam asseguradas as condições para empreender as ações e negociações coletivas. O desafio no Brasil para essa Recomendação da ONU é que ainda não tivemos a regulamentação da negociação coletiva no serviço público, demanda antiga do movimento sindical brasileiro. Desde a ratificação pelo Brasil da Convenção nº 151 da OIT, feita em 2010, ainda no primeiro governo do Presidente Lula, está pendente pelo Congresso Nacional uma lei ordinária para regulamentar o indicado naquela Convenção Internacional, que trata justamente da regulamentação da negociação coletiva para os trabalhadores do serviço público de nosso país.

Outra Recomendação desse Documento da ONU é o pagamento de salários dignos aos profissionais do magistério, equiparando a remuneração paga a homens e mulheres. Como no Brasil o ingresso nas carreiras do magistério é realizado via a realização de concursos públicos, essa demanda no Brasil, de equiparação salarial entre homens e mulheres, é desafio superado. A grande questão continua sendo o cumprimento efetivo, por parte das redes de ensino estaduais e municipais, do pagamento do valor do piso salarial nacional estipulado pela Lei 11.738/2008. E pago de modo a repercutir em toda carreira. Até hoje, por exemplo, no final desse mês de fevereiro de 2025, ainda temos municípios que não pagaram o percentual do valor do reajuste do piso indicado na Lei.

Uma outra Recomendação inscrita nesse eixo do Documento da ONU se refere às condições de trabalho: elas devem garantir estabilidade, assegurar segurança ao trabalhador e serem, sobretudo, ambientes saudáveis para se trabalhar. O Documento diz ser fundamental equilibrar as cargas de trabalho, de modo que o trabalhador do magistério tenha tempo livre para estudos e preparação das suas aulas. No Brasil, a Lei do Piso estabelece que os professores devem dedicar dois terços de sua carga horária para interação com os estudantes e, o outro terço, para atividades como planejamento de aulas e formação continuada. Um grande avanço dessa importante legislação, conquistada também no primeiro mandato do Presidente Lula, em 2008. Na mesma direção, o Documento aponta para a necessidade de se estabelecer uma quantidade razoável de estudantes por turma, de modo a não sobrecarregar o trabalhador em sala de aula e garantir qualidade no processo de ensino-aprendizagem. Por fim, uma carreira que garanta a conciliação entre a vida familiar e laboral do trabalhador é outro importante apontamento do Documento.

O Documento da ONU aponta também para a necessidade de se garantir e promover a saúde mental dos docentes. Essa é uma questão das mais importantes, já que vivemos no Brasil uma verdadeira epidemia de adoecimento mental de nossa categoria. Trata-se de uma das maiores doenças de trabalho que acomete os professores e as professoras do nosso país. Por fim, e não menos importante, o Documento da ONU indica fortalecer as carreiras de apoio educacional, de modo que os docentes tenham mais tempo para a própria atividade de ensinar, de fazer a educação no chão da escola, que é a nossa sala de aula. Esse talvez seja um dos poucos pontos nesse Documento, que trata sobre os desafios para superar a falta de professores no mundo, que trata sobre os profissionais da educação que não os do magistério.

Como vimos, tratam-se de recomendações vitais para fomentar a humanidade da atividade de ensinar através da construção de condições reais de trabalho decente. Isso, como bem sabemos, exige de todos nós uma postura de vigilância permanente e também de organização dos nossos sindicatos. A luta é grande porque os desafios são maiores ainda. Que não nos distraiamos dessa nossa importante tarefa.

 

¨         Escola sem telas: retrocesso ou necessidade? Por Gisele de Medeiros Pissurno

Sancionada pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva, a lei nº 15.100/2025 tem suscitado acalorados debates no cenário educacional brasileiro. A legislação proíbe o uso de dispositivos eletrônicos portáteis pessoais no ambiente escolar, estendendo a restrição para além do período em sala de aula, incluindo recreios e intervalos. É sabido que a medida, embora polêmica, faz parte da compreensão de um arcabouço de evidências científicas que demonstram os impactos deletérios do uso imoderado de telas no desenvolvimento cognitivo e socioemocional de crianças e adolescentes. A exemplo, uma revisão sistemática de artigos científicos publicada pela conceituada revista JAMA Pediatrics, em 2023, demonstrou que esse tempo está associado a um aumento de distúrbios de atenção e de sono, bem como a um crescimento nas taxas de ansiedade e depressão.

·        Dependência digital e desenvolvimento infanto-juvenil

De um lado, há quem desaprove a norma, classificando-a como desconectada das exigências de uma era tecnológico-informacional; por outro, há aqueles que defendem a restrição como essencial para a preservação da saúde mental e do rendimento acadêmico dos menores. Nesse contexto, é primordial considerar que o Brasil está entre os países com maior tempo médio de uso da internet, atingindo nove horas diárias, conforme levantamento da empresa Global Overview Report nos primeiros três meses de 2024. Esse fenômeno desenhou-se nitidamente durante a pandemia da Covid-19, na qual plataformas digitais tornaram-se cruciais para a manutenção das atividades laborais e acadêmicas, modificando substancialmente os padrões de socialização e de lazer das pessoas. Todavia, o regresso às interações presenciais assentou as transformações em decorrência desse período. Nos intervalos das aulas, em vez de conversas face a face, passou a figurar o comportamento digital: indivíduos mimetizados pelas sombras desse universo sensível em que a informação é profusa, mas a atenção é escassa.

Marshall McLuhan, no final da década de 1960, já profetizava sobre o recente paradigma da comunicação: “o meio é a mensagem”. As plataformas digitais, como o Instagram e o TikTok, exercem maior influência sobre os indivíduos e a sociedade do que o próprio conteúdo que estas veiculam. Para que ocorra essa influência, o design comportamental (ou design persuasivo) maximiza o engajamento, empregando recursos como notificações frequentes e algoritmos que priorizam conteúdos altamente estimulantes. Como consequência, as novas tecnologias passam a constituir extensões do homem, se projetando como próteses, uma vez que condicionam seus usuários à sua existência. Incidentes como a queda simultânea do WhatsApp, Facebook e Instagram, em 4 de outubro de 2021, ilustram a magnitude dessa dependência: milhões de pessoas vivenciavam uma condição de “amputação”.

Nesse panorama, é preciso considerar que o desenvolvimento cerebral progride gradualmente ao longo da infância, adolescência e início da idade adulta. Estudos de neuroimagem demonstram que a maturação completa do córtex pré-frontal – região responsável por funções como controle de impulsos, resolução de problemas, atenção e tomada de decisões – pode se estender até aproximadamente os 25 anos, chegando aos 30 em alguns casos. Nesse sentido, quando um cérebro em formação é incessantemente exposto a estímulos reforçados, onipresentes em plataformas digitais, os riscos de condicionamento comportamental e dependência tornam-se sensivelmente mais elevados.

·        A ilusão digital: o novo padrão de existência

No âmbito das redes sociais, pode-se destacar que a experiência genuína tende a ceder espaço a simulacros – simulações imperfeitas da realidade que potencializam comparações e conflitos identitários. Em consonância com as reflexões do sociólogo francês Jean Baudrillard, pode-se dizer que nessas plataformas os símbolos exercem maior influência que o próprio real. Os filtros, por exemplo, fornecem versões aperfeiçoadas dos usuários, eliminando marcas indesejáveis, como poros e espinhas. A popularização desses instrumentos aumenta a procura por cirurgias plásticas estéticas, já substancial no país, e se torna mais um fator de vulnerabilidade e bullying entre jovens, os maiores reféns da “plataformização da beleza”.

Nesse cenário, as ambições pessoais também se veem impactadas. Tornar-se “influenciador” sem um propósito sólido tem sido um anseio recorrente, evidenciando a força dos simulacros que alicerçam o ambiente virtual. Inserida na lógica do espetáculo descrita pelo sociólogo, também francês, Guy Debord, a valorização de cada indivíduo passa a ser determinada principalmente pela visibilidade que ele obtém nessas plataformas. Para tanto, os jovens adotam posturas de exposição permanente — uma “vida instagramável” —, corroborando a análise debordiana de que o reconhecimento público e a legitimação social derivam cada vez mais de aparições midiáticas, em detrimento de experiências genuinamente formativas.

·        A escola como espaço de mediação digital

Dessa forma, evidencia-se a insuspeitada preocupação com o uso intensivo de telas por crianças e adolescentes. A proibição de celulares em escolas justifica-se não apenas como um mecanismo para aprimorar a concentração e o aprendizado, mas também como uma medida preventiva para garantir que o tempo gasto com eles não afete ainda mais os jovens. Entretanto, a aplicação efetiva da lei deve vir acompanhada de mecanismos que minimizem os impactos associados a esses estímulos dopaminérgicos. Como estratégias, podem ser pensados programas de educação midiática, orientações para a autorregulação e conscientização a respeito do design persuasivo, bem como ações para o desenvolvimento de habilidades socioemocionais.

Por fim, é relevante destacar que a decisão não demove dos educadores a possibilidade de empregar os recursos digitais como ferramentas pedagógicas, tampouco anula a importância de uma formação tecnológica para os estudantes. Ela apenas estabelece parâmetros para que menores de idade não se tornem reféns das plataformas, preservando, assim, a dimensão humana da escola. Em uma sociedade em que os estímulos são abundantes e a capacidade de concentração se torna cada vez mais deficiente, é fundamental que a utilização da tecnologia seja mediada de forma responsável e consciente, a fim de garantir que o processo educativo preserve sua dimensão emancipadora e que haja a segurança necessária para o pleno desenvolvimento das novas gerações.

 

 

 

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