Nikolas
Ferreira publicou story sobre professora de artes travesti do MS, gerando onda
de ódio e ameaças
Emy Mateus Santos, 25 anos, professora de teatro na rede
municipal de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, nunca imaginou que
uma atividade pedagógica — fantasiar-se para receber alunos no primeiro dia de
um ano letivo — a colocaria no alvo de uma onda de ódio.
Formada em teatro e dança, Emy, que se identifica como
travesti, foi integrada à rede de educação pública em fevereiro de 2024, após
ser aprovada em concurso público. No início de 2025, foi transferida para a
Escola Municipal Irmã Irma Zorzi.
Depois de uma semana de planejamento pedagógico, a
coordenação da escola propôs que Emy e outras professoras se fantasiassem para
receber os alunos para o primeiro dia de aula de 2025. O propósito era simples:
acolher crianças de 6 e 7 anos de forma criativa.
A atividade, inclusive, teve o aval da Secretaria
Municipal de Educação de Campo Grande, que afirmou em nota enviada
ao portal G1 que
“o uso de fantasias e caracterizações é um recurso pedagógico adotado por
professores” de estudantes que estão matriculados no ensino básico na capital
do Mato Grosso do Sul. O Intercept entrou em contato com a secretaria pedindo
mais informações sobre o caso, mas não houve resposta até a publicação desta
reportagem.
Emy, então, foi vestida de Barbie, com uma peruca rosa,
uma saia e uma bota de cano alto. Outras professoras e até a coordenadora da
escola escolheram as suas próprias fantasias, baseadas em personagens infantis.
“Tinha gente de fada, de princesa, de cozinheira”, diz.
Segundo Emy, sua fantasia inspirou reações animadas e
lúdicas das crianças. Por isso, na noite de segunda-feira, 10 de fevereiro de
2025, ela publicou um vídeo em suas redes sociais mostrando a rotina do dia,
desde a preparação da fantasia até interações com os alunos.
Mas a cena, que pretendia celebrar a conexão com as
crianças, foi deturpada em pouquíssimas horas. No dia seguinte, uma parte do
vídeo, editada para remover o contexto pedagógico, viralizou em grupos
conservadores da cidade.
Até que, na quarta-feira, 12, entrou em cena o deputado
federal Nikolas Ferreira, do PL de Minas Gerais.
Com apenas um story publicado em sua conta no
Instagram, Nikolas usou o registro da atividade escolar compartilhado por Emy e
escreveu a seguinte legenda.. “Porque [sic] nunca em asilos? Ou para doentes?
Ou sem teto? Porque é sempre para crianças?”, escreveu.
A postagem foi o estopim para o caso, que até então
estava restrito a Campo Grande, se espalhar pelo país. Além da viralização nas
redes sociais, veículos como R7 e Metrópoles repercutiram o vídeo de Emy – mas
sem explicar que o episódio não era um ato isolado, que outras professores
também se fantasiaram e que a iniciativa havia sido validada pela própria
Secretaria Municipal de Educação.
Com a repercussão, Emy virou alvo de uma enxurrada de
ameaças. Parlamentares de extrema direita de Campo Grande, como o vereador
André Salineiro e o deputado estadual João Henrique Catan, ambos do PL,
atacaram a professora até mesmo nos plenários da Câmara Municipal e da
Assembleia Legislativa do Mato Grosso do Sul, referindo-se a Emy no masculino e
acusando-a de “violar a inocência infantil”.
Além disso, pais de alguns dos estudantes foram à escola
exigir explicações, e Emy precisou se afastar da escola por segurança. “Não
posso mais sair de casa sem medo”, desabafa. Apesar de a professora ter
registrado boletim de ocorrência na polícia e de a Secretaria Municipal de
Educação de Campo Grande ter defendido publicamente
o uso de fantasias como recurso pedagógico, a narrativa transfóbica se
sobrepôs e reforçou a vulnerabilidade de profissionais trans em ambientes
educacionais.
Em entrevista ao Intercept
Brasil, Emy ainda contou que, antes mesmo da polêmica, já havia
enfrentado transfobia institucional na escola onde trabalhou no ano anterior:
foi orientada usar um banheiro isolado, teve seu nome social desrespeitado e
presenciou colegas usando a Bíblia para condenar sua identidade.
Leia a entrevista completa:
·
Me conta um pouco da sua história, sua
trajetória como professora, até chegar a esse caso que ganhou repercussão.
Emy Santos – Sou uma
mulher travesti. No ano passado, entrei na rede pública. Uma das minhas grandes
preocupações, é claro, era ter meu diploma e meu nome devidamente reconhecidos,
para que eu minimamente conseguisse ter algum tipo de respeito dentro da
instituição. Passei em um processo seletivo da rede municipal e fui chamada
para assumir as aulas de artes. Minha linguagem é teatro e dança. Acho
importante pontuar esses detalhes porque fazem sentido nessa história de fake
news e perseguição.
Desde o primeiro dia na escola que atuei no ano
passado, sofri inúmeras violências. Uma das primeiras foi a diretora sugerir
que eu usasse um banheiro no fundo da escola, um banheiro sujo, um quartinho,
porque ela “não sabia” se eu me sentiria bem ou se as outras pessoas se
sentiriam bem com a minha presença no banheiro feminino.
Foram várias violências nessa escola. Meu pronome não
era respeitado, e eu sempre precisava me desviar das relações sociais com as
outras professoras. Um dos momentos mais delicados foi a minha relação com uma
professora que sempre me chamava no masculino. Conversamos sobre isso na
coordenação algumas vezes, mas um dia ela levou uma Bíblia para a sala de aula
e começou a falar para os alunos sobre orientação sexual e identidade de
gênero, dizendo que era errado ser como eu sou.
A partir daí, comecei a passar mal, ter crises de
pânico, ansiedade, chorar. Até que falei: “Olha, eu não consigo entrar na sala
de aula.” Minha decisão foi mudar de escola.
·
Como foi sua experiência nessa nova escola?
E como houve essa confusão logo no primeiro dia de aula?
Cheguei a uma nova escola e fui recebida de forma
diferente, acolhida pela diretora e pela coordenadora. Tivemos uma semana
pedagógica e ficou combinado que, no primeiro dia de aula, as professoras de
artes e a coordenadora iriam fantasiadas para recepcionar as crianças, como uma
ferramenta lúdica para acolhê-las.
Eu fui de Barbie. Recebi as crianças, me apresentei em
outras salas, falei um pouco do meu trabalho e de como seriam as aulas de
teatro e dança. Também gravei um vídeo mostrando um pouco da minha rotina —
desde o momento de me preparar até as interações carinhosas das crianças — e
postei nas redes.
Na noite de segunda-feira, publiquei o vídeo. Na terça,
ele já estava deturpado se espalhando por aí, com falas preconceituosas e
distorcidas para gerar pânico moral. O vídeo circulou em diversos meios, de
forma manipulada, para alimentar um caos moral na sociedade. E, claro, a imagem
chama atenção, porque, aqui, só há eu e mais uma professora trans ou travesti.
O fato de estarmos nesse espaço incomoda muita gente.
O post do Nikolas veio na quarta. Desde então, não
parei de receber mensagens. Entre elas, ameaças. Pais e mães começaram a ir até
a escola. Precisei me afastar por questões de segurança e integridade. Estou
muito abalada, porque tudo isso é muito injusto. Meu trabalho, tudo o que venho
construindo há um ano, tentando superar essas violências, está sendo destruído
por uma onda de ódio.
·
Depois que você postou o vídeo, quando
percebeu que começou a haver uma reação muito negativa?
Um dos primeiros vídeos que vi foi o do deputado João
Catan, que já era, por si só, muito violento e agressivo. Depois, comecei a ver
outros deputados e vereadores da direita postando também, dizendo frases como:
“eu irei fazer justiça, eu irei acompanhar”. Meu medo era perder meu trabalho
por esse motivo, mesmo estando respaldada pela escola.
Fiquei assustada com a pressão política e com a proporção
nacional que isso tomou. Parlamentares de outros estados, como o Nikolas, que é
lá de Minas Gerais, começaram a falar sobre o caso sem saber nada, apenas
distorcendo os fatos.
A forma como eles agem é muito coletiva: estavam em
todas as redes sociais — Instagram, Facebook, TikTok — espalhando esse discurso
moralista e transfóbico.
·
Nikolas Ferreira é um dos deputados
federais mais influentes nas redes sociais, com vídeos de milhões de
visualizações. A onda de ódio cresceu depois da postagem dele?
Sim, totalmente. O Nikolas fez um story, mas colocou
aquelas frases absurdas, dizendo que não faço isso em asilos, deturpando
completamente o contexto. Ele quis insinuar pedofilia. E, depois disso, as
mídias começaram a publicar matérias e a entrar em contato comigo.
·
E você está afastada da escola agora?
Sim, por segurança. Com as ameaças e o momento político
delicado que vivemos, nunca se sabe. Pode aparecer um pai armado, um pai que
“quer proteger sua filha” e tentar me agredir. Além disso, meu psicológico ficou
muito abalado. Cheguei a ir um dia, mas ficava com medo de estar perto dos
pais. Então, busquei acompanhamento profissional para lidar com isso.
·
Pessoalmente, como você está agora? Como
tem sido esses dias?
Busquei ajuda psicológica e psiquiátrica. No início, a
adrenalina me fazia buscar formas de me defender, mas depois bateu um
sentimento de angústia e medo. Passei a ter insônia e a sentir essa injustiça
de forma muito intensa.
Tenho uma rede de apoio que me acolhe, mas essa
violência se instala em um lugar muito profundo. Não é a primeira vez e,
infelizmente, sei que não será a última, simplesmente pelo fato de ser quem
sou.
Por isso, tento me cuidar, principalmente no aspecto
profissional. Sei que, sendo uma pessoa trans, preciso desse acompanhamento
constante para não sucumbir, não perder a vontade de viver e trabalhar.
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