Modificações na formação
universitária no Brasil
Investidores com patrimônio acima de R$ 5 milhões, em bancos menos
exigentes, situam-se na classe Private Banking (PB), mas os
“bancões” privados exigem acima de R$ 10 milhões. Neste caso, a classe de
investidores conhecida como varejo tradicional (VT) tem menos de R$ 1 milhão em
volume de negócios e o do varejo de alta renda (VAR) situa-se entre os dois
segmentos.
De acordo com a ANBIMA, em 2024, o volume total investido por pessoas
físicas nesses segmentos de clientes alcançou R$ 7,3 trilhões. Representou um
crescimento de 12,6% em relação ao ano anterior.
Especificamente, o segmento do varejo de alta renda registrou um aumento
maior de 15,4%, totalizando R$ 2,57 trilhões, enquanto o varejo tradicional
cresceu 13,6%, acima do crescimento médio, atingindo R$ 2,43 trilhões. Juntos,
esses dois segmentos somaram R$ 5 trilhões, correspondendo a 68,6% do total
investido por pessoas físicas. O segmento de PB, por sua vez, apresentou um
crescimento menor de 8,7%, alcançando R$ 2,3 trilhões, representando os 31,5% restantes.
Analisando as evoluções desses segmentos do início da série temporal em
2015 ao fim dez anos após, o varejo tradicional multiplicou sua riqueza
coletiva por quase três vezes, de R$ 827 bilhões a R$ 2,427 trilhões, e o
varejo de alta renda multiplicou-a por 4,4 vezes, de R$ 586 bilhões a R$ 2,572
trilhões. A multiplicação da fortuna do PB foi de pouco mais de três vezes.
Proporcionalmente, a classe média alta enriqueceu mais e passou a deter
35% do total em 2024 diante 28% em 2015. As classes baixa e média baixa foram
de 39% para 33% e os ricaços de 34% para 31,4%, depois de terem atingido 40% e
mantido o patamar de 39%-38% nos anos do populismo de extrema direita.
Quando considera os números de contas (não CPFs) por segmentos, a
“financeirização” aparece no varejo tradicional por ter passado de 66,6 milhões
a 163 milhões e no varejo de alta renda de 5 milhões a 15 milhões de contas
nesses dez anos. O PB passou de apenas 110 mil contas para 162 mil, mas neste
ano a ANBIMA passou a divulgar esse segmento ter 741.218 contas, bem acima
daquelas 162.045 publicadas como “número de contas exclusivas” – deve ser de
CPFs dos 65.692 grupos familiares.
Se essa hipótese for válida, há quase cinco contas por CPF, e
extrapolando para o varejo de alta renda seriam 3 milhões de clientes nessa
elite financeira – aí a riqueza per capita seria de R$ 170.000 x 5 ou R$ 850
mil. Outra hipótese levantei a partir dos números sobre Educação do Censo 2010:
eram apenas 14,3% graduados, 0,7% mestres e 0,5% doutores na população brasileira,
e entre o 1% mais rico encontravam-se 62,4% graduados, 9,3% mestres 5,1%
doutores. Eu supunha nos segmentos varejo de alta renda e PB predominarem os
clientes com formação universitária.
Essa formação no Brasil foi restrita a uma elite cultural e econômica
até pelo menos a década de 1990. Durante grande parte do século XX, o acesso ao
ensino superior era limitado por fatores como a escassez de instituições
públicas, o alto custo das instituições privadas e a baixa escolaridade média
da população.
O ensino superior era um privilégio de grupos de renda mais altos.
Tinham maior acesso à educação básica e ensino médio de qualidade, além de
poderem arcar com os custos associados à formação universitária.
Durante os governos social-desenvolvimentistas do início do século XXI,
houve uma ampliação significativa das universidades federais e estaduais, com a
criação de novos campus e programas de inclusão, como o Reuni (Programa de
Apoio aos Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais). A adoção
de políticas afirmativas, como cotas raciais e sociais, além da reserva de
vagas para alunos da escola pública, ampliou o acesso de grupos antes
excluídos.
Programas como o ProUni (Programa Universidade para Todos) e o Fies
(Fundo de Financiamento Estudantil) permitiram estudantes de baixa renda
ingressarem em universidades particulares com vagas ociosas, gerando um aumento
expressivo no número de matrículas. O setor privado cresceu de forma acelerada,
especialmente com a popularização do Ensino a distância (EAD). Pelo baixo
custo, tornou a busca por um diploma de educação superior mais acessível.
Pela PNADC 2023, entre pessoas de 25 anos ou mais de idade, 19,7% tinham
superior completo. Se considerasse de 35 a 34 anos atingia o maior percentual
de 24,9% com essa formação e de 65 anos ou mais de idade era o menor
percentual: apenas 11,4% dessa faixa tinha essa formação.
A massificação do ensino superior teve efeitos diretos sobre o mercado
de trabalho, especialmente na remuneração dos profissionais graduados. Com mais
pessoas obtendo diplomas, a concorrência por certas vagas aumentou, diminuindo
o diferencial salarial antes existente entre graduados e não graduados.
A posse de qualquer um diploma universitário (tipo de “Uniesquina”)
deixou de ser um diferencial tão forte. Profissões exigentes de maior
escolaridade passaram a enfrentar maior competição, piorando os rendimentos
médios.
O avanço da inovação e da digitalização em diversas áreas alterou a
demanda por determinados profissionais com formação universitária, permitindo a
inovação ser adotada por camadas de menor nível escolar. A qualidade do ensino
superior tornou-se mais heterogênea, com algumas instituições com ensino de
excelência formando profissionais altamente competentes, enquanto outras passaram
a oferecer cursos de menor prestígio no mercado, dificultando a
empregabilidade.
Acompanhando o ocorrido em países avançados, a formação universitária no
Brasil deixou de ser uma vantagem das elites a partir da virada do século XXI,
devido às políticas públicas de expansão e inclusão, bem como à participação
crescente do setor privado. Esse impacto teve impactos positivos na
democratização do conhecimento, mas também gerou problemas, como a queda de
nível dos ensinamentos relevantes de graduados e a necessidade de diferenciação
no mercado de trabalho por meio de pós-graduações e especializações.
Essas informações parecem ser adequadas à hipótese de o segmento de
clientes bancários do varejo de alta renda estar correlacionado com o número de
profissionais formados nas Universidades brasileiras, no século passado, por
terem tido condições de poupar e fazer investimentos em longo prazo,
tornando-se milionários, inclusive em dólares. O segmento de clientes bancários
do varejo de alta renda reúne quem conseguiu acumular patrimônio expressivo ao
longo da vida profissional.
Essa correlação se dá porque, no século XX, o acesso ao ensino superior
no Brasil era restrito a uma elite cultural e econômica. Quem conseguiu se
formar, especialmente em áreas como medicina, engenharia, direito e
administração ou economia, tinha alta empregabilidade e maiores rendimentos ao
longo da vida.
Profissionais formados nas décadas de 1960 a 1990 tiveram uma vantagem
salarial expressiva em relação à média da população, permitindo maior
capacidade de poupança e investimento. Esses profissionais tiveram acesso a
fontes de renda diversas, no setor público ou em grandes empresas privadas,
garantindo renda consistente e a possibilidade de investir a longo prazo.
Durante o período de alta inflação no Brasil (até o Plano Real em 1994),
quem possuía conhecimento financeiro e acesso a investimentos protegidos da
inflação (como imóveis, overnight e títulos indexados)
conseguiu preservar e aumentar seu patrimônio. Com o crescimento do carregamento
de títulos de dívida pública, na segunda metade dos anos 1990s e, depois, com o
“tripé macroeconômico” com juros disparatados para atrair ao risco soberano em
vez do risco cambial, esses profissionais passaram a investir mais em ativos
como fundos de investimento, previdência privada e depósitos a prazo – e menos
em ações e imóveis.
A financeirização da economia brasileira, no século corrente, permitiu a
ampliação de opções de investimento para aqueles já com algum capital
acumulado, facilitando a transição para faixas de riqueza mais altas. Os bancos
desenvolveram segmentos como Personnalité, Estilo, Prime e Van Gogh para
atender pessoalmente clientes com um patrimônio expressivo, oferecendo
consultorias.
Muitos desses clientes são ex-profissionais liberais, ex-executivos e
ex-funcionários públicos ou estatutários aposentados. Acumularam riqueza ao
longo de décadas e hoje fazem parte desses segmentos.
A correlação entre a formação universitária, alcançada no século XX, e o
crescimento do segmento de varejo de alta renda nos bancos brasileiros tem
indícios de ser forte, pois esses indivíduos tiveram melhores oportunidades de
emprego, renda e investimentos. Isso lhes permitiu acumular riqueza suficiente
para ingressar em segmentos de alta renda e, em alguns casos, até no Private
Banking, dependendo do nível de patrimônio atingido.
Fonte: Por Fernando Nogueira da Costa, em A
Terra é Redonda
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