quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Por que o preço dos alimentos está subindo tanto?

O preço dos alimentos disparou. Quem frequenta os supermercados brasileiros sabe que o assunto nos seus corredores é um samba de uma nota só: tá tudo caro. 

O tema anda tão em alta que possivelmente é um dos elementos que mais influencia na sucessiva queda de popularidade do governo Lula, acendendo um sinal de alerta – muito embora o aumento no preço dos alimentos tenha sido muito menor no primeiro biênio do governo Lula do que durante o governo Bolsonaro. 

O IPCA do grupo alimentos e bebidas acumulou uma alta de 21,4% no biênio 2019-2020; 20,5% em 2021-2022 e apenas 8,8% em 2023-2024. O que parece assustar mais, no entanto, é a velocidade da subida. 

Ao contrário do cenário atual, em 2023 os alimentos foram os responsáveis por reduzir a inflação média, garantindo que ela ficasse na meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, o CMN. A alta acumulada dos alimentos em 2023 foi de apenas 1,03%, terminando o ano com a segunda menor alta de todos os nove grupos medidos pelo IPCA.

Diferente do que dizem os oportunistas de plantão, que usam a inflação mais elevada para bradar que tudo que se resolveria com cortes de gastos públicos e com austeridade fiscal, os reais motivos para a alta dos preços dos alimentos encontram explicação em um cenário muito mais complexo e envolve diversas causas. Nenhuma delas é o desequilíbrio fiscal.

Em primeiro lugar, há um problema grave de oferta de alimentos. Como os alimentos são produtos padronizados, sem grande agregação de valor e diferenciação de marca, seus preços no mercado estão submetidos à lei da oferta e da procura. Portanto, se a oferta se reduz, o preço aumenta. 

Os eventos climáticos extremos como as chuvas intensas, especialmente no sul do país, as secas e a atual onda de calor têm forte impacto sobre a oferta de alimentos, especialmente de hortaliças que já têm redução de oferta nos meses de verão. Para um dos vilões do momento, o café, há uma projeção de redução de 4,4% na safra brasileira de 2025, como decorrência direta da estiagem de 2024.

Segundo um estudo da revista Nature de 2024, o calor é o extremo climático mais perigoso para a agricultura. Para cada 1ºC de aumento nas temperaturas, a inflação no preço dos alimentos é impactada em 0,2%. Até 2035 a expectativa da publicação é que o preço dos alimentos acumule, no mundo, uma alta de 3%. 

Outro elemento que impacta o preço doméstico dos alimentos é o preço internacional das commodities, que sofre variações conjunturais a depender de oferta e procura e de eventos externos tais como guerras, crises econômicas e desorganização das cadeias de suprimento e transporte. 

Os produtos que são atrelados ao mercado internacional são alguns dos que mais pressionam os preços domésticos. No caso do café, a redução da produção em países como Vietnã e Indonésia tem forte impacto no preço que pagamos nas prateleiras do mercado. 

Um terceiro motivo que explica o aumento dos preços é a valorização que o dólar sofreu perante o real nos meses finais de 2024. O efeito da desvalorização cambial é duplo: por um lado, se o preço internacional continua o mesmo, medido em dólar, por outro ele é majorado em reais. 

Além da relação estreita entre o preço das commodities negociadas em bolsa de valores e os custos domésticos, há ainda o impacto dos componentes agrícolas que são importados. Por exemplo, com o encarecimento do dólar frente ao real, aumenta o preço dos fertilizantes, das máquinas, da aquisição de tecnologia e eles são repassados para o consumidor final. 

O segundo efeito é que os produtos agrícolas brasileiros ficam mais competitivos lá fora. Isso explica o porquê o Brasil enviou 50,5 milhões de sacas de café ao exterior em 2024, totalizando nada menos que 28,8% a mais do que o total exportado do produto em 2023.

O mesmo ocorreu com a carne. Há uma tempestade perfeita que ameaça deixar o preço dessa proteína ainda elevado para os brasileira. A Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, projeta uma redução de 8,5% na disponibilidade de carne bovina em 2025. 

Soma-se a isso a prioridade que o agronegócio brasileiro confere a maximização da sua taxa de lucro, aproveitando-se do cenário cambial favorável para exportar a carne bovina, impactando ainda mais no preço doméstico. 

Em relação a 2023 a carne bovina teve um aumento de 24,73% no total exportado. Aliás, a exportação de carne bovina atingiu, em 2023 e 2024, nada menos que o máximo da série histórica. 

É bom lembrar que a inflação de alimentos está superior à média nacional e quanto mais pobre é o brasileiro, mais o preço dos alimentos impacta na sua renda. 

O governo Lula está operando em diversas dimensões para reduzir o impacto do preço dos alimentos no bolso dos brasileiros. Há iniciativas, por exemplo, como a expansão dos incentivos à agricultura familiar, os créditos suplementares previstos para o próximo Plano Safra, o incentivo à produção de fertilizantes e bionsumos; a expansão da infraestrutura logística; isenção de tarifas para importação e a desoneração dos produtos da cesta básica, no âmbito da reforma tributária. Mas a questão do preço dos alimentos ainda demanda políticas emergenciais de curto, médio e longo prazo. 

Uma das principais medidas, urgente pelo lado da questão social e, sobretudo, econômica, é a reforma agrária radical, envolvendo a desapropriação, o assentamento de famílias, o acesso ao crédito e políticas de assistência técnica e extensão rural. Somente a agricultura familiar pode equacionar a questão produtiva, de custos e de preservação ambiental, possibilitando ampla oferta de alimentos saudáveis e acessíveis à população brasileira.

 

¨      Quem lucra enquanto o mundo queima? Por Marina do MST

Janeiro de 2025 entrou para a história como o mês mais quente já registrado, sucedendo o ano mais quente da história. O planeta está fervendo, e os responsáveis por essa catástrofe continuam lucrando com a crise climática. O modelo predatório do setor agro-hidro-mineral, sustentado pelo capitalismo financeirista, nos empurra década após década para o ponto de não retorno.

Enquanto a concentração de terras e a destruição ambiental avançam, vemos crescer os extremos climáticos: enchentes devastadoras, secas prolongadas e queimadas que reduzem nossa biodiversidade a cinzas. Esse cenário compromete a produção de alimentos, provoca alta nos preços e agrava ainda mais a insegurança alimentar.

A crise climática não é um fenômeno isolado. Ela é resultado de um sistema econômico que privilegia poucos em detrimento de muitos. E no Brasil, isso se reflete diretamente no modelo agrícola dominante: enquanto pequenos produtores agroecológicos lutam para produzir alimentos saudáveis e sustentáveis, o agronegócio segue desmatando, envenenando a terra com agrotóxicos e concentrando terras para monoculturas que não alimentam a população.

A cada momento, novos estudos descortinam os riscos e perigos da destruição planetária: oncologistas apontam a relação entre o aumento da exposição ao calor extremo, à poluição do ar e aos raios ultravioleta e a escalada de casos de alguns tipos de câncer.

É urgente que o estado do Rio de Janeiro e todo o Brasil adotem medidas concretas para enfrentar essa crise. Isso passa por cumprir e fortalecer leis ambientais já existentes, como a Política Estadual de Adaptação Climática e o Inventário de Emissões, que seguem ignorados.

Mas não basta apenas mitigar danos. Precisamos de uma transformação estrutural no campo, e a resposta está na reforma agrária e na agroecologia. Enquanto o latifúndio monocultor causa secas, a agroecologia não só protege o meio ambiente e a biodiversidade, mas também regenera o solo, combate a crise climática e garante segurança alimentar para a população. Ela demonstra, na prática, que o “agro pop” não é sinônimo de progresso, mas de desigualdade, crise e morte.

Sem uma mudança radical no modelo agrícola, seguiremos condenados a tragédias ambientais e sociais cada vez mais intensas. É hora de fazer escolhas políticas que coloquem a vida acima do lucro.

 

Por Juliane Furno, em Th Intercept/Brasil de Fato

 

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