quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Ministros da UE veem “nova era” da Europa diante de Trump

Ministros das Relações Exteriores de diversos países da Europa afirmaram nesta segunda-feira (24) que o continente havia entrado em uma nova era com a impressionante reversão de décadas de política externa dos Estados Unidos pelo presidente americano, Donald Trump, mas que ainda esperavam que o relacionamento com Washington pudesse perdurar.

Autoridades europeias foram pegas de surpresa pelas decisões de Trump de manter negociações sobre o fim da guerra na Ucrânia com a Rússia, desprezando Kiev e a Europa, e com o aviso de seu governo de que os Estados Unidos não estavam mais focados principalmente na segurança da Europa.

“Está claro que as declarações dos Estados Unidos nos deixam preocupados”, declarou a chefe de política externa da União Europeia (UE), Kaja Kallas, após uma reunião de ministros das Relações Exteriores da UE em Bruxelas. Mas ela acrescentou que a Europa e os Estados Unidos resolveram suas diferenças antes “e também esperamos fazer isso desta vez”.

 “É claro que [o relacionamento transatlântico] vai mudar. Isso é muito claro, mas não devemos jogar pela janela algo que funcionou bem até agora.”

Antes disso, Friedrich Merz, o vencedor das eleições gerais da Alemanha realizadas no domingo (23), questionou se a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) permaneceria em sua “forma atual” até junho e disse que a Europa deve estabelecer rapidamente uma capacidade de defesa independente.

 “A era que começou com a queda do Muro de Berlim acabou”, disse o ministro Caspar Veldkamp, da Holanda, ​​quando questionado sobre as observações do provável próximo chanceler da Alemanha.

“Como europeus, precisamos nos organizar, não apenas dentro da UE, mas com os britânicos, os noruegueses e outros países que querem participar, para enfrentar os novos desafios que nos são apresentados, também por Trump”, afirmou Veldkamp antes da reunião de Bruxelas.

Analistas do Eurasia Group disseram em uma nota que os eventos das últimas semanas mostraram que “a Europa está à beira de um mundo muito mais perigoso”, acrescentando que sua sensação era de que os líderes da UE estavam “enlouquecendo”.

“O que está claro agora é que sua capacidade de responder nas próximas semanas e meses pode ajudar a determinar a forma da ordem internacional – e seu lugar nela – nas próximas décadas”, escreveram.

·        Cúpula extraordinária

Os ministros da UE também concordaram com mais um pacote de sanções contra Moscou, para coincidir com o terceiro aniversário da invasão da Ucrânia pela Rússia, antes de uma enxurrada de reuniões em Bruxelas, Kiev e Washington sobre a Ucrânia nos próximos dias.

Os líderes europeus se reunirão para uma cúpula extraordinária em 6 de março para discutir suporte adicional para a Ucrânia, garantias de segurança e como pagar pelas necessidades de defesa do continente.

“Eu nunca teria pensado que teria que dizer algo assim em um programa de TV mas, depois dos comentários de Donald Trump na semana passada… está claro que este governo não se importa muito com o destino da Europa”, disse Merz à emissora pública alemã ARD após a vitória eleitoral de seus conservadores.

O ministro Jan Lipavsky, da República Tcheca, disse que a Europa teria que mostrar força, mas trabalhar para manter os laços com os Estados Unidos.

“Todos nós podemos sentir a mudança na retórica dos EUA, especialmente como nas últimas duas ou três semanas”, disse Lipavsky em Bruxelas. “Mas isso não significa que paramos com esse engajamento de outra forma. Exatamente o oposto”, declarou ele.

Também nesta segunda-feira, vários líderes e ministros da UE visitaram Kiev para mostrar apoio à Ucrânia, enquanto os líderes da França e do Reino Unido se encontrarão com Trump nos Estados Unidos nesta semana.

“Devemos acelerar a entrega imediata de armas e munições”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em Kiev. “E isso estará no centro do nosso trabalho nas próximas semanas.”

O 16º pacote de sanções da UE contra a Rússia inclui uma proibição de importações de alumínio primário e vendas de consoles de jogos, bem como a listagem de proprietários e operadores de 74 navios da chamada frota paralela usados ​​para escapar das sanções.

¨      Trump e Macron exibem divergências profundas sobre Ucrânia, apesar de tom amigável

Os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da França, Emmanuel Macron, exibiram divergências acentuadas nesta segunda-feira em suas abordagens sobre a guerra na Ucrânia, expondo uma divisão entre os EUA e a Europa em torno da tentativa de Trump de conseguir um rápido acordo de cessar-fogo com a Rússia.

Durante um dia de reuniões entre os dois líderes, Trump e Macron demonstraram um relacionamento amigável com base em anos de boas relações. Mas Macron deixou claro que discorda de Trump em questões fundamentais, enquanto eles marcavam três anos desde que a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022.

Trump se recusou a se referir ao presidente russo, Vladimir Putin, como um ditador, após ter chamado o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskiy, de ditador na semana passada. Macron afirmou que está claro que a Rússia “é a agressora” do conflito, um tópico no qual Trump vacilou na semana passada.

“O presidente Putin violou a paz”, afirmou Macron, em uma entrevista coletiva conjunta com Trump.

O presidente norte-americano expressou o desejo por um cessar-fogo o mais rápido possível e disse que está tentando organizar um entre Ucrânia e Rússia. Trump afirmou que pode ir a Moscou para se encontrar com Putin uma vez um acordo seja alcançado.

Macron, por outro lado, pediu uma abordagem mais deliberada, começando com uma trégua e depois um acordo de paz que incluísse garantias de segurança.

“Nós queremos paz, ele quer paz. Nós queremos paz rapidamente, mas não queremos um acordo que seja fraco”, disse Macron, a repórteres.

Qualquer acordo de paz, afirmou, precisa ser “avaliado, checado e verificado”.

Os dois líderes concordaram, no entanto, com a mobilização de forças de manutenção de paz europeias quando se chegar a um acordo de paz.

“Elas não ficariam nas linhas de frente. Não participariam de qualquer conflito. Elas estariam lá para garantir que a paz seja respeitada”, disse mais cedo Macron, no Salão Oval, com Trump.

O presidente norte-americano afirmou que aceita o conceito, assim como Putin.

“Sim, ele aceitará isso”, disse Trump, sobre a posição de Putin em relação à força de manutenção de paz. “Eu fiz especificamente essa pergunta a ele. Ele não tem nenhum problema com isso.”

Macron, o primeiro líder europeu a visitar Trump desde que ele reassumiu a Presidência um mês atrás, disse que as discussões com Trump foram um “divisor de águas” na busca por uma abordagem mais unificada.

Macron está tentando aproveitar um relacionamento com Trump construído durante seus primeiros mandatos presidenciais. O líder francês mostrou como conseguiu lidar com o imprevisível Trump sem aliená-lo.

Em certo momento durante a reunião no Salão Oval, Macron tocou o braço de Trump e cuidadosamente corrigiu a alegação do presidente dos EUA de que a Europa entregou todo o seu auxílio em empréstimos.

Trump relatou progresso na obtenção de um acordo com a Ucrânia sobre os minerais ucranianos como forma de recuperar o custo do armamento injetado na Ucrânia pelo governo anterior de Biden. O presidente norte-americano disse que esperava que Zelenskiy viesse aos Estados Unidos nesta ou na próxima semana para selar o acordo.

Questionado se é possível que a Ucrânia tenha que ceder territórios para a Rússia, Trump disse: “Bom, vamos ver”. Macron afirmou que qualquer acordo deveria incluir a soberania da Ucrânia.

¨      França estaria realmente sendo ‘inundada’ por imigrantes como disse o premiê 

As recentes observações do primeiro-ministro francês François Bayrou de que havia no país um “sentimento de submersão” por estrangeiros causaram indignação em representantes da esquerda, mas foram bem recebidas pelos conservadores e pela extrema direita.

 “As contribuições estrangeiras são positivas para um povo, desde que sejam proporcionais”, disse Bayrou em uma entrevista à televisão no final de janeiro.

“Mas assim que você tem a sensação de ser submerso, de não reconhecer mais seu próprio país, seu estilo de vida e sua cultura, há uma rejeição”, declarou, antes de acrescentar que a França estava “se aproximando” desse limiar. 

Com o uso da palavra “submersão”, que também pode ter o sentido de “inundação”, Bayrou empregou termos mais comumente usados pelo partido de extrema direita Reunião Nacional (RN), atualmente o maior partido no Parlamento, em seus discursos anti-imigração.

O RN, anteriormente conhecido como Frente Nacional, há muito tempo sustenta que essa “inundação” de migrantes é uma realidade na França.

Isso ecoa a noção da “grande substituição” (grand remplacement) — um termo cunhado pelo autor e teórico da conspiração Renaud Camus, que afirma que os imigrantes, e os da África em particular, substituirão gradualmente as populações brancas e cristãs da Europa. 

Os dados oficiais da Agência nacional de estatísticas da França (Insee, na sigla em francês) não apoiam essa afirmação. Em 2023, os imigrantes representavam 7,3 milhões da população francesa de 68 milhões — ou 10,7%. Em 1975, eles representavam 7,4%. 

A proporção de estrangeiros aumentou de 6,5% para 8,2% no mesmo período de 50 anos. Cerca de 3,5% são da União Europeia, e o restante de países não pertencentes à UE. Estima-se que 0,25% tenham entrado ilegalmente no país. 

“Se analisarmos os números, é difícil dizer que há uma multidão esmagadora de estrangeiros”, diz Tania Racho, pesquisadora de direito europeu, que também trabalha para uma ONG que combate a desinformação sobre questões migratórias. 

Houve uma progressão constante na proporção de estrangeiros, explica ela, com um aumento de “cerca de 2% nos últimos 10 a 15 anos”, enquanto o número anual de recém-chegados à França, que gira em torno dos 300 mil, permaneceu razoavelmente estável.  

Esse aumento reflete uma tendência global, e vários outros países têm proporções mais altas de residentes estrangeiros do que a França, diz Racho.

Por exemplo, 16% da população da Suécia é composta de estrangeiros, enquanto na Alemanha esse número é de 15%. Os Estados Unidos, o Reino Unido e a Turquia também têm uma porcentagem maior de residentes estrangeiros do que a França. 

Já uma pesquisa do demógrafo François Heran descobriu que o aumento na França se deve em grande parte à migração econômica e de estudantes, e que os pedidos de residência por reunião familiar diminuíram. 

<><> Uma sociedade pós-verdade

No entanto, ressalta Racho, o debate não está necessariamente baseado em números.

“Na verdade, não se trata de números, mas sim da sensação de considerar que há muitos estrangeiros na França. E é mais complicado em um nível científico medir um sentimento”, aponta. 

Pesquisas mostram que os franceses tendem a superestimar o número de estrangeiros no país, colocando o número em 23% em vez do dado real de 8,2%. 

“Estamos em um mundo em transformação, onde a realidade científica não é mais a base das decisões políticas”, diz a pesquisadora. “Isso é verdade nos EUA e, infelizmente, também está acontecendo na França”, completa Racho. 

Ela cita um exemplo do ministro do interior da França, Bruno Retailleau. Quando questionado recentemente sobre a afirmação do CEPII, um instituto público de pesquisa em economia global, de que “os estudos eram unânimes em concluir que a imigração não tinha impacto sobre a delinquência”, o ministro respondeu: “A realidade desmente esse estudo”. 

<><> Pesquisas versus 'sentimentos'

Uma pesquisa realizada on-line para o canal de televisão francês BFMTV após os comentários de Bayrou, que entrevistou 1.005 pessoas, constatou que quase dois em cada três franceses (64%) achavam que ele estava certo ao se referir a uma “sensação de inundação de migrantes”. No entanto, pesquisas mais amplas e aprofundadas mostram um quadro mais matizado. 

A recém-publicada Pesquisa Social Europeia de longo prazo 2023-2024 — que entrevistou 40 mil pessoas em 31 países — sobre atitudes em relação à imigração constatou que 69% dos franceses não têm uma sensação de inundação migratória e concordam que “muitos ou alguns imigrantes de um grupo étnico diferente [da maioria] devem ter permissão para vir e viver no país”.  

Outro estudo realizado pela Destin Commun, a filial francesa do think tank britânico More in Common, constatou que cerca de 60% dos franceses disseram não ter opinião sobre a migração, enquanto 20% achavam que ela estava ligada à identidade nacional. 

“A verdade é que esses 20% se manifestam mais”, observa Racho. “Eles são mais [ativos] nas redes sociais, há mais cobertura da mídia sobre as pessoas que têm uma opinião forte sobre a questão, [em vez de] os 60% que não têm”, diz a pesquisadora.

Na temática da identidade, Bayrou pediu um debate nacional não apenas sobre migração, mas sobre o que significa ser francês.

“O que está fermentando há anos é [a questão], o que significa ser francês?”, disse ele à emissora RMC.

“Que direitos isso lhe dá? Quais são os deveres que isso exige de você? Quais são as vantagens que você recebe? Com o que você se compromete quando se torna membro de uma comunidade nacional?”, lançou o premiê. 

“Pode ser interessante ter um debate real e profundo, se isso for possível. Isso realmente depende da maneira como é tratado”, disse Racho.

Em um debate anterior sobre identidade nacional, lançado em 2009 sob o comando do ex-presidente de direita Nicolas Sarkozy, foram realizados cerca de 350 debates públicos durante três meses, dos quais não resultaram medidas concretas. 

Na época, Bayrou se opôs à iniciativa, dizendo: “Nada é pior do que transformar a identidade em um assunto de confronto político e uso partidário... A nação pertence a todos”, declarou.

¨      Trump humilha Zelensky e impõe entrega de US$ 500 bilhões em minérios como 'pagamento' por ajuda militar

A crise entre Estados Unidos e Ucrânia atingiu um novo patamar de subserviência e pressão econômica, com o presidente Donald Trump exigindo que Kiev entregue US$ 500 bilhões em minérios críticos como forma de retribuição pela assistência militar recebida de Washington. A informação foi divulgada pela Reuters, a partir de declarações de autoridades ucranianas.

A negociação, que está em seus "estágios finais", seguiu um caminho tenso. O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky chegou a recusar um rascunho do acordo no início de fevereiro, gerando irritação na Casa Branca e colocando em risco o suporte dos EUA à Ucrânia. Trump, que vem adotando uma posição cada vez mais agressiva em relação ao conflito, insiste que a Ucrânia deve arcar com os custos do apoio recebido durante o governo Joe Biden.

Segundo Olha Stefanishyna, vice-primeira-ministra da Ucrânia, os dois países "estão na fase final das negociações sobre o acordo de minérios", destacando que as tratativas têm sido "muito construtivas" e que "quase todos os detalhes-chave foram finalizados". Em uma postagem na rede X, ela afirmou que espera que os líderes dos dois países assinem o acordo em Washington "o mais rápido possível" para demonstrar um compromisso de longo prazo.

A imposição de Trump, no entanto, revela um cenário de total subordinação da Ucrânia. Zelensky, que tem buscado apoio ocidental a qualquer custo, declarou que não reconhecerá a assistência de Biden como um empréstimo, mas não esconde a pressão para ceder aos interesses americanos. Segundo ele, os EUA já forneceram US$ 67 bilhões em armas e US$ 31,5 bilhões em apoio financeiro direto, recursos que agora Trump quer cobrar com os minérios ucranianos.

A previsão é que o acordo seja assinado ainda nesta semana, consolidando um dos maiores espólios econômicos da guerra. Se concluído, ele garantirá aos Estados Unidos acesso privilegiado às vastas reservas minerais da Ucrânia, enquanto Kiev segue cada vez mais dependente e vulnerável às imposições de Washington.

 

Fonte: CNN Brasil/Reuters/rfi

 

Nenhum comentário: