quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Após casas de reza incendiadas, Guarani-Kaiowá resistem a avanço evangélico e pedem ajuda

A comunidade Guarani-Kaiowá de Mato Grosso do Sul entregou uma carta a representantes da embaixada da Alemanha no Brasil, que visitou a etnia entre os dias 11 e 14 de fevereiro para denunciar uma série de ataques que os indígenas vêm sofrendo. As violências incluem a destruição de casas de reza e a perseguição de líderes espirituais. O documento, elaborado pela Aty Guasu – a grande assembleia do povo Guarani-Kaiowá –, detalha a situação de intolerância religiosa que ameaça suas cultura e existência.

De acordo com o relatório Violência contra os Povos Indígenas no Brasil, do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), entre janeiro de 2020 e fevereiro de 2024, pelo menos 16 grandes casas de reza do povo Guarani-Kaiowá foram incendiadas no estado. O documento denuncia assassinatos e agressões contra rezadores e a destruição de artefatos centenários, sagrados para etnia. A causa dessa violência no local estaria intimamente ligada aos conflitos fundiários e ao avanço do neopentecostalismo.

O rezador Tito Vilhalva, líder Kaiowá com 106 anos de idade, precisou sair da aldeia Guyraroká, em Caarapó (MS), para se reunir com a comitiva alemã. Originalmente os alemães visitariam a terra dele, mas os planos foram alterados após membros da comunidade evangélica local terem descoberto que o tema do encontro seria intolerância religiosa. A fim de evitar mais conflitos, ele se deslocou 78 km até a retomada Kaiowá Yvy Ajere (Terra Redonda, em guarani), em Douradina (MS).

Cercado por ao menos cem guaranis de dez tekohas diferentes – como os Guarani se referem à terra, que significa “lugar de ser” –, Vilhalva discursou com uma lucidez que nem mesmo o tempo pôde roubar. Uma frase inspirou aplausos: “Respeitamos a sua bíblia, mas deixem ela longe da nossa terra”.

·       Apelo ao governo alemão

A comitiva foi idealizada pelo comissário federal alemão pela liberdade religiosa e da crença, Frank Schwabe, e organizada pelo Cimi, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e a organização Misereor, que apoia, com recursos do governo alemão, iniciativas para o desenvolvimento de comunidades indígenas.

Na carta, os indígenas pediram pressão diplomática da Alemanha sobre o governo brasileiro para acelerar a demarcação de terras, apoio financeiro à Funai, além de investimentos em educação e autonomia econômica para garantir a sobrevivência dos Guarani-Kaiowá sem dependência do Estado brasileiro. A comunidade pediu também reforço no combate a discursos de ódio e desinformação contra indígenas e proteção à sua liberdade religiosa.

“Somos guardiões da Mãe Terra, dos rios e das florestas que protegem toda a vida no planeta”, diz trecho do documento, que pede ainda engajamento da Alemanha na Organização das Nações Unidas (ONU) para alertar sobre o risco de genocídio indígena no Brasil.

Os indígenas ainda detalharam os ataques a casas de reza e lembraram a luta de rezadores e rezadoras, como Damiana Cavanha, que viveu à margem da BR-463, em Dourados, e morreu sem o direito de pisar no próprio território, após ter assistido aos assassinatos de seus familiares. Os Guarani-Kaiowá citaram também o assassinato da Nhandecy [rezadora] Sebastiana Gauto e o marido Rufino Velasque, queimados enquanto dormiam na aldeia Guassuty, em Aral Moreira (MS).

Para a embaixada alemã, “o encontro criou canais concretos de diálogo, que podem servir para melhorar a situação dos direitos humanos, aumentar a compreensão dos desafios e conflitos e encontrar soluções [para a problemática apresentada pelos indígenas]”.

 

¨      Sem-terra, indígenas e negros na luta por direitos. Por Frei Gilvander Moreira

No último final de semana de fevereiro de 2025, foi maravilhoso ver Sem-Terra do MST[1], Indígenas de vários Povos e Negros conspirando em comunhão na luta por terra, território e por muitos direitos. Dia 22 de fevereiro, estivemos em missão no Quilombo Campo Grande, do MST, no sul de Minas Gerais, no município de Campo do Meio, onde mais de 500 famílias Sem-Terra, em onze acampamentos[2], há 27 anos, lutam aguerridamente pela conquista das terras da ex-usina Ariadnópolis, 3.900 hectares.

Já sofreram onze despejos, mas sempre foram acolhidos no Assentamento Primeiro do Sul, ao lado do latifúndio da ex-usina Ariadnópolis, no Assentamento Santo Dias, no município de Guapé e no Assentamento Nova Conquista II, os três Assentamentos do MST no sul de MG. Sem nunca perder a esperança de conquistar a terra, sempre após os cruéis despejos, os Sem-Terra se reorganizavam e voltavam a reocupar o latifúndio que já foi palco de devastadora monocultura de cana-de-açúcar, de trabalho escravo contemporâneo e de violações dos direitos humanos. Após falência da Usina Ariadnópolis, em 1996, milhares de trabalhadores ficaram sem o pagamento de seus salários e com seus direitos trabalhistas violados. Ocupar as terras da Ariadnópolis se tornou uma questão de justiça agrária, trabalhista e social. A luta contra o trabalho escravo no sul de Minas Gerais desaguou na luta pela terra com a ocupação do latifúndio da ex-usina Ariadnópolis.

Que beleza ver mais uma vez com nossos olhos como na prática os onze acampamentos que constituem o Quilombo Campo Grande já são assentamentos construídos na raça, em luta coletiva, enfrentando o Estado brasileiro, o agronegócio e latifundiários, pois as famílias seguem unidas e organizadas, produzindo alimentos saudáveis: feijão, milho, mandioca, hortaliças e mais de 17 mil sacas de café por ano. E se construindo como pessoas humanas, socialistas, libertadas da ideologia dominante. Há doze anos o MST funciona a Cooperativa Camponesa que incentiva e promove uma significativa produção agroecológica, como o Café Guaií agroecológico, que é vendido nos Armazéns do Campo, do MST, em muitas capitais do Brasil. Em horta comunitária, o Grupo Mulheres Raízes da Terra produz ervas medicinais, pomada milagrosa e remédios fitoterápicos imprescindíveis para ajudar as pessoas a resgatar a saúde com terapias naturais. Em viveiro coletivo dezenas de espécies de mudas de árvores do Cerrado e da Mata Atlântica e frutíferas são produzidas alavancando processos de agrofloresta, ou seja, produção de alimentos em harmonia com a natureza. Tudo isso no paradigma da agroecologia.

Emocionante também foi ver que onde a tropa de choque da polícia militar do Governador Zema, durante a pandemia da covid-19, em três dias e três noites, disseminou o terror, ao prender Sem-Terra, demolir 14 casas e destruir a Escola Eduardo Galeano, agora a Escola Agroecológica Eduardo Galeano está sendo reconstruída e já funcionando como filial de uma escola municipal de Campo do Meio. Marcante também foi ouvir o atual prefeito de Campo do Meio elogiar o MST e mostrar o tanto que as famílias Sem-Terra contribuem com a cidade de Campo do Meio e com a região sul de Minas Gerais.

No entanto, as famílias do Quilombo Campo Grande estão indignadas porque nem o Governo de Minas Gerais e nem o Presidente Lula ainda assinou o Decreto de desapropriação definitiva das terras ocupadas há 27 anos. De forma uníssona, ouvimos o clamor: “Não esperaremos mais além de março. Que o presidente Lula tenha a coragem e a sensatez de assinar sem tardar mais o Decreto que já está na mesa do presidente para ser assinado, para assentar definitivamente as quase quinhentas famílias Sem-Terra nas terras da ex-usina Ariadnópolis. Após este Decreto, as famílias poderão acessar vários créditos da Política de Reforma Agrária do Governo Federal.”

Dia 23 de fevereiro, na Aldeia Arapowanã Kakyá, do Povo Indígena Xukuru-Kariri, na fazenda Bruma, em Brumadinho, MG, participamos da celebração dos três anos de Retomada do Território. Dia-a-dia, o Povo Xukuru-Kariri segue se enraizando, florescendo e já colhendo frutos no Território que continua sendo disputado judicialmente pela mineradora Vale S/A. Em 25 famílias, com cinco crianças nascidas na aldeia, com Escola Indígena filial de uma Escola Estadual da cidade de Brumadinho, os Xukuru-Kariri seguem cultivando a terra, plantando hortas comunitárias, fazendo agrofloresta, cuidando das matas e das águas, produzindo lindas peças de artesanato indígena e exigindo que a criminosa reincidente Vale S/A libere pelo menos 165 hectares de território para a Aldeia, o mínimo necessário para comunidade indígena Xukuru-Kariri viver em paz. A Rede de Apoio aos Xukuru-Kariri se ampliou muito. Os povos indígenas Kamakã Mongoió, Puri, Pataxó e os Kaxixó estavam presentes na festa de celebração dos três anos de Retomada, também professores e estudantes de várias universidades, CIMI[3], CPT[4], e aliados/as, de perto e até do México e da Guatemala.

Com o Povo Xukuru-Kariri na celebração dos três anos de luta pelo território, estava também uma representação do povo negro organizado, que sob a liderança de dois mestres de capoeira, partilhou axé, energia de vida, tocou o berimbau, cantou e dançou Capoeira alegrando a todos/as e revelando a presença da ancestralidade e dos bons espíritos que nos guiam. Toca no mais profundo do nosso ser uma roda de Capoeira jogando e cantando: “Abençoa esta aldeia e todo o povo presente… na roda de Capoeira. Abolição custou sangue. Viva Zumbi que foi herói lá em Palmares. O negro se transformou em luta cansado de ser infeliz…” E ver na camiseta a inscrição: “Sou capoeira. Quando o berimbau me chama eu vou…” “A Capoeira foi e continuará sempre sendo resistência a vários tipos de escravidão. Repudiamos a intolerância religiosa que ataca impiedosamente nossos espaços sagrados violando nossa espiritualidade”, disse um veterano mestre de capoeira.

Enfim, a união e o entrosamento dos Povos nas lutas por terra, território e por todos os direitos é o que garantirá que a humanidade tenha futuro. Feliz quem se torna aprendiz dos Povos Indígenas, do Povo Negro e dos Sem-Terra que testemunham pelo seu jeito de lutar o caminho para a construção de uma sociedade justa economicamente, democrática politicamente, socialmente solidária e com responsabilidade socioambiental e geracional. Gratidão aos Povos que caminham coletivamente, esperançando, verdadeiramente, com resiliência, resistência e união! Só assim para alcançar a “terra prometida”, direito de todos e todas.

Viva a luta justa e necessária dos Povos por terra, território e todos seus direitos!

 

¨      Famílias Sem Terra acampadas sofrem ataque violento em Bom Jesus da Lapa (BA)

Por volta das 19h do último domingo, agressores chegaram em um carro de cor cinza e efetuaram disparos de arma de fogo e incendiaram um dos barracos dentro do acampamento. Antes de deixar o local, ainda ameaçaram retornar, intensificando o clima de terror contra as famílias acampadas. Apesar da gravidade do atentado, ninguém ficou ferido. No entanto, o ataque representa mais um episódio da crescente violência contra trabalhadores e trabalhadoras rurais que lutam pelo direito à terra.

O acampamento Egídio Brunetto está localizado na antiga Fazenda Carnayba e abriga cerca de 80 famílias que vivem na área desde 2012. Parte dos 2.580 hectares de terra está registrada em nome de Wellington Coimbra, enquanto outra parte pertence à União, sendo uma área pública sob responsabilidade do Serviço de Patrimônio da União (SPU). Em momentos anteriores, houve interesse por parte do proprietário em negociar a área, porém, com a paralisação da reforma agrária e da obtenção de terras durante o último governo, as terras não foram repassadas ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).

Nos últimos meses, as famílias do acampamento têm sofrido ameaças constantes de pistoleiros e milicianos rurais, que permanecem nas proximidades efetuando disparos e tentando intimidá-las. Na noite do ataque, os criminosos destruíram um barraco e atearam fogo, além de ameaçar incendiar todo o acampamento. Durante a madrugada, houve mais disparos em outro acampamento próximo, com o objetivo de amedrontar e coagir os moradores.

Segundo relatos, os ataques são sustentados por uma empresa de segurança privada, que atua de maneira ilegal na tentativa de realizar reintegrações de posse clandestina. A situação é extremamente delicada, e as famílias estão em estado de alerta, temendo que novos conflitos possam ocorrer a qualquer momento.

Diante desse cenário, é urgente que o governo federal, por meio do INCRA, intervenha imediatamente para intermediar a situação, abrir um processo de negociação e regularizar as terras definitivamente para as famílias Sem Terra. Como parte da área é pública, é fundamental que o Estado assuma a sua responsabilidade e impeça que a violência continue ameaçando a vida e os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais.

Brasil permanece como o terceiro maior exportador mundial de amianto

Apesar do banimento do amianto pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2017, o Brasil permanece como o terceiro maior exportador mundial do minério cancerígeno. Graças a manobras legislativas, a exploração continua em Goiás, mas o problema vai além da mineração: o transporte do amianto é uma ameaça invisível que expõe trabalhadores, comunidades e o meio ambiente aos perigos da fibra mortal.

A mina Cana Brava, em Minaçu (GO), é a única operação de extração de amianto ativa no continente americano. Mesmo com o banimento decretado pelo STF, a mineração segue autorizada por leis estaduais que permitem a exportação até 2029. Essa brecha legal sustenta uma cadeia de produção que movimenta toneladas de amianto para portos no litoral brasileiro, desafiando leis e colocando vidas em risco.

O amianto extraído em Minaçu é transportado por rodovias até portos como Santos (SP), Paranaguá (PR) e Belém (PA). Porém, em estados como São Paulo, o transporte de materiais contendo amianto é proibido por lei. Apesar disso, empresas de transporte continuam operando, muitas vezes violando essas regras. Há registros de apreensões de cargas ilegais e até acidentes envolvendo o minério, resultando em contaminação ambiental e riscos à saúde de comunidades próximas às rotas.

O transporte de amianto representa uma ameaça não apenas para os trabalhadores que lidam diretamente com o material, mas também para as comunidades próximas às estradas e portos. As partículas do minério, conhecidas por causar asbestose e diversos tipos de câncer, podem se espalhar durante o deslocamento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o amianto seja responsável por cerca de 100 mil mortes por ano em todo o mundo.

São Paulo, que abriga o maior porto do país, em Santos, é um dos estados onde o transporte e o armazenamento de amianto são proibidos. Mesmo assim, há registros de cargas chegando ao porto em aparente violação da legislação estadual. A falta de fiscalização efetiva permite que o minério seja exportado para mercados na Ásia, alimentando uma indústria que já foi banida em mais de 60 países.

A persistência do Brasil em permitir a extração e exportação de amianto contraria tendências globais. Recentemente, os Estados Unidos anunciaram a proibição completa do uso do minério. Enquanto isso, o Brasil mantém sua posição de destaque como fornecedor para mercados como a Índia, expondo-se a críticas da comunidade internacional e manchando sua imagem no cenário global.

“A continuidade da exploração e transporte de amianto depende de uma ação mais firme das autoridades”, diz Fernanda Giannasi, fundadora da Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea). Ela ressalta que o transporte de amianto é uma ameaça silenciosa. “Não se trata apenas da mineração; cada carga que sai da mina expõe trabalhadores e comunidades ao risco. A permanência do amianto na cadeia logística brasileira é um reflexo da ineficácia das leis e da falta de fiscalização. Até quando o transporte e a exportação desse minério mortal serão tolerados?”, indaga.

Especialistas defendem que, além de encerrar a mineração, é necessário desmantelar toda a cadeia logística que sustenta o comércio do material, desde o transporte terrestre até a exportação.

<><> Legislação e Proibições

Depois de mais de 30 anos de articulação entre especialistas e organizações que alertam para os riscos que a exploração do amianto impõe à saúde, em 2017 o STF aprovou o banimento completo do produto no país. Mas a lei se mostrou ineficaz: em 2019 a Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) burlou a ordem federal e aprovou a lei estadual Lei nº 20.514, de autoria do Deputado Rubens Marques (União Brasil), para liberar a exportação “enquanto houver capacidade de extração de lavra ou disponibilidade do minério”.

Uma ação de inconstitucionalidade tramita até hoje no STF, que deveria ter apreciado a matéria no último 14 de agosto, mas a suprema corte retirou o item da pauta sem nenhuma explicação. No dia seguinte, a Alego aprovou uma lei protocolada no mesmo dia pelo próprio governo do estado: a lei 22.932 estabelece o generoso prazo de cinco anos para o fim da exploração da fibra em Goiás e, consequentemente, no Brasil. Ambas as leis estaduais foram sancionadas pelo governador Ronaldo Caiado, do União Brasil. O processo ADI 6200 deveria ingressar novamente na pauta do STF em outubro, para discutir a suspensão imediata da atividade econômica, mas foi novamente destacado em 22 de outubro de 2024, ocasião em que o governador Caiado se reuniu com o relator do processo, o ministro Alexandre de Moraes.

A justificativa que ampara essas decisões políticas é o impacto socioeconômico do fim das atividades mineradoras na cidade de Minaçu, que, segundo a Associação Brasileira dos Expostos ao Amianto (Abrea) mantém cerca de 300 postos de trabalho na região de 30 mil habitantes.

<><> Riscos à Saúde e ao Meio Ambiente

O amianto é reconhecido por seus riscos significativos à saúde pública, incluindo doenças respiratórias graves e câncer. A exposição pode ocorrer não apenas durante a extração e uso, mas também durante o transporte, especialmente se não forem seguidas rigorosas medidas de segurança. Além disso, o descarte inadequado de resíduos contendo amianto pode levar à contaminação ambiental, conforme destacado pela Resolução Nº 348 do CONAMA, que classifica esses produtos como resíduos Classe D – perigosos à saúde e que exigem disposição em aterros especiais

 

Fonte: Por Leandro Barbosa, em Agência Pública/Racismo Ambiental/Pagina do MST

 

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