A água chinesa que
você nunca bebeu, mas estraga sua praia preferida
Um avistamento cada
vez mais frequente em praias
brasileiras tem intrigado banhistas.
Uma garrafa plástica com
rótulo vermelho e a imagem de um lago com montanhas ao fundo está virando parte
da paisagem em vários balneários do país — inclusive em praias idílicas de
grande apelo para o turismo.
A embalagem, porém,
só é fabricada do outro lado do mundo, na China.
A água mineral
Nongfu Spring é uma das maiores marcas chinesas do setor de bebidas. Seu dono,
o empresário Zhong Shanshan, já ocupou o posto de homem mais rico da China.
Apesar de não ser
vendida no Brasil, a embalagem da água chinesa virou um dos itens mais comuns
encontrados no lixo que
polui as praias brasileiras.
Segundo Alexander
Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP)
e especialista em poluição marinha, as embalagens foram descartadas por navios.
"Muitos navios
jogam no mar as embalagens de produtos consumidos por suas tripulações",
diz Turra.
Como a China domina
o comércio marítimo
global, o lixo chinês também está se espalhando pelos mares — e há cada vez
mais sinais disso no Brasil, prossegue o professor.
As sucessivas
aparições da água Nongfu Spring no litoral brasileiro são uma consequência
desse processo.
A BBC News Brasil
teve uma amostra do problema após publicar, em 9 de fevereiro, um vídeo sobre o lixo estrangeiro encontrado
em uma praia de Natal, no Rio Grande do Norte.
Postado no
Instagram, o vídeo mostrava embalagens de produtos achados em uma curta
caminhada pela praia do Segredo, vizinha ao Parque das Dunas.
A maioria dos itens
havia sido fabricada na Ásia,
principalmente na China, mas também em países como Malásia, Cingapura, Emirados Árabes Unidos e Indonésia.
Vários leitores
então enviaram à BBC vídeos e fotos de produtos estrangeiros que eles também
disseram ter encontrado em praias brasileiras.
A água Nongfu
Spring foi o item achado com maior frequência, com registros dela em praias da
Bahia, Ceará, Maranhão, Paraná e Rio Grande do Norte.
"Essa é a que
mais tem, disparado", disse, apontando para uma embalagem de Nongfu
Spring, o leitor Bruno Campos, em vídeo gravado na praia do Preá, em Cruz (CE).
Campos tem um
perfil no Instagram (@LimpezadePraias) onde registra suas visitas a praias
brasileiras para coletar lixo e enviá-lo à reciclagem.
Ele encontrou
embalagens de Nongfu Spring em várias praias diferentes - inclusive no Parque
Nacional de Jericoacoara (CE), um dos balneários mais badalados do país.
Na ilha de
Itaparica (BA), o leitor Felipe Peixoto também encontrou uma garrafa da Nongfu
Spring e traduziu seu rótulo com a ajuda do celular.
"É
naturalmente derivada de águas profundas do lago Wan", ele leu a tradução,
"uma zona de proteção de fontes de água de primeiro nível, com uma área de
370 quilômetros quadrados".
"É, mas a
garrafinha veio parar aqui, numa pequena ilha com só 1 quilômetro de
raio", prosseguiu Peixoto, lamentando o achado.
<><> 'Mais
altos padrões de sustentabilidade'
Em seu site, a
Nongfu Spring diz ser "a maior fornecedora de água engarrafada da China,
ocupando o primeiro lugar em market share e sendo uma das 20 principais
companhias de bebida" do país.
A NongFu Spring
afirma ainda que "possui a linha de produção de água potável mais avançada
do mundo", e que suas operações seguem os "mais altos padrões de
qualidade e sustentabilidade".
A filosofia da
empresa é "nunca use água encanada", e a companhia também produz chás
e sucos.
Ela foi fundada
pelo empresário Zhong Shanshan em 1996, em Zhejiang, na China. Apelidado de
"Lobo Solitário", Zhong disputa o posto de homem mais rico da China
com Ma Huateng, criador do principal aplicativo chinês de mensagens, o WeChat.
Em fevereiro de
2025, um ranking da agência de notícias Bloomberg mostrava Ma e Zhong quase
empatados, com fortunas de US$ 56,2 bilhões (R$ 320,7 bilhões) e US$ 56,1
bilhões (R$ 320,1 bilhões), respectivamente.
A BBC perguntou à
Nongfu Spring se a empresa sabe que suas embalagens estão poluindo praias no
Brasil — e se a companhia tem alguma iniciativa para reduzir a poluição por
plástico no mundo.
Mas a Nongfu Spring
não respondeu.
Em um anúncio
publicitário recente, a empresa diz que 99% dos materiais que usa em embalagens
plásticas são recicláveis. E afirma que, em 2021, a companhia reciclou quase 2
milhões de galões de água, transformando-os em acessórios para computadores,
peças de carros e outros produtos.
"Estamos
colaborando com associações industriais, universidades e institutos de pesquisa
para explorar caminhos sustentáveis adicionais para a reciclagem de embalagens
de alimentos", diz um executivo da empresa, no anúncio.
A Nongfu Spring
talvez seja a marca asiática mais comum nas praias brasileiras, mas está longe
de ser a única. O vídeo da BBC sobre o "cemitério" de lixo asiático
em uma praia de Natal recebeu mais de 6 mil comentários, muitos deles apontando
a existência do mesmo problema em outras praias do país.
Imagens de leitores
com os itens que eles encontraram revelam uma grande variedade de produtos
fabricados no exterior no lixo que polui praias brasileiras. A lista inclui
itens feitos no exterior mas que pertencem a marcas conhecidas no Brasil, como
Coca-Cola, Fanta e Pepsi.
Com base nas
mensagens, a BBC elaborou um mapa com todos os municípios onde leitores
disseram já ter encontrado lixo estrangeiro. Vários municípios foram citados
mais de uma vez.
Os lugares
mencionados abarcam 15 dos 17 Estados brasileiros que ficam no litoral. Os
registros começam na região Norte, em Algodoal (PA), e chegam ao extremo sul do
país, no Chuí (RS).
Também foram
mencionados arquipélagos e ilhas reconhecidos como santuários ecológicos — como
Fernando de Noronha (PE), Ilha do Cardoso (SP) e Ilha do Mel (PR).
Os únicos Estados
litorâneos sem registros foram Amapá e Sergipe.
<><> De
onde vem o lixo?
Desde 1972,
resoluções internacionais proíbem o descarte de lixo não orgânico no mar.
Mesmo assim,
segundo o oceanógrafo da USP Alexander Turra, muitos navios violam as regras.
Ele diz que muitas
embarcações jogam no mar produtos consumidos por sua tripulação, como itens de
limpeza, garrafas e embalagens de alimentos.
Isso acontece
porque, segundo ele, muitos navios não separam o lixo orgânico do lixo plástico,
descartando todos os resíduos no mar para evitar o mau cheiro.
Há ainda navios
que, segundo Turra, jogam o lixo no mar para economizar em uma taxa que os
portos cobram para coletar os resíduos. Quanto maior a quantidade de lixo
coletado, maior a taxa.
Contatada pela BBC,
a Associação de Donos de Navios Asiáticos (ASA, na sigla em inglês) disse
considerar "altamente deplorável" o descarte de lixo na costa
brasileira e promover "práticas de navegação ambientalmente
responsáveis".
A ASA diz
representar 52% da frota de navios mercantes do mundo.
No Brasil, a missão
de combater a poluição em praias e águas costeiras cabe a diferentes órgãos de
governo.
O órgão responsável
por definir diretrizes sobre taxas e tarifas em portos é a Agência Nacional de
Transportes Aquaviários (Antaq), ao passo que a regulação do setor portuário
está a cargo do Ministério de Portos e Aeroportos.
A Antaq não
respondeu aos questionamentos da BBC. Já o ministério disse que os portos
brasileiros seguem "as melhores práticas globais" sobre gestão do
lixo.
Questionado sobre a
proposta de estabelecimento de uma taxa fixa para o descarte de lixo por
navios, o ministério disse que as normas atuais sobre tarifas seguem
"critérios técnicos e econômicos", mas que mantém "diálogo com
agentes do setor para identificar oportunidades de aprimoramento dentro do
marco regulatório existente".
O Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) é o
órgão federal responsável pela proteção ambiental em praias e zonas costeiras.
O Ibama não
respondeu à BBC se adota medidas contra o descarte de lixo por navios, mas
disse que "a competência para efetuar a limpeza rotineira das praias é
municipal".
A Marinha, que tem
a atribuição de fiscalizar navios em águas brasileiras, disse que
"fiscaliza nossos mares e rios de forma ininterrupta e, quando toma
conhecimento de infrações ambientais de sua competência, promove a instauração
de processo administrativo ambiental, a fim de punir os infratores".
Segundo a Marinha,
mudanças legais no início dos anos 2000 ampliaram as punições para embarcações
que poluam o mar, "com multas que podem chegar até R$ 50 milhões".
<><> O
que fazer?
Turra diz que
diferentes ações podem ajudar a combater o problema.
A primeira seria
cobrar taxas fixas para a coleta de lixo nos portos. Assim, navios que joguem o
lixo no mar não teriam como economizar na taxa.
Outra ação seria
monitorar os produtos consumidos nos navios, comparando o volume de itens
comprados em um porto com a quantidade de lixo entregue no porto seguinte.
Discrepâncias
indicariam que o navio descartou o lixo no mar e deveria ser multado, defende
Turra.
Mas ele afirma que
a adoção dessa medida precisaria do aval da Organização Marítima Internacional
(OMI), entidade que regula o comércio marítimo global e tem sede em Londres.
Questionada pela
BBC se considera adotar a medida, a OMI não respondeu até a publicação desta
reportagem.
Em mensagem
anterior, a entidade disse atuar há quase 30 anos no combate ao lixo marítimo e
disse que o Brasil é um dos participantes de seu programa GloLitter.
Financiada pela
Noruega, a iniciativa busca difundir boas práticas e treinar agentes públicos para
o combate ao lixo plástico nos oceanos.
Turra diz ainda que
os armadores —- empresas que operam os navios cargueiros — também devem se
responsabilizar pelo problema.
Ele cobra as
empresas a equipar os navios com aparelhos de compactação e reciclagem dos
resíduos gerados nas viagens.
E Turra defende o
engajamento de todas as empresas envolvidas na produção e venda dos itens que
viram lixo nos mares —- da petrolífera que extrai a matéria-prima do plástico
até as fornecedoras dos navios, passando pelas grandes marcas dos setores de
bebidas, alimentos e produtos de limpeza.
Segundo ele, cada
empresa nesse circuito pode definir que só venderá seus produtos para
companhias e armadores certificados por boas práticas — garantindo, assim, que
todo lixo gerado nessa cadeia terá o destino adequado.
"Assim você
cria uma forma de elas [empresas] se diferenciarem do mainstream", ele
diz.
Por fim, Turra
cobra uma maior repressão internacional a navios da shadow fleet (frota
sombra), como são conhecidos os cargueiros que não seguem normas de navegação e
são operados por empresas de fachada.
Segundo ele, as
embarcações são normalmente usadas por países sob sanções internacionais — como
Irã, Rússia e Coreia do Norte — para driblar as restrições a seu comércio, já
que os navios desligam seus aparelhos de rastreamento.
Um navio grego
pertencente a essa frota foi apontado como o principal suspeito pelo grande
vazamento de óleo que atingiu praias do Nordeste do Brasil, em 2019.
Navios com essas
características podem ser multados pela Marinha, responsável pela fiscalização
de embarcações em águas brasileiras.
Mas, como destaca
Turra, eles podem viajar por águas internacionais ao largo da costa brasileira
— e o lixo que descartam no trajeto pode alcançar o Brasil levado por correntes
marítimas.
Fonte: BBC News
Nenhum comentário:
Postar um comentário