O teatro da
paz na Ucrânia e o genocídio fora dos holofotes
A guerra na Ucrânia se tornou, mais do que um campo de batalha, um palco
de distração geopolítica. Enquanto o mundo volta suas atenções para as
negociações entre Donald Trump e Vladimir Putin, Israel avança com seu projeto
de genocídio contra o povo palestino, agora intensificado na Cisjordânia. O
cenário não poderia ser mais conveniente: enquanto se discute exaustivamente a
"paz na Ucrânia", Tel Aviv aprofunda sua estratégia de expulsão e
massacre, sem a pressão de um escrutínio internacional significativo. A
manipulação do noticiário global não é novidade nas disputas imperialistas, mas
a conjuntura atual apresenta um caso emblemático de diversionismo. O debate
sobre o futuro da guerra no leste europeu tomou a mídia mainstream e grande
parte da alternativa, transformando o conflito em um espetáculo que esvazia
qualquer análise materialista sobre os reais interesses envolvidos. O que se vê
não é um esforço sincero por paz, mas uma manobra para esconder outra guerra —
uma guerra genocida, na qual Israel, com a anuência dos EUA, avança na
consolidação de sua ocupação total sobre Gaza e a Cisjordânia.
Ao mesmo tempo, Trump, um político neonazista que construiu sua carreira
no nacionalismo chauvinista e no alinhamento com o sionismo mais agressivo, é
alçado à posição de "pacificador". Essa construção narrativa não é
casual: ela beneficia Israel, que se aproveita da distração global para
expulsar mais palestinos e consolidar sua anexação territorial, e beneficia o
trumpismo, que ganha um protagonismo geopolítico conveniente. Enquanto a comunidade
internacional debate os rumos da Ucrânia e as consequências para a Europa,
Washington e Tel Aviv executam um plano bem definido — um plano que envolve a
apropriação de Gaza para futuros empreendimentos ocidentais e a tomada
definitiva da Cisjordânia, transformando a Palestina em uma terra sem povo para
um projeto colonial de ocupação. Diante desse cenário, a pergunta que se impõe
é: por que a esquerda global e até parte da mídia progressista caem nessa
armadilha? Por que insistem em se perder em debates infrutíferos sobre uma paz
na Ucrânia que, na prática, não se concretiza, enquanto ignoram o massacre de
um povo inteiro? O objetivo deste artigo é evidenciar como essa distração
midiática serve para consolidar o neofascismo global, fortalecer o sionismo
expansionista e legitimar, sob a retórica da "realpolitik", a
destruição da Palestina.
·
A guerra na
Ucrânia como diversionismo global
O conflito na Ucrânia, desde o início, foi um tabuleiro onde os
interesses das grandes potências se sobrepuseram a qualquer preocupação genuína
com a soberania ou autodeterminação. No entanto, à medida que a guerra se
prolonga e a Europa se desgasta política e economicamente, os EUA e seus
aliados perceberam que o tema poderia ser instrumentalizado de outra forma:
como um teatro de distração. A recente reentrada de Donald Trump no debate
internacional sobre a paz na Ucrânia não tem nada a ver com o fim da guerra ou
uma solução diplomática realista, mas sim com um movimento estratégico para
desviar a atenção global do verdadeiro epicentro da barbárie contemporânea — o
genocídio palestino. A lógica da guerra como espetáculo midiático é simples e
eficaz. O establishment político e os veículos de comunicação mantêm o público
preso a discussões cíclicas sobre a Ucrânia, criando uma falsa polarização
entre um ocidente "liberal" e uma Rússia "autocrática",
enquanto eventos de maior gravidade são deliberadamente ofuscados. Nesse
contexto, Israel encontra o cenário ideal para acelerar seu projeto de ocupação
total da Palestina. Enquanto analistas, jornalistas e políticos se debruçam
sobre as falas de Trump e Putin, o governo de Netanyahu avança sem obstáculos
na Cisjordânia, ampliando assentamentos ilegais, intensificando o deslocamento
forçado e destruindo qualquer resquício de resistência Palestina.
O desvio de foco é tão descarado que se torna ridículo: ao mesmo tempo
em que Trump é apresentado como um estadista capaz de costurar acordos
internacionais, Israel prossegue com bombardeios a Gaza e a repressão brutal na
Cisjordânia. Essa estratégia, contudo, não é apenas obra do governo sionista —
ela conta com o respaldo ativo da máquina de poder estadunidense, que vê na
destruição total da Palestina um campo fértil para sua própria expansão
econômica e geopolítica. O trumpismo, cada vez mais conectado a setores
ultraconservadores do capital, vislumbra Gaza como um espaço para futuros
empreendimentos ocidentais, explorando a reconstrução da região sob um modelo
de controle absoluto de Israel e de corporações estadunidenses. Mais uma vez, a
grande mídia cumpre seu papel de legitimadora do espetáculo. Enquanto manchetes
exaltam Trump e suas promessas de pacificação, os crimes israelenses
desaparecem do noticiário, reduzidos a meras notas de rodapé. A extrema-direita
internacional, por sua vez, se aproveita dessa manipulação para promover uma
reabilitação ideológica: Trump deixa de ser visto como o líder reacionário que
destruiu direitos civis nos EUA e tentou um golpe de Estado, passando a ser
retratado como um pragmático capaz de resolver impasses globais. Israel, por
sua vez, continua seu projeto colonial, protegido pelo silêncio cúmplice da
ordem internacional.
O verdadeiro objetivo desse diversionismo não é apenas encobrir crimes
de guerra, mas também consolidar a narrativa de que o mundo precisa da
liderança autoritária de Trump e de seus aliados para garantir estabilidade.
Trata-se de um golpe discursivo que reforça a ascensão do neofascismo global,
normaliza o sionismo expansionista e neutraliza qualquer possibilidade de
mobilização real contra o massacre palestino. O campo progressista, no entanto,
parece ignorar essa estratégia. Enquanto parte da esquerda se envolve em
debates intermináveis sobre as negociações entre Rússia e EUA, a questão
Palestina vai sendo apagada do imaginário coletivo. A consequência disso é
brutal: sem pressão internacional, Israel tem total liberdade para executar seu
plano de erradicação da Palestina sem encontrar resistência significativa.
·
Israel
aprofunda o genocídio na Cisjordânia e Gaza
Enquanto as manchetes globais repetem incessantemente as movimentações
de Trump e Putin sobre a Ucrânia, Israel executa a próxima fase de seu projeto
de erradicação da Palestina, agora com foco renovado na Cisjordânia. O massacre
em Gaza já se consolidou como um dos maiores crimes de guerra do século XXI,
mas Tel Aviv não pretende parar por aí: sem a pressão do noticiário
internacional, a ocupação e o deslocamento forçado de palestinos na Cisjordânia
avançam rapidamente. Desde o início de 2024, mais de 40 mil palestinos foram expulsos
de suas terras, um movimento que aponta para uma anexação total e definitiva. O
que está acontecendo na Cisjordânia não é apenas uma escalada de violência, mas
uma fase final do colonialismo sionista: a eliminação completa da presença
Palestina. A expansão dos assentamentos ilegais segue sem qualquer barreira,
protegida por um exército que reprime qualquer tentativa de resistência com
assassinatos sistemáticos. Enquanto isso, as forças israelenses destroem
infraestrutura básica, como sistemas de abastecimento de água, hospitais e
escolas, tornando a vida Palestina impossível. A estratégia é clara: expulsar
os habitantes por exaustão, garantindo que, em poucos anos, a Cisjordânia
esteja irreversivelmente dominada por colonos israelenses.
O próprio governo Netanyahu não esconde seus objetivos. Em declarações
recentes, representantes da extrema-direita israelense falam abertamente sobre
a necessidade de “resolver” a questão palestina de forma definitiva. O que isso
significa na prática? Um etnocídio lento, conduzido pelo bloqueio de recursos,
pela destruição da economia palestina e pelo avanço incessante da ocupação
militar. Enquanto o mundo discute a geopolítica europeia, Israel desenha seu
"mapa final" do que antes era a Palestina. A situação em Gaza, por
sua vez, se agrava sob um silêncio cada vez mais ensurdecedor. O suposto
cessar-fogo negociado pela comunidade internacional nunca passou de um blefe.
Na realidade, Netanyahu sabota deliberadamente qualquer possibilidade de
trégua, pois a continuidade da guerra serve a seus interesses políticos
internos e externos. Internamente, ele mantém o apoio da extrema-direita
israelense e afasta a ameaça de um colapso governamental. Externamente, usa o
caos na Ucrânia para seguir com os bombardeios e o estrangulamento econômico de
Gaza sem ser perturbado pela pressão diplomática.
Ao mesmo tempo, os EUA enxergam na destruição da Palestina uma
oportunidade econômica. O trumpismo, alinhado ao setor mais predatório do
capitalismo global, já visualiza Gaza como um território pronto para ser
reestruturado sob controle estrangeiro. Empresas estadunidenses e israelenses
esperam transformar a região em um enclave comercial dominado por corporações,
eliminando qualquer possibilidade de autodeterminação palestina. Não se trata
apenas de apoio militar a Israel, mas de um projeto explícito de colonização
econômica, com a conivência de Washington. Diante desse cenário, a ONU e os
organismos internacionais assistem passivamente. A ausência de uma resposta
concreta reforça a percepção de que o sistema global está falido, incapaz de
conter crimes contra a humanidade quando eles são patrocinados por potências
ocidentais. O silêncio da mídia e dos governos não é um acaso — é uma decisão
política de permitir que Israel conclua sua missão de erradicação do povo
palestino sem resistência significativa. E o que faz o campo progressista
diante disso? Desperdiça tempo discutindo uma falsa paz na Ucrânia, incapaz de
enxergar o verdadeiro teatro da guerra que se desenrola na Palestina.
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Trump, o
"pacificador" e o abrandamento do neofascismo
A encenação diplomática de Donald Trump na questão ucraniana não é
apenas um exercício de diversionismo geopolítico, mas também uma operação
sofisticada de reabilitação da extrema-direita global. Ao se posicionar como o
arquiteto de uma suposta paz entre Ucrânia e Rússia, Trump se reconstrói
perante a opinião pública como um líder pragmático e conciliador, apagando sua
trajetória de desestabilização institucional, ataques à democracia e flerte
aberto com o autoritarismo. Esse abrandamento da imagem do ex-presidente
norte-americano não acontece por acaso: ele serve para consolidar o poder em um
eixo global de governos neofascistas, alinhados ao mesmo projeto de destruição
do multilateralismo e fortalecimento de políticas supremacistas. Israel se
beneficia diretamente desse teatro, pois Trump sempre foi um aliado
incondicional do sionismo expansionista. Durante sua administração, ele
concretizou avanços fundamentais para o projeto colonial israelense, como a mudança
da embaixada dos EUA para Jerusalém e o reconhecimento das Colinas de Golã como
território de Israel. Agora, com sua suposta cruzada pela paz, ele desvia os
holofotes das atrocidades em Gaza e na Cisjordânia, garantindo que Netanyahu
continue sua política genocida sem enfrentar resistência significativa da
comunidade internacional.
A grande mídia, sempre cúmplice dessas operações, reforça a narrativa do
Trump "racional" e de Zelensky "tóxico", promovendo a ideia
de que apenas um líder forte e "realista" como o ex-presidente
republicano pode resolver conflitos globais. Essa abordagem não apenas ignora
os interesses imperialistas por trás dessa movimentação, mas também desarma
qualquer resposta efetiva contra a ascensão da extrema-direita. A Europa, humilhada
e fragilizada, se torna um espectador impotente, enquanto Israel e os EUA
avançam sem oposição real. O mais perverso desse processo é que setores da
esquerda global parecem não perceber a armadilha. Muitos embarcam na
ridicularização da Ucrânia e da União Europeia sem perceber que, ao fazer isso,
estão fortalecendo a imagem de Trump e, por tabela, legitimando a continuidade
do massacre na Palestina. Ao transformar a discussão sobre a guerra na Ucrânia
em um espetáculo cínico, grande parte do campo progressista contribui, mesmo
que involuntariamente, para o silenciamento da luta palestina e para a
consolidação de uma nova ordem global onde o neofascismo dita as regras sem
encontrar resistência significativa.
·
O campo
progressista e a miopia estratégica
Diante do avanço da extrema-direita global, da destruição da Palestina e
da reabilitação política de Donald Trump, era de se esperar que o campo
progressista tivesse uma leitura tática clara da conjuntura. Mas não. Em vez de
compreender o diversionismo midiático e geopolítico em curso, grande parte da
esquerda mundial está presa em debates superficiais sobre a "paz na
Ucrânia" e as fragilidades da União Europeia, sem perceber que essa
distração apenas fortalece os verdadeiros arquitetos da nova ordem autoritária.
O erro fundamental é a incapacidade de enxergar que a reabilitação de Trump não
é um fenômeno isolado, mas parte de um projeto amplo que inclui a expansão
sionista e o enfraquecimento das instituições internacionais. Enquanto se
ridiculariza a Europa, se satiriza Zelensky e se finge surpresa com a
desmoralização da ONU, Israel avança sem resistência sobre a Cisjordânia e os
EUA consolidam sua posição para transformar Gaza em um enclave econômico sob
controle ocidental. A esquerda, em sua maioria, se comporta como se estivesse
assistindo a um jogo de tabuleiro, onde ironias sobre a decadência europeia e
memes sobre as negociações entre Trump e Putin substituem qualquer estratégia
real de enfrentamento ao fascismo global. Em vez de desmascarar a farsa da
"paz na Ucrânia" e expor o verdadeiro objetivo dessa narrativa —
garantir uma cortina de fumaça para o genocídio palestino —, parte da esquerda
alternativa gasta tempo replicando a mesma tática diversionista da mídia
mainstream.
O problema não é apenas a cegueira diante dos movimentos de Trump e
Israel, mas também a total ausência de resposta prática. Enquanto Tel Aviv
consolida sua ocupação, as mobilizações progressistas se tornam cada vez mais
fragmentadas e ineficazes, limitadas a denúncias esparsas e indignação
performática. O resultado disso é que, enquanto a direita global avança com
projetos concretos de dominação e extermínio, a esquerda perde tempo debatendo
cenários fictícios e celebrando derrotas simbólicas da OTAN, como se isso
significasse alguma vitória real para os povos oprimidos. Se há algo que a
história ensina, é que a extrema-direita opera com objetivos claros e ação
direta, enquanto a esquerda, quando não está dividida, se perde em armadilhas
discursivas. O diversionismo atual não apenas facilita o genocídio palestino,
mas também pavimenta o caminho para uma nova fase da dominação imperialista,
onde Israel e os EUA terão ainda mais liberdade para impor sua ordem sobre
territórios estratégicos. E, ironicamente, essa nova configuração será consolidada
sob os olhos de uma esquerda que, em vez de combater a farsa, escolheu rir
dela.
·
Ou seja…
O mundo assiste, distraído, à reabilitação política de Donald Trump e à
sua encenação como mediador de uma suposta paz na Ucrânia. Enquanto isso,
Israel avança sem resistência na destruição final da Palestina. O massacre em
Gaza, já escancarado, agora se expande para a Cisjordânia, onde mais de 40 mil
palestinos foram expulsos de suas terras só em 2024. Essa escalada genocida
ocorre sem pressão internacional, protegida pelo silêncio cúmplice de governos,
pela inércia da ONU e, acima de tudo, pelo diversionismo midiático que desloca
o foco global para um espetáculo geopolítico controlado. O trumpismo não age
sozinho. O projeto de dominação global que o ex-presidente representa está
profundamente entrelaçado com os interesses do sionismo expansionista e do
grande capital. O desmonte da ONU, comemorado ingenuamente até por setores
progressistas, apenas fortalece esse arranjo, criando as condições perfeitas
para um mundo onde a força militar e o capital corporativo ditam as regras sem
qualquer regulação ou resistência institucional. Israel e os EUA sabem que não
precisam mais fingir que respeitam o direito internacional — basta controlar a
narrativa, desviar os holofotes e manter a opinião pública ocupada com
distrações convenientes.
E o que faz a esquerda diante disso? Em grande parte, cai na armadilha.
Perde-se em debates estéreis sobre a irrelevância da União Europeia,
ridiculariza a crise na Ucrânia como se fosse apenas um embaraço ocidental e
ignora que, enquanto ri, Israel consolida sua ocupação e os EUA preparam o
terreno para transformar Gaza em um território controlado por suas corporações.
Não há qualquer vitória nesse cenário para os povos oprimidos — há apenas a
reafirmação da brutalidade imperialista sob uma nova roupagem, agora legitimada
pela distração coletiva. A questão não é se Trump conseguirá ou não firmar um
acordo de paz na Ucrânia, pois essa paz nunca foi o objetivo real. A verdadeira
pergunta é: por quanto tempo mais o campo progressista seguirá preso a essa
encenação, enquanto um genocídio acontece diante dos nossos olhos? Israel já
entendeu a resposta — e está se aproveitando disso.
Fonte: Por Reinaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247
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