quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Atraso na votação do Orçamento aumenta desgaste entre governo e Congresso

O atraso na votação do Orçamento de 2025, que, pela Constituição deveria ter sido aprovado em dezembro do ano passado, tem aumentado o desgaste entre o Congresso e o governo. Nenhum dos dois poderes quer assumir a conta da demora.

Sem a conclusão do Orçamento, o governo só pode gastar com despesas discricionárias 1/12 por mês. A divisão não é feita por programa, mas por órgão, o que significa que cada ministério pode acelerar ou atrasar o que quiser.

A votação não aconteceu no ano passado por conta do imbróglio para liberar emendas depois do bloqueio feito pelo Supremo Tribunal Federal (STF). E parlamentares a par das negociações dizem, reservadamente, que a análise agora também vai depender do resultado de uma reunião marcada para quinta-feira (27) com os chefes dos Três Poderes para discutir sobre esses recursos.

Nesta segunda-feira (24), a Comissão Mista de Orçamento (CMO) marcou para o dia 11 de março uma sessão para analisar a matéria. Mas a expectativa é que seja apenas o início da discussão, que pode se estender até o dia 17 de março. Em seguida, o plenário do Congresso ainda precisa analisar o texto.

De um lado, integrantes do Executivo têm responsabilizado os parlamentares pela demora na análise. De outro, deputados e senadores dizem que a equipe econômica mandou uma “peça de ficção” no projeto de lei orçamentária enviado em agosto, com valores muito mais baixos do que o necessário.

Com isso, programas como o Auxílio Gás e o Pé de Meia foram impactados - este último chegou a ser suspenso pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que deu um prazo de 120 dias para o governo incluir o valor real no Orçamento.

No projeto encaminhado pelo Executivo, o Pé de Meia tem R$ 1 bilhão reservado, embora seu custo real possa chegar a R$ 15 bilhões. O governo contava que poderia usar recursos de fundos educacionais, o que foi barrado pelo TCU.

Já o Auxílio Gás tem R$ 600 milhões programados, mas deve consumir R$ 3,4 bilhões. O tema ainda não chegou à corte de contas, mas os valores extras também precisarão ser incluídos no Orçamento.

O relator do Orçamento, senador Ângelo Coronel (PSD-BA), reclama que não foi procurado por ninguém da equipe econômica para fazer ajustes.

“Se não houver o 'vale gás', não quero que o governo venha botar a culpa na CMO. Estou sendo condescendente, aguardando a equipe econômica entrar em contato. Sempre estive aberto para receber técnicos para ajustar pé-de-meia, vale gás, mas infelizmente nunca fui procurado”, afirma.

Outro ponto de desgaste foi a suspensão do Plano Safra, o maior programa de crédito rural do país, que inclui linhas para pequenos, médios e grandes produtores.

Após reclamação da bancada ruralista e de agricultores, o governo decidiu editar uma medida provisória para liberar R$ 4 bilhões e destravar as linhas de crédito. Mas o desgaste já estava dado e os parlamentares sentiram que a suspensão foi uma forma de jogar a culpa no Congresso.

Um dia depois do anúncio da suspensão, o presidente da CMO, Júlio Arcoverde (PP-PI), soltou uma nota dizendo ver “com estranheza declarações de integrantes do primeiro escalão do Governo Federal ao colocar na conta da CMO a não aprovação do Orçamento 2025 até o momento”.

“Se houve desinteresse em votar o Orçamento no ano passado foi do próprio Palácio do Planalto, em face das confusões jurídicas provocadas pelo STF”, disse Arcoverde, em referência ao imbróglio causado pelo bloqueio das emendas parlamentares. É sabido que parte do Congresso acredita que o Executivo tem responsabilizada conjunta com o STF na suspensão do pagamento destes recursos.

Reservadamente, um parlamentar diz que o Congresso precisa encontrar uma solução para o projeto “totalmente fora da realidade” enviado pela equipe econômica. E reclama que a situação deixa os parlamentares em uma “saia-justa”, já que eles não querem ser responsáveis por impactar programas populares como o Pé-de-Meia, o Auxílio Gás e o Plano Safra.

“Fizeram um orçamento fora da realidade e querem arranjar um bode expiatório. Essa prática de sempre culpar o Congresso não está colando”, disse.

¨      Comissão marca para 11 de março início da análise do Orçamento 2025

O presidente da Comissão Mista de Orçamento (CMO), deputado Júlio Arcoverde (PP-PI), marcou para o dia 11 de março o início da análise do Orçamento de 2025 no colegiado. A votação final do parecer no colegiado deve ocorrer na semana seguinte.

Depois desta etapa, o texto ainda precisará passar por votação no plenário do Congresso Nacional, em sessão conjunta de deputados e senadores. A data precisa ser definida pelo presidente Davi Alcolumbre (União-AP).

O Orçamento de 2025 deveria ter sido votado até o final de 2024, mas um impasse envolvendo a liberação de emendas parlamentares travou a análise do texto.

Neste início de ano, mais um ingrediente entrou na conta para a votação do Orçamento: a reforma ministerial do governo Lula, que promete abrir mais espaço para partidos de centro na Esplanada, mas que ainda não saiu do papel.

Com isso, o governo iniciou o ano com gastos reduzidos a 1/12 do previsto para o ano inteiro na Lei de Diretrizes Orçamentárias.

Essa redução motivou a suspensão das linhas de crédito do Plano Safra 2024/2025. Para contornar o problema, o governo decidiu editar uma medida provisória para garantir a continuidade do programa.

Na semana passada, após críticas de integrantes do governo sobre a demora na aprovação do Orçamento pelo Legislativo, o presidente da Comissão Mista de Orçamento disse que o texto ainda não havia sido votado por desinteresse do próprio Executivo.

Em nota, Arcoverde disse ver “com preocupação esse impasse, pois penaliza municipios, agricultores e atrasa o cronograma de inúmeras obras em todo o país, essenciais para a melhoria da qualidade de vida de milhões de brasileiros”.

“A CMO sempre esteve e está pronta e disposta a cumprir sua missão legislativa, garantindo uma peça Orçamentária exequível e realista”, afirmou.

<><> Emendas parlamentares

Na quinta-feira, parlamentares devem se reunir com o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, responsável pelas decisões que impuseram regras para dar mais transparência à indicação e execução das emendas.

Deputados ouvidos pelo g1 dizem que a definição sobre o ritmo de liberação das emendas está atrelada à votação do Orçamento.

Líderes da oposição e mesmo da base governista afirmam que não há disposição em suas bancadas partidárias para tratar de projetos de maior impacto enquanto não ficar claro como será o ritmo de pagamento das verbas.

Outro ponto que incomoda sobre são as regras impostas por Dino. Parlamentares dizem concordar com a “transparência” na indicação e execução das verbas, mas querem um “ajuste fino” nas determinações do ministro.

¨      Como o governo se prepara para receber a COP 30

O Brasil sediará em novembro deste ano a 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP 30), em Belém (PA), e precisará adotar uma série medidas em diversos setores para garantir a realização do evento, considerado o maior do mundo na área ambiental.

De acordo com o presidente da COP 30, o diplomata André Corrêa do Lago, são esperados na conferência representantes de mais de 190 países. A organização do evento estima que, somente durante a Cúpula de Chefes de Estado, o principal momento do encontro, 12 mil pessoas deverão estar presentes.

Entre os desafios que se colocam para o país, segundo a missão da Organização das Nações Unidas (ONU) que visitou Belém, estão, por exemplo:

·        🏢infraestrutura;

·        🚌transporte;

·        🏨rede hoteleira;

·        👮🏻‍♂️segurança.

Nesse contexto, o secretário extraordinário da Casa Civil responsável pela COP 30, Valter Correia, apresentou nesta semana em Brasília quais são as medidas que o país pretende adotar ao longo dos próximos meses e também durante a conferência.

De acordo com o governo federal, devem ser adotadas as seguintes medidas:

·        investimento de R$ 6 bilhões em obras de infraestrutura;

·        destinação de R$ 300 milhões para modernizar e ampliar a rede hoteleira;

·        utilização de dois navios de cruzeiro como hotéis para as delegações (no Porto de Outeiro);

·        contato com a rede hoteleira para coibir "abusos" nos preços cobrados;

·        busca de embaixadas para tirar dúvidas sobre a logística e a segurança na cidade;

·        reforma do aeroporto;

·        construção de terminais hidroviários;

·        criação de faixas exclusivas e inversões de tráfego;

·        incentivos ao home office durante o evento.

·        'Melhor COP da história'

No último dia 14, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) esteve em Belém para acompanhar o andamento das obras na cidade para receber o evento internacional.

Principal defensor da organização da COP em Belém nos fóruns internacionais, o presidente tem dito que os líderes mundiais costumam dizer que é preciso defender a Amazônia, mas precisam conhecer a região para saber quais propostas devem ser efetivamente apresentadas e discutidas.

"Eu saio daqui com a certeza que a gente vai fazer a melhor COP já realizada na história. Todas as COPs têm como tema central a Amazônia. [...] Essa COP vai ser na Amazônia para vocês conheceram a Amazônia tal como ela é. Conhecer o povo do Pará, tal como eles são", disse Lula após a visita do dia 14.

<><> Saída dos EUA de acordo pode impactar negociações

Em entrevista publicada no último dia 30 no site oficial da COP 30, André Corrêa do Lago disse que a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris pode impactar as decisões do encontro em Belém.

·        🔎Assinado em 2015, o Acordo de Paris é um tratado que tem como objetivo principal manter o aquecimento global do planeta abaixo de 2°C até o final do século e buscar esforços para limitar esse aumento a até 1.5°C.

Especialistas alertam que, como os Estados Unidos são a maior economia do mundo e o segundo maior emissor de gases de efeito estufa, as decisões do recém-empossado presidente Donald Trump na área ambiental podem ter impacto direto na luta global contra as mudanças climáticas.

"Estamos enfrentando circunstâncias excepcionais, e a conferência será impactada por decisões de países-chave, como os Estados Unidos, que recentemente anunciaram sua saída do Acordo de Paris", afirmou André Corrêa do Lago.

 

Fonte: g1

 

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