quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

Paulo Kliass: Big Techs infiltram-se no Ministério da Fazenda?

O protagonismo que o bilionário Elon Musk vem exercendo no início da administração Trump nos Estados Unidos tem colocado muita luz no debate a respeito das relações incestuosas entre dirigentes do setor público e representantes do grande capital privado. Além de representar os interesses de seus próprios conglomerados nas diferentes áreas em que atua, o empresário de origem sul-africana conquistou em espaço importante na equipe do presidente e teve um cargo de natureza ministerial especialmente criado para si mesmo. Trata-se do Departamento de Eficiência Governamental.

Junto com Musk passaram a ganhar relevância na cena política norte-americana outros líderes empresariais do setor que tangencia a esfera digital, as comunicações e o sistema financeiro. Passaram a ser conhecidas como Big Techs e constituem o grupo de maiores conglomerados na cena global. Na posse de Trump estavam, em lugar de destaque na cerimônia transmitida para centenas de milhões de pessoas por todo o mundo, indivíduos que representam parcela expressiva do PIB da Terra. São eles: Mark Zuckerberg (Meta), Sundar Pichai (Google), Tim Cook (Apple), Jeff Bezos (Amazon), Shou Zi Chew (TikTok) e Sam Altman (OpenAI).

A tentativa de parcelas e setores das classes dominantes em influenciar decisões de políticas públicas existe há muito tempo na história do capitalismo. No entanto, ao longo das últimas décadas a prática do lobby foi se sofisticando para se transformar em uma presença mais direta dos representantes dos grandes conglomerados em postos estratégicos da própria administração do Estado. Esse movimento tem ocorrido em diferentes países e tem permitido ao grande capital obter favorecimentos extraordinários em suas iniciativas.

·       Brasil: relações incestuosas entre capital e Estado

O caso brasileiro tampouco fugiu à regra geral. O que mais surpreendeu os analistas foi a continuidade de tal procedimento nos governos presididos pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Em 2003, por exemplo, Lula convidou o ex-presidente internacional do Bank of Boston para ocupar o importante cargo de presidente do Banco Central (BC). Ou seja, o principal dirigente de um dos maiores credores da dívida externa brasileira passou a ocupar o posto de responsável pela política monetária e pela política cambial, além das fundamentais missões de regulação e de fiscalização do sistema bancário e financeiro. Henrique Meirelles abriu mão de exercer o mandato de deputado federal pelo PSDB ao aceitar o convite de Lula. Além disso, foi presenteado com os termos de uma Medida Provisória para equiparar o seu futuro cargo ao de ministro de Estado.

Em 2015, a presidenta Dilma Rousseff nomeou para ser o ministro da Fazenda (MF) de seu segundo mandato um diretor do banco privado Bradesco, Joaquim Levy. Mais uma vez, um importante cargo da administração pública federal foi oferecido a um representante direto dos interesses do financismo. Além de implementar um programa de ajuste macroeconômico de natureza austericida e monetarista, o banqueiro tinha em sua agenda cotidiana contatos e espaços de decisão de política econômica – e sendo um agente direto de um dos maiores grupos do financismo privado. Esse tipo de apropriação privada do espaço público deveria ser proibido.

Dentre os inúmeros presidentes e diretores do BC diretamente vinculados aos interesses da banca privada, chamam a atenção os mais recentes. Ilan Goldfajn (2016-19) havia sido alto executivo dos bancos Credit Suisse e Itaú, ao tempo em que Roberto Campos Neto (2019-24) havia ocupado postos de direção nos grupos bancários Bozano Simonsen e Santander.

·       MF, BC e STN: portas giratórias e interesse público

Além disso, o essencial cargo de chefia da Secretaria do Tesouro Nacional (STN) também tem sofrido com a chamada “política de portas giratórias” entre o capital privado e setor público. Os exemplos mais recentes são de ex-titulares da STN que atualmente ocupam os postos de sócio e de economista-chefe de bancos privados. É o caso de Ana Paula Vescovi (2016-18), atualmente dirigente do Banco Santander, e de Mansueto Almeida (2018-20), que ocupa hoje em dia a direção do Banco BTG Pactual. Chama a atenção o processo de “normalização” de tal procedimento por parte dos formadores de opinião, como se esse tipo de promiscuidade de relação de interesses não ferisse princípios básicos da natureza republicana de nossa formação social.

Ao longo das últimas semanas tem recebido destaque também a presença de representantes das Big Techs na estrutura do governo federal brasileiro. A divulgação da nomeação de Pablo Bello Arellano para o cargo de assessor especial de Fernando Haddad surpreendeu negativamente a maior parte dos analistas. Até a antevéspera de sua indicação para ocupar este importante cargo na Esplanada dos Ministérios, este economista de origem chilena era um alto executivo da Meta, um dos grandes conglomerados globais dessa área digital, de comunicação e financeira. Não apenas representava os interesses do grupo, como costumava participar de audiências em Brasília tendo como contraparte os funcionários do MF. A partir de agora, ele mudou de lado do balcão. Resta saber que tipo de proposta ele vai passar a defender no cargo.

Por outro lado, também merece destaque a presença de Dario Durigan em cargo estratégico no mesmo MF. O atual secretário-executivo responde como o segundo homem na hierarquia do Ministério. Mas ele também era alto funcionário da Meta até às vésperas de sua nomeação para o cargo em junho de 2023. Aliás, um mês antes ele estava no mesmo prédio defendendo os interessas da Big Tech de Zuckerberg em reuniões com a equipe e Haddad.

·       As Big Techs dentro do governo: escândalo silenciado

Ora, parece mais do que evidente que a situação de crise internacional e da necessidade de se elaborar e defender medidas que apontem para um projeto de soberania digital para nosso país são contraditórias com a participação de pessoas com tal perfil e passado comprometedor. O Brasil precisa conquistar espaço dentre os grandes atores no cenário global, mas sem se render aos interesses dos grandes conglomerados privados. Já passou do momento de avançarmos na definição de projetos e programas da área digital, comunicação e informática com conteúdo e segurança nacionais. Mas, para tanto, é fundamental romper com a lógica e os interesses das grandes Big Techs.

Existem alternativas de mais curto prazo para atenuar a dependência que o Brasil mantém com relação a tais oligopólios da tecnologia digital. A conquista da soberania nesse domínio é um processo lento, ainda que ultra necessário e urgente. Uma possibilidade concreta que se abre é a ampliação de contatos com os países-membros dos Brics, cuja Presidência neste ano de 2025 é exercida exatamente pelo Brasil. Rússia, China e Índia, entre outros, podem oferecer condições para que a dependência extrema e absoluta que temos com relação a conglomerados estadunidenses seja flexibilizada.

Para dar cabo de tal tarefa, o mais indicado é afastar dos centros de decisão do governo brasileiro indivíduos que estejam claramente defendendo o ponto de vista destes oligopólios privados, que agora contam com assento na Casa Branca. Com a palavra, mais uma vez, o presidente da República. Afinal, Lula disse que gostaria de fazer mais e melhor em seu terceiro mandato. Que pretendia realizar 40 anos em 4. O tempo passa rápido e não há mais espaço para postergar esse tipo de decisão estratégica.

 

¨      Haddad e o crescimento econômico. Por J. Carlos de Assis

O ministro Fernando Haddad acordou, finalmente, para o fato de que o Brasil não terá estabilidade fiscal se não houver crescimento econômico. Não acordou, porém, para o fato de que o País não terá crescimento sustentável se for mantida a estúpida política de metas fiscais contida no “arcabouço” de 2023, que restringe drasticamente investimentos e despesas públicas para equilibrar o orçamento primário.

Tenho insistido recorrentemente nesse ponto. Crescimento da economia vem do aumento da produção. Contudo, não há aumento da atividade produtiva sem, antes, haver aumento da demanda agregada. É que os empresários não aumentarão a produção simplesmente para guardar nas prateleiras os bens produzidos. Produzem para vender. Para isso, tem que haver demanda suficiente na economia ou exportações.

Portanto, numa economia saudável, a demanda deve crescer a um ritmo ligeiramente acima da oferta, para induzir o aumento do investimento, da produção e do PIB. Entretanto, o principal fator sob controle do governo que leva a um aumento da demanda acima da oferta é o aumento do déficit público. Defendo um aumento do déficit da ordem de 3% do PIB, o teto praticado pelo BCE (Banco Central Europeu).

Não me venham dizer que o BCE é um banco irresponsável. É o mais novo banco central do mundo, conduzido por profissionais e especialistas europeus em política monetária do mais alto nível. Já nossa meta de equilíbrio orçamentário ou de déficit fiscal máximo de 0,25% é um anacronismo, herdado da Lei de Responsabilidade Fiscal de Fernando Henrique Cardoso do ano 2000, adaptada no “arcabouço fiscal” de Haddad, respaldado por Lula.

O presidente sintetiza seus conhecimentos de economia no conselho de sua amada mãe, dona Lindu, que lhe ensinou que o país, como uma família, “não pode gastar mais do que arrecada”. Naturalmente dona Lindu não sabia que, diferente de uma família, o estado pode emitir moeda e dívida pública para reforçar sua capacidade de pagamentos de despesas e investimentos quando surge um déficit orçamentário.

Isso não gera necessariamente inflação, se são gastos produtivos responsáveis e a demanda e a oferta de bens e serviços no mercado estiverem aproximadamente equilibradas. É que, se a um aumento da demanda gerado pelo déficit público corresponder a um aumento da oferta por conta do aumento da produção, terá havido na economia equilíbrio dinâmico.

Fetiches neoliberais relacionados com política fiscal e monetária são apropriados pelos especuladores, apoiados pela grande mídia, a fim de se apossarem de grande parte da renda nacional contra o interesse público. Referem-se à estabilização e controle da inflação. No caso fiscal, presume-se que a inflação é provocada por aumento do déficit público; no caso monetário, pela alta liquidez do mercado financeiro, que deve ser “enxugada” por uma alta taxa de juros (Selic).

Ambos são conceitos falsos. Como mostrei acima, inflação é um fenômeno especificamente de mercado, confrontando oferta e demanda de bens e serviços reais. Geralmente não está associada a questões monetárias ou financeiras. Pode se dever a quebras de safras, escassez de determinados insumos industriais (como os chips durante a pandemia), bloqueios políticos, embargos comerciais ou outros fatores.

Portanto, o controle da inflação é perfeitamente possível, diante de um aumento da demanda, se o governo atuar ativamente do lado da oferta. Para isso, o setor privado tem que ter acesso a condições favoráveis de financiamento para aumentar o investimento e a produção. É aqui que nossa política monetária representa um efetivo empecilho ao crescimento brasileiro: a taxa básica de juros (Selic) é extremamente elevada, e em lugar de estimular a produção, estimula o rentismo.

A base do rentismo é a Dívida Pública, cujo nível atual representa um passivo sem o ativo correspondente com a maior parte girando no mercado financeiro na forma de “operações compromissadas” do Banco Central, que rendem juros diários proporcionais à Selic. Enquanto existir a Selic, conforme tenho insistido, a economia brasileira não tem como crescer a altas taxas, pois os empresários continuarão preferindo ganhar bilhões de reais no rentismo em lugar de investirem no mercado produtivo real.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247           

 

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