quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Militares veem Exército preservado em denúncia sobre plano de golpe

cúpula do Exército avalia que, a despeito do desgaste pela citação de 23 militares da Força na tentativa de golpe de Estado, a instituição foi preservada na denúncia oferecida pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet.

O ponto mais relevante, citado por oficiais-generais sob reserva, é o trecho em que Gonet diz que “o próprio Exército foi vítima de uma conspirata”.

Na sua manifestação, o PGR cita os ataques sofridos por generais e seus familiares por terem resistindo a uma medida antidemocrática para manter o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no poder.

“É de ser observado que o próprio Exército foi vítima da conspirata. A sua participação no golpe foi objeto de constante procura e provocação por parte dos denunciados. Os oficiais generais que resistiram às instâncias dos sediciosos sofreram sistemática e insidiosa campanha pública de ataques pessoais, que foram dirigidos até mesmo a familiares. As contínuas agressões morais se davam sempre no propósito de impeli-los ao movimento rebelde, servindo ainda de sentimento de patriotismo de que a organização criminosa se servia, formassem com os insurretos”, diz o trecho da denúncia.

Na sequência, Gonet acrescenta a atuação de integrantes do Alto Comando do Exército que não atenderam aos apelos para a efetivação de um golpe.

 “A decisão dos generais, especialmente dos que comandavam Regiões, e do Comandante do Exército de se manterem no seu papel constitucional foi determinante para que o golpe, mesmo tentado, mesmo posto em curso, não prosperasse”, diz.

Na época, o então comandante do Exército era o general Marco Antonio Freire Gomes. Já o atual chefe da Força, general Tomás Paiva, estava à frente do Comando Militar do Sudeste e foi um dos alvos de ataques nas redes sociais.

Áudios divulgados pela Polícia Federal, na avaliação de oficiais, também ajudam a preservar a imagem do Exército e a responsabilizar individualmente os incitadores de um golpe.

Em um dos trechos, o tenente-coronel Sergio Ricardo Cavaliere de Medeiros em conversa com o tenente-coronel Mauro Cid, então ajudante de ordens de Bolsonaro diz que “não vai ter nada” porque o “Alto Comando não quer encampar a ideia”.

“Meu amigo, tá um show de desinformação. Acabei de falar com o Cid, ele falou que não vai ter nada. Tá pronto, só que não vai assinar por conta disso que eu te falei, o Alto Comando está rachado e não quer encampar a ideia. Agora, se tem alguma coisa rolando e o Cid tá me operando, não sei, pode ser também. Mas ele falou que não vai ter nada, não vai rolar nada, e ele tá com o cara o tempo todo.”

Em outro ponto, o coronel Bernardo Romão Corrêa Netto também cita a resistência das Forças Armadas e o medo do ex-presidente ser preso:

“O que que está rolando aí, velho? Eu falei com o Cid hoje… Cid falou: ‘Pô, pode esquecer que não vai rolar nada, não’. Ele falou: ‘Ó, cara, pode esquecer, não deve… O decreto não vai sair. Presidente não vai fazer. Só faria se tivesse o apoio das Forças Armadas, porque ele está com medo de ser preso. Se acontecer alguma coisa vai ser preso e o caramba e tal. Não vai soltar nada, não’. Falei com ele agora de manhã. O quê que está acontecendo de novidade por aí?”, disse Corrêa Netto em conversa com o tenente-coronel Fabrício Moreira de Bastos, que atuava no Centro de Inteligência do Exército.

Entre os 24 militares denunciados, apenas um é da Marinha, o almirante Almir Garnier, ex-comandante da Força. Todos os demais são do Exército, incluindo seis generais, como o ex-ministros Walter Braga Netto e Augusto Heleno, e o número 2 da Secretaria-Geral da Presidência, Mário Fernandes.

A tendência no Exército, segundou apurou a CNN, é que a Força só deva abrir procedimentos internos para apurar crime militares após o fim do julgamento no Supremo Tribuna Federal (STF).

Se todos forem tornados réus, os militares ficarão sub-júdice, portanto, sem direito à promoção, movimentação e transferência.

¨      Carta de militares incentivou ida de manifestantes à Praça dos Três Poderes

Uma carta elaborada por comandantes das Forças Armadas em novembro de 2022 fez com que manifestantes acampados no Quartel General (QG) do Exército se sentissem seguros para avançar em direção à Praça dos Três Poderes, segundo afirmou o ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro (PL), Mauro Cid, em áudio obtido pela Polícia Federal (PF). O material foi divulgado pela corporação no domingo (23).

De acordo com o áudio, a carta foi vista por organizadores dos acampamentos como um respaldo das Forças Armadas para que eles pudessem tomar a frente do movimento e intensificar manifestações antidemocráticas contra o resultado das eleições presidenciais, inclusive com o deslocamento das manifestações para a frente dos prédios do STF e do Congresso Nacional.

No final de novembro de 2022, comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica divulgaram uma carta intitulada “Às Instituições e ao Povo Brasileiro”. O documento defendia o direito da livre manifestação e condenava quaisquer ações que restringissem os protestos.

Na gravação divulgada no domingo, Mauro Cid cita ainda que os organizadores dos acampamentos tinham medo de se expor e sofrer retaliação do ministro Alexandre de Moraes, do STF. No entanto, ao saberem da carta, sentiram que o Exército garantiria a segurança deles.

“Então, com a carta das Forças Armadas – que o pessoal elogiou muito –, eles estão se sentindo seguros para dar um passo à frente. […] Os organizadores dos movimentos vão canalizar todos os movimentos que estão previstos no dia 15 [de dezembro] como ápice, a partir de agora lá para o Congresso, STF… Para a Praça dos Três Poderes, basicamente. E o que eles entenderam dessa carta: obviamente que os movimentos vão ser convocados de forma pacífica e eles estão sentindo o respaldo das Forças Armadas”, diz Mauro Cid em áudio enviado ao então comandante do Exército, general Marco Antônio Freire Gomes.

“Agora, esses movimentos vão botar o nome deles no circuito para aparecer lideranças que puxam o movimento para o STF e Congresso. Eles vão colocar o nome deles na frente nisso aí. E aí o medo deles é retaliação por parte do Alexandre de Moraes. Então, no entendimento deles, essa carta significa que as Forças Armadas vão garantir a segurança deles”, prosseguiu o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro.

De acordo com o relatório da Polícia Federal, os áudios mostram uma a interlocução entre lideranças das manifestações antidemocráticas e integrantes do governo do então presidente Jair Bolsonaro para intensificar as manifestações e direcioná-las fisicamente contra o STF e o Congresso Nacional, fato que efetivamente ocorreu no dia 8 de janeiro de 2023.

¨      Tenente-coronel incentivou manifestantes a irem para o Congresso

Um áudio divulgado pela Polícia Federal (PF) no domingo (28) revela que o tenente-coronel Guilherme Marques de Almeida incentivou manifestantes acampados em frente ao Quartel-General (QG) do Exército, em Brasília, a se dirigirem ao Congresso Nacional.

A gravação faz parte de material extraído de celulares e computadores apreendidos durante a investigação da PF que resultou na denúncia de 34 pessoas por atos contra o Estado Democrático de Direito. A denúncia foi apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ao Supremo Tribunal Federal (STF), na semana passada.

“Tô falando, não adianta protestar na frente do QG do Exército. Tem que ir pro Congresso. O Executivo é envolvido; o Judiciário não vai fazer nada. Então só sobrou o Legislativo. As Forças Armadas só vão agir por iniciativa de algum poder”, afirmou o tenente-coronel.

Almeida é ex-comandante do 1º Batalhão de Operações Psicológicas em Goiânia. Ele foi um dos 34 denunciados pela PGR.

Na gravação, o militar também destaca que a disseminação de informações falsas sobre uma suposta irregularidade eleitoral nos grupos dos manifestantes tinha o objetivo de mantê-los mobilizados.

 “Esses vídeos que estão saindo da fraude da urna são bons porque mantêm o povo mobilizado, só que eles estão com o foco errado. Eu entendo que pelo Brasil todo eles estejam na frente dos quarteis, mas em Brasília eu acho que esse foco tem que ser mudado e tem que ir para o Congresso Nacional e não no QG do Exército”, complementa o tenente-coronel.

No dia 8 de janeiro de 2023, manifestantes que estavam acampados em frente ao QG do Exército seguiram para a Praça dos Três Poderes, onde depredaram e destruíram os prédios do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do STF.

Em fevereiro, o tenente-coronel Guilherme Marques de Almeida foi alvo da Operação Tempus Veritatis. Durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão contra ele, Almeida desmaiou e precisou ser socorrido.

A Polícia Federal aponta que o militar fazia parte de um núcleo encarregado de disseminar desinformação e atacar o sistema eleitoral, com o objetivo de incentivar manifestantes a permanecerem em frente aos quarteis do Exército “no intuito criar o ambiente propício para o golpe de Estado”.

¨      Policial diz que “estavam com Moraes na mira para atirar”

A Polícia Federal encontrou uma mensagem do agente da PF Wladimir Soares em que ele cita o plano de morte contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), após as eleições de 2022.

O áudio faz parte do material apreendido com os 40 indiciados pela trama golpista para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

No áudio, ainda sob sigilo judicial, o policial diz a colegas que “estavam com Moraes na mira para atirar”.

Nas mensagens, Soares também afirma qual armamento seria usado, segundo apurou a CNN com fontes ligadas à investigação.

O agente da PF foi preso em novembro do ano passado sob a acusação de ter se infiltrado na segurança de Lula, então presidente eleito, para repassar informações sensíveis ao grupo investigado. E fazer parte de um grupo de cinco pessoas que assassinariam autoridades.

A prisão foi autorizada pelo STF após análises de material apreendido em posse de Sérgio Rocha Cordeiro, capitão da reserva do Exército e ex-assessor especial do Gabinete Pessoal da Presidência da República.

De acordo com a investigação, Wladimir Soares forneceu detalhes estratégicos sobre o esquema de segurança de Lula. Para a PF, seria parte do plano de morte.

A operação Contragolpe da PF desvendou um plano para que, dentro da trama golpista, o ministro Moraes, Lula, e seu vice, Geraldo Alckmin, fossem “neutralizados” por militares das Forças Especiais do Exército, segundo a PF. Quatro militares e Wladimir Soares foram presos.

O relatório da PF detalha como o grupo agiria, com militares em frente ao prédio onde o ministro morava, à época, na Asa Sul de Brasília, “de prontidão para o ato”.

A análise completa desse e de outros áudios será enviada pela PF ao Supremo em relatório complementar, com a expectativa de que o ministro relator levante o sigilo.

A defesa do agente da PF citado disse à reportagem que ainda não teve acesso a todos os áudios do caso.

¨      Defesa de Braga Netto pede que STF declare Moraes suspeito para julgar denúncia

A defesa do general Walter Braga Netto pediu que o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheça a suspeição do ministro Alexandre de Moraes para julgar a denúncia da Procuradoria-Geral da República sobre tentativa de golpe de Estado.

Os advogados pedem que o Supremo indique um novo relator para o caso. Essa análise será feita pelo presidente do STF, Luís Roberto Barroso.

Ex-ministro da Casa Civil e da Defesa durante o governo Bolsonaro – e candidato a vice-presidente na campanha de reeleição –, o general está preso desde dezembro como parte das investigações sobre a tentativa de golpe. Segundo a PF, ele tentou atrapalhar a apuração.

A PGR apontou, na denúncia, que o general teve papel central na acusação da trama golpista.

Para os advogados, como a PGR imputa a Braga Netto o financiamento do plano chamado de Punhal Verde Amarelo – que previa o monitoramento e até a morte de autoridades, entre elas o próprio Moraes –, a imparcialidade necessária para o julgamento pode ser comprometida.

De acordo com depoimentos do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Jair Bolsonaro, Braga Netto deu dinheiro para ação dos kids pretos que estavam executando o plano. Cid afirmou que recebeu de Braga Netto uma sacola de vinho contendo o dinheiro.

Braga Netto, Bolsonaro e mais 32 pessoas foram denunciados por:

·        organização criminosa armada;

·        tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito;

·        golpe de Estado;

·        dano qualificado pela violência e grave ameaça, contra o patrimônio da União, e com considerável prejuízo para a vítima;

·        deterioração de patrimônio tombado.

Bolsonaro foi apontado pela PGR como líder do grupo.

 

Fonte: CNN Brasil/g1

 

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