Pensamentos ocidental e
oriental
Do ponto de vista oriental, os monoteístas judeus,
cristãos e muçulmanos são tudo a mesma coisa; e, do ponto de vista ocidental,
hinduístas, budistas, taoístas, xintoístas e confucionistas também. Metade da
população mundial é monoteísta, concentrada na Europa, Américas, África e
Oriente Médio. A Índia é hinduísta e o Extremo Oriente e Sudeste Asiático são
budistas e taoístas (o xintoísmo japonês e o confucionismo chinês são pouco
expressivos). As estimativas para a China, particularmente, são muito
contraditórias. De acordo com os dados oficiais, a grande maioria dos chineses
se declara ateu, mas diversas outras estimativas consideram que a grande
maioria dos chineses professa o budismo, o taoismo ou outras crenças populares.
No ocidente, os cursos de filosofia normalmente
restringem-se ao estudo da filosofia ocidental. Na China, por sua vez, o estudo
da filosofia abrange o confucionismo, o taoísmo e o budismo, além do
marxismo-leninismo-maoísmo.
O budismo é particularmente presente no ocidente como
religião ou filosofia de vida, mas não integra o curriculum da universidade,
que o entende como místico, esotérico. Se considerarmos que a hegemonia da
civilização e do pensamento ocidental está em crise, seria
interessante incluir no curriculum de filosofia o estudo do pensamento
oriental. E uma possível ponte entre os pensamentos ocidental e oriental seria
Baruch de Spinoza.
Conta-se que o rei Suddhodana criou o seu filho Sidarta
Gautama em uma redoma de vidro, para protegê-lo de ser afetado pelos
sofrimentos humanos – só alegrias! E Sidarta se transformou no Buda quando, por
acaso, ao sair do palácio, se deparou com a doença, a velhice e a morte. (Morar
em condomínios fechados e frequentar shopping centers seria uma forma dos pais
abastados protegerem seus filhos de serem afetados pelos sofrimentos humanos?
Reprimir manifestações antissionistas seria uma forma do mundo ocidental evitar
ser afetado pelo sofrimento dos palestinos?)
Os budistas buscam alcançar a equanimidade e o
desapego, se libertar do desejo de sensações agradáveis e ojeriza a sensações
desagradáveis, que nos proporcionam prazer, alegria, sofrimento e tristeza.
Estar à mercê das sensações agradáveis e desagradáveis é permanecer na
ignorância e no sofrimento. A impermanência, ademais, é um conceito chave.
“Isto também vai passar…” é utilizado tanto para situações agradáveis como
desagradáveis. No catolicismo, há sete pecados capitais (fundamentais),
avareza, gula, inveja, ira, luxúria, preguiça e soberba/vaidade. São capitais
porque é a partir deles que a pessoa pode incorrer em pecados mortais. Para o
budismo, contudo, o principal desafio é livrar-se da soberba/vaidade, isto é,
do ego. O ego seria a base de todos os demais seis pecados capitais. Diluído o
ego, não há mais espaço para avareza, gula, inveja, ira, luxúria e preguiça.
O processo de libertação do ego e das sensações
mundanas, normalmente, privilegia a prática da meditação. Procura-se não reagir
às sensações agradáveis e desagradáveis, permanecer equânime durante a
meditação, para poder viver em equilíbrio tanto os períodos de glória como as
adversidades da vida. Saber ganhar para saber perder, aprender a ser modesto em
tempos áureos, de sucesso, para não sofrer em tempos difíceis. Os taoístas
também procuram desenvolver a não reação.
O Tao Te Ching de Lao-Tsé refere-se
ao Tao como incognoscível, insondável, inconcebível e inominável. “Não
sabemos…” é a sua melhor expressão. Só sabemos que “todos os vivos nascem e
morrem, mas a vida é imortal”. Neste sentido, o budismo e o taoísmo poderiam
ser considerados agnósticos.
·
Spinoza
No século XVII, Baruch de Spinoza cometeu o sacrilégio
de ousar questionar dogmas religiosos, afetando estruturas e instituições. Por
esta ousadia, Spinoza foi muito afetado em vida e, categoricamente, segue nos
afetando… eternamente.
Aos 24 anos de idade, em 1656, Baruch de Spinoza foi
amaldiçoado e heremizado (excomungado) pela religião judaica: “… ninguém lhe
pode falar bocalmente nem por escrito, nem lhe dar nenhum favor, nem debaixo de
teto estar com ele, nem junto de quatro côvados, nem ler papel algum feito ou
escrito por ele.”
Em seu Tratado teológico-político,
publicado de forma anônima em 1670, Benedictus de Spinoza se aventurou a denunciar
a redação profana do Antigo Testamento (em 1679, o Tratado foi
incluído no índice dos livros proibidos pela Igreja Católica). A Ética,
sua obra máxima, só foi publicada em 1677, um ano após a sua morte.
Por ousar investigar a natureza divina, Baruch de
Spinoza foi considerado ateu (e os ateus celebram a sua companhia). Entretanto,
Deus está afirmativamente presente e perpassa toda a sua obra, associado a
termos como natureza, eterno, imortal, infinito, essência etc. “… Deus, à
medida que se ama a si mesmo, ama os homens…” (Ética V:36). Em
vez de ateu, Spinoza, assim como o budismo e o taoísmo, poderia ser melhor
caracterizado como agnóstico (Einstein costumava dizer que acreditava no Deus
de Spinoza).
O termo afeto é normalmente associado a uma manifestação
positiva. Para a manifestação negativa de afeto usa-se o termo desafeto.
Afetar, por sua vez, é geralmente empregado em sentido negativo. Contudo,
afetar e ser afetado podem incorporar cargas positivas ou negativas. Afeto,
mais propriamente, seria a manifestação de qualquer sentimento através de sons,
palavras, gestos e outras formas de expressão. Uma pessoa pode afetar outras em
relações pessoais, assim como por manifestações que transcendem a sua presença
e sua própria vida. Manifestações artísticas, literatura, música e artes
visuais são formas que podem afetar gerações. Quem não se encanta com Sófocles,
Bach e Van Gogh?
E o afeto não se restringe a relações humanas, você
pode ser afetado e afetar o meio ambiente. Pode se enlevar com o canto de um
pássaro, o raiar do dia, o mar batendo na costa, o suave impacto da brisa
embalando a copa de uma árvore e o desabrochar de uma flor. Pode também
provocar a destruição de espécies animais, florestas, rios, montanhas e causar
crises climáticas.
A capacidade de afetar e ser afetado é um conceito
chave empregado por Baruch de Spinoza, que se refere a três gêneros de
conhecimento, dos sentidos, da razão e o intuitivo. Afetos positivos geram
alegria, aumentam a nossa potência de agir e são úteis à conservação do nosso
ser; afetos negativos geram tristeza, reduzem a nossa potência de agir e são
nocivos à conservação do nosso ser. Porém, o conhecimento propiciado pelos
sentidos (o primeiro gênero de conhecimento) é truncado, confuso, desordenado e
falso. O ser humano, governado por afetos positivos e negativos, não é
autônomo, está à mercê de suas paixões (Ética IV: Prefácio).
Embora consciente, ignora a causa dos seus desejos, não tem controle sobre seus
desejos e ações. Mesmo sabendo o que seria o melhor, muitas vezes acaba sendo
arrastado a fazer o pior.
Aqui é manifesto o paralelo entre o pensamento budista
(estar à mercê das sensações agradáveis e desagradáveis) e Spinoza (ser
governado por afetos positivos e negativos). Estamos diante de uma mesa farta,
sabemos que não devemos nos empanturrar, isto vai prejudicar a nossa digestão,
vai gerar outros problemas de saúde, vai nos tornar obesos e dificultar a nossa
mobilidade – mas continuamos desejando, impelidos a nos fartar e nos atulhamos
assim mesmo, sem saber porquê e sem poder refrear o nosso comportamento. O
mesmo vale para o excesso de álcool e outras drogas. Sexo então?! Como resistir
a esta paixão que, dependendo do enredo, pode arruinar a
sua vida e a de outras pessoas? Embarcar em uma guerra suicida (ligue a sua
TV)?
“A maioria dos homens, com efeito, parece crer que é
livre à medida que lhes é permitido obedecer às suas paixões.” (Ética V:41).
De acordo com Spinoza, o homem só se sujeita a reprimir suas paixões por temer
as leis de sua religião e do estado – precisa do estado não apenas para
salvá-lo dos outros, mas também de seus próprios impulsos e para capacitá-lo a
viver uma vida de razão.
Raras são as pessoas que usam a razão (o segundo gênero
de conhecimento), isto é, não se sujeitam às paixões de alegria e de tristeza.
Aqui, o uso da razão em Spinoza para se livrar das paixões guarda relação com a
prática da meditação budista para desenvolver a equanimidade e se livrar do
apego às sensações mundanas, da ignorância e do sofrimento.
Viver sem apego não significa alienação. Budistas e
taoístas procuram assegurar o equilíbrio frente às vicissitudes da vida, agir
sim, mas não por reação, não se deixar levar, ser dono de seus atos. Da mesma
forma, viver com desapego não é privar-se das emoções, viver sem prazer. Ao
contrário, viver com desapego é viver plenamente os prazeres e as alegrias que
a vida nos oferece.
Aproveito a oportunidade para fazer um tributo a
Antonio Candido de Mello e Souza, que sempre foi muito cordial e afetuoso. Ele
explicou para a sua neta Maria Clara Vergueiro que não era afetivo, era afetuoso, o
que pode soar algo antipático – “eu não tenho ódio das pessoas, não quero mal
às pessoas, também não quero muito bem, não tenho necessidade das pessoas [que
é o conceito de desapego]”. Entretanto, Antonio Candido sempre foi tão generoso
e solícito que tudo de bom que acontecia na Faculdade de Filosofia da USP era
invariavelmente atribuído a ele. Era mesmo comum ele ser parabenizado por
realizações de que sequer tinha tomado conhecimento.
Assim como as religiões orientais não-monoteístas
(todos os vivos nascem e morrem, mas a vida é imortal), Baruch de Spinoza
contrapõe os seres vivos (mortais) à vida que segue (imortal). Spinoza entende
a eternidade como a própria existência, essência sem duração e sem tempo.
Aquele que se guia pelos sentimentos, pelas paixões, agita-se em vão e vive
reagindo a estímulos externos, numa inconsciência quase completa de si mesmo,
sem jamais experimentar o verdadeiro contentamento interior. A partir da
intuição (o terceiro gênero de conhecimento), o ser humano (finito) é capaz de
atingir a consciência de si mesmo, o verdadeiro contentamento e a eternidade
(infinita). “Quanto maior é o número de coisas que a alma compreende pelo
segundo e pelo terceiro gênero de conhecimento, menos ela é afetada pelas
afecções más e menos teme a morte.” (Ética V:38). E neste
particular, mais uma vez, não temer a morte, para o budismo, é viver a vida em
sua plenitude.
Em várias situações, não nos é possível evitar sermos
afetados negativamente, seja por estarmos sendo vítimas de algozes
sanguinários, seja encarcerados por regimes ditatoriais, ou pelo isolamento
durante epidemias. Mas, mesmo nesses casos, impõe-se a alegria de viver.
Durante a Segunda Guerra Mundial, os guetos continuaram
promovendo intensa vida cultural e artística. Munidos por uma força descomunal,
todos aqueles que sobreviveram ao aviltamento sofrido nos campos de
concentração se transformaram em verdadeiros militantes da vida.
Apesar da ditadura militar, o Brasil entre 1964 e 1985
viveu uma efervescência cultural. Os presos políticos, dentro dos estreitos
limites do cárcere que os asfixiava, exerciam a sua liberdade fazendo
exercícios físicos, yoga, desenhando, lendo e estudando sozinhos ou com o
auxílio dos muitos especialistas presos.
Durante a pandemia do coronavírus, um primo meu,
incorrigível otimista, caiu em depressão. Para agradá-lo, montei um álbum com
algumas fotos do cotidiano com minhas filhas em prisão domiciliar, nossas
atividades e artefatos produzidos. Ele respondeu que parecia que estávamos
gostando da quarentena.
Spinoza conclui a Ética com a
proposição “A felicidade não é o prêmio da virtude, mas a própria virtude; e
não gozamos dela por refrearmos as nossas paixões, mas, ao contrário, é porque
gozamos dela que nos é possível refrear as paixões”. (Ética V:42).
Fonte: Por Samuel
Kilsztajn, em A Terra é Redonda

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