Douglas Barros; Sai do fake, Naomi Klein!
Desculpe se o tom é
pedante, mas parece que alguns livros são como faróis que nos guiam em meio a
tempestades. Doppelgänger (Carambaia, 2024), da
premiada Naomi Klein, é uma dessas pérolas que de tempos em tempos surgem e nos
arrancam do frio solitário. Um livro que surpreende, sobretudo, nós que somos
leitores das obras da autora. Surpreende pelo tom íntimo da prosa, quase um
chamado a se sentar e ouvi-la. Uma experimentação que começa com a linguagem
para terminar com uma convocação que nem precisava ser feita porque, depois da
prosa – essa é a experiência que nos causa sua leitura –, saímos com a ideia de
que temos que romper com o circuito vicioso do individualismo.
É estranho falar de
um livro tão urgente de modo tão pessoal. É como se eu tivesse que dar
explicações sobre a experiência que foi ler Doppelgänger. É como se eu
tivesse conhecido intimamente uma das maiores críticas contemporâneas, mas sem
o tom autocelebratório (ou vitimista) que caracteriza grande parte das
autobiografias atuais. Não se engane, porém. O livro não é autobiográfico, é
antes uma potente crítica que parte da experiência vivida da autora e como um
periscópio nos faz observar o oceano contraditório da atualidade. Enfim, um
livro mais do que necessário.
O bom da conversa é
que ela não exige nota de rodapé e – ainda que o livro seja lotado de notas,
numa erudição própria aquelas que se devotam à crença de que as palavras
escritas, embora não mudem o mundo, ajudam a compreendê-lo para ultrapassá-lo –
facilmente nos deixamos guiar. Os temores de nosso duplo são apresentados por
Naomi Klein, que teme que sua Doppelgänger, Naomi Wolf, tome
sua identidade. A questão aparentemente trivial revela as esquinas sinuosas de
nosso tempo. Um tempo violento e marcado por uma cosmovisão de mercado que nos
torna todos competidores implacáveis. Portas abertas ao fascismo.
É interessante
como, partindo de seus medos, Naomi Klein evidencia que eles são, na verdade,
os nossos. Como um mundo espelhado, fruto da comunicação instantânea por dados,
unido ao etos competitivo do neoliberalismo, nos faz reféns de nossa imagem
como uma marca rentável e disponível nas redes sociais. E esse é só um dos
traços da obra. Mas aqui talvez eu esteja queimando algumas etapas. Melhor dar
um passo atrás para enfim conseguir dar dois à frente. Comecemos pelo começo.
·
Antes, o que é Doppelgänger?
Doppelgänger é uma
palavra inventada por um romântico chamado Jean Paul lá do século XVIII, “vem
do alemão, combinando Doppel (duplo, réplica) com Gänger (andarilho, aquele
que vaga)”. Podemos sintetizar que doppelgänger é como uma réplica
nossa, só que com sinais invertidos. Melhor dizendo, alguém que é idêntico a
nós, porém, oposto ao que somos. E isso requer um exercício imaginativo: pense
em alguém idêntico a você, mas que gosta justamente daquilo que você detesta,
andando por aí – pronto. É essa curiosa palavra alemã que será eleita por Naomi
Klein para nos guiar pela sinuosa estrada do mundo-espelho. Um mundo-espelho
apresentado por algoritmos que nos torna meros dados.
Pois bem, a
abertura do livro é exatamente Naomi Klein se esfumaçando pela atuação de
sua doppelgänger particular no
Twitter – rebatizado como X pelo facho Elon Musk –, Naomi Wolf. O que Naomi
Klein tem em comum com Naomi Wolf? Afora o fato de terem o mesmo primeiro nome
e serem judias, nada. Mas é aqui que se inicia uma confusão que, ao
mergulharmos com a autora nos seus meandros, desnuda as armadilhas de um mundo
de “eus simulados e avatares digitais e vigilância em massa e projeções raciais
e étnicas e duplos fascistas e as sombras deliberadamente negadas que estão
todas vindo à tona ao mesmo tempo”.
Naomi Wolf –
importante feminista liberal dos anos 1980 – dobrou a esquina política (algo
sempre fácil para um liberal) e se tornou companheira de fascistas que não têm
medo de dizer o seu nome, dentre os quais, talvez o mais perigoso do mundo:
Steve Bannon. Naomi Klein, pelo contrário, coerente com o ideário de esquerda e
uma socialista séria, manteve-se alerta e disposta a interpretar o mundo a fim
de transformá-lo. Mas, para as redes sociais, Klein e Wolf eram
indistinguíveis. E aqui Naomi Klein passa a ser assombrada pela sua
própria doppelgänger. As redes sociais
confundiam-nas.
“O eu
cuidadosamente construído pode se desfazer de inúmeras formas”, escreve ela. E
continua: “e num piscar de olhos – em decorrência de um acidente incapacitante,
um surto psicótico ou, hoje em dia, por uma conta hackeada ou por um vídeo de
deepfake”. Klein viu isso acontecer quando as pessoas confundiram seu avatar
digital. À medida que Wolf enveredava pelo mundo da extrema-direita em meio à
pandemia, Klein desaparecia aos surdos gritos de xingamentos e elogios no
Twitter. Uma confusão que interditava sua própria presença no debate.
Uma questão nada
trivial àqueles acostumados ao rigor da psicanálise é o enlace que Klein tem
com Wolf. Um elã que liga as duas Naomis por aspiração e inspiração: ambas são
escritoras, feministas, judias e se conheceram nos tenros vinte e poucos anos.
Naquele momento crucial em que os anos de formação inspiram anseio e
expectativas de um futuro grandioso. Wolf era uma referência para Klein, O mito da beleza, livro lançado nos
anos 1980, marcou sua geração, e embora Klein, como boa socialista, o achasse
insípido, Wolf só tinha 28 anos quando o lançou e obteve o reconhecimento
que qualquer aspirante à escrita busca.
A questão então se
desdobra: como alguém que admiramos pode se tornar um fascista? Os duplos não
estão só no mundo, eles estão também dentro da gente. Uma lição ímpar dada por
Freud. Nós mesmos somos um eu e um outro, muitas vezes desconhecido. E Naomi
Klein, a partir da assombração de sua doppelgänger, nos revela um
mundo de duplos mortais que habitam o mundo-espelho.
·
O mundo-espelho
O mundo-espelho é
um mundo invertido. No livro Doppelgänger, ele se concentra
sobretudo nas redes sociais. Mas não é só isso: é também a ressignificação
feita pela direita de símbolos fundamentais à esquerda. Durante o transcorrer
de sua crítica, Klein mostra como na arena política há disputas e esvaziamento
de conceitos caros à tradição socialista, que se perdem no jogo de
instantaneidade da internet. Elaborações e reflexões críticas são, assim,
subvertidas de seu sentido pelo descompromisso com qualquer noção de verdade
factual no campo da extrema-direita.
As redes sociais se
tornaram centrais para a construção de comunidades virtuais de pertencimento,
identidades provisórias e em liquidação. Diante disso, resta a questão: quais
os impactos na formação da subjetividade? A comunicação abundante e sem filtro,
privilegiando a velocidade em textos curtos e sem mediação, acostumou o usuário
da internet à linguagem publicitária. Nesse sentido, qualquer texto mais
reflexivo é visto como xingamento. A busca por uma comunidade artificial se
liga a elementos narcísicos que criam uma relação grupal delimitada por
fronteiras e ódio à diferença. E é nesse contexto que a extrema direita passa a
nos roubar até mesmo as palavras. A esse respeito relembra Klein:
“Alex, uma das
minhas poucas amigas que não se incomodam com o tipo de programa que eu costumo
escutar [trata-se de War Room, de Steve Bannon], encolheu os ombros e respondeu: ‘a
polícia é ruim’. Mas é estranho: antes eu sabia quem eram os fascistas e quem
eram os antifascistas. Havia brigas de rua. Estava claro qual lado era qual.
Mas agora os fascistas encamparam totalmente nossa linguagem. Eu me sinto sem
palavras.”
Sem palavras e com
o espaço da reflexão tolhido pela aceleração do tempo conectado, há uma
completa indistinção entre esquerda e direita. Soma-se a isso o fato de que,
enquanto gestora do capital de rosto humano, a esquerda se esvaziou,
tornando-se um alvo fácil ao fascismo. Naomi Klein nos coloca nesse labirinto
de um mundo-espelho, no qual nosso reflexo parece ter mais consistência do que
nós mesmos. Além disso, esse reflexo – esse doppelgänger de todos nós
– capturou anseios forjados pela hecatombe social e climática, dando a
problemas complexos respostas fáceis: a culpa é sempre do outro, e não do
capitalismo.
·
Uma sociedade global
fascistizada
A pandemia é o
lugar temporal onde Naomi Klein concentra parte de suas reflexões. E, nesse
cenário de guerra contra um inimigo invisível, muitas figuras aparentemente
antagônicas se encontrarão no mesmo lado da trincheira. Como admitir que
pessoas extremamente religiosas partilhem da mesma visão de mundo de pessoas
que cultuam o corpo acima de tudo? (Uma breve anedota: certa vez viralizou um
tuite em que escrevi que o Brasil virou um espaço urbano marcado por smartfit, farmácia e igreja
evangélica, nas linhas de Naomi Klein finalmente entendi o porquê).
Para entender essa
aliança entre aqueles que querem o paraíso celeste e aqueles que veem no corpo
o lugar do paraíso, Klein vai fazer o esforço basilar de toda socialista séria:
analisar as condições de reprodução social desses grupos. “As pequenas empresas
e os autônomos que trabalham com ou nos corpos estavam entre os mais atingidos
pelos confinamentos pandêmicos”. Juntam-se a esse grupo do corpo as igrejas,
que viram cultos esvaziados e, portanto, portas fechadas. A unidade da
diferença se dá por uma equação simples: ambos os grupos, que estão em
simbiose, foram os mais duramente atingidos pelos confinamentos. Tornaram-se,
assim, terreno propício às teorias conspiracionistas de extrema-direita.
Tendo esse ponto
claro, entretanto, é preciso levar em consideração que um mundo cuja cosmovisão
global se dá pela repetição do mantra do corpo perfeito, da moralidade
religiosa e da automedicação não se constituiu ao acaso. Essa aliança
supostamente incomum não se deu por acidente. E é analisando esse ponto que
Naomi Klein nos faz perceber como o culto ao corpo se liga à teologia
neoliberal, cujas raízes se atrelam à competição universal e perda de direitos
sociais. “A busca pela saúde e pelo bem-estar se tornou uma empreitada
obsessiva na era Reagan e Thatcher, e desde então só cresceu em influência”.
Diante de um mundo
em dissolução, sem garantias sociais, o bem-estar social tornou-se bem-estar
individual. A luta pelo corpo tornou-se uma competição em que se acredita ter
um mínimo controle frente à sociedade em perpétuo descontrole. Resta o
investimento no eu como fuga dos infortúnios de um mundo em ebulição.
Fortalecer o corpo e resistir às tentações: “O ódio e a raiva contra o eu
imperfeito e inadequado podem ser o outro lado da busca por um corpo
aperfeiçoado e controlado, que se alcança por meio da combinação certa de
exercícios, dietas, cirurgias e diversas intervenções de bem-estar.”
Foi na Pandemia,
entretanto, que se revelou a face sinistra dessa equação entre moralidade
religiosa e bem-estar individual. Morrer pela covid, na cabeça de muitos de
seus adeptos, era algo relegado àqueles cuja fraqueza biológica era evidente.
As comorbidades e o envelhecimento foram as brechas legitimadoras de um
discurso fascista que impregnou consciente e inconscientemente muitos dos fãs
exacerbados do corpo. Uma equação sinistra entre morrer porque Deus quis ou
morrer porque a seleção natural fez seu papel. Nunca antes, depois da Segunda
Guerra, as portas ao fascismo se mostraram tão escancaradas.
Por isso, afirma
Klein: “Essa disposição nas narrativas supremacistas de descartar enormes
setores da humanidade que são considerados inferiores é a cola mais forte que
une o mundo narcisista e de tons pastel do bem-estar das mulheres ao mundo de
retórica furiosa e violenta da direita de Bannon, afeita a atacar com veemência
os imigrantes”. Infelizmente, essa porta segue mais escancarada do que nunca
com a chegada de Donald Trump à presidência dos EUA com um programa claramente
fascista.
Doppelgänger, porém, não cai no
tom melancólico. Mais do que um alerta, é um convite que se põe para além da
resistência. É preciso: “Ação!” que se desconecte de nossos avatares digitais
presos às redes de bilionários fascistas e se conecte aos vizinhos e àqueles
que são nossos iguais nas diferenças que possuem. Enfim, é um livro que eu
desejo intensamente que seja lido pelo maior número de pessoas possíveis
Fonte: Blog da
Boitempo

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