quinta-feira, 20 de novembro de 2025

Sionismo na Palestina, apartheid da África do Sul: duas faces do mesmo sistema de dominação

Durante décadas, a comunidade internacional tem comparado o sistema israelense de ocupação e segregação na Palestina ao apartheid sul-africano. No entanto, para além das semelhanças formais, existem diferenças que revelam a verdadeira natureza do projeto sionista e seu alcance colonial. Para além do racismo no regime que marcou a África do Sul, o projeto em curso na Palestina se baseia numa ideologia que pretende substituir um povo inteiro por outro, apagando sua história e sua existência.

Na África do Sul, o apartheid foi um sistema institucionalizado de discriminação racial imposto pela minoria branca sobre a maioria negra. Seu objetivo era evidente: manter o controle político, econômico e social dos brancos, enquanto relegava a população negra a territórios separados, sem direitos plenos e sob constante vigilância.

Era um regime brutal, baseado na exploração da mão de obra africana. A economia do apartheid precisava do povo negro: o subjugava, o controlava e o utilizava como força de trabalho indispensável. Em outras palavras, o racismo sul-africano necessitava do oprimido para se sustentar.

O sionismo, por outro lado, não busca explorar o palestino: busca eliminá-lo. Seu objetivo não é a subordinação de um grupo a outro dentro de um mesmo território, mas a substituição total de um povo por outro, por meio da expulsão, da negação e da desumanização.

Desde 1948 — ano da Nakba, a catástrofe palestina — até hoje, o projeto sionista segue uma lógica colonial clássica: apropriar-se da terra, destruir a memória e reescrever a história. Enquanto o apartheid sul-africano dizia “vocês viverão separados”, o sionismo diz “vocês não devem existir”.

Nos territórios ocupados, Israel instaurou um sistema de controle que combina leis militares, confisco de terras, demolições, colonização e um muro que fragmenta a vida cotidiana. Mas o mais grave é que tudo isso se justifica sob o discurso da segurança e da autodefesa, quando na realidade se trata de um projeto político destinado a apagar a identidade palestina de sua geografia natural.

A África do Sul foi finalmente sancionada pelo mundo. O apartheid foi declarado crime contra a humanidade, e a pressão internacional — somada à resistência interna — pôs fim ao regime.

Israel, por sua vez, ainda goza de impunidade. As potências ocidentais, que foram implacáveis com Pretória, hoje financiam e protegem o Estado sionista, apesar de suas violações sistemáticas ao direito internacional. O resultado é uma dupla moral global: condena-se o racismo quando ele já foi derrotado, mas tolera-se — e até se premia — quando o opressor se disfarça de vítima.

A diferença fundamental entre o apartheid sul-africano e o Israel do sionismo não está apenas na forma, mas na intenção: o primeiro precisava do oprimido para manter sua economia; o segundo busca o desaparecimento do oprimido para construir uma “pureza nacional” inexistente.

E, enquanto o apartheid sul-africano caiu porque o mundo decidiu enfrentá-lo, o sionismo continua vigente porque o mundo — ou grande parte dele — decidiu virar o rosto. Mas a história não perdoa a indiferença. A Palestina, como antes a África do Sul, voltará a se erguer, porque nenhum muro nem exército é capaz de vencer a verdade ou silenciar a memória de um povo que se recusa a desaparecer.

¨      África do Sul investiga esquema oculto para trasladar palestinos ao seu território

A história veio à tona a nível mundial neste sábado (15/11), em uma reportagem da Al Jazeera, mas pode estar acontecendo há meses, e teve seu último episódio na última quinta-feira (13/11), quando o governo da África do Sul autorizou a entrada ao país de 153 palestinos, após eles passarem mais de 12 horas retidos em um avião pela polícia.

Na ocasião, o Departamento de Assuntos Internos sul-africano revelou que os passageiros palestinos “não tinham os carimbos de saída em seus passaportes”, razão pela qual os policiais do Aeroporto Internacional OR Tambo, entre as cidades de Joanesburgo e Pretória, impediram o desembarque.

A situação só foi contornada após intervenção do Ministério da Relações Exteriores da África do Sul e de uma organização humanitária que garantiu abrigo a todos os indivíduos.

Porém, o grande mistério é como essas pessoas chegaram ao país africano. Segundo a reportagem do canal catari, as autoridades locais confirmaram que todos eles são ex-residentes da Faixa de Gaza, mas as versões sobre como abordaram o voo que os levou a Joanesburgo até o momento são inconclusivas.

Além disso, a Al Jazeera averiguou que casos como o desta quinta-feira foram registrados outras vezes este ano, embora este último tenha sido o que envolveu um maior número de pessoas.

<><> Possível envolvimento de Israel

Entre as dúvidas sobre a forma como os palestinos foram parar na África do Sul está o fato de que nem as autoridades nem os palestinos entrevistados pela reportagem revelaram o nome da entidade que organizou o traslado.

A matéria da Al Jazeera diz apenas que se trata de “uma organização sem fins lucrativos”, que estaria operando o esquema a partir de Israel, embora tampouco haja uma confirmação de que seria uma organização israelense, ou com algum tipo de vínculo com o governo do premiê Benjamin Netanyahu.

Segundo a ativista palestina Nour Odeh, em entrevista à Al Jazeera, “há uma organização obscura que está em atividade há algum tempo, pelo menos desde maio, quando o primeiro voo foi organizado por ela, pelo que sabemos”.

<><> ‘Viagem do sofrimento’

Em outro trecho da reportagem, o imigrante palestino Loay Abu Saif, que fugiu de Gaza com sua esposa e filhos, classificou a jornada que os levou para fora do enclave até a África do Sul como uma “viagem de sofrimento”.

“Não estávamos muito convencidos de que a oferta que nos fizeram seria para uma evacuação segura. Hoje, posso dizer que me sinto seguro, o que significa muito, mas penso nos outros palestinos, especialmente naqueles que estão em Gaza”, acrescentou Saif, refletindo sobre os demais sobreviventes do genocídio.

<><> Declaração do presidente

Após a resolução do incidente desta quinta, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa declarou aos meios locais que “essas são pessoas de Gaza, que de alguma forma misteriosa foram colocadas em um avião que passou por Nairóbi (capital do Quênia) e veio para cá”.

“Obviamente, precisamos analisar suas origens, onde tudo começou, o motivo pelo qual foram trazidas, pois não tinham nenhuma documentação e parece que estavam sendo expulsas”, acrescentou o mandatário, que também anunciou a abertura de uma investigação para esclarecer o caso.

Por sua parte, o Departamento de Gestão de Fronteiras sul-africano emitiu um comunicado dizendo que “os palestinos têm direito a uma isenção de visto de 90 dias na África do Sul, seus processos ocorreram normalmente e eles deverão cumprir todas as condições de entrada”.

¨      Perpetuar poder e silenciar o povo palestino: o decreto de Mahmoud Abbas

O recente decreto emitido por Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Nacional Palestina (ANP), por meio do qual se concede ao vice-presidente do Comitê Executivo da Organização para a Libertação da Palestina (OLP) a faculdade de assumir temporariamente a presidência da Autoridade Palestina em caso de vacância, é uma manobra política revestida de legalidade, mas vazia de legitimidade. É o reflexo mais nítido de uma liderança que perdeu o contato com seu povo e com a própria essência da causa palestina.

Abbas, que há mais de 20 anos se mantém agarrado ao poder sem convocar eleições presidenciais nem legislativas, tenta blindar seu círculo mais próximo diante do inevitável colapso político de uma estrutura corroída pela corrupção e pela dependência do ocupante. Enquanto o povo palestino sofre a ocupação, o bloqueio e a repressão, a Autoridade Palestina se dedica a garantir a continuidade de sua administração sob o disfarce de estabilidade institucional.

Nada mais distante da realidade. Esse decreto não busca assegurar a transição democrática, mas sim perpetuar um sistema baseado na subordinação política e econômica a Israel, por meio da infame “coordenação de segurança” que transforma a ANP em um instrumento de controle sobre o próprio povo.

De Ramallah, Abbas tenta construir uma legalidade paralela que sirva aos interesses do ocupante e das potências que financiam sua estrutura burocrática. Mas essa legalidade carece de toda legitimidade popular. O povo palestino não a reconhece, porque sabe que a verdadeira autoridade não se impõe a partir de um escritório, mas se conquista a partir da resistência — das ruas de Nablus e Jenin, dos campos de refugiados, da diáspora que nunca deixou de sonhar com o retorno.

A OLP, sequestrada por uma elite acomodada, precisa ser resgatada de sua paralisia institucional. Deve voltar a representar todos os palestinos, não apenas um grupo que governa sob o amparo da ocupação. A unidade nacional não pode ser construída sobre decretos autoritários nem sobre a exclusão das forças de resistência, mas sobre a vontade coletiva de libertação.

Mahmoud Abbas poderá decretar sucessores, mas não poderá decretar legitimidade. O povo palestino, dentro e fora da pátria, já despertou. Não aceitará mais farsas constitucionais nem governos subordinados. A Palestina precisa de uma liderança que surja do sofrimento e da dignidade de seu povo, não da complacência com o ocupante.

A história julgará com dureza aqueles que, em nome da autoridade, traíram a causa de seu povo. Mas também reconhecerá a voz dos que, de qualquer lugar do mundo, levantaram a palavra para lembrar ao mundo que a única autoridade legítima é a que nasce da resistência e da esperança.

¨      Líder palestina denuncia colonização e pede expulsão de Israel da COP

Bandeiras e camisas da Palestina podem ser vistas com frequência nas ruas de Belém. Além do engajamento de movimentos sociais brasileiros com a causa, uma coalizão com representantes palestinos tem ocupado espaços de discussão nos eventos que ocorrem em paralelo à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30).

Uma das vozes de destaque é a de Salma Barakat, coordenadora do movimento Stop the Wall (Pare o Muro, em português), que existe há 20 anos e denuncia violências praticadas pelo governo de Israel.

Salma é palestina e vive em Jerusalém, cuja anexação da parte oriental por Israel não é reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). O órgão entende que o status da cidade deve ser definido por negociações entre israelenses e palestinos.

A reportagem da Agência Brasil conversou com Salma na Universidade Federal do Pará (UFPA), que sedia a Cúpula dos Povos, evento paralelo à COP30. Ela falou sobre processos de ocupação e assassinato de palestinos; conexões entre causas indígenas, palestinas e ambientais; além de estratégias para denunciar o governo de Benjamin Netanyahu em fóruns internacionais como a conferência do clima.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Quais demandas palestinas e do movimento Stop the Wall você traz para Belém?

Salma Barakat: A ideia principal do Stop the Wall é lutar contra o muro do apartheid, porque existe um muro que divide palestinos entre si e divide a Palestina do que hoje é Israel. Nossa mensagem para o mundo é dizer que não aceitamos ocupação, não aceitamos colonização, não aceitamos o genocídio que está acontecendo em Gaza.

Por isso, a ideia do muro. Como o muro entre o México e os Estados Unidos, ou outros muros ao redor do mundo. Criamos um movimento de base, do povo, e decidimos trabalhar unidos para dizer que “não queremos isso”.

E não aceitamos nenhum tipo de colonização em qualquer lugar do mundo, seja em países africanos, na América Latina, ou em outros lugares.

·        Como o movimento Stop the Wall é visto em Jerusalém e em Israel? O quanto há de apoio ou conflito?

Israel não reconhece que nos coloniza. Eles acham que a terra é deles, que são os donos da terra. Então, tudo o que fazemos é visto como terrorismo. São várias acusações. Mas acho que o principal problema é que eles não nos veem como os povos originários da terra. Eles acham que eles são os povos originários.

São brancos europeus que vieram se estabelecer lá e agora se consideram donos da terra – o mesmo que aconteceu na África do Sul e em outros lugares. Isso também inspirou nosso movimento: olhar para o que aconteceu no mundo com a colonização e perceber que sempre que mataram povos colonizados, disseram que essas pessoas eram inferiores, que não eram humanas.

E é assim que nos veem. Acho que o melhor exemplo é Gaza: sempre que bombardeiam e matam crianças, mulheres, homens, dizem que não são humanos, que são animais, e que precisam ser mortos.

·        Como relacionar o que ocorre na Palestina com as discussões sobre a emergência climática na COP30?

Quando falamos de justiça climática, podemos lembrar que Israel está bombardeando Gaza. Israel está destruindo as árvores da Palestina. Israel está roubando a água dos palestinos. Os palestinos não têm água limpa, mas os israelenses têm.

Israel se vende ao mundo como um país que tem soluções verdes, soluções climáticas. Eles dizem isso porque têm grandes corporações e depois divulgam ao mundo que podem oferecer essas soluções. Mas são soluções falsas.

O que acontece conosco, palestinos – o roubo da nossa terra, da nossa água, de tudo – depois acontece na América Latina também, porque é a mesma empresa que nos mata e mata na América Latina. Essa é a ideia principal.

·        Estamos na Amazônia, lar de muitos povos indígenas, que lutam ainda hoje pela demarcação de territórios. É possível conectar essa causa com as demandas palestinas?

Quando cheguei ao Brasil, eu chorei ao ouvir uma pessoa indígena falando. E pessoas negras aqui também: eu consigo sentir conexões pessoais, além do trabalho.

Quando falamos da luta indígena, vemos um povo que pertence à terra, e grandes corporações e governos dizendo que eles não têm direito àquela terra.

Eles querem deslocá-los, matá-los, tirá-los de seu território, dizendo “vocês podem viver em outro lugar, esqueçam sua terra”. Mas povos originários não acreditam nisso. Eles creem na conexão com a terra, a água, o ar. Nós também. Não podemos simplesmente ir embora. Por quê? Somos conectados à nossa terra.

Em um sentido mais estratégico: quando pedimos o fim do agronegócio destrutivo, o fim da energia suja, o fim da indústria militar, quando pedimos isso pela Palestina, isso também beneficia povos indígenas. Se a Palestina for libertada, os povos indígenas serão libertados. Se os povos indígenas forem libertados, a Palestina será libertada.

Outro exemplo: o deslocamento forçado. Como os povos indígenas no Brasil são mortos e deslocados? Primeiro matam as árvores, depois contaminam a água, causam fome, sede. É a mesma coisa que acontece em Gaza agora.

Nesta época, na Palestina, é a temporada das oliveiras – uma tradição palestina. Mas hoje não podemos praticá-la porque colonos e soldados matam palestinos que tentam colher, destroem árvores ou roubam as azeitonas para eles próprios produzirem azeite.

Quando viemos para a COP30, não pensamos só nas demandas palestinas. Queremos nos conectar com pessoas. Somos um movimento popular e isso é o que importa.

·        De que forma fazer com que as autoridades que participam da COP30 ouçam e tomem decisões concretas sobre a situação da Palestina?

A Coalizão Palestina na COP30 se organizou com uma petição para expulsar Israel do evento. Como um Estado que mata e desloca palestinos pode participar da COP e falar de justiça climática?

A petição será levada às autoridades. Queremos que no próximo ano Israel não tenha assento na COP. Este ano eles vieram com uma delegação pequena – antes eram grandes. Isso mostra o impacto do nosso trabalho.

Também participamos da Declaração dos Povos, que será entregue à presidência da COP30. Nossas demandas estarão ali. Também trabalhamos para acabar com relações entre Brasil e Israel. Nenhum acordo de comércio livre, nenhuma relação econômica.

Porque normalização significa tornar crimes contra a humanidade algo normal – e isso recusamos. Já tivemos sucesso em muitos países, como a Colômbia. Acreditamos que o Brasil pode fazer o mesmo.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Agencia Brasil/Al Jazeera

 

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