“O
agro não enche o prato”: a denúncia que a COP ignora
A
COP-30 começou oficialmente nesta segunda-feira, dia 10, com a promessa de
colocar a transformação da agricultura e dos sistemas alimentares no centro das
discussões sobre o combate à crise climática. Embora o tema esteja em alta nos
painéis oficiais e na comunicação do evento, o debate permanece superficial.
Ainda falta coragem para enfrentar o verdadeiro nó da questão: as estruturas de
poder e a desigualdade que sustentam o modelo agroexportador brasileiro.
Falar
em soberania alimentar sem tocar na concentração de terras e nos bilhões de
reais em subsídios ao agronegócio é esvaziar o sentido da expressão. Não existe
soberania alimentar quando quem decide o que e como se planta são grandes
corporações mais interessadas em lucro do que em comida de verdade.
O que
não pode acontecer é que, em uma conferência do clima que se propõe a discutir
o combate à fome e à crise ambiental, o destaque vá para projetos do
agronegócio como o Ferrogrão. A ferrovia, apresentada como símbolo de
progresso, serve, na prática, para facilitar o escoamento de commodities do
Centro-Oeste e do Norte, beneficiando exportadores e não quem precisa de
alimento no prato. Muito se fala em redução de custos de frete e de preços dos
alimentos, mas essa conta raramente chega à mesa do povo.
O
jornal Brasil de Fato está presente em Belém e, por seu caráter
contra-hegemônico, tem se destacado pela escuta de vozes diversas. Na tarde
desta segunda-feira, 10, participou de um debate no qual Adriano Ferreira,
representante do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Campo (MTC),
afirmou: “A gente precisa gritar ao mundo que só existe justiça climática se
houver proteção dos territórios tradicionais, dos povos indígenas e também dos
camponeses que estão na terra produzindo o alimento que nutre o povo
brasileiro.” A fala de Adriano representa muitos trabalhadores que lutam por
uma justiça climática que inclua quem produz o alimento.
O
portal de jornalismo independente ICL Notícias demonstra atenção aos movimentos
sociais presentes em Belém, noticiando os protestos recentes durante a COP-30.
Com destaque às frases na faixa, “O agro não enche o prato”, “Ferrogrão Não”, “Comida sem veneno” e “O
agro passa, a destruição fica” mostram que a sociedade civil está atenta. As
mobilizações denunciam que os grandes empreendimentos do agronegócio (como o
projeto Ferrogrão) trazidos como
“salvadores” da economia não alimentam o país. “Não queremos que nossos
biomas sejam vistos só como mercado, como corredor de soja, porto ou ferrovia”,
retrata a liderança Tupinambá Marília Sena ao ICL.
Enquanto
isso, o governo brasileiro segue abrindo mão de recursos públicos. Em 2024,
foram cerca de R$ 158 bilhões em isenções fiscais ao agronegócio, segundo o
próprio ministro da Fazenda, Fernando Haddad. O portal Sumaúma ressalta essa
crítica ao destacar que, ao patrocinar grandes produtores e exportadores, o
país prioriza o modelo agroexportador, deixando em segundo plano quem luta pela
agroecologia e pela proteção ambiental.
Mesmo
diante de dados científicos evidentes sobre a necessidade de produção de
alimentos de forma mais sustentável, a maior parte dos veículos de comunicação
ignora a pauta da soberania alimentar. Ainda mais quando há manifestações
contrárias aos interesses do agronegócio. Pensando na essência do jornalismo,
que deveria pautar-se pelo compromisso público, percebemos que, em geral, os
veículos hegemônicos descartam uma compreensão ampliada de sua responsabilidade
social. Por exemplo, no caso do Ferrogrão citado acima, nenhum veículo
tradicional destacou o tema no contexto da COP-30.
De um
lado, o discurso verde e rentável do agro. Do outro, a luta popular por comida
sem veneno e por um modelo agrícola justo e sustentável. Para além do nosso
presente já impactado pela mudança climática, que planeta estamos deixando às
futuras gerações?
Fonte:
Por por Jessica Thais Hemsing e Claudia Herte de Moraes, no Observatório da
Imprensa

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