Nuno
Vasconcellos: Bandido bom é bandido solto? Ou não?
Qualquer
que venha a ser a redação final, o relatório do deputado Guilherme Derrite
(PP/SP), que prevê um tratamento mais rígido aos bandidos filiados a
organizações criminosas, deve ser considerado um avanço. Nem tanto pelas
principais mudanças sugeridas — que, por sinal, são absolutamente necessárias.
O maior mérito do documento foi ter puxado para o centro da agenda política um
debate que já não podia mais ser adiado. Mais do que isso, de conseguir fazer
com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tratasse o combate ao crime como
prioridade — o que nunca antes na história de seus governos havia acontecido.
O
problema é que, na avaliação de muita gente, o governo tomou a decisão certa
pelos motivos errados — com os olhos mais voltados para as consequências
eleitorais das providências que devem ser tomadas do que para a necessidade de
tratar os bandidos com o devido rigor. Se Derrite não tivesse entrado em cena,
se não tomasse as decisões que tomou nem tivesse feito o barulho que fez,
talvez a questão continuasse relegada ao segundo plano. E as medidas
edulcoradas propostas pelo ministro Ricardo Lewandowski na Lei Antifacções
proposta por sua equipe talvez fossem aprovadas como se fossem um grande
avanço, sem que ninguém em Brasília ousasse colocar o dedo em feridas que só
deixarão de doer no dia que forem tratadas com remédios mais amargos do que os
placebos prescritos até agora.
Essa
ferida, a criminalidade disseminada pelo país inteiro, tem o tráfico de drogas
como núcleo, envolve outras práticas delituosas e é administrada pelas facções.
Todas as pesquisas colocam o avanço do crime e dos métodos cada vez mais cruéis
utilizados pelos bandidos para subjugar a sociedade como a preocupação número 1
dos brasileiros. Um tratamento mais vigoroso e implacável aos integrantes das
facções tornou-se um clamor nacional. Ou melhor, uma exigência que será cobrada
nas urnas, nas eleições do ano que vem.
Sendo
assim, ao propor em seu relatório o aumento generalizado das penas para os
crimes praticados pelo Comando Vermelho, de origem fluminense, pelo PCC, de
origem paulista, e por diversas outras facções que surgiram no rastro dessas
duas, Derrite tomou uma decisão recebida de braços abertos pela maioria das
pessoas. A questão é que muita gente dentro do próprio governo, que sempre
considerou o combate ao crime uma pauta “de direita” custou a acordar para a
necessidade de enfrentar a situação de forma mais determinada. Mas, agora que
acordou, quer tirar o atraso. E passou a agir como se sempre tivesse estado na
linha de frente do combate ao crime.
CRÍTICAS
HABITUAIS
A Lei
Antifacções, elaborada pela equipe de Ricardo Lewandowski, não foi feita a
toque de caixa. Ela já estava pronta, aguardando a assinatura pelo presidente
Lula, e foi encaminhada ao Congresso, em regime de urgência, no último dia 31
de outubro — quando ainda se ouviam os ecos da operação realizada pela polícia
fluminense dias antes, nos aglomerados de comunidades da Penha e do Alemão.
A
operação, como se sabe, colocou as forças policiais fluminenses frente a frente
com os “combatentes” do narcotráfico, armados com fuzis e vestidos para a
guerra. A batalha custou as vidas de quatro policiais e de 117 pessoas do outro
lado. O trabalho foi bem recebido pela população e desta vez não adiantaram as
críticas habituais da esquerda ao uso excessivo de força por parte da polícia.
A sociedade aplaudiu a operação e não restou ao governo, que só pensa em
recuperar a popularidade, admitir que as facções são um problema e passar a
defender medidas mais efetivas para combatê-las.
Foi
neste momento, quando o governo se preparava para mostrar serviço num terreno
onde jamais havia pisado, que o deputado Derrite entrou em cena. Capitão da
Polícia Militar, com carreira construída na linha de frente do combate ao
crime, e secretário da Segurança Pública de São Paulo, ele se licenciou do
cargo para assumir a relatoria do projeto.
Como já
aconteceu com milhares de matérias encaminhadas pelo Executivo ao Legislativo,
Derrite fez várias mudanças no texto original. O governo não gostou da perda de
protagonismo. Na quinta-feira da semana passada, a ministra das Relações
Institucionais, Gleisi Hoffmann, depois de se reunir com Lula, disse que,
naquilo que depender do governo, o texto que será levado à votação no plenário
da Câmara, em sessão marcada para a próxima terça-feira, não será o relatório
de Derrite. Será o projeto original, feito pelo time de Lewandowski — que
previa penas mais brandas e menos rigor na punição às facções.
É
justamente aí que está o problema. Ao contrário de Derrite, Lewandowski nunca
se mostrou à vontade na hora de propor medidas duras no trato com a
criminalidade. Não é segredo para ninguém que as ideias defendidas pelo
ministro, desde o tempo que vestia toga no Supremo Tribunal Federal, sugerem
que, para ele, bandido bom é bandido solto. Ou melhor, bandido que se livra da
cadeia em audiências de custódia, mesmo já tendo sido preso em flagrante duas,
dez, cem vezes pela polícia.
Lewandowski
não parece ter mudado de ideia em relação a isso. Na semana passada, por
exemplo, ele conduziu em Brasília um encontro com os ministros da Justiça dos
países do Mercosul para tratar da questão da Segurança. No final, a medida mais
enérgica anunciada por ele foi a criação de uma comissão para discutir o
assunto.
Ele não
falou em operações conjuntas das polícias do Brasil, da Argentina, do Paraguai,
do Uruguai e da Bolívia para reforçar a vigilância das fronteiras. Nem em
fortalecer o efetivo para coibir o tráfico de drogas, o contrabando de armas e
de cigarros e bebidas. A medida mais concreta proposta pelo ministro foi mesmo
a criação da comissão para discutir o assunto. É aí que está: se acontecer com
essa o que acontece com a maioria das comissões, ela logo cairá no esquecimento
ou talvez — quem sabe um dia? — acabará propondo soluções que serão debatidas
por uma nova comissão e assim por diante.
ESPADAS
SOBRE A CABEÇA
A
questão é que, desta vez, a sociedade está com pressa e vem cobrando mais ação
e menos lero-lero na luta contra o crime. Nessas circunstâncias, o ministro vem
sendo praticamente obrigado a admitir a adoção de soluções mais firmes. Dois
comentários. Primeiro: medidas que, para o ministro, podem parecer muito
firmes, certamente serão consideradas frouxas diante do rigor que a sociedade
vem cobrando no combate aos criminosos. Segundo: o ministro, naturalmente, não
parece agir movido por suas próprias convicções, mas pelas necessidades
eleitorais do governo.
É aí
que está a questão. As demandas da segurança pública sempre foram espadas
penduradas sobre a cabeça das administrações petistas. Por mais necessárias que
fossem, a esquerda sempre deu um jeito de fingir que elas não existiam. O
máximo que se fazia era atribuir às polícias estaduais, responsáveis pela
repressão à violência, a culpa pela morte de bandidos em combates armados.
Só que,
agora, as demandas sociais por ações mais firmes e implacáveis se tornaram
pesadas demais e as cordas que prendem as espadas podem se romper a qualquer
momento. Se as lâminas despencarem, podem atingir a credibilidade do governo e
dificultarem as possibilidades do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na
disputa da reeleição, em 2026. Este é o ponto.
E o que
o relatório de Derrite tem a ver com isso? Bem... nesse ambiente, em que o tema
incômodo da criminalidade (bem como das medidas amargas necessárias para
combatê-la) entrou à força na pauta do governo, a preocupação do Planalto nem
parece ser com as mudanças propostas por Derrite. O problema é que, por nunca
ter movido uma palha em nome da segurança pública, o Planalto não quer permitir
que um penetra queira comer o bolo que mandou fazer para a primeira festa.
O tema
da Segurança Pública entrou com tanta força na agenda do Planalto na semana
passada que praticamente impediu qualquer outro debate. Ao longo da
quinta-feira, o presidente se reuniu com dez ministros de sua equipe. Fez
questão de ouvir a opinião de todos eles. Inclusive dos que já foram
governadores de estados e tiveram que lidar com a pauta da Segurança.
Qualquer
especulação que se faça sobre o objetivo dessas reuniões deve levar em conta,
obrigatoriamente, a falta de autoridade do círculo mais próximo do presidente
Lula para lidar com esse assunto. Para começo de conversa, é bom deixar claro
que a coleta de opiniões sobre a melhor maneira de lidar com um problema grave
como esse é sempre saudável. Resta saber, porém, se as opiniões dos ministros
Rui Costa, da Casa Civil, e Camilo Santana, da Educação, acrescentam algo
positivo às ideias de combate à criminalidade ou se o que eles têm a dizer
apenas deixará Lula diante de uma situação embaraçosa.
Nas
mãos de Costa, que foi governador por dois mandatos, o estado da Bahia assumiu
a vice-liderança no ranking nacional na violência — situação que ainda persiste
no mandato de seu sucessor, o também petista Jerônimo Santana. A edição de 2025
do Anuário Brasileiro de Segurança Pública mostra a Bahia com 40,6 assassinatos
por 100 mil habitantes, atrás apenas do campeão Amapá, que tem 45,1 mortes
violentas por 100 mil. O Ceará, governado por Santana também por dois mandatos
e agora sob o comando de Elmano de Freitas, outro militante do PT, vem em
terceiro lugar, com 37,5 mortes violentas para cada 100 mil habitantes. Sendo
assim, e diante dos frutos de seu legado, Costa e Santana parecem ter mais
autoridade para contribuir com ideias que levem ao aumento da violência do que
com propostas de soluções para combatê-la.
BOI DE
PIRANHA
Para a
sociedade, e naquilo que diz respeito a seus efeitos práticos — ou seja, na
proposta de medidas eficazes que melhorem a Segurança Pública — pouco importa
se a lei que será votada pela Câmara dos Deputados na próxima terça-feira e,
depois, seguirá para o Senado, foi feita pelo governo ou se é obra da oposição.
A
primeira versão do relatório de Derrite continha pontos que, até ele mesmo
sabia, jamais constariam do texto final. A equiparação de facções criminosas
com organizações terroristas, prevista na primeira versão do relatório, cumpriu
o papel daquilo que, no linguajar do sertão brasileiro, é conhecido como “boi
de piranha”. Funciona assim: sabendo que o rio que precisa ser transposto pela
boiada está repleto de piranhas famintas, o chefe da comitiva escolhe o bezerro
mais fraco e o manda na frente. As piranhas atacam o animal, o devoram, saciam
sua fome e, assim, a boiada principal, com as reses mais saudáveis, pode chegar
à outra margem em segurança. A questão é que, quando a fome do cardume é
grande, às vezes é preciso mais de um boi para saciá-la.
A
equiparação das facções com o terrorismo foi devorada e saiu do texto com a
rapidez que entrou. Da mesma forma, saíram outros chamarizes incluídos no texto
para atrair a fúria da esquerda. Outras questões incluídas por Derrite foram
mal-recebidas e tiveram que ser revistas. Desviar recursos da Polícia Federal e
destiná-los às polícias estaduais, como fez o deputado, é aquilo que, no
linguajar juvenil, se traduz como “se colar, colou”. Derrite, convém não
esquecer, é secretário de Segurança Pública de São Paulo. E se a relatoria
pudesse ajudá-lo a conseguir mais recursos para financiar suas operações,
ótimo. Só que não deu certo. O deputado recuou e os recursos que iriam para os
estados continuarão destinados à PF.
Naquilo
que é substancial, porém, as ideias introduzidas por Derrite foram mantidas. O
texto propõe penas de 20 anos a 40 anos de reclusão para uma série de novas
tipificações penais (no projeto do governo, a pena máxima é de 30 anos). Entre
as novas tipificações estão o uso da “violência ou grave ameaça para exercer
domínio ou influência sobre territórios”; a imposição de dificuldades “em algum
nível, à livre circulação de pessoas e serviços”, a imposição de “controle
social sobre atividades econômicas”; a sabotagem a “meios de transporte e
serviços públicos essenciais (energia, hospitais, escolas, aeroportos, bancos
de dados)”.
Essas e
as outras novas tipificações previstas no texto passam a fazer parte da relação
de crimes hediondos — o que dificulta a possibilidade de anistia, graça,
indulto ou a concessão de liberdade condicional. É aí que as diferenças entre a
direita e a esquerda começam a ficar escancaradas. O governo e seus apoiadores
temem que as medidas de endurecimento propostas por Derrite sejam aplicáveis,
também, ao MST, ao MTST e a outros grupos de extrema esquerda (que o governo
considera “movimentos sociais”) que também se valem de meios violentos, como a
invasão de terras e a depredação de propriedades como método de militância
política.
O
ministério da Justiça, como era óbvio que faria, se posicionou contra o
relatório e começou a agir para tirar de cena as medidas rigorosas propostas
por Derrite. É aí que está o problema. Muitas das críticas que o governo faz ao
projeto de Derrite soam como elogios aos ouvidos de boa parte da sociedade.
Quer um exemplo? Vamos lá. De acordo com uma nota emitida pela equipe de
Lewandowski, as mudanças podem “instaurar um verdadeiro caos jurídico ao propor
inovações para alterar, de forma assistemática e pouco técnica, institutos de
longa data testados pela jurisprudência dos tribunais”.
Que
“institutos testados pela jurisprudência” são esses? Ora, justamente aqueles
que dão à sociedade a certeza de que a lei brasileira é branda demais com os
criminosos. Além de proibir visitas íntimas e audiência de custódia aos membros
de facções criminosas, a lei também restringe a chamada “progressão da pena”
para os integrantes das facções. Pelos critérios atuais, um condenado a pena de
prisão em regime fechado pode evoluir para o regime semiaberto após cumprir
pouco mais de 16% da pena. O projeto de Derrite prevê a possibilidade de
progressão para os faccionados a partir do cumprimento de 70% das penas. Até
lá, o criminoso fica recluso.
Os
críticos do endurecimento do tratamento às organizações criminosas insistem em
dizer que punições mais severas aumentarão a tensão no ambiente prisional. Isso
mesmo: uma das críticas que a esquerda tem feito ao projeto de Derrite é que o
endurecimento do tratamento aos bandidos vai contrariá-los e provocar sua
reação. Pode uma coisa dessas? A esquerda entende que não se deve aumentar o
rigor na luta contra as facções porque isso pode fazer com que elas reajam com
agressividade e se tornem ainda mais perigosas.
Ora...
se esse é o problema, cabe ao Estado se preparar para enfrentá-lo. O que a
sociedade não admite é o velho argumento de que os criminosos, sobretudo os
traficantes que sequestram comunidades inteiras e usam a população como escudo
para suas atividades fora da lei, são pobres vítimas da sociedade.
A
sociedade espera uma lei mais dura para combater a criminalidade. Espera,
também, que os três poderes do Estado — o Legislativo, o Executivo e o
Judiciário — e seus agentes tenham convicção na hora de aplicá-la. Uma lei
rigorosa nas mãos de um governo frouxo não surtirá efeito algum. Da mesma
forma, uma lei frouxa nas mãos de um governo disposto a combater o crime com
rigor também trará problemas e criará expectativas que geram frustrações. É
preciso encontrar logo a solução e o equilíbrio — porque a sociedade já está
cansada de ver o crime crescer sem que o Estado aja para combatê-lo.
Fonte:
O Dia

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