Leonardo
Boff: O conceito de terrorismo
A
chacina do dia 28 de outubro nos bairros da Penha e do Alemão para prender
membros da facção criminosa do Comando Vermelho (CV) resultando na morte de 121
pessoas, deslanchou uma acirrada discussão sobre a distinção entre facção
criminosa e terrorismo. Isso se deveu especialmente pela qualificação que
Donald Trump deu a todo narcotráfico como terrorismo.
Esse
conceito justificaria a Donald Trump a levar uma verdadeira ação de guerra com
todo tipo de armas, até com a maior delas um porta-aviões com mais poder de
fogo que todas as armas da segunda guerra mundial, tudo localizado nas
proximidades da Venezuela, tida como um Estado terrorista e um presidente
narcotraficante.
A
distinção entre facção criminosa e terrorismo não é sem relevância. Pois, o
terrorismo interpretado como um ato de guerra, daria carta-branca aos EUA de
interferir nas várias nações no combate às várias facções de narcotraficantes.
Não devemos esquecer que em razão do ataque às Torres Gêmeas e ao Pentágono no
dia 11 de setembro 2001 o presidente de então fez dos EUA um verdadeiro Estado
terrorista, suspendendo direitos humanos, permitindo o sequestro de suspeitos
sem avisar a suas famílias, a prática da tortura em Guantánamo e em outros
países. Foi declarada uma “guerra infinita” contra o terrorismo em especial
aquele do muçulmano de Bin Laden.
Importa
distinguir o que é facção criminosa e terrorismo para não darmos argumento a
uma eventual intervenção norte-americana em nosso país a pretexto de combater
“terroristas”. Facção criminosa situa-se no âmbito da criminalidade, embora
organizada, sem, contudo, pretender chegar ao poder de Estado. Buscam através
do narcotráfico de todo tipo e outros crimes benefícios financeiros coletivos.
Não raro controlando toda uma região como ocorre no Rio de Janeiro. Portanto,
não existe vontade política de derrubar um regime, no caso democrático de
direito, por outro de seus interesses.
O
terrorismo, ao contrário, se situa na esfera do político. Se não chega a
derrubar um regime, às vezes o consegue como no Oriente Médio e no Norte da
Africa, mas visa a desestabilizar um Estado poderoso como era e ainda é os EUA.
Como o faz? Ocupar as mentes da população através do medo e do pavor para
desestabilizar a ordem vigente. Já Osama Bin Laden no dia 8 de outubro de 2001,
profetizou: “Os EUA nunca mais terão segurança, nunca mais terão paz”. E
parece-me que isso está ocorrendo.
O
terrorismo segue a seguinte estratégia: (i) Os atos têm de ser espetaculares,
caso contrário, não causam comoção generalizada; (ii) tais atos, apesar de
odiados, devem provocar admiração pela sagacidade empregada; (iii) os atos
devem sugerir que foram minuciosamente preparados; (iv) os atos devem ser
imprevistos para darem a impressão de serem incontroláveis.
(v) Os
atos devem ficar no anonimato dos autores porque quanto mais suspeitos, maior o
medo; (vi) os atos devem provocar permanente medo; (vii) Os atos devem
distorcer a percepção da realidade: qualquer coisa diferente pode configurar o
terror. Basta ver um árabe e já se imagina um terrorista ou um favelado negro
de havaianas já se projeta um traficante potencial. Por vezes é logo abatido po
algum policial.
Formalizemos
uma compreensão suscinta do terrorismo: é toda violência espetacular, praticada
com o propósito de ocupar as mentes com medo e pavor e desestabilizar a ordem
vigente.
O
importante não é a violência em si, mas seu caráter espetacular, capaz de
dominar as mentes de todos e desestabilizar a ordem, como foi feito com o
patriotic act nos EUA. Daí ser importante mostrar os aviões explodindo no ar,
vagões arrebentados, edifícios destruídos, cadáveres estraçalhados, muitos
mortos espalhados sob ruínas.
O
terrorismo político vem carregado de ressentimento, amargura e raiva. Por isso
combatê-lo militarmente como única forma de enfrentamento é cometer um erro
palmar. Acaba alimentando mais ainda os motivos que levam ao terrorismo.
Isso
ocorre, para dar um exemplo, com os muçulmanos-árabes que têm clara consciência
de que eles detém o sangue do sistema mundial de produção, comércio e
tecnologia: o petróleo. Nenhum carro se desloca, nenhum avião cruza os ares,
pouca coisa funciona sem o petróleo e seus derivados.
Eles,
detentores desta riqueza decisiva, sentem-se manipulados pelas potências
ocidentais, marginalizados e desprezados com referência às decisões que definem
os rumos do mundo. Antes, são considerados atrasados, despóticos e fanáticos.
Essa leitura preconceituosa que o Ocidente faz do mundo muçulmano é fator que
alimenta a vontade de vindita. O terrorismo encontra neste caldo cultural sua
matriz principal.
Esse
terrorismo político alcançou sua forma extremada pela guerra que o governo
israelense de Benjamin Netanyhau está movendo contra a Faixa de Gaza dos
palestinos. Foi uma resposta desproporcional a um ato terrorista feito
anteriormente pelo grupo armado do Hamas. A maior vergonha tem sido o apoio que
os países europeus de origem cristã, que introduziram os direitos dos cidadãos,
a democracia e outros valores, traindo tal legado, apoiarem esta guerra de ala
letalidade e o genocídio a céu aberto de milhares de crianças inocentes.
O
terrorismo político perdurará enquanto não prevalecer um novo tipo de
civilização que consiga desfazer as raivas e ódios que subjazem e alimentam o
terror e insira a todos na Casa Comum, na qual todos têm direito de viver
juntos com as diferenças específicas e que não ponham em risco o novo pacto
social mundial.
Fonte:
A Terra é Redonda

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