Da
escola para a linha de frente: como crianças ucranianas estão sendo treinadas
para lutar contra o próprio país
Em uma
escola da parte ocupada pela Rússia da região de
Kherson, no sul da Ucrânia, as crianças ficam de pé em
silêncio, enquanto seus colegas, vestidos com uniformes militares de cor bege e
boinas vermelhas, recebem medalhas e presentes.
As
crianças uniformizadas fazem parte da Yunarmiya, o Exército da Juventude — o
movimento juvenil patriótico-militar nacional da Rússia. Os recrutas mais
jovens têm apenas oito anos de idade.
Os que
não fazem parte da organização observam os privilégios oferecidos aos membros
da Yunarmiya: refeições separadas na cantina, melhores alimentos e tratamento
especial dos professores.
·
A recusa
Serhiy
é um estudante de 12 anos. Ele contou à BBC que se recusou a entrar para a
Yunarmiya. Por isso, ele recebeu punições, como notas mais baixas, entre
outras.
"Eles
conseguem notas altas mesmo se não souberem a matéria", declarou ele, em
referência aos recrutas da Yunarmiya na sua escola.
Serhiy
trocou de escola diversas vezes por três anos, enquanto vivia sob a ocupação
russa.
Relocado,
agora, para o território sob controle ucraniano, ele calcula que até a metade
dos seus antigos colegas de classe tenham se inscrito em programas
militarizados, seja pela Yunarmiya ou em classes de cadetes administradas pelo
Comitê Investigativo da Rússia, uma unidade que investiga crimes sérios ou
prioritários no país.
Eles
podem também estar em unidades especiais de segurança administradas pela
Rosgvardiya, um órgão de segurança separado do exército russo, mas controlado
pelo Estado.
Os
críticos afirmam que estes programas se destinam a preparar as crianças para o
serviço futuro no exército russo ou outras forças de segurança. Os
participantes recebem uniformes especiais e são enviados para campos de
treinamento na Rússia durante as férias escolares.
·
Quais são as origens da Yunarmiya?
A
Yunarmiya foi fundada em 2016 pelo então ministro da Defesa da Rússia Sergei
Shoigu, forte aliado do presidente russo, Vladimir Putin.
Atualmente,
existem cerca de 1,8 milhão de crianças na organização. A ampla maioria delas
está na Rússia, mas o número também inclui 43 mil crianças na Ucrânia ocupada.
Também
se acredita que a organização recrute ativamente outras crianças ucranianas em
todas as regiões ocupadas pela Rússia.
Em maio
de 2025, mais de 120 mil dos seus formandos serviam no exército russo, segundo
o líder da Yunarmiya, Vladislav Golovin.
Golovin
é um fuzileiro naval russo que participou da tomada da cidade de Mariupol, no
sul da Ucrânia, que sofreu fortes bombardeios russos nas primeiras
semanas da invasão, em 2022. Milhares de civis foram mortos e dezenas de
milhares de casas foram destruídas.
Ele
descreve a missão da Yunarmiya como instilar "a Rússia em cada passo"
da vida de uma criança.
As
crianças aprendem a beijar a bandeira russa, cantar o hino nacional, a se
reunir e manusear armas de fogo. Elas também são incentivadas a lutar.
Um
estudante relembra ter ouvido que a idade não importa. A orientação aos
recrutas era de que, se a Ucrânia "atacar a Rússia", eles deverão
pegar em armas.
Golovin
também é vice-líder de outra organização juvenil, conhecida como Movimento dos
Primeiros. Ela promove os "valores morais e espirituais tradicionais"
do "mundo russo".
·
O recrutamento de crianças ucranianas
Após a
anexação de quatro regiões ucranianas pela Rússia, em 2022, a Yunarmiya deu
início ao recrutamento em massa de crianças na região.
Somente
na região de Donetsk, a BBC calcula que
existam, agora, 180 unidades oficiais da organização.
Em
Mariupol, as autoridades locais incentivam abertamente os jovens a se preparar
para a guerra, usando retórica como "combater o mal" e
"resistir".
Segundo
o Centro de Combate à Desinformação da
Ucrânia,
algumas escolas criaram "classes [inteiras] da Yunarmiya... com os pais
sendo pressionados a inscrever seus filhos, sob ameaça de multas ou restrição
de acesso a serviços escolares".
Em
lições obrigatórias nas escolas, além das aulas conduzidas pela Yunarmiya
(tanto na Ucrânia ocupada, quanto na Rússia), a Ucrânia é frequentemente
retratada como Estado neonazista e sua existência como nação é negada, segundo
apurou a BBC.
As
crianças são ensinadas que a Rússia é poderosa e a Ucrânia teria causado
o colapso da União Soviética (1922-1991),
mais de 30 anos atrás.
Além da
sala de aula, as redes sociais da Yunarmiya exibem inúmeras atividades
relacionadas ao exército e de treinamento militar.
Elas
variam de tiro ao alvo e aulas de primeiros socorros até a busca de restos de
soldados da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).
Entre
janeiro e agosto de 2025, a BBC calcula que o grupo tenha promovido pelo menos
1.275 desses eventos, na região ucraniana ocupada de Donetsk.
É desta
forma que as crianças conhecem recrutadores militares russos e veteranos da
chamada "operação militar especial" (a expressão russa para designar
a guerra contra a Ucrânia).
Os
participantes são treinados para usar armas, como lança-chamas, metralhadoras e
granadas, pilotar drones e hackear sistemas de comunicação via satélite.
A BBC
estima que mais de 15% das atividades nesses eventos não são militares, como
limpeza de parques ou visitas a museus. Mas mesmo estas atividades, muitas
vezes, incluem mensagens ideológicas.
A BBC
também apurou que esses eventos costumam se concentrar na Segunda Guerra
Mundial e traçam paralelos entre os nazistas e o que as autoridades russas
chamam de "neonazistas" na Ucrânia.
Esses
acampamentos recebem e treinam crianças da Ucrânia ocupada e também da própria
Rússia.
Pesquisadores
da Faculdade de Saúde Pública da
Universidade Yale,
nos Estados Unidos, identificaram 210 desses acampamentos. E cerca de 20% deles
eram totalmente dedicados ao treinamento militar.
Centros
com nomes como Guerreiro e Guarda Avançada, criados pelas autoridades russas,
ensinam táticas de combate, engenharia e medicina no campo de batalha.
As
crianças ucranianas nos territórios ocupados também participam de competições
militares russas, como a Zarnitsa 2.0, promovidas nas escolas e destinadas a
simular condições de combate.
Os
membros da Yunarmiya também visitam escolas regularmente, para promover eventos
e recrutar novos membros.
·
Possíveis violações dos direitos humanos
Autoridades
ucranianas declararam que a Rússia "deportou" pelo menos 19,6 mil
crianças ucranianas para a Rússia desde o início do conflito. Elas também
documentaram casos de jovens ucranianos recrutados para o exército russo ao
atingirem 18 anos de idade.
Em
março de 2023, o Tribunal Penal Internacional emitiu ordens de prisão contra o
presidente russo Vladimir Putin e a comissária russa dos direitos das
crianças, Maria Lvova-Belova. Eles são acusados
de transferência forçada de crianças ucranianas.
As
Nações Unidas declararam que essas transferências constituem crimes de guerra.
Moscou
nega que os jovens tenham sido conduzidos à força e afirma que as
transferências são feitas para proteger as crianças envolvidas. As autoridades
russas também negam terem obstruído o retorno de crianças ucranianas para suas
casas.
A
Ucrânia conseguiu repatriar mais de 1,5 mil
crianças para o país, com a ajuda de organizações como a Save Ukraine. Os
esforços internacionais continuam, como as ações da primeira-dama
ucraniana Olena Zelenska e a mediação do
Catar.
Também
há relatos de recrutamento nos próprios territórios ocupados. O maior evento
deste tipo teria ocorrido no final de 2024, segundo a inteligência militar
ucraniana.
Por
isso, acredita-se que ucranianos tenham sido mortos lutando contra seu próprio
país.
Ativistas
dos direitos humanos afirmam que estas ações fazem parte da estratégia de
Moscou para dividir a sociedade ucraniana e estabelecer uma base de
mobilização.
Os
promotores ucranianos investigam uma série de líderes da Yunarmiya por
militarizarem as crianças, em contravenção às leis e costumes de guerra.
A
legislação internacional proíbe o recrutamento de menores de idade no exército
de forças de ocupação. Por isso, segundo elas, as ações da Rússia podem violar
diversos tratados.
A
Yunarmiya não respondeu às acusações, mas autoridades russas sempre defenderam
que as crianças da organização se inscreveram de livre vontade e trabalham para
se tornarem bons cidadãos e futuros defensores da Rússia.
¨
EUA propõem paz com retirada ucraniana do Donbass, mas
Zelensky rejeita e cancela reunião com enviado de Trump
Washington
elaborou um plano secreto de 28 pontos que prevê a retirada da Ucrânia do
Donbass em troca de garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos,
segundo revelou o portal Axios nesta quarta-feira (19). A proposta, inspirada
no modelo de Gaza articulado por Donald Trump, está sendo discutida em sigilo
com Moscou.
O plano
é estruturado em quatro eixos: paz na Ucrânia, garantias de segurança,
estabilidade europeia e o futuro das relações entre EUA, Rússia e Ucrânia.
Pelo
esboço, o Donbass se tornaria uma zona
desmilitarizada sem
presença russa, enquanto as linhas de frente em Kherson e Zaporozhie seriam
congeladas nas posições atuais. Em troca, Washington daria proteção à
Ucrânia, acrescentou a matéria, citando autoridades norte-americanas.
Zelensky,
no entanto, rejeitou os termos e cancelou a reunião com o enviado de Trump,
Steve Witkoff, que aconteceria na Turquia. Fontes indicam que o ucraniano
ignorou acordos prévios feitos por seu próprio Conselho de Segurança e levou
uma proposta alternativa, construída com aliados europeus. Trump teria
aprovado a decisão de Witkoff de não seguir com o encontro.
Além
disso, o rascunho também sugere que as linhas de contato nas regiões de Kherson e
Zaporozhie seriam
congeladas em suas posições atuais.
Mais
cedo, o portal havia informado, citando fontes russas e norte-americanas, que Rússia e
Estados Unidos estavam trabalhando secretamente em um plano
norte-americano de 28 pontos, inspirado nos esforços do presidente dos
EUA, Donald Trump, para chegar a um acordo em Gaza.
O
plano, afirma a reportagem foi estruturado em quatro temas principais: paz
na Ucrânia, garantias de segurança, segurança europeia e futuras relações dos
EUA com Rússia e Ucrânia.
¨
Apoio ocidental é insuficiente para virar conflito na
Ucrânia, diz ministro da Defesa da Itália
O apoio
fornecido pelos países ocidentais à Ucrânia não é suficiente para permitir a
recuperação dos territórios perdidos nem para provocar uma virada significativa
no conflito, afirmou o ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto.
Em
um relatório sobre
ameaças híbridas,
publicado no site do Ministério da Defesa italiano, Crosetto disse que, apesar
da mobilização internacional, Kiev não conseguiu alterar o curso do
conflito.
"Essa
resistência se expressa sobretudo na capacidade de 'ganhar tempo', mas
dificilmente criará condições para recuperar os territórios ocupados ou
provocar um avanço decisivo no conflito", aponta o documento.
Ele
também destacou que a situação se agrava pela redução do número de voluntários
ucranianos, ao menos até o fim de 2025, conforme declarou recentemente o
comandante das forças de drones das Forças Armadas da Ucrânia, Vadim
Sukharevsky.
O
relatório ainda ressalta que a Rússia possui recursos superiores, tanto em
armamentos — com uma indústria militar mais forte do que no início da guerra —
quanto em efetivos humanos.
O
jornal Il Fatto Quotidiano, ao comentar as
conclusões de Crosetto, afirmou que o ministro descarta a possibilidade de
contraofensivas eficazes por parte da Ucrânia.
De
acordo com o periódico, embora a Europa esvazie seus arsenais e entre em
dívidas para comprar novas armas destinadas a Kiev, o resultado mais
provável será a manutenção do cenário atual — ao custo de milhares
de novas vítimas.
¨
Países da OTAN discutem fraqueza diante da Rússia em
reunião à porta fechada, afirma mídia alemã
Altos
funcionários dos ministérios das Relações Exteriores e da Defesa, em uma
reunião a portas fechadas na Lituânia, discutiram a vulnerabilidade do flanco
oriental da OTAN diante de um eventual ataque da Rússia, informou o jornal
alemão Bild.
De
acordo com a publicação, na reunião em
Vilnius, altos representantes das chancelarias e das pastas de defesa dos
países europeus, juntamente com especialistas militares e representantes do
complexo militar-industrial, debateram as razões de sua fraqueza frente à
Rússia, incluindo a defasagem e o alto custo dos armamentos europeus
e a eficácia da economia russa adaptada à condução de operações
militares.
No que
se refere à capacidade de adaptação da economia russa, um dos altos
funcionários europeus afirmou que a Rússia "transformou com muito sucesso
sua economia para sustentar operações de combate".
O
complexo militar-industrial ocidental, segundo ele, ainda aposta em "alta
qualidade, e não em quantidade", e contra a Rússia essa abordagem não é apenas
inútil, mas também muito cara quando se trata de garantir uma defesa eficaz em
um conflito real.
"Um
bilhão de euros do orçamento de defesa russo equivale a dez bilhões no
Ocidente", cita o Bild.
Alguns
especialistas, citando as palavras do ministro da Defesa alemão, Boris
Pistorius, também ressaltaram que os armamentos dos quais o
Ocidente depende são, em grande parte, obsoletos.
"Na
verdade, porém, 99% do nosso orçamento de defesa é gasto em sistemas obsoletos
que se mostraram inúteis na Ucrânia", constatou um representante europeu
da indústria de defesa.
Outro
participante observou que, em caso de conflito real, "100 tanques alemães
e veículos blindados no valor de 2 bilhões de euros (R$ 12,36
bilhões) serão destruídos por 300 drones russos no valor de 300 mil
euros (R$ 1,8 milhão)".
No
decorrer da reunião, também foram ouvidas declarações
pessimistas sobre o apoio militar dos Estados Unidos. Um diplomata
europeu afirmou que os aliados não devem contar com o respaldo norte-americano
e que Washington deixa claro à
Europa que "ela está sozinha".
Outro
especialista em política externa manifestou a opinião de que, caso o atual
vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, substitua Donald Trump na
presidência, a situação na Europa poderá piorar.
O
porta-voz do presidente russo, Dmitry Peskov, observou que a Rússia sempre
percebeu o perigo de um conflito com a Europa e, por isso, tomou medidas
antecipadas para garantir sua própria segurança.
O
presidente Vladimir Putin já classificou como "mentiras
incríveis" as declarações sobre supostos planos da Rússia de atacar a
OTAN, mas destacou a prontidão de Moscou para responder à
militarização dos países europeus.
Fonte:
BBC News Mundo/Sputnik Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário