sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Da escola para a linha de frente: como crianças ucranianas estão sendo treinadas para lutar contra o próprio país

Em uma escola da parte ocupada pela Rússia da região de Kherson, no sul da Ucrânia, as crianças ficam de pé em silêncio, enquanto seus colegas, vestidos com uniformes militares de cor bege e boinas vermelhas, recebem medalhas e presentes.

As crianças uniformizadas fazem parte da Yunarmiya, o Exército da Juventude — o movimento juvenil patriótico-militar nacional da Rússia. Os recrutas mais jovens têm apenas oito anos de idade.

Os que não fazem parte da organização observam os privilégios oferecidos aos membros da Yunarmiya: refeições separadas na cantina, melhores alimentos e tratamento especial dos professores.

·        A recusa

Serhiy é um estudante de 12 anos. Ele contou à BBC que se recusou a entrar para a Yunarmiya. Por isso, ele recebeu punições, como notas mais baixas, entre outras.

"Eles conseguem notas altas mesmo se não souberem a matéria", declarou ele, em referência aos recrutas da Yunarmiya na sua escola.

Serhiy trocou de escola diversas vezes por três anos, enquanto vivia sob a ocupação russa.

Relocado, agora, para o território sob controle ucraniano, ele calcula que até a metade dos seus antigos colegas de classe tenham se inscrito em programas militarizados, seja pela Yunarmiya ou em classes de cadetes administradas pelo Comitê Investigativo da Rússia, uma unidade que investiga crimes sérios ou prioritários no país.

Eles podem também estar em unidades especiais de segurança administradas pela Rosgvardiya, um órgão de segurança separado do exército russo, mas controlado pelo Estado.

Os críticos afirmam que estes programas se destinam a preparar as crianças para o serviço futuro no exército russo ou outras forças de segurança. Os participantes recebem uniformes especiais e são enviados para campos de treinamento na Rússia durante as férias escolares.

·        Quais são as origens da Yunarmiya?

A Yunarmiya foi fundada em 2016 pelo então ministro da Defesa da Rússia Sergei Shoigu, forte aliado do presidente russo, Vladimir Putin.

Atualmente, existem cerca de 1,8 milhão de crianças na organização. A ampla maioria delas está na Rússia, mas o número também inclui 43 mil crianças na Ucrânia ocupada.

Também se acredita que a organização recrute ativamente outras crianças ucranianas em todas as regiões ocupadas pela Rússia.

Em maio de 2025, mais de 120 mil dos seus formandos serviam no exército russo, segundo o líder da Yunarmiya, Vladislav Golovin.

Golovin é um fuzileiro naval russo que participou da tomada da cidade de Mariupol, no sul da Ucrânia, que sofreu fortes bombardeios russos nas primeiras semanas da invasão, em 2022. Milhares de civis foram mortos e dezenas de milhares de casas foram destruídas.

Ele descreve a missão da Yunarmiya como instilar "a Rússia em cada passo" da vida de uma criança.

As crianças aprendem a beijar a bandeira russa, cantar o hino nacional, a se reunir e manusear armas de fogo. Elas também são incentivadas a lutar.

Um estudante relembra ter ouvido que a idade não importa. A orientação aos recrutas era de que, se a Ucrânia "atacar a Rússia", eles deverão pegar em armas.

Golovin também é vice-líder de outra organização juvenil, conhecida como Movimento dos Primeiros. Ela promove os "valores morais e espirituais tradicionais" do "mundo russo".

·        O recrutamento de crianças ucranianas

Após a anexação de quatro regiões ucranianas pela Rússia, em 2022, a Yunarmiya deu início ao recrutamento em massa de crianças na região.

Somente na região de Donetsk, a BBC calcula que existam, agora, 180 unidades oficiais da organização.

Em Mariupol, as autoridades locais incentivam abertamente os jovens a se preparar para a guerra, usando retórica como "combater o mal" e "resistir".

Segundo o Centro de Combate à Desinformação da Ucrânia, algumas escolas criaram "classes [inteiras] da Yunarmiya... com os pais sendo pressionados a inscrever seus filhos, sob ameaça de multas ou restrição de acesso a serviços escolares".

Em lições obrigatórias nas escolas, além das aulas conduzidas pela Yunarmiya (tanto na Ucrânia ocupada, quanto na Rússia), a Ucrânia é frequentemente retratada como Estado neonazista e sua existência como nação é negada, segundo apurou a BBC.

As crianças são ensinadas que a Rússia é poderosa e a Ucrânia teria causado o colapso da União Soviética (1922-1991), mais de 30 anos atrás.

Além da sala de aula, as redes sociais da Yunarmiya exibem inúmeras atividades relacionadas ao exército e de treinamento militar.

Elas variam de tiro ao alvo e aulas de primeiros socorros até a busca de restos de soldados da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Entre janeiro e agosto de 2025, a BBC calcula que o grupo tenha promovido pelo menos 1.275 desses eventos, na região ucraniana ocupada de Donetsk.

É desta forma que as crianças conhecem recrutadores militares russos e veteranos da chamada "operação militar especial" (a expressão russa para designar a guerra contra a Ucrânia).

Os participantes são treinados para usar armas, como lança-chamas, metralhadoras e granadas, pilotar drones e hackear sistemas de comunicação via satélite.

A BBC estima que mais de 15% das atividades nesses eventos não são militares, como limpeza de parques ou visitas a museus. Mas mesmo estas atividades, muitas vezes, incluem mensagens ideológicas.

A BBC também apurou que esses eventos costumam se concentrar na Segunda Guerra Mundial e traçam paralelos entre os nazistas e o que as autoridades russas chamam de "neonazistas" na Ucrânia.

Esses acampamentos recebem e treinam crianças da Ucrânia ocupada e também da própria Rússia.

Pesquisadores da Faculdade de Saúde Pública da Universidade Yale, nos Estados Unidos, identificaram 210 desses acampamentos. E cerca de 20% deles eram totalmente dedicados ao treinamento militar.

Centros com nomes como Guerreiro e Guarda Avançada, criados pelas autoridades russas, ensinam táticas de combate, engenharia e medicina no campo de batalha.

As crianças ucranianas nos territórios ocupados também participam de competições militares russas, como a Zarnitsa 2.0, promovidas nas escolas e destinadas a simular condições de combate.

Os membros da Yunarmiya também visitam escolas regularmente, para promover eventos e recrutar novos membros.

·        Possíveis violações dos direitos humanos

Autoridades ucranianas declararam que a Rússia "deportou" pelo menos 19,6 mil crianças ucranianas para a Rússia desde o início do conflito. Elas também documentaram casos de jovens ucranianos recrutados para o exército russo ao atingirem 18 anos de idade.

Em março de 2023, o Tribunal Penal Internacional emitiu ordens de prisão contra o presidente russo Vladimir Putin e a comissária russa dos direitos das crianças, Maria Lvova-Belova. Eles são acusados de transferência forçada de crianças ucranianas.

As Nações Unidas declararam que essas transferências constituem crimes de guerra.

Moscou nega que os jovens tenham sido conduzidos à força e afirma que as transferências são feitas para proteger as crianças envolvidas. As autoridades russas também negam terem obstruído o retorno de crianças ucranianas para suas casas.

A Ucrânia conseguiu repatriar mais de 1,5 mil crianças para o país, com a ajuda de organizações como a Save Ukraine. Os esforços internacionais continuam, como as ações da primeira-dama ucraniana Olena Zelenska e a mediação do Catar.

Também há relatos de recrutamento nos próprios territórios ocupados. O maior evento deste tipo teria ocorrido no final de 2024, segundo a inteligência militar ucraniana.

Por isso, acredita-se que ucranianos tenham sido mortos lutando contra seu próprio país.

Ativistas dos direitos humanos afirmam que estas ações fazem parte da estratégia de Moscou para dividir a sociedade ucraniana e estabelecer uma base de mobilização.

Os promotores ucranianos investigam uma série de líderes da Yunarmiya por militarizarem as crianças, em contravenção às leis e costumes de guerra.

A legislação internacional proíbe o recrutamento de menores de idade no exército de forças de ocupação. Por isso, segundo elas, as ações da Rússia podem violar diversos tratados.

A Yunarmiya não respondeu às acusações, mas autoridades russas sempre defenderam que as crianças da organização se inscreveram de livre vontade e trabalham para se tornarem bons cidadãos e futuros defensores da Rússia.

¨      EUA propõem paz com retirada ucraniana do Donbass, mas Zelensky rejeita e cancela reunião com enviado de Trump

Washington elaborou um plano secreto de 28 pontos que prevê a retirada da Ucrânia do Donbass em troca de garantias de segurança oferecidas pelos Estados Unidos, segundo revelou o portal Axios nesta quarta-feira (19). A proposta, inspirada no modelo de Gaza articulado por Donald Trump, está sendo discutida em sigilo com Moscou.

O plano é estruturado em quatro eixos: paz na Ucrânia, garantias de segurança, estabilidade europeia e o futuro das relações entre EUA, Rússia e Ucrânia.

Pelo esboço, o Donbass se tornaria uma zona desmilitarizada sem presença russa, enquanto as linhas de frente em Kherson e Zaporozhie seriam congeladas nas posições atuais. Em troca, Washington daria proteção à Ucrânia, acrescentou a matéria, citando autoridades norte-americanas.

Zelensky, no entanto, rejeitou os termos e cancelou a reunião com o enviado de Trump, Steve Witkoff, que aconteceria na Turquia. Fontes indicam que o ucraniano ignorou acordos prévios feitos por seu próprio Conselho de Segurança e levou uma proposta alternativa, construída com aliados europeus. Trump teria aprovado a decisão de Witkoff de não seguir com o encontro.

Além disso, o rascunho também sugere que as linhas de contato nas regiões de Kherson e Zaporozhie seriam congeladas em suas posições atuais.

Mais cedo, o portal havia informado, citando fontes russas e norte-americanas, que Rússia e Estados Unidos estavam trabalhando secretamente em um plano norte-americano de 28 pontos, inspirado nos esforços do presidente dos EUA, Donald Trump, para chegar a um acordo em Gaza.

O plano, afirma a reportagem foi estruturado em quatro temas principais: paz na Ucrânia, garantias de segurança, segurança europeia e futuras relações dos EUA com Rússia e Ucrânia.

¨      Apoio ocidental é insuficiente para virar conflito na Ucrânia, diz ministro da Defesa da Itália

O apoio fornecido pelos países ocidentais à Ucrânia não é suficiente para permitir a recuperação dos territórios perdidos nem para provocar uma virada significativa no conflito, afirmou o ministro da Defesa da Itália, Guido Crosetto.

Em um relatório sobre ameaças híbridas, publicado no site do Ministério da Defesa italiano, Crosetto disse que, apesar da mobilização internacional, Kiev não conseguiu alterar o curso do conflito.

"Essa resistência se expressa sobretudo na capacidade de 'ganhar tempo', mas dificilmente criará condições para recuperar os territórios ocupados ou provocar um avanço decisivo no conflito", aponta o documento.

Ele também destacou que a situação se agrava pela redução do número de voluntários ucranianos, ao menos até o fim de 2025, conforme declarou recentemente o comandante das forças de drones das Forças Armadas da Ucrânia, Vadim Sukharevsky.

O relatório ainda ressalta que a Rússia possui recursos superiores, tanto em armamentos — com uma indústria militar mais forte do que no início da guerra — quanto em efetivos humanos.

O jornal Il Fatto Quotidiano, ao comentar as conclusões de Crosetto, afirmou que o ministro descarta a possibilidade de contraofensivas eficazes por parte da Ucrânia.

De acordo com o periódico, embora a Europa esvazie seus arsenais e entre em dívidas para comprar novas armas destinadas a Kiev, o resultado mais provável será a manutenção do cenário atual — ao custo de milhares de novas vítimas.

¨      Países da OTAN discutem fraqueza diante da Rússia em reunião à porta fechada, afirma mídia alemã

Altos funcionários dos ministérios das Relações Exteriores e da Defesa, em uma reunião a portas fechadas na Lituânia, discutiram a vulnerabilidade do flanco oriental da OTAN diante de um eventual ataque da Rússia, informou o jornal alemão Bild.

De acordo com a publicação, na reunião em Vilnius, altos representantes das chancelarias e das pastas de defesa dos países europeus, juntamente com especialistas militares e representantes do complexo militar-industrial, debateram as razões de sua fraqueza frente à Rússia, incluindo a defasagem e o alto custo dos armamentos europeus e a eficácia da economia russa adaptada à condução de operações militares.

No que se refere à capacidade de adaptação da economia russa, um dos altos funcionários europeus afirmou que a Rússia "transformou com muito sucesso sua economia para sustentar operações de combate".

O complexo militar-industrial ocidental, segundo ele, ainda aposta em "alta qualidade, e não em quantidade", e contra a Rússia essa abordagem não é apenas inútil, mas também muito cara quando se trata de garantir uma defesa eficaz em um conflito real.

"Um bilhão de euros do orçamento de defesa russo equivale a dez bilhões no Ocidente", cita o Bild.

Alguns especialistas, citando as palavras do ministro da Defesa alemão, Boris Pistorius, também ressaltaram que os armamentos dos quais o Ocidente depende são, em grande parte, obsoletos.

"Na verdade, porém, 99% do nosso orçamento de defesa é gasto em sistemas obsoletos que se mostraram inúteis na Ucrânia", constatou um representante europeu da indústria de defesa.

Outro participante observou que, em caso de conflito real, "100 tanques alemães e veículos blindados no valor de 2 bilhões de euros (R$ 12,36 bilhões) serão destruídos por 300 drones russos no valor de 300 mil euros (R$ 1,8 milhão)".

No decorrer da reunião, também foram ouvidas declarações pessimistas sobre o apoio militar dos Estados Unidos. Um diplomata europeu afirmou que os aliados não devem contar com o respaldo norte-americano e que Washington deixa claro à Europa que "ela está sozinha".

Outro especialista em política externa manifestou a opinião de que, caso o atual vice-presidente dos EUA, J. D. Vance, substitua Donald Trump na presidência, a situação na Europa poderá piorar.

O porta-voz do presidente russo, Dmitry Peskov, observou que a Rússia sempre percebeu o perigo de um conflito com a Europa e, por isso, tomou medidas antecipadas para garantir sua própria segurança.

O presidente Vladimir Putin já classificou como "mentiras incríveis" as declarações sobre supostos planos da Rússia de atacar a OTAN, mas destacou a prontidão de Moscou para responder à militarização dos países europeus.

 

Fonte: BBC News Mundo/Sputnik Brasil

 

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