terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

De Golfo da América a Fort Bragg: o que há por trás das trocas de nome decretadas por Trump

O presidente americano, Donald Trump, sempre entendeu o poder da marca. Como um empresário famoso, ele estampou seu nome nas fachadas dos seus arranha-céus, e o licenciou para uma série de produtos, de hotéis a vinhos.

Agora, ele está tentando fazer sua maior e mais ousada campanha de branding até o momento: do próprio Estados Unidos.

Em seu primeiro dia de volta à presidência, ele assinou uma ordem executiva renomeando o Golfo do México como Golfo da América. Denali, o nome indígena do famoso pico do Alasca, vai voltar a se chamar Monte McKinley, uma referência ao presidente William McKinley, assassinado em 1901.

A base militar de Fort Bragg, que foi batizada em homenagem a um general confederado, mudou de nome há alguns anos para Fort Liberty. Agora, com Trump na presidência, vai voltar a ter o nome original — mas, desta vez, em homenagem a um soldado muito menos controverso da Segunda Guerra Mundial.

Trump não é o primeiro presidente dos EUA a renomear marcos. Foi o democrata Barack Obama que mudou o nome do Monte McKinley para Denali, nome nativo americano, após anos de campanha de grupos indígenas do Alasca.

Já o republicano George W. Bush mudou o nome da Floresta Nacional do Caribe, em Porto Rico, para Floresta Nacional de El Yunque em 2007, para refletir a herança cultural deste território dos EUA.

E depois que o assassinato de George Floyd, em 2020, desencadeou um debate nacional sobre raça, o Congresso iniciou um processo para renomear as bases militares dos EUA que tinham nome de confederados.

Em 2023, durante a presidência de Joe Biden, o Departamento de Defesa renomeou nove bases militares americanas, incluindo Fort Bragg.

No centro destas decisões, está o desejo de retratar os Estados Unidos e seus valores sob uma ótica específica.

"O ato de nomear é uma maneira pela qual os presidentes podem reformular sua visão da nação", diz Allison Prasch, professora da Universidade de Wisconsin-Madison, nos EUA, que estuda retórica política.

As escolhas de Trump em seu segundo mandato também enviam uma mensagem clara sobre suas prioridades, segundo ela.

"Ele está enaltecendo uma visão muito nacionalista e imperialista dos Estados Unidos."

Algumas das escolhas de nomes de Trump remetem à era expansionista dos Estados Unidos, quando a ideologia predominante dizia que o país tinha a missão divina de se expandir.

Por exemplo, parte do legado do presidente William McKinley foi seu papel na anexação de Porto Rico, Guam, Filipinas e Havaí ao território dos EUA.

Ao mudar o nome do Monte Denali de volta para McKinley, Trump disse que queria homenagear McKinley porque ele "tornou nosso país muito rico por meio de tarifas e talento".

Esta é uma ideologia que também parece influenciar Trump hoje, à medida que ele fala em retomar o Canal do Panamá, que já esteve sob controle dos EUAcomprar a Groenlândia e anexar o Canadá para se tornar o "51º Estado".

Enquanto isso, renomear Fort Bragg é o último capítulo de um debate em andamento sobre o legado dos Confederados — a coalizão de Estados do sul que declarou sua secessão dos EUA por causa da questão da escravidão e desencadeou a Guerra Civil, também conhecida como Guerra de Secessão.

Durante o primeiro governo Trump, em meio a um debate nacional sobre injustiça racial, o Congresso exigiu que o Pentágono renomeasse as instalações com nomes de confederados — e proibiu que futuras instalações militares fossem batizadas em homenagem a eles.

A medida irritou Trump na época, que tentou vetar o projeto de lei do Congresso, dizendo que "nossa história como a maior nação do planeta não pode ser adulterada". Mas o Congresso aprovou a medida com apoio bipartidário.

O historiador Connor Williams, que fez parte do comitê para renomear Fort Bragg em 2021, acredita que prestar homenagens aos confederados é um equívoco.

"O que faz com que os confederados não sejam dignos de homenagem é que há muito pouco para redimi-los", diz Williams. "Eles cometeram traição contra os Estados Unidos."

"O que homenageamos, o que celebramos, que exibições públicas fazemos, onde colocamos coroas de flores — o presidente tem essa capacidade de sinalizar o que ele acha importante."

Em 2023, o governo Biden mudou o nome de Fort Bragg, em homenagem ao general confederado Braxton Bragg, para Fort Liberty.

"Aproveitamos essa oportunidade para nos tornarmos melhores e buscarmos a excelência", disse o tenente-general Christopher Donahue na cerimônia de renomeação. "Isso é o que sempre fizemos, e sempre faremos".

Mas a mudança de nome gerou sentimentos contraditórios entre os legisladores, ex-militares baseados na instalação e a comunidade local.

"Entendo o raciocínio por trás da mudança, e tenho que aceitá-la porque é o que a liderança eleita determinou como sendo do melhor interesse", disse Jimmy Keefe, comissário do condado de Cumberland, na ocasião da mudança, de acordo com a imprensa local.

"Mas detesto que tantas pessoas que tiveram experiências positivas em Fort Bragg, que tiveram filhos nascidos lá, que se casaram lá, não vão ter mais esse vínculo com o nome de Fort Bragg", acrescentou.

Na semana passada, o novo secretário de Defesa de Trump, Pete Hegseth, reverteu o nome da base para Fort Bragg. Mas, desta vez, ele disse que a base se chamaria assim em homenagem ao soldado Roland Bragg, que lutou na Segunda Guerra Mundial, e não em homenagem a um general confederado.

"É isso mesmo", declarou Hegseth. "Bragg está de volta."

Os legisladores republicanos que representam a base manifestaram entusiasmo com a mudança.

"Renomear Fort Bragg em homenagem ao soldado Roland L. Bragg, que recebeu (as medalhas) estrela de prata e coração púrpura na Segunda Guerra Mundial, sempre foi a decisão certa", escreveu o senador Ted Budd, da Carolina do Norte, no Facebook.

Mas, a nível nacional, muitas das mudanças de Trump se mostraram controversas. Uma pesquisa da Universidade Marquette, nos EUA, sugeriu que 71% dos adultos no país não apoiavam a mudança do nome do Golfo do México.

E algumas das mudanças provocaram debates sobre qual visão da história americana deveriam prevalecer oficialmente.

Uma pesquisa realizada pela Alaska Survey Research sugeriu que 47% dos eleitores de Trump no Alasca eram a favor da mudança de nome do Monte McKinley.

Mas, no geral, os habitantes do Alasca se opuseram à mudança de nome por uma margem de dois para um, informou o jornal Juneau Express.

Democratas e republicanos do Legislativo do Alasca se uniram para aprovar uma resolução pedindo a Trump que não mudasse o nome do Monte Denali.

"Mudar oficialmente o nome não apenas desonraria aqueles que lutaram para proteger o legado do Denali, mas também desconsideraria as vozes das comunidades nativas cujas raízes estão entrelaçadas com esta terra", disse a democrata Maxine Dibert, representante do Legislativo do Alasca, que é membro da comunidade indígena Koyukon Athabascan.

O tempo vai dizer se as mudanças de nome simbólicas de Trump vão perdurar. Mas as discussões sobre elas não dão sinais de arrefecimento.

Na semana passada, a Casa Branca impediu a entrada de um jornalista da Associated Press no Salão Oval porque a agência de notícias manteve o Golfo do México em seu popular guia de estilo. A editora executiva da AP, Julie Pace, chamou a decisão de "alarmante", e disse que ela violava os direitos de liberdade de expressão da Constituição.

Enquanto isso, o Google — que agora usa o nome Golfo da América em seus mapas para usuários dos EUA — começou a excluir avaliações negativas da troca de nome.

Mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América poderia ser uma apropriação de terra (ou água) apenas no papel, mas seu simbolismo é inegável, segundo Prasch, professora de retórica política na Universidade de Wisconsin.

E vai além da geografia, tocando em ponto sensível em relação a como o país vê a si mesmo — e a sua história.

"Na verdade, acho que isso é muito mais do que renomear um corpo de água em um mapa", diz ela.

"Trata-se de uma decisão fundamentalmente retórica sobre como pensamos a história da nação."

¨      Plano de Trump pode azedar mais relação de sauditas e Israel

Propostas polarizadoras sobre o futuro dos palestinos na Faixa de Gaza parecem estar sendo feitas em ritmo acelerado desde que o presidente dos Estados UnidosDonald Trump, e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, se reuniram em Washington na semana passada.

Na segunda-feira (10/02), Trump esclareceu que os palestinos não teriam permissão para retornar a Gaza se seus planos de adquirir e reconstruir o território devastado pela guerra se concretizarem.

"Eles terão moradias muito melhores (...) em comunidades um pouco distantes de onde estão, onde há todo esse perigo", disse Trump à emissora americana Fox News.

Trump gostaria de ver os vizinhos regionais, como o Egito e a Jordânia, como os principais países anfitriões para cerca de 2 milhões de palestinos de Gaza.

No entanto, especialistas afirmam que expulsar os palestinos de Gaza viola a lei internacional, enquanto as Nações Unidas alertaram para o que seria uma "limpeza étnica".

Outra ideia controversa foi apresentada por Netanyahu. Ele disse recentemente à emissora israelense Channel 14 que "os sauditas podem criar um Estado palestino na Arábia Saudita, pois eles têm muitas terras lá".

Por sua vez, não só o Egito e a Jordânia, mas também a Arábia Saudita, reiteraram que não estão dispostos a dar um lar aos palestinos de Gaza.

<><> Rejeição árabe unilateral

"O governo saudita afirma que o povo palestino tem direito à sua terra e não é um intruso ou imigrante que pode ser expulso sempre que a brutal ocupação israelense desejar", publicou o Ministério das Relações Exteriores da Arábia Saudita no X.

A pasta também destacou que "o direito do povo palestino permanecerá firmemente estabelecido e ninguém poderá tirá-lo dele, não importa quanto tempo isso leve".

Tais comentários incisivos marcam uma reviravolta de 180 graus em relação à amizade diplomática nutrida entre os EUA e o líder de fato da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, ou MBS, durante o primeiro mandato de Trump, de 2017 a 2021.

"Em 2017, muita esperança foi depositada em Trump, especialmente por MBS, que ainda estava consolidando seu poder", diz à DW Sebastian Sons, pesquisador sênior do think tank Center for Applied Research in Partnership with the Orient (Carpo), sediado em Bonn.

Nos anos seguintes, os laços políticos e econômicos entre os dois países se intensificaram.

No entanto, embora Trump tenha intermediado com sucesso os laços diplomáticos – apelidados de Acordos de Abraão – entre Israel e Sudão, Bahrein, Marrocos e Emirados Árabes Unidos, ele não conseguiu fechar o acordo com a Arábia Saudita antes de ser sucedido na Casa Branca por Joe Biden.

As negociações dos EUA entre Israel e a Arábia Saudita continuaram até o ataque terrorista do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra em Gaza.

De lá para cá, 15 meses depois e com Trump mais uma vez no cargo, muita coisa mudou.

<><> A influência da Arábia Saudita

"MBS não só está firmemente estabelecido, como também se tornou muito autoconfiante, o que também pode ser visto por sua reação às declarações de Trump e Netanyahu sobre os palestinos de Gaza", avalia Sebastian Sons.

Na opinião do pesquisador, no entanto, a normalização com Israel continua sendo uma alta prioridade para Washington e Jerusalém. "Mais do que para a Arábia Saudita no momento", afirma.

"Para a Arábia Saudita, normalizar os laços com Israel é atualmente – e a ênfase está em atualmente – uma impossibilidade", diz ele, acrescentando que "isso significaria perder a credibilidade, e MBS não vê Netanyahu e Trump como parceiros confiáveis para estabelecer uma solução de dois Estados".

Outros analistas concordam. "O plano de Trump para Gaza tornará a normalização entre a Arábia Saudita e Israel ainda mais difícil", pontua Anna Jacobs, do think tank Arab Gulf States Institute, com sede em Washington. "Os sauditas deixaram bem clara a sua posição de que o deslocamento forçado dos palestinos de suas terras não é solução."

Aziz Alghashian, membro sênior da Observer Research Foundation Middle East (ORF), com sede em Dubai, também acha que a Arábia Saudita mudou seu foco político do pragmatismo para a disputa.

"Os sauditas estão dispostos a enfrentar e discordar dos EUA em vez de serem pragmáticos como no passado", afirma Alghashian.

Na avaliação dele, essa confiança é sustentada pelo apoio público em larga escala na Arábia Saudita e em todos os países árabes. "A nova postura de MBS é muito popular nas ruas sauditas", ressalta.

E, no entanto, Sebastian Sons, do Carpo, não descarta que MBS e Trump acabarão se negociando, já que ambos os líderes também precisam se concentrar nos interesses de seus países.

"O projeto de reforma econômica da Arábia Saudita, o Vision 2030, precisa ser garantido", explica Sons, acrescentando que, para isso, os investimentos dos EUA são fundamentais.

E a Arábia Saudita continua sendo um parceiro importante para os Estados Unidos no Oriente Médio.

Sons diz esperar que a Arábia Saudita busque uma redução da escalada em um futuro próximo, o que poderia complementar o cálculo político de Trump.

"Eu poderia imaginar que a intenção de Trump também é fazer o máximo de exigências para conseguir pelo menos algumas concessões da Arábia Saudita", arremata Sons.

No entanto, ainda resta saber se, ou em que medida, isso também envolverá o destino dos palestinos em Gaza – que permanece incerto mais uma vez, depois que o Hamas suspendeu o atual cessar-fogo no último fim de semana. Até o momento, o pior cenário para a população é a retomada da guerra.

 

Fonte: BBC News/DW Brasil

 

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