“É uma pequena fatia que vai decidir as
eleições”, afirma Breno Altman
O
jornalista Breno Altman avalia que a eleição presidencial será decidida por uma
parcela relativamente pequena do eleitorado brasileiro, em um cenário de forte
polarização e pouca mobilidade entre os dois principais campos políticos.
Segundo ele, Lula aparece com ligeiro favoritismo, mas a disputa contra Flávio
Bolsonaro tende a permanecer apertada até o fim da campanha.
As
declarações foram feitas em entrevista ao Bom Dia 247, em conversa sobre as
novas pesquisas eleitorais, a estratégia da campanha de Lula, o programa
apresentado pelo PT, segurança pública, política fiscal e soberania nacional.
Para Altman, a maior parte do eleitorado já está consolidada em torno de um dos
dois polos, o que transforma um grupo estimado entre 5% e 8% dos votantes no
principal campo de batalha da eleição.
“É uma
fatia muito pequena que vai decidir as eleições”, afirmou.
Na
avaliação do jornalista, os eleitores independentes não formam propriamente um
centro ideológico homogêneo. Há, segundo ele, setores mais próximos da direita
e outros mais próximos da esquerda, além de diferenças importantes determinadas
pela rejeição aos principais candidatos.
“Tem
uma parte desse eleitorado que não gosta nem de Flávio Bolsonaro, nem de Lula,
mas tem uma parte dele que é mais anti bolsonarista e tem uma outra parte que é
mais anti lulista”, disse.
Altman
considera que esse quadro ajuda a explicar a relativa estabilidade demonstrada
pelas pesquisas, mesmo diante de episódios políticos com forte repercussão. Em
sua leitura, acontecimentos que em eleições anteriores poderiam provocar
deslocamentos expressivos hoje encontram um eleitorado mais resistente à
mudança.
“Essa
eleição muito dificilmente vai ter bala de prata, muito dificilmente vai ter um
tema que move os votos para um lado ou para o outro”, avaliou.
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Lula tem favoritismo, mas cenário segue apertado
Ao
comentar os números da pesquisa BTG Pactual/Nexus mencionados durante o
programa, segundo os quais Lula teria 47% contra 44% de Flávio Bolsonaro em uma
eventual disputa de segundo turno, Altman classificou o cenário como
praticamente um empate técnico, embora veja vantagem política para o atual
presidente.
“O
presidente Lula é o favorito. Eu não tenho dúvidas disso. Se você olhar as
pesquisas, isso fica bastante visível. Ele tem um ligeiro favoritismo”,
afirmou.
O
jornalista, porém, rejeitou a hipótese de uma vitória de Lula já no primeiro
turno nas condições atuais.
“As
chances de vitória no primeiro turno que alguns mais otimistas aventam, para
mim, são irreais. Pelas pesquisas de hoje, irreais. Nada nas pesquisas aponta
essa possibilidade”, disse.
Para
Altman, o cenário mais provável é de uma disputa semelhante à de 2022, decidida
por margem reduzida e que exigirá forte mobilização das campanhas.
“Nós
vamos ter uma disputa cabeça a cabeça”, declarou. “Vai ter que ter muita
campanha, vai ter que ter muita militância, vai ter que ter muito esforço,
porque a situação é realmente apertada.”
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Segurança pública pode favorecer a direita
Um dos
principais alertas feitos por Altman diz respeito à definição do tema central
da campanha. Segundo ele, segurança pública é uma agenda que historicamente
beneficia candidaturas de direita, enquanto saúde, educação, desenvolvimento e
políticas sociais oferecem terreno mais favorável à esquerda.
“Se o
tema principal da campanha for segurança pública, o presidente Lula vai ter
problemas”, afirmou.
Altman
relacionou essa vantagem da direita à associação feita por parte do eleitorado
entre segurança e medidas repressivas. Na sua avaliação, a insegurança vivida
especialmente nas grandes cidades cria demanda por respostas rápidas, enquanto
propostas estruturais de combate à criminalidade são percebidas como soluções
de médio e longo prazo.
“É
insuportável viver nas grandes capitais do país quando o tema é segurança. Você
tem o medo o tempo todo de ser assaltado, você tem o medo de seu celular ser
furtado”, afirmou.
Segundo
ele, esse ambiente abre espaço para propostas de endurecimento repressivo
apresentadas pela direita, ainda que considere tais soluções insuficientes para
enfrentar as raízes do problema.
“A
direita tem uma solução extrema, fácil e irreal, que é tiro, porrada e bomba.
Só que isso é música no ouvido de parte do eleitorado que quer que o Estado
faça alguma coisa”, disse.
Na
leitura de Altman, a estratégia eleitoral de Lula deveria evitar que segurança
pública monopolize o debate nacional.
“Se o
tema principal da campanha for soberania e desenvolvimento, como o presidente
Lula tem tentado estabelecer, isso reforça o favoritismo do presidente Lula”,
avaliou.
Ele
citou ainda saúde e educação como assuntos potencialmente mais favoráveis à
candidatura governista.
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Soberania e desenvolvimento devem estruturar campanha
Altman
atribui especial importância à tentativa de Lula de vincular desenvolvimento
econômico e defesa da soberania nacional. Segundo ele, o Brasil só poderá
assumir uma posição mais relevante internacionalmente se recuperar capacidade
industrial, tecnológica e militar.
“Você
não tem soberania se você não tiver desenvolvimento econômico e desenvolvimento
industrial em especial. E você não tem soberania se você não tiver indústria de
defesa”, afirmou.
Na
avaliação do jornalista, a atual posição brasileira na divisão internacional do
trabalho limita as possibilidades de desenvolvimento do país.
“O
Brasil exporta commodities e importa tecnologia e produtos industrializados de
alto valor agregado. Essa equação é uma equação de subdesenvolvimento, não é
uma equação de desenvolvimento”, disse.
Ele
destacou que recursos como as terras raras não deveriam ser tratados apenas
como mercadorias destinadas à exportação. A estratégia, segundo Altman, deveria
buscar a transformação dessas matérias-primas em instrumento de
industrialização e avanço tecnológico interno.
“O
Brasil não pode ser um exportador de terras raras. Tem que aproveitar as terras
raras para desenvolver internamente a indústria brasileira”, defendeu.
Altman
argumentou que o país reúne condições territoriais, populacionais e naturais
capazes de sustentar uma estratégia de desenvolvimento mais ambiciosa.
“O
Brasil tem tudo que precisa”, afirmou. “O Brasil tem um repertório, um cardápio
de riquezas naturais como nenhuma outra nação.”
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Programa de Lula evita temas explosivos, diz Altman
Ao
analisar o documento apresentado pela campanha de Lula, Altman fez uma
distinção entre um “programa” de caráter político e um verdadeiro plano de
governo.
“Não é
um plano de governo”, afirmou. Segundo ele, um plano propriamente dito deveria
apresentar objetivos quantificáveis, medidas concretas e metas a serem
cumpridas.
Na sua
interpretação, a campanha tomou uma decisão deliberada de evitar propostas
capazes de gerar controvérsias prematuras e afastar justamente a pequena
parcela de eleitores ainda em disputa.
“Eu
acho que houve uma decisão da campanha, exatamente porque é complexa a disputa
pelo eleitorado independente, de evitar propostas que pudessem ser polêmicas”,
disse.
Ele
citou como exemplos temas relacionados à política fiscal, terras raras e
expansão da indústria nacional de defesa. O documento, segundo Altman,
estabelece diretrizes gerais, mas evita detalhar os instrumentos que seriam
utilizados em um eventual novo mandato.
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“Aponta caminhos. Não há soluções”, resumiu.
Na
visão do jornalista, essa escolha pode fazer sentido do ponto de vista
eleitoral. Propostas mais detalhadas poderiam ser apresentadas progressivamente
durante a campanha, permitindo que cada anúncio ganhasse espaço próprio no
debate público.
“É uma
estratégia que eu penso que é correta do ponto de vista de marketing eleitoral:
ao longo da campanha anunciar as medidas concretas que o governo vai tomar”,
afirmou.
Altman
estimou ainda que entre 70% e 80% do documento seja dedicado ao balanço das
realizações do atual mandato de Lula, enquanto a parte restante procura indicar
continuidade de orientação.
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Arcabouço fiscal pode enfrentar impasse em novo governo
Outro
ponto central da entrevista foi a compatibilidade entre o atual arcabouço
fiscal e a manutenção ou ampliação dos investimentos públicos, especialmente em
saúde e educação.
Segundo
Altman, existe uma contradição crescente entre as regras fiscais que limitam a
expansão das despesas e os pisos constitucionais destinados às duas áreas.
“Ou bem
você mantém o arcabouço fiscal ou bem você mantém os pisos da saúde e da
educação”, afirmou.
O
jornalista argumentou que essa tensão deverá se tornar mais evidente em 2027 e
2028 e que um eventual novo governo Lula teria que enfrentar a questão.
“O
governo foi adiando o problema e continua adiando, mas esse problema vai
estourar”, disse.
Para
Altman, propostas defendidas por Lula, como a expansão do ensino integral,
exigiriam aumento significativo de recursos públicos e poderiam entrar em
choque com os limites estabelecidos pelo atual regime fiscal.
“Quando
o presidente Lula fala em universalizar o ensino integral em dez anos, evidente
que isso confronta o arcabouço fiscal”, avaliou.
Ele
também criticou as pressões para mudanças nos pisos constitucionais de saúde e
educação e sustentou que o debate sobre o endividamento público deveria
incorporar o peso dos juros pagos pelo Estado.
“O
grande fator do endividamento do Brasil é a taxa de juros que o governo paga”,
afirmou.
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Relação com Trump envolve cálculo eleitoral
Altman
também analisou a agenda internacional de Lula e a possibilidade de uma
conversa com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante uma viagem
à Assembleia Geral das Nações Unidas.
Para o
jornalista, Lula procura construir uma posição intermediária entre uma defesa
firme da soberania brasileira e a tentativa de evitar um confronto aberto com
Washington durante a campanha eleitoral.
“O
presidente Lula tenta se conduzir num ponto de equilíbrio entre manter um
discurso soberanista forte e, ao mesmo tempo, tentar evitar uma confrontação
excessivamente aberta”, afirmou.
Altman
demonstrou reservas em relação a um eventual encontro entre Lula e Trump.
“Acho
que há um risco nesse encontro. Talvez fosse melhor não tê-lo”, disse.
Ele
argumentou, porém, que compreende a lógica política do Palácio do Planalto, que
tentaria impedir que uma escalada de tensão internacional seja utilizada
eleitoralmente pela oposição para alimentar a insegurança entre os brasileiros.
“Daqui
até outubro, qualquer análise tem que levar em conta que o que está em jogo é a
disputa eleitoral”, afirmou.
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Eleitor independente será alvo central até outubro
A
conclusão apresentada por Altman é a de uma eleição essencialmente estável nos
seus dois grandes blocos e extremamente volátil em uma faixa muito menor do
eleitorado.
Isso
significa, em sua avaliação, que cada movimento das campanhas terá que ser
calculado considerando a reação desse grupo, sem perder a capacidade de
mobilizar as próprias bases.
“Disputar
esse eleitorado independente exige muita observação, muita análise e uma boa
dose de cautela”, afirmou.
Para
Altman, o favoritismo de Lula existe, mas é insuficiente para garantir uma
vitória confortável. A escolha dos temas, a capacidade de manter soberania e
desenvolvimento no centro da agenda e a intensidade da mobilização política
deverão ser decisivas até a votação.
“Esse
meu comentário não deve ser interpretado como derrotista, ao contrário, é um
comentário realista”, afirmou. “As pessoas que defendem a candidatura do
presidente Lula têm que entender que vão ter que arregaçar as mangas e suar
muito.”
No
diagnóstico de Altman, portanto, a eleição não será definida por grandes
migrações de opinião, mas pela capacidade de cada campo de conquistar alguns
pontos percentuais em uma disputa na qual a maioria dos brasileiros já escolheu
de que lado pretende ficar.
Fonte:
Brasil 247

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