Corrida
por Data Centers gera denúncias de violações trabalhistas em São Paulo
Um
“inferno”. Era assim que Francisco Rodrigues, 39 anos, ouvia seus colegas se
referirem ao trabalho de construção e montagem do maior campus de data center
do Brasil, mantido pela empresa Scala Data Centers, em Barueri, São Paulo.
“Eles falavam que queriam ir embora daquele inferno. Eu até consegui suportar,
mas teve momentos em que pensei em desistir”, conta o ex-montador, que diz ter
enfrentado jornadas de setenta horas semanais ao longo de um mês — o que
ultrapassa o limite que qualquer brasileiro pode trabalhar segundo a
legislação, mesmo recebendo horas extras.
A
promessa de geração massiva de empregos virou um argumento poderoso para essa
indústria, não só no Brasil, mas em todo o planeta. Em Eldorado do Sul, no Rio
Grande do Sul, onde a Scala pretende construir uma “cidade de IA”, a promessa
da empresa é de gerar 3 mil postos de trabalho na primeira fase da construção.
Mas a corrida por data centers está levando essa mão de obra ao esgotamento,
segundo análise de 11 processos na Justiça do Trabalho, entrevistas com
trabalhadores e sindicalistas e consultas feitas ao Ministério Público do
Trabalho pela Agência Pública.
Procurada
pela reportagem, a Scala disse, em nota, que prioriza “a segurança, a saúde e o
bem-estar das pessoas em todas as suas operações” e que exige o mesmo padrão de
seus fornecedores e parceiros. “A companhia adota rigorosos processos que
colocam a preservação da vida e da saúde das pessoas em primeiro lugar e
constituem um dos pilares fundamentais da qualidade de suas operações”. A
íntegra pode ser lida no final da reportagem.
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“Pedia a Deus pra me mandarem embora”
“No
começo, eu levantava feliz para ir trabalhar, mas depois de um tempo, pedia
para Deus para que eu não tivesse mais que ir no Data Center, que eles me
mandassem embora”, lembra um homem de 44 anos que trabalhou como montador nas
obras da Scala em Barueri e não quer revelar seu nome por medo de retaliações.
Ele deixou o serviço depois de um ano com gastrite crônica. “Eu estava no
limite, aquilo estava me fazendo muito mal”, completa, referindo-se à pressão
que sofria por produtividade, o que incluía estender as jornadas além do
combinado e negligenciar obrigações de segurança do trabalho para entregar
tarefas mais rápido, segundo relata. A Scala Data Centers é uma das líderes no
mercado de Data Centers na América Latina: responde por aproximadamente um quarto
da capacidade instalada no Brasil segundo seu demonstrativo financeiro (cerca
de 200 MW do total de 800 MW distribuídos em todos os empreendimentos do tipo
instalados em território nacional) e possui unidades também no Chile, no México
e na Colômbia. Seu plano de expansão
inclui um estoque de terrenos de 1,2 mil hectares já adquiridos para a
construção de novas unidades. Apenas a unidade prevista para ser construída em
Eldorado do Sul (RS), apelidada de “cidade dos data centers” ou “cidade da IA”,
pode chegar à capacidade total de 4.750 MW — seis vezes mais do que todos os
Data Centers instalados no Brasil até esse momento.
A Scala
tem uma estratégia corporativa para crescer com essa velocidade. Conforme a
empresa explica em seus balanços, “com o intuito de atingir seu plano de
expansão executando obras em menor prazo, a companhia implementou a solução
FastDeploy” — em tradução literal, “implantação rápida”. A técnica garante que
novos Data Centers sejam feitos em um tempo 50% menor do que o habitual. Para
isso, a Scala utiliza na construção e montagem dos novos prédios empresas
terceirizadas que podem ser mobilizadas e desmobilizadas conforme a sua
necessidade. Os cinco trabalhadores entrevistados para esta reportagem atuavam
todos nesta condição de mão de obra terceirizada. Alguns deles incluem a Scala
como co-responsável pelos abusos sofridos nos processos que movem na Justiça do
Trabalho. A empresa também responde a
ações movidas por empregados diretos — e as queixas são semelhantes.
A
reportagem analisou 11 processos, no total. Quase todos cobram horas extras
trabalhadas e não pagas e adicionais por periculosidade e insalubridade no
trabalho. Alguns mencionam ainda desvio de função, falta de equipamentos de
proteção individual e pedem inclusive o pagamento de danos morais por assédio
sofrido. Dos 11 processos, seis tiveram
desfecho: um trabalhador conseguiu um acordo e cinco foram derrotados — dois
deles decidiram recorrer. As demais seguem tramitando na Justiça do
Trabalho. Além disso, o Ministério
Público do Trabalho (MPT) confirmou para a reportagem que há três investigações
abertas contra a Scala Data Centers na procuradoria de Barueri. Os
procedimentos estão em fase de colheita de provas e aguardando laudo da
fiscalização. As denúncias envolvem jornadas extenuantes de trabalho, com horas
além do permitido e sem intervalos de descanso obrigatório; locais de trabalho
insalubres; negligência no uso de equipamentos de proteção individual e
inclusive um acidente de trabalho que terminou com um colaborador queimado —
que ainda é alvo de esclarecimentos. Em
suas demonstrações financeiras mais recentes, a Scala informa que os processos
trabalhistas contra a empresa somam R$ 1,6 milhão em demandas. “Consistem,
principalmente, em reclamações de empregados vinculadas a disputas sobre o
montante de compensação pago nas demissões”, diz o documento. Em resposta à
Pública, a Scala diz que a existência de demandas trabalhistas “por si só, não
constitui conclusão quanto a irregularidades ou ao descumprimento da
legislação” e que trata individualmente cada reclamação no âmbito do poder
judiciário. Além disso, ressalta que “prestará todos os esclarecimentos que
venham a ser solicitados pelas autoridades competentes”, como o Ministério
Público do Trabalho.
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Laços internacionais
A Scala
registra em suas informações corporativas a existência de contratos com Big
Techs como a Oracle e a Amazon — esta última é ré em um dos processos
trabalhistas consultados pela Pública para esta reportagem. No caso judicial, o
trabalhador reclama horas extras trabalhadas e não pagas na montagem do Data
Center, acúmulo de funções e adicionais de periculosidade e insalubridade pelo
trabalho em altura e com uso de equipamentos cortantes. Ele foi formalmente
contratado por duas terceirizadas, mas, “durante toda a contratualidade, sempre
laborou desempenhando atividades essenciais ao desenvolvimento econômico da
terceira e quarta reclamadas” — no caso, a Scala e a Amazon. Por isso, “na qualidade de tomadoras dos serviços,
[as empresas] respondem subsidiariamente pelos créditos trabalhistas devidos à
parte autora”, anotam os advogados. Uma primeira audiência, em maio, na qual
compareceram os advogados de todas as empresas processadas e o trabalhador,
terminou sem acordo. Mas a juíza determinou a realização de uma segunda
audiência em setembro..
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Trabalhador entrevistado relata violações trabalhistas
A
empresa tem sede no Brasil, mas avança graças ao capital internacional. Foi
fundada em 2020 pela DigitalBridge, uma gestora de fundos norte-americana
criada por um amigo do presidente Donald Trump e recentemente adquirida por
capital japonês do SoftBank. Outros financiadores da empresa são a
International Finance Corporation (IFC), um braço do Banco Mundial, o fundo de
investimentos Coatue — que tem sedes nos Estados Unidos, Hong Kong e Londres —
e o fundo de pensões canadense IMCO, além do Olayan Group, empresa
multinacional “com uma carteira multibilionária e global de
investimentos”. No Brasil, o BNDES já
emprestou R$ 300 milhões diretamente para a empresa, enquanto o Banco do Brasil
aprovou um financiamento de 21,6 milhões de dólares para impulsionar a
fabricação de módulos pré-fabricados de Data Centers. Já os bancos Bradesco,
Itaú, Santander e UBS participaram dos lançamentos e títulos de dívida da
empresa. Solicitamos comentários a todas as empresas financiadoras, mas apenas
IFC, BNDES, UBS e Santander retornaram, salientando suas políticas de cuidado
com a saúde e segurança dos trabalhadores. As manifestações podem ser lidas ao
final deste texto.
Graças
aos laços com Big Techs e o setor de tecnologia, Data Centers são celebrados
como empreendimentos inovadores. “É a oportunidade de transformar o Rio Grande
do Sul no novo Vale do Silício no Brasil”, comemorou o então secretário de
Desenvolvimento Econômico do Estado, Ernani Polo (PP), em outubro de 2024,
quando foi assinado o protocolo de intenções entre o Estado do Rio Grande do
Sul e a Scala S/A em que são prometidos 3 mil empregos. O governo, por sua vez,
promete isenção de impostos e a simplificação do licenciamento ambiental, para
acelerar a implantação do campus de data centers. Mas o resultado final pode
frustrar expectativas. Em suas demonstrações contábeis, a Scala informa que
seus projetos envolveram “mais de 20 mil trabalhadores”, que priorizam
fornecedores e mão de obra locais e promovem a capacitação das comunidades do
entorno dos empreendimentos. Mas em seu perfil verificado no Linkedin, a
empresa diz que tem um “altamente qualificado time de mais de mil
profissionais”.
Um
relatório da subcomissão dos data centers da Assembleia Legislativa do RS
estima em cerca de 100 postos de trabalho em uma unidade de 20 MW. “Ou seja, a
implantação [do Data Center] pode gerar volume, mas tende a ser temporária e
sensível ao ciclo de obras; por isso, não deve ser entendida como componente de
uma política de emprego”, diz o relatório.
“Os Data Centers dizem que trazem muita vaga de emprego, mas é até
terminar a construção. Depois que terminar a construção, acredito que fecha 90%
das vagas”, calcula Francisco.
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Choque em serviço sem autorização
Como
abrigam dados sensíveis, Data Centers são ambientes ultrasseguros em que é
muito difícil entrar. Depois que são “comissionados”, ou seja, estão em uso, há
um protocolo de segurança rigoroso que inclui treinamento para abrir e fechar
portas em poucos segundos e uma máquina para triturar celulares caso alguém
burle os sistemas de segurança e entre com um deles nas salas que abrigam os
servidores. O relato é de trabalhadores entrevistados pela Pública que atuaram
em reparos nesta etapa dos data centers da Scala, em Barueri. Eles eram
funcionários terceirizados de uma empresa chamada Multiway, cuja página web
propagandeia: “pensou Data Center, pensou Multiway”. Um deles é Anderson Soares, 27 anos, que
levou um choque elétrico que o deixou desnorteado ao fazer uma manutenção no
forro de um dos data centers da Scala em Barueri. Na ocasião, Anderson e seus
colegas alegam que ele não tinha assinado formalmente a permissão de trabalho,
que, entre outras coisas, avalia a segurança da operação. “A gente estava no prédio
10 e fomos levados para o 8 para fazer esse serviço. Aí não deu tempo de
assinar a permissão. O certo era ter assinado, mas para não atrasar o serviço
deles, os encarregados mandaram a gente antes”, relata Francisco Rodrigues, que
testemunhou o acidente do colega e o socorreu. “A gente deveria esperar o
técnico de segurança liberar para subir, mas nesse dia, o encarregado falou
para o Anderson: ‘Vai lá, é rapidinho e você resolve’”, corrobora o ex-montador
que pediu anonimato.
A
Multiway, empresa responsável pelo serviço, diz que suas “obras contam com
acompanhamento de profissionais de Segurança do Trabalho e as atividades são
precedidas das avaliações de risco pertinentes”. “A Multiway não orienta seus
colaboradores a iniciar atividades em desacordo com os procedimentos de
segurança aplicáveis”. A empresa observa ainda que a etapa da montagem dos data
centers que executa é anterior à energização, e que, por isso, “a descrição
apresentada não corresponde ao escopo normal das atividades executadas pela
Multiway”. Segundo o relato dos trabalhadores, o Data Center já estava quase em
operação, havia guardas nas portas de acesso às salas, mas as placas do forro
térmico se movimentavam indevidamente com a pressão dos fluxos de ar quente e
frio que regulam internamente a temperatura dessas imensas estruturas
tecnológicas — um problema que os montadores atribuem ao modo “a jato” de
construção adotado pela Scala. Segundo eles, muitas vezes a técnica projetada
não funcionava conforme a expectativa e era preciso refazer o trabalho.
No dia
do acidente, Anderson e sua equipe foram levados às pressas para o Data Center
prestes a ser entregue para refazer o serviço de fixação das placas. “Já
tínhamos terminado várias salas e na última foi onde aconteceu”, recorda o
trabalhador. “Nessa sala, a gente tinha que engatinhar sobre o forro, não dava
para ficar em pé. Fui me mexer e encostei [na máquina], aí eu só senti a
eletricidade puxando meu braço”, complementa, recordando o formigamento no
corpo e as “estrelinhas” em sua visão após o choque. Não houve registro de CAT
— comunicação de acidente de trabalho —, uma notificação compulsória que as
empresas devem fazer ao Ministério do Trabalho. “Ele desistiu de registrar por
medo de ser mandado embora”, relata Francisco, informação confirmada por
Anderson. Os trabalhadores dizem também que foram coagidos a assinar a
permissão de trabalho com data retroativa ao dia do acidente, forjando o
registro obrigatório. Sobre a CAT, a Multiway observa que o registro pode ser
feito pelo próprio trabalhador acidentado, seus dependentes, entidade sindical
competente, médico que o assistiu ou autoridade pública. E que “possui
procedimento para comunicação dos acidentes de trabalho de que tenha
conhecimento e que se enquadrem nas hipóteses legais”.
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Risco à vida sem compensação
Quase
todos os 11 processos judiciais consultados pela Pública demandam das empresas
envolvidas na construção de Data Centers o pagamento de adicionais de
periculosidade. Segundo a lei, o adicional de periculosidade é devido a todos
os trabalhadores expostos a instalações ou equipamentos elétricos capazes de
oferecer risco, ainda que eles não sejam eletricistas. “Quantas vezes a gente
voltou para cima do forro do Data Center para consertar alguma coisa já com as
máquinas ligadas, com eletricidade correndo?”, recorda Anderson. Trabalhadores
que andaram nestas estruturas energizadas relatam sentir os pés tremendo ao
pisar sobre os cabos, tamanha a potência elétrica do local. “Tinha áreas onde
eram 380 volts, 480 volts ou até mais”, exemplifica Francisco. “Para entregar o
serviço, a gente se arriscava muito”, conclui.
Uma
norma do Ministério do Trabalho estabelece que tensões superiores a 50 volts já
representam risco significativo ao trabalhador. Mas a Scala não pagou adicional
de periculosidade sequer para uma pessoa contratada diretamente pela empresa
como encarregada de instalações elétricas em sua unidade em São João de Meriti,
no Rio de Janeiro. Após um laudo pericial da Justiça concluir que o trabalhador
estava exposto a “agentes perigosos tanto de natureza elétrica quanto
inflamável” e que “os EPIs (equipamentos de proteção individual) não possuem
capacidade de eliminar totalmente o risco”, a Scala fechou um acordo com o
trabalhador para pagar uma indenização de R$ 120 mil em março deste ano. Entre
os terceirizados, vários relatam ausência ou uso parcial de equipamentos de
proteção, ou EPIs. Dizem ainda que os treinamentos devidos não eram realizados
de maneira rigorosa. “Eu cortava ferro a seis metros de altura, em espaço
confinado, com a máquina no meio das pernas. Mas só tinha luva e óculos para
proteger”, relata Rafael Suriano, 34 anos, ex-montador terceirizado nos Data
Centers da Scala em Barueri. Segundo alegam seus advogados em um processo em
que foi derrotado na Justiça do Trabalho, além de atuar em altura, “muitas
vezes em estruturas elevadas e instáveis, sem qualquer capacitação prévia
exigida pelas normas regulamentadoras do Ministério do Trabalho”, ele não
recebeu EPIs nem “treinamentos ou medidas que garantissem a segurança física e
psicológica do trabalhador nas referidas atividades”. “Tal conduta o expôs à situação de grave
risco à sua integridade física e à sua vida, gerando-lhe constantes episódios
de angústia, medo e sofrimento psicológico. Tais sentimentos foram agravados
pelo descaso da empresa frente às reiteradas reclamações do Reclamante sobre a
ausência de segurança e de treinamento adequado”, argumentaram.
Alguns
entrevistados chamaram a atenção para o improviso com que a linha de vida era
instalada dentro da obra do Data Center. Linha de vida é um equipamento de
proteção imprescindível para trabalhos em altura: um sistema de cabos que
ancora o trabalhador a um ponto firme, impedindo-o de se chocar contra o solo
em caso de queda. Esse equipamento precisa estar preso a um ponto estável e
capaz de suportar o peso de uma queda — mas, segundo os relatos ouvidos pela
Pública, em alguns casos, as linhas de vida eram presas em máquinas que
elevavam os trabalhadores até o teto, ou na própria estrutura do forro que
estavam construindo. “Essa estrutura não é para segurar nenhum tipo de peso.
Mas a gente adaptava, colocava a linha de vida nela. Em um acidente, você corria
o risco de [a estrutura] soltar e você cair”, observa Francisco. “É, o que eu
sei, quando você trabalha em altura, tem que ter uma linha de vida. Não tinha
linha de vida. A gente prendia o cinto na plataforma elevatória, mas essa
máquina não pode passar em áreas inclinadas porque tomba. Se isso acontecesse,
e ela virasse, não tinha onde a gente se segurar”, complementa o montador que
não quer ser identificado. Ele lembra de um episódio em que três colegas
estavam sobre uma plataforma e ela bateu em outra máquina, balançando muito.
“Pela graça de Deus não chegou a virar, porque se vira, tinha matado os três
meninos, entendeu?”. “Eles não queriam instalar [a linha de vida corretamente],
não queriam gastar tempo com isso. E acabava que a gente se arriscava muito”,
conclui Francisco. A Multiway diz que “não orienta ou autoriza a execução de
atividades sem os equipamentos de proteção exigidos para os riscos
identificados”. E complementa: “para trabalhos em altura, são observados os
requisitos pertinentes da NR-35, incluindo capacitação, análise de risco,
sistemas de proteção contra quedas e condições de ancoragem”.
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Provas questionadas
Nos
processos judiciais consultados pela reportagem, as empresas contestam as
afirmações dos trabalhadores, alegando que distribuíam os EPIs corretamente e
ofereciam os treinamentos devidos. Em cinco casos a Justiça acolheu os
argumentos das contratantes. Em dois, os trabalhadores recorreram e o processo
segue em andamento. “A Multiway mantém
registros dos treinamentos realizados e das qualificações necessárias às
atividades desempenhadas”, diz a empresa terceirizada, em nota enviada à
reportagem. Mas os trabalhadores ouvidos pela reportagem são unânimes em dizer
que as provas apresentadas pelas contratantes na Justiça não correspondem ao
que efetivamente ocorria no ambiente de trabalho. “Tudo o que eles falam é
mentira, é ao contrário do que dizem”, assevera um dos trabalhadores. “Você
entra lá, eles te dão um papel para você assinar dizendo que fez curso, mas não
teve curso. Eles fazem integração dizendo que não pode isso, não pode aquilo,
mas na hora do trabalho, nada disso acontece. É só peão louco, peão se
machucando”, completa. Em alguns casos, eles dizem que os cursos aconteceram,
mas apenas depois que os trabalhadores já estavam desempenhando as atividades
abordadas nos treinamentos — ou seja, uma parte do trabalho foi feita antes de
eles serem capacitados para essa finalidade. Em outros casos, eles reclamam que
não havia aula prática, apenas uma “palestra on-line” — insuficiente para
incorporar as orientações na rotina de trabalho. “Eu passei um bom tempo sem o
treinamento da NR-12, que você faz para poder usar máquinas rotativas, como o
martelete ou a lixadeira, que é uma das ferramentas mais perigosas, usada para
cortar ferro. Depois de um tempo eles deram, mas eu usei as ferramentas por um
tempo sem ter a permissão”, explica Francisco. O trabalhador observa que depois
que fez a capacitação, se deu conta dos erros que cometia, como cortar o
material de trabalho puxando o disco em direção ao seu peito, e não o
contrário. “Você não pode puxar o disco pro seu lado, porque se quebrar ou se
você perder o controle, ele vem pra cima de você. Eu não tinha essa ideia antes
do treinamento”, admite.
Foi
quando estava operando o martelete para instalar o forro de um Data Center que
Renato Gonçalves, 37 anos, diz ter ficado parcialmente surdo. “Na hora, eu só
ouvi um barulho muito forte, um estrondo mesmo”, relata o trabalhador, que não
estava usando corretamente os EPIs no momento do acidente. Ele havia sido
contratado pela Multiway poucos meses antes para atuar nas obras da Scala em
Barueri e diz que seu treinamento de segurança não incluiu nenhuma hora de
prática. Poucos meses depois do início de seu contrato, ele foi levado para
trabalhar durante 15 dias na construção do data center da Equinix no Rio de
Janeiro. Foi nessa unidade que ele sofreu o acidente. Segundo seus advogados, a
empresa que o contratou “não emitiu CAT, nem ofereceu suporte”, e, após
apresentação de atestados médicos, o demitiu, “fato que configura dispensa
discriminatória por motivo de doença ocupacional”. O processo foi remetido a
uma vara judicial diferente e não foi possível consultar sua tramitação. A
surdez, segundo o trabalhador, é parcial e reversível, e ele está na fila do
SUS para fazer uma cirurgia de correção. “Também estou juntando dinheiro para
ver se consigo fazer no particular”, acrescenta. A Multiway diz que “realiza
capacitações relacionadas à utilização segura de máquinas e equipamentos,
inclusive nos termos da NR-12 quando aplicável, além dos treinamentos e
orientações previstos pelas demais normas de Segurança e Saúde do Trabalho
pertinentes à atividade”. Quanto à alegação específica de perda auditiva
alegada pelo trabalhador entrevistado, “a empresa não considera adequado
confirmar uma relação causal apenas a partir de uma declaração unilateral, sem
a correspondente avaliação técnica”. A Equinix, por sua vez, diz que exige
“contratualmente de seus parceiros e fornecedores o cumprimento rigoroso das
normas” de segurança no trabalho, o uso de Equipamentos de Proteção Individual
(EPI) e a realização de treinamentos de segurança adequados. “A companhia
fiscaliza continuamente a conformidade dessas diretrizes em suas instalações”.
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“Ponto britânico”
Os
trabalhadores também afirmam que o sistema de ponto era mal feito e não
registrava realmente o número de horas trabalhadas. “A gente não batia ponto,
era tudo no ‘fio do bigode’, como a gente diz. Tudo no WhatsApp. E teve muitas
horas extras que eles não pagaram”, reclama Anderson, que chegou a fazer
jornadas que começavam às 7h da manhã e só terminavam às 4h da manhã do dia
seguinte. Ele também alega que não gozava o descanso mínimo obrigatório entre
um dia e outro de trabalho. “Teve vezes que saí de lá às 2 horas da manhã e
estava de volta às 9 horas para começar o turno seguinte”, assegura. A Multiway
diz que “mantém software contratado de primeira linha, específico para esse
registro [de ponto]”. E que é o próprio trabalhador quem faz o registro, “com a
devida assinatura”. A queixa pelo excesso de horas extras é recorrente entre os
trabalhadores entrevistados e corroborada por processos judiciais aos quais a
Pública teve acesso. Além das jornadas extenuantes, há reclamações de que elas
não eram contabilizadas corretamente e muitas vezes não eram pagas ou
compensadas com folgas, conforme prometido pelos encarregados. “Verifica-se,
portanto, que o Reclamante prestava uma média de 78 horas extras por mês, bem
como uma média mensal de 13 horas de labor extraordinário em feriados, as quais
não foram pagas corretamente”, diz a inicial de um dos processos acessados pela
Pública, aberto por um homem que era auxiliar de monitoramento eletrônico na
Scala.
Até
mesmo nos casos em que os trabalhadores foram derrotados na Justiça, os juízes
reconhecem que há algo de estranho nas provas apresentadas pelas empresas. “As
folhas de ponto colacionadas pela reclamada apresentam marcações simétricas e
com contornos de uniformidade (horários britânicos)”, observou a sentença de um
dos processos consultados pela Pública, referindo-se a uma pontualidade fora do
comum. Apesar disso, a juíza do caso entendeu que os depoimentos de
representantes da empresa feitos em audiência validaram os registros. Os
trabalhadores também dizem que, além de passarem muitas horas no serviço, em
muitos casos não podiam usar o banheiro nem beber água para não atrasar o
andamento das entregas.
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“Muita pressão por resultado”, diz sindicato
O
Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região confirma que recentemente cresceu
o número de queixas sobre a alta rotatividade de funcionários em empresas
prestadoras de serviços para Data Centers, com jornadas estendidas muito
maiores do que o permitido, além de assédio moral. O presidente da entidade,
Gilberto Almazan, o Ratinho, salienta ainda que há problemas com as instalações
de apoio, como banheiros e refeitórios. “Há muita pressão pelo [resultado do]
trabalho. Então, o trabalhador começa a ser pressionado a ficar até mais tarde.
Mas uma coisa é você fazer um dia, dois dias, uma semana…. Outra é a empresa
não ter trabalhador suficiente e colocar todo mundo numa escala de trabalho com
10 horas por dia, o mês inteiro, dois meses, três meses. Aí a pessoa começa a
ficar fadigada, não aguenta”, observa Ratinho. Uma das empresas mencionadas nas
denúncias se chama Modular — é uma irmã da Scala, propriedade do seu CEO,
Marcos Peigo. É ela quem desenvolve a tecnologia FastDeploy, de construção
rápida, construindo os módulos dos Data Centers em sua unidade em Santana do
Parnaíba e depois apenas montando nas instalações da Scala. Segundo o
sindicato, a Modular saltou recentemente de 300 funcionários para quase mil,
tornando-se a segunda ou terceira maior empregadora do setor na região. “Quando
uma empresa está crescendo rápido assim, aparecem um monte de problemas”,
observa Ratinho. A reportagem solicitou às empresas que comentassem esse ponto
em específico, mas a Scala não abordou o tema em sua resposta. A Modular não
retornou nossas tentativas de contato. “Eu achei que trabalhar num Data Center
iria me abrir portas”, observa o ex-montador Renato Gonçalves, que ficou
parcialmente surdo. “Mas aconteceu o contrário e hoje minha condição física me
impede de conseguir certos trabalhos”, completa. “Me entristece muito”.
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Outros lados
A
reportagem entrou em contato com todas as empresas mencionadas no texto. A IFC
diz tratar “com seriedade as preocupações relativas à saúde e segurança dos
trabalhadores e examina quaisquer alegações apresentadas por meio de seu
processo de supervisão”. Segundo o financiador, como condição para o
investimento, a Scala foi demandada a atualizar sistemas, incluindo itens
relacionados às condições de trabalho dos trabalhadores, além do aprimoramento
do mecanismo de reclamações para fornecer aos trabalhadores um canal eficaz
para o registro de reclamações/queixas. O BNDES informa que não é investidor
nem acionista da Scala Data Centers e que “o relacionamento existente decorre
de duas operações de financiamento (crédito)”. Além disso, afirma que verifica
a existência de processos trabalhistas em trâmite antes da assinatura dos
contratos. “No caso específico da Scala, consoante relatórios e pesquisas
processuais empreendidas, não houve o reconhecimento de dano ou assédio moral
nos processos em que houve sentença”.
O UBS e
o Santander disseram que não comentam operações e transações específicas de
clientes.
>>>>
Leia abaixo a íntegra da resposta da Scala Data Centers.
A Scala
Data Centers tem a segurança, a saúde e o bem-estar das pessoas como
prioridades absolutas em todas as suas operações e exige o mesmo padrão de seus
fornecedores e parceiros. A companhia adota rigorosos processos de governança,
compliance e gestão de Saúde, Segurança e Meio Ambiente (EHS), que colocam a
preservação da vida e da saúde das pessoas em primeiro lugar e constituem um
dos pilares fundamentais da qualidade de suas operações.
Em
relação aos questionamentos sobre demandas trabalhistas, a Scala esclarece que
tais demandas são tratadas individualmente no âmbito do Poder Judiciário e que
sua existência, por si só, não constitui conclusão quanto a irregularidades ou
ao descumprimento da legislação.
No
presente momento, a companhia não mantém qualquer negociação ou tratativa em
curso com o Ministério Público do Trabalho relacionada aos fatos objeto dos
questionamentos encaminhados pela reportagem e, como sempre, prestará todos os
esclarecimentos que venham a ser solicitados pelas autoridades competentes.
Fonte:
Por Naira Hofmeister, da Agencia Pública

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