A
igreja e o submarino
Este
título deve ter despertado a curiosidade de quem tem lido o que escrevo sobre
atividades de produção e P&D militar e economia de defesa. Em particular
dos dois artigos – “A reformulação das Forças Armadas” e “A ilusão dissuasória
brasileira” – em que questionei opiniões de autores que justificavam a
revitalização dessas atividades invocando seus impactos (spin-offs)
tecnocientíficos, econômicos e sociais, positivos.
No
último deles, eu assinalei como um conjunto de intelectuais, políticos e
militantes de esquerda passavam a apoiar essa revitalização, invocando esses
impactos e, ofuscados com a narrativa dos integrantes do nosso complexo
militar-científico-industrial sobre o que denominei ilusão dissuasória, faziam
coro às suas demandas pelo aumento do gasto militar. Expressava, também, ali,
uma preocupação acerca da escassa fundamentação teórica e empírica como eles
justificavam esse apoio e apontava a conveniência de que um debate mais
qualificado, que incorporasse resultados do trabalho de pesquisadores que se
dedicam ao tema, fosse realizado.
Antes
de satisfazer a curiosidade de quem me lê, proponho que realizem dois
movimentos. O primeiro é clicar em dois artigos de dois daqueles autores que
estão se situando como a vanguarda intelectual daquele conjunto – Manuel
Domingos Neto (“Os portões de Múcio”) e Paulo Nogueira Batista Jr. (“Defesa
nacional: um imperativo existencial”), para que se inteirem das críticas que
apontarei a eles no segundo movimento. O terceiro, é onde eu satisfaço aquela
curiosidade.
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Os eventos
Antes
de mais nada, relato os eventos. O mais noticiado é a manifestação do Ministro
da Defesa, José Múcio Monteiro, em 4 de agosto: “Me perguntaram se os Estados
Unidos quisessem invadir o Brasil, o que é que eu faria. Temos que abrir o
portão. O Brasil não tem equipamento para enfrentá-lo, nem tem dinheiro para
consertar o portão”.
Antes
dele, em 2 de agosto, o presidente Lula, reafirmando manifestações anteriores,
declarou: “Quero pedir para a esquerda parar com essa bobagem, de achar que a
gente não tem que ter preocupação com a defesa… Nós precisamos investir na
defesa”. O que foi entendido por alguns analistas como uma “deixa” para que o
Ministro referendasse a demanda pelo dinheiro que os comandantes das Forças
Armadas vêm fazendo e que ele não teria de fato liberado.
Entre
eles, com uma linguagem “técnica”, mas convergente, o comandante da Marinha,
Almirante Marcos Sampaio Olsen, em 22 de julho, que aparentando desconhecer as
condicionantes geopolíticas das relações entre países, deu a entender que a
amigável relação entre as Forças Armadas dos EUA e do Brasil impossibilita um
conflito.
Entre
as manifestações censurando a declaração do Ministro, aponto a do cientista
Miguel Nicolelis: “em qualquer país medianamente sério este senhor não
terminava a noite no cargo, seria demitido instantaneamente pelo grau de
irresponsabilidade e insensatez de fazer uma declaração pública que não só
atenta à segurança nacional, mas comprova a sua total incompetência para o
cargo!”.
Talvez
seja devido a elas é que Manuel Domingos Neto tenha dito que aos “revoltados
que pedem sua cabeça… que… o Ministro foi jocoso, não aleivoso … e que… a
rigor, Múcio sequer é propriamente ministro”. Declaração que, entretanto, não
está refletida no conteúdo do seu artigo.
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O segundo movimento
Antes
de comentar aqueles artigos, mas já sugerindo que deem uma clicada neles, chamo
a atenção para dois resultados do trabalho acerca da dinâmica das atividades de
produção e P&D militar que pesquisadores brasileiros têm realizado que
podem qualificar o debate.
O
primeiro resultado, cujo conteúdo vem sendo apontado entre nós há mais de 40
anos, se relaciona à ideologia do spin-off. Recorrentemente esgrimida pelos
envolvidos com o complexo militar-científico-industrial na defesa de seus
interesses, ela foi há muito desmontada por pesquisadores dos países centrais
e, com mais razão, evidenciada como incapaz de produzir em países como o Brasil
os efeitos de transbordamento tecnocientífico, econômico e social que ela
alega. Quem quiser ir além do que se resume sobre o tema nos dois artigos meus
já mencionados pode consultar um mais extenso e detalhado, “A indústria de
armamentos e a Neoindustrialização” recentemente publicado na Revista
Brasileira de Inovação da Unicamp.
A
crítica à ideologia do spin-off se manteve até há alguns anos marginal à
corrente principal dos estudos militares críticos brasileiros focados em
aspectos como a propensão à intervenção na política, o escasso apreço à
democracia, a formação pouco republicana etc. Mais recentemente, em função do
interesse de pesquisadores que, tendo como referência os nossos cenários de
conflito, observavam as guerras contemporâneas, no que tange à forma de
organização dos contendores, as estratégias e táticas de combate, o equipamento
utilizado e o esforço tecnocientífico envolvido em sua produção, essa crítica
foi revisitada.
Teve
lugar, então, um segundo resultado que se centrou num questionamento da
pertinência das atividades de produção e P&D militar e de um variado
conjunto de aspectos relativo à forma de organização das Forças Armadas ao que
estavam observando à escala mundial e ao que entendiam como nossos prováveis
cenários de conflito. O importante avanço que ele possibilitou para a
compreensão do comportamento dos nossos militares é o que, como se verá,
ensejou a analogia metafórica do título.
Seu
resultado levou a um modelo, com pretensão descritiva, explicativa e normativa,
representando uma relação causal ideal entre duas variáveis independentes – as
características das guerras contemporâneas e os nossos cenários de conflito – e
uma variável dependente, a dinâmica das nossas atividades de P&D e produção
militar, tipificada por aspectos como a especificação dos tipos de sistemas de
armas e outros equipamentos, os balanços privado/estatal, militar/civil,
interno/importado, velocidade de execução dos programas, etc.
O
desempenho do modelo foi percebido como insuficiente. Ele não explicava por que
suas duas primeiras variáveis, independentes, não estavam permitindo deduzir,
como seria de se esperar, tendo em vista a racionalidade encontrada em outros
países, a terceira variável, relativa à dinâmica das nossas atividades de
P&D e produção militar.
Foi
ficando evidente para aqueles pesquisadores, à medida que avançava seu
trabalho, que aquela dinâmica (além do modo como se organizavam as Forças
Armadas, coisa que já sabiam há muito tempo) parecia responder a uma quarta
variável (independente) que não havia sido modelizada.
Destaco,
do artigo de Manuel Domingos Neto, sua epígrafe “Fala do ministro que sugere
complacência em caso de ataque dos EUA naturaliza a cultura militar brasileira.
Ela nunca considerou hipótese de um conflito com Washington”.
Concordando
com ele, embora considere que sua dura crítica (de que o Ministro “… não
apresentou nem gerenciou planos, não formulou estratégias, não propôs reformas,
não conteve voracidades corporativas”) não se vem se transformando numa
proposta, e aceitando o repto contido na sua frase final (“O inegável é que o
debate propiciado pelo jocoso ministro mostra o quanto os nacionalistas de
esquerda precisam avançar na defesa consistente da Soberania Nacional”),
pergunto:
Os
cenários de conflito para os quais essa cultura militar se tem preparado (que
como sabemos se focam na contra insurgência e no inimigo interno) justificam
atividades de P&D e produção militar, como as relacionadas a programas como
os do caça supersônico e do submarino de propulsão nuclear e da produção de um
artefato nuclear?
Se isso
não ocorre, a argumentação que apresento ao final, acerca da quarta variável a
ser introduzida no modelo, não poderia ajudar a responder a pergunta?
E se
ocorre, seria legítimo esperar desses programas, assim como as atividades de
P&D e produção militar que ele tem defendido como importantes para a defesa
nacional, os benefícios de spin-off que ele costuma alegar.
Seria
bom, também, que ele aclarasse o que a corrente de opinião à qual ele se filia
pretende fazer para que “os nacionalistas de esquerda”… interessados em …
“avançar na defesa consistente da soberania nacional”, entre os quais com razão
de sobra se incluem os pesquisadores citados, possam participar no “debate
propiciado pelo jocoso ministro”.
Nosso
segundo autor, Paulo Nogueira Batista Jr. comenta ao final de seu artigo algo
que aqueles pesquisadores há muito vêm observando e, mais do que isto,
salientando, os esforços de P&D e apropriação tecnocientífica que estão
ocorrendo por parte do país que ele menciona, ao dizer que “O Irã vem
destruindo ativos militares caríssimos com mísseis e drones baratos…”, que o
Brasil “pode aprender com essa experiência” e que “não é preciso ter armamento
nuclear para exercer poder de dissuasão”.
Parece
haver também aqui, haja vista o que ele tem alhures declarado no sentido
contrário ao tratar, entre outras, da questão nuclear, um indício da
assimilação dos resultados do trabalho daqueles pesquisadores.
Paulo
Nogueira Batista Jr. termina seu artigo apontando que “O presidente Lula
declarou recentemente que é prioritário fabricar drones em larga escala no
território nacional”. Ao finalizar instando “Mãos à obra! Defesa nacional já!”
ele parece estar convencido de que o conhecimento que informa seu chamado,
apesar de ser questionado por aqueles pesquisadores do tema, dispensa o
processo de qualificação do debate que aqui se propõe.
Concluo
este ponto dirigindo-me às companheiras e companheiros de esquerda que passaram
a defender programas de desenvolvimento de armamento nuclear e de outros como
os citados. Alguns deles têm invocado a obtenção de uma capacidade dissuasória
contra as ambições imperiais, os supostos benefícios de spin-off etc., de
maneira pouco convincente em termos analítico-conceituais e com escassa
fundamentação empírica.
Outros,
sabe-se lá por que razão, aproveitando a irrupção dos sentimentos de soberania
nacional, colocam essas iniciativas como prioridade do “projeto nacional” que a
esquerda deve implementar sem apresentar justificativas baseadas nas análises
de custo-benefício e de custo que devem produzir o debate que deve orientar um
processo decisório racional por parte da esquerda.
Para,
finalmente, satisfazer a curiosidade suscitada pelo título deste artigo,
convido quem me lê a retomar onde parei o relato da busca dos pesquisadores
pela quarta variável a ser introduzida em seu modelo descritivo, explicativo e
normativo, idealizado para derivar a dinâmica de nossas atividades de P&D e
produção militar dos nossos cenários de conflito e das características das
guerras contemporâneas.
Conscientes
de que sua busca é essencial para qualificar o marco analítico-conceitual que
deve orientar o debate sobre o tema, que agora contava com um novo ator
(intelectuais e lideranças de esquerda) que se somava aos integrantes do nosso
militar-científico-industrial para reivindicar um aumento do gasto militar com
o pretexto de expandir aquelas atividades, eles foram revisitar o conhecimento
que herdaram.
Sua
atenção se orientou para examinar as estratégias recorrentemente empregadas
pelos militares visando à manutenção de seu poder, legitimação social e
política, afirmação corporativa e, mesmo, de sobrevivência enquanto fração da
classe dominante.
Para
tanto, se socorreram do que o instrumental de análise de política pública
denomina políticas simbólicas. Ou seja, políticas cujo objetivo declarado no
seu momento de formulação não é aquele efetivamente perseguido no momento de
implementação e que, em consequência, sequer pode (e deve) ser tomado como
referência para proceder à sua avaliação. Políticas cuja finalidade, distinta
do objetivo declarado, é promover um curso de ação ou desencadear
acontecimentos que permitam ao ator que as elabora (formula, implementa e
avalia) a acumulação de forças para levar a cabo seu projeto político que,
convenientemente, não é enunciado.
A
decorrência dessa reflexão foi enquadrar as políticas atinentes à dinâmica das
atividades de P&D e produção militar no conceito de políticas simbólicas,
cuja finalidade é distinta do objetivo por elas declarado.
Sua
finalidade, determinada pela ambição de poder militar, é assegurar a
implementação daquelas estratégias dos militares e não a eficaz concretização
do objetivo por elas declarados (o que inclui, entre outros, os relativos
àqueles programas). Assim, ainda que provisoriamente e à falta de melhor nome,
chamaram essa quarta variável de ambição de poder militar.
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O que tem a ver o submarino com a igreja?
Para,
enfim, “matar a charada”, convoco agora, dentre quem me lê, aquelas e aqueles
os que conheceram um padre do interior que recolhia dinheiro para terminar uma
igreja que durante décadas permanecia em construção. E viram como esses fiéis,
para assegurar que “seu” padre, sempre às voltas com as atribulações derivadas
do pouco dinheiro que ele dizia receber do bispo para suas despesas, seguiria
livrando-os do “Malamen”, de bom grado contribuíam para a interminável, mas
programada, construção.
Essa
relação fiéis-padre-bispo nos dá uma pista para fazer com que se entenda melhor
a relação que estou tratando, a que ocorre entre sociedade-militares-Estado.
Ela é
aqui usada para caricaturar o que ocorre relativamente a esse âmbito explicando
como a sociedade (fiéis) se dispõe a contribuir para que os militares (padre),
apesar do escasso recurso que dizem receber do Estado (bispo), possam livrá-la
das ameaças dos inimigos externos e internos (os fantasmas que o padre afirma
poder exorcizar) desenvolvendo suas longevas e virtualmente intermináveis
atividades de P&D e produção militar (igreja).
Com o
título, que se refere a uma das mais importantes dessas atividades, o quase
cinquentão programa do submarino de propulsão nuclear, pretendo provocar quem
me lê para avaliar as propostas dos que pretendem turbinar programas desta
natureza. E, desprezando argumentos e evidências apresentadas por aqueles
pesquisadores, tentam usar o que denominam base industrial de defesa para
produzir os armamentos que dizem atender aos cenários de conflito que
visualizam.
A
referência ao submarino se deu por que, mais do que o que ocorre com a
Aeronáutica, que há pouco terminou seu ambicioso programa que depois de quase
trinta anos pariu o Gripen, a Marinha pauta suas atividades de P&D e
produção militar segundo um enfoque relativamente mais intensivo em
conhecimento sensível e endógeno. E que, por isso, depende mais de seu poder de
convencimento dos “fiéis” para sua execução.
E por
que, a Marinha é a força que mais consistentemente se tem dedicado a essas
atividades. Diferentemente do Exército, cujas promessas que faz a seus “fiéis”
mais poderosos envolvendo o inimigo interno são suficientes para justificar sua
despropositada organização e a inusitada alocação que faz de seu orçamento para
o pagamento de pessoal e prescindir de programas desta natureza.
Concluo,
voltando ao que diz a epígrafe do artigo de Manuel Domingos Neto – “Debate que
sucedeu revela o quanto a esquerda precisa avançar na defesa consistente da
soberania” –, para, por me considerar um integrante desta esquerda fazer uma
indagação. E esclareço que ela, propositalmente, desconsidera aquelas
estratégias dos militares, o escasso apreço pela soberania e a sua notória
propensão a manter a subordinação em relação ao Império contra os interesses
das maiorias.
Como se
pretende evitar que os programas para realizar as atividades de P&D e
produção militar, orientadas a fabricar os “mísseis hipersônicos, drones e
satélites inteiramente fabricados aqui, com o saber brasileiro” que ele
recomenda, se instituam com políticas simbólicas?
Não
estarão eles fadados a se transformar em “igrejas” em interminável construção
para manter os “fiéis” obrigados a pagar o preço pela subordinação ao deletério
projeto político dos militares?
Fonte:
Por Renato Dagnino, em A Terra é Redonda

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