As
microagressões chegam às universidades brasileiras
Subvalorizar
um autor fora do cânone ocidental. Usar, sem intenção, uma forma de comunicação
considerada insensível à identidade de uma pessoa trans. Fazer uma pergunta
interpretada como invasiva, mesmo sem intenção maliciosa. Questionar uma
experiência racial. Demonstrar falta de sensibilidade a um grupo minoritário ou
tradição cultural, mesmo sem querer. Fazer um elogio que, mesmo de forma
inconsciente e não intencional, carregue “mensagens de ódio ou desvalorização”.
Desde
2022, essas e outras condutas passaram a ser tipificadas em resoluções
normativas de universidades como a UFPel, UFSC e UFMG, e enquadradas como
formas de racismo ou transfobia. Aprovadas em Conselhos Universitários e com
aplicação imediata, essas normas jurídicas conferem validade legal ao conceito
de “microagressão” e preveem protocolos de prevenção e punição à sua
ocorrência.
As
sanções previstas nessas normativas são severas. Para os estudantes, vão desde
advertências ou suspensões até o desligamento definitivo da universidade. No
caso de docentes e técnicos, as microagressões podem justificar a abertura de
sindicâncias e Processos Administrativos Disciplinares (PADs), que, por seu
turno, podem culminar em demissões. Soma-se a isso a imposição de medidas de
reeducação, como a participação obrigatória em grupos reflexivos ou a matrícula
compulsória de estudantes em disciplinas de letramento.
Os
objetivos são nobres e muitos deles, inclusive, encontram respaldo em
diagnósticos das ciências humanas. A sociologia investiga as disputas políticas
e epistemológicas que formam cânones e disciplinas e que geram a omissão de
autores e autoras fora do circuito euro-americano. Estuda também as fronteiras
simbólicas que separam grupos e propagam estereótipos, além de investigar as
desigualdades duráveis que resultam tanto de ações individuais como de arranjos
organizacionais. Já a Antropologia se debruça sobre o problema do etnocentrismo
e das formas de desprezo por outras culturas. A Psicologia, por sua vez, estuda
efeitos nocivos de formas sutis e às vezes inconscientes de preconceito.
O
problema, portanto, não está nas intenções, mas no receituário. Para começar,
no Direito, a distinção entre acidente e dolo é fundamental. Punir alguém por
uma conduta não intencional é uma questão jurídica pantanosa. Porém, mais do
que isso, o próprio conceito de “microagressão” que sustenta essas decisões é
fortemente contestado dentro do debate especializado. Para quem passou décadas
de vida acadêmica debatendo políticas públicas, cotas raciais nas universidades
e fazendo revisão crítica dos cânones disciplinares, é surpreendente ver um
conceito tão frágil tratado como panaceia para as desigualdades. O conhecimento
acumulado nas nossas áreas, a Sociologia e a Psicologia, não oferece base
segura para esperar que essa abordagem produza os efeitos pretendidos. Pelo
contrário, a literatura aponta riscos significativos de efeitos
contraproducentes. Vejamos por quê.
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Um conceito em disputa
O
vocabulário das microagressões é uma importação americana. O termo remonta ao
psiquiatra Chester Pierce na década de 1970, mas sua formulação recente foi
popularizada pelo psicólogo Derald Wing Sue a partir de 2007. Nos Estados
Unidos, o conceito tornou-se o centro de intensas controvérsias públicas sobre
cultura universitária, com participação de autores como Jonathan Haidt, John
McWhorter, e Connor Friedersdorf. O conceito também enfrenta críticas severas
no debate acadêmico especializado. Os psicólogos Scott Lilienfeld, Edward Cantu
e Lee Jussim apontam sua falta de embasamento empírico, e os riscos de
transformá-lo em base para políticas institucionais. Os sociólogos Bradley
Campbell e Jason Manning também alertam que o vocabulário das microagressões
incentiva mudanças comportamentais e institucionais nocivas ao campus
universitário. No Brasil, infelizmente, essas críticas têm sido ignoradas.
O
problema central está na extrema elasticidade do termo. Não há limites claros
para o que constitui uma microagressão, pois ela abriga sob o mesmo rótulo
desde insultos hostis até atos ambíguos ou elogios desajeitados. Interações
corriqueiras, como elogiar a boa articulação de um colega, perguntar de onde
alguém é ou dizer que “todos somos iguais” são listadas como exemplos de
microagressão. Basta afirmar que uma microagressão ocorreu, e a afirmação
torna-se verdade. A literatura afirma inclusive que negar que uma microagressão
aconteceu é, em si, uma nova microagressão. Ora, isso bloqueia qualquer chance
de falseabilidade: se a alegação não pode ser contestada sem que a própria
defesa se torne uma nova prova de culpa, a acusação já é condenação.
Estudos
mostram que muitos dos comportamentos que a literatura rotula como
microagressões nem mesmo são considerados ofensivos por amplas maiorias dentro
dos grupos supostamente atingidos. Diante desse dado inconveniente, alguns dos
defensores do conceito respondem que microagressões podem ser identificadas de
forma objetiva, independentemente de a pessoa se sentir ofendida ou não.
Porém,
essa “objetividade” costuma depender da adesão a determinadas teorias
preestabelecidas sobre poder, identidade e opressão – modelos que, longe de
serem consensuais, seguem sob intenso debate. Sob essa ótica, para explicar o
caso de uma pessoa negra que não se ofende quando escuta a palavra “denegrir”,
afirma-se que ela não tem suficiente “letramento racial”.
Ora, ao
ignorar a percepção de quem supostamente deveria ser protegido, os defensores
dessa suposta objetividade acabam tutelando e retirando do indivíduo a agência
sobre suas próprias emoções. Se o dano psicológico não acontece na prática, o
que se está fazendo, afinal, não é proteger uma vítima, mas sim forçar a
realidade a se encaixar em uma teoria.
Lilienfeld
aponta também as diversas fragilidades metodológicas de estudos que
supostamente estabelecem microagressões como causa de maior mal-estar
psicológico entre populações desfavorecidas. Em sua maioria, esses estudos
dependem de autorrelatos de fonte única, um desenho que dificulta a distinção
entre causalidade e correlação. Afinal, é plausível imaginar que a causa possa
ser o inverso, ou seja, que pessoas com mais afetividade negativa, ansiedade ou
sensibilidade à rejeição tendam mais frequentemente a interpretar interações
neutras ou ambíguas como discriminatórias. Sem distinguir correlação de
causalidade, as universidades arriscam tratar traços de personalidade ou
simples mal-estar psicológico como evidência de comportamento ofensivo ou
presença de estruturas opressivas.
Além
disso, há um risco real de aumentar, em vez de reduzir, o próprio mal-estar
psicológico que se busca combater. Ao incentivar a interpretação de gestos
inócuos como racismo ou transfobia, o vocabulário das microagressões constrói
um ambiente cultural hostil e repleto de gatilhos negativos. Gregg Lukianoff e
Jonathan Haidt alertam que isso pode ter efeito nocivo no bem-estar psicológico
dos indivíduos ao gerar uma sensação de constante perseguição. Erec Smith
argumenta também que a vigilância moral associada ao vocabulário das
microagressões pode enfraquecer a agência individual e coletiva de grupos
desfavorecidos, além de dificultar a formação de vínculos interpessoais
autênticos.
Na
prática, a institucionalização dessas normas cria um campo interacional minado
e praticamente inavegável. O sociólogo Musa Al-Gharbi ilustra o paradoxo com
uma situação hipotética em sala de aula: se um professor branco não chama um
aluno negro para falar, pode ser acusado de exclusão. Porém, se chama e critica
sua resposta, pode ser acusado de discriminação. Se elogia, o elogio pode ser
lido como paternalismo. No fim, todos os atos possíveis podem ser interpretados
como microagressão.
Quando
os custos de errar se tornam altos demais, a tendência natural é o isolamento.
Como alertam Frank Dobbin e Alexandra Kalev, um programa de inclusão que nos
incentiva a interpretar praticamente qualquer interação intergrupal como
potencialmente ofensiva pode acabar incentivando pessoas de grupos diferentes a
evitar umas às outras para se preservarem de riscos. O resultado é menos
contato, menos cooperação e mais segregação informal. E todos esses efeitos são
contrários à inclusão pretendida.
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Um recorte de classe e geração
Existe,
por fim, um componente de classe e geracional que as universidades parecem
ignorar. Musa Al-Gharbi aponta que a hipervigilância em relação a sutilezas da
linguagem é, muitas vezes, um marcador de status de elites acadêmicas. O
domínio desses novos códigos funciona como uma forma de distinção social: quem
não teve a oportunidade de frequentar os lugares onde essas etiquetas são
forjadas corre um risco muito maior de punição.
É o que
Rob Henderson tem chamado de “crenças de luxo”: ideias que conferem prestígio à
elite, mas cujos custos recaem sobre os mais vulneráveis. Ao tipificar a
“ignorância” ou “ofensa não intencional” como infração, as resoluções
universitárias colocam sob sua mira não a elite, mas servidores técnicos de
gerações anteriores e estudantes vindos de contextos sociais onde a prioridade
é a sobrevivência material, e não o domínio de etiquetas e códigos do
politicamente correto. Puni-los por isso é, ironicamente, uma forma de elitismo
que amplia o abismo entre nossos centros de produção de conhecimento e o
público geral.
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Conclusão
Reconhecemos
enfaticamente a necessidade de denunciar e coibir casos inequívocos de racismo
e discriminação, tais como previstos na legislação penal brasileira. Mas
confundi-los com atos ambíguos, impensados ou meramente indelicados apaga
distinções essenciais de natureza, gravidade e proporcionalidade da resposta –
para não falar no risco de banalizar casos de discriminação real.
A
agenda da inclusão é indispensável para a construção de uma universidade
plural. No entanto, ela precisa ser pautada por evidências e experiências
institucionais bem-sucedidas, e não por aderência cega a receitas já amplamente
contestadas. Boas intenções não bastam para gerar boas políticas públicas. O
combate ao preconceito é urgente demais para ser feito com ferramentas que,
além de não funcionarem, criam novas barreiras. Ao adotar soluções de sotaque
americano e baixo rigor científico – como é o caso do vocabulário das
microagressões – as universidades brasileiras correm o risco de produzir
“remédios” que aumentam injustiças, aprofundam desigualdades e sacrificam sua
missão.
Fonte:
Por Pedro Damazio Franco e Verônica Toste Daflon, no Le Monde

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