sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Por quanto tempo o Irã pode sustentar a guerra com os EUA e Israel?

Após sete meses de guerra, e apesar da forte pressão sobre a economia e a infraestrutura do país, os líderes iranianos ainda não parecem ter pressa para encerrar o conflito com os Estados Unidos e Israel.

O Irã pode querer demonstrar que os EUA não podem ditar sozinhos o ritmo do conflito.

O país também pode tentar tornar a guerra mais custosa militar, econômica e politicamente para os EUA e, assim, pressionar o governo americano a aceitar algumas de suas exigências.

Mas tudo depende de uma questão crucial: por quanto tempo o Irã consegue sustentar a guerra?

<><> Qual é a capacidade militar do Irã para prolongar a guerra?

Partes da indústria de defesa e das instalações de produção de mísseis do Irã foram alvo de ataques, mas não há dados independentes que permitam dimensionar os danos. Em sua análise mais recente, o think tank (centro de pesquisa e debates) Chatham House afirma que não há uma estimativa confiável de quantos mísseis o Irã possui.

O número de mísseis balísticos lançados pelo Irã em cada ataque vem diminuindo. Mas a capacidade do país de sustentar a guerra não depende apenas de seus estoques de mísseis: drones e mísseis de cruzeiro podem ser produzidos com mais rapidez e facilidade, os comandantes mortos até agora foram substituídos e a estrutura de comando não foi desmantelada.

Mohammad Ghaedi, professor de relações internacionais da Universidade George Washington, nos EUA, disse à BBC News Persa que "o Irã provavelmente consegue manter por muito tempo a sua capacidade de realizar lançamentos — ainda que em menor intensidade — e continua capaz de provocar transtornos no estreito de Ormuz", por onde passava cerca de 20% da produção global de petróleo antes da guerra.

Os líderes iranianos também avaliam que prolongar o conflito pode trazer prejuízos aos EUA.

A defesa americana já gastou parte de seus estoques de munição para interceptar mísseis e drones iranianos, e algumas análises nos EUA alertam que esse arsenal não poderá ser reposto rapidamente.

Ghaedi também afirmou que "o impacto da guerra sobre o preço do petróleo e a situação política interna dos EUA alimentaram no Irã a expectativa de que seja possível forçar os EUA a aceitar algumas de suas condições".

Nos EUA, o apoio ao presidente Donald Trump entre eleitores do Partido Republicano (ao qual Trump pertence) continua relativamente alto. Ainda assim, pesquisas mostram que muitos americanos desaprovam o conflito e temem que Trump não esteja conseguindo atingir os objetivos traçados para a guerra.

Se o Irã estiver certo em sua avaliação, o país não precisaria necessariamente derrotar os EUA no campo militar. Prolongar a guerra e aumentar seus custos já pode funcionar como instrumento de pressão. Até agora, não há sinais de que as limitações militares, por si só, seja suficientes para levar o Irã a encerrar o conflito.

<><> Por quanto tempo a economia do Irã consegue resistir?

Antes mesmo da guerra, a economia iraniana já enfrentava inflação alta, falta de investimentos, desvalorização de sua moeda, o rial, e problemas estruturais. Segundo uma estimativa do Banco Mundial, o PIB (soma de todas as riquezas produzidas) do país caiu cerca de 2,7% no ano fiscal de 2025-26, e apenas as últimas semanas desse período coincidiram com o conflito.

A guerra agravou esse quadro. Dados do Centro de Estatísticas do Irã mostram que a inflação acumulada em 12 meses chegou a 62%. A pressão foi maior nas províncias do sul, mais expostas aos efeitos da guerra: em Hormozgan, por exemplo, a inflação superou 101%.

No mercado de trabalho, mais de 1 milhão de postos foram perdidos por causa da guerra, que deixou cerca de 2 milhões de pessoas direta ou indiretamente desempregadas, segundo o vice-ministro do Trabalho do Irã.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê ainda que a economia iraniana encolha cerca de 5,4% em 2026 e que a inflação se aproxime de 69%.

A duração da guerra e o impacto sobre o comércio e as exportações de petróleo serão decisivos. O estreito de Ormuz é, ao mesmo tempo, uma forma de pressionar os EUA e uma fragilidade para o próprio Irã: interrupções nessa rota podem encarecer a guerra para os americanos e afetar o mercado global de energia, mas o bloqueio naval americano e as restrições à navegação também dificultam as exportações de petróleo do Irã.

Ainda assim, a piora da economia não necessariamente levará o Irã a mudar de rumo.

Ghaedi afirmou que governos autoritários podem se manter por anos mesmo em situações econômicas difíceis. Na avaliação dele, inflação, desemprego e desequilíbrios estruturais podem aumentar o descontentamento da população, mas só tenderiam a alterar a política militar do Irã se viessem acompanhados de protestos generalizados ou de divisões dentro do governo.

<><> Divergências no governo iraniano: por quanto tempo a guerra deve continuar?

Não há consenso no Irã sobre qual é o melhor caminho a seguir.

Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento do Irã e chefe da delegação iraniana nas negociações, já havia alertado que o Irã não deveria se deixar arrastar para uma "guerra de desgaste" e criticou os opositores das negociações. Já Amirhossein Sabeti, deputado linha-dura do Irã, afirmou que a guerra ocorreria mesmo que os EUA aceitassem todas as condições do Irã e assinassem um acordo.

A divergência não se resume a dois grupos, um favorável à guerra e outro à paz.

Ghalibaf também afirma que não aceitará um acordo que não preserve os direitos do Irã. A discordância está sobretudo em até que ponto prolongar a pressão pode fortalecer a posição do Irã nas negociações e quando os custos passam a ser maiores do que os ganhos.

E o que pensa a população? Não há pesquisas de opinião independentes e confiáveis sobre a opinião dos iranianos a respeito da continuidade da guerra, e as redes sociais não refletem toda a sociedade.

Mas, Hamidreza Azizi, especialista em Irã e pesquisador visitante do Instituto Alemão de Assuntos Internacionais e de Segurança (SWP, na sigla em alemão), disse em entrevista à BBC que o maior risco para a República Islâmica pode vir de dentro do próprio país. Segundo Azizi, a inflação alta, a crise econômica e os problemas de infraestrutura podem tornar a situação interna a "frente mais perigosa" para o governo iraniano.

<><> Uma guerra que precisa de uma estratégia para terminar

Uma guerra longa também pode prejudicar a posição do Irã na região. Nos últimos anos, o Irã vinha tentando melhorar as relações com os países árabes do Golfo, sobretudo com a Arábia Saudita. A continuidade dos ataques contra bases, instalações e rotas marítimas nesses países pode desfazer parte dessa aproximação.

Até agora, esses países têm buscado conter as tensões e retomar as negociações. Mas, quanto mais vulneráveis se sentirem a ataques do Irã ou de grupos alinhados ao Irã, maior será a tendência de ampliar a cooperação militar com os EUA — inclusive como forma de se proteger do próprio Irã.

Para o Irã, prolongar a guerra só terá vantagem política se a pressão sobre os EUA resultar em concessões nas negociações. Ainda não está claro que tipo de acordo permitiria ao Irã encerrar a guerra em condições consideradas aceitáveis nem como seria possível chegar a esse entendimento.

"O que falta à estratégia do Irã", afirmou Azizi, do SWP, "é explicar claramente como as vantagens obtidas durante a guerra podem ser transformadas em um acordo político duradouro. O Irã mostrou que consegue afetar o fornecimento global de energia e aumentar os custos para os EUA e seus aliados. Mas não está claro como poderá manter indefinidamente um confronto com os EUA e os países do Golfo."

Até agora, nenhuma das limitações militares, econômicas ou políticas, isoladamente, impediu o Irã de continuar a guerra. Mas, quanto mais tempo o conflito durar, maior será a pressão econômica interna, mais prejudicadas ficarão as relações regionais do Irã e mais difícil será chegar a um acordo que compense esses custos.

¨      Em Teerã, ministro paquistanês defende fortalecer laços com Irã e ‘acelerar’ implementação de acordos

O ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, reuniu-se nesta terça-feira (11/08) com o chanceler do Irã, Abbas Araghchi, na capital Teerã, em meio a esforços de mediação para encerrar a guerra em curso promovida pelos Estados Unidos e Israel, de acordo com a emissora catari Al Jazeera.

Conforme fontes diplomáticas citadas pela agência de notícias iraniana IRNA, as conversas de alto nível abordaram os laços bilaterais e questões de interesse mútuo. No entanto, nenhum detalhe do encontro em específico foi oficialmente divulgado, de imediato, por ambas as partes.

“Naqvi fez várias viagens ao Irã nos últimos meses para conversas com autoridades iranianas. Suas visitas recentes têm se concentrado no acompanhamento do memorando de entendimento de Islamabad, na mediação do Paquistão entre Teerã e Washington, e nas relações bilaterais entre Irã e Paquistão”, informou o veículo.

A visita ocorre um mês após o ministro do Interior iraniano Eskandar Momeni ter viajado a Islamabad para conversas com seu homólogo paquistanês.

O presidente iraniano Masoud Pezeshkian, que também se reuniu com Naqvi, afirmou que Teerã está pronta para aprofundar as relações bilaterais com o governo paquistanês nos setores político, econômico, comercial, cultural e de segurança, elogiando os esforços de Islamabad para fortalecer os laços que, em sua avaliação, impulsionaria a “estabilidade e segurança regionais”.

Conforme a agência IRNA, ele enfatizou a necessidade de fazer melhor uso das capacidades existentes dos dois países para elevar o nível da cooperação bilateral, enfatizando a importância das relações entre Irã e Paquistão dentro do contexto regional mais amplo.

Naqvi, por sua vez, expressou satisfação com sua reunião com Pezeshkian e disse que sua visita a Teerã teve como objetivo dar seguimento aos acordos e entendimentos alcançados durante a recente visita de seu homólogo iraniano Eskandar Momeni ao Paquistão. O ministro paquistanês reafirmou a relação histórica entre os dois países, além de destacar que Islamabad está determinada a buscar o desenvolvimento abrangente das relações com Teerã.

Ele também enfatizou a importância de implementar os acordos e entendimentos existentes, descrevendo sua visita como parte dos esforços para fortalecer os mecanismos bilaterais de cooperação e acelerar a implementação dos compromissos alcançados pelas duas partes.

O Paquistão, que é apoiado por países do Golfo como o Catar, tem tentado mediar um acordo entre Washington e Teerã, mas o conflito continuou após violações norte-americanas do memorando de entendimento assinado entre as duas partes em junho. Este acordo provisório previa a abertura de uma janela de 60 dias para novas negociações voltadas a um acordo de paz definitivo. 

Agora, o bloqueio do Estreito de Ormuz, via navegável que era responsável pela passagem de cerca de um quinto do petróleo mundial antes da agressão norte-americana e israelense em 28 de fevereiro, se consolida como a pauta principal nas negociações.

¨      Premiê libanês denuncia 'destruição sistemática' de Israel no sul do país: 'violação do direito internacional'

O primeiro-ministro do Líbano, Nawaf Salam, denunciou nesta quarta-feira (12/08) que os “ataques, incursões, operações de demolição e a destruição sistemática” de Israel no sul libanês constituem uma “grave violação dos princípios e regras do direito internacional e do direito internacional humanitário”.

Em sua conta no X, o premiê ressaltou as agressões nas regiões de Mansouri, Zawtar al-Sharqiyah, Kfar Tebnit e outras vilas e cidades do sul, nas quais o governo israelense justifica a demolição com base na presença de instalações militares.

“A natureza dos locais visados refuta tais alegações. A afirmação de que vilas e cidades inteiras, incluindo suas casas, bairros, prédios governamentais, instalações públicas, locais de culto e infraestrutura, são ‘instalações militares’ é insustentável sob qualquer lógica e não pode servir de pretexto para destruí-las, deslocar seus moradores e impedi-los de retornar”, declarou Salam.

O líder libanês reafirmou a soberania do país e a segurança do povo, instando que o direito dos sulistas de retornarem às suas terras e reconstruírem suas aldeias “é inegociável”.

Em paralelo, o Comando do Exército do Líbano emitiu uma declaração afirmando que as “forças de ocupação israelenses continuam seus ataques e violações dos entendimentos existentes e do direito internacional”, citando a demolição do prédio da prefeitura de Zawtar al-Sharqiyah em Nabatieh, bem como da escola pública, do posto de saúde, da creche e de várias casas na cidade.

“Isso confirma a abordagem destrutiva contínua da ocupação, que visa infligir o maior dano possível às vilas e cidades do sul e impedir o estabelecimento da estabilidade”, observaram.

“Ao mesmo tempo, o Exército continua a cumprir as suas missões no sul, onde enfrenta dificuldades significativas em consequência destes ataques, que estão a dificultar a conclusão do seu destacamento e o regresso dos residentes”, acrescentou.

Beirute e Tel Aviv realizaram, na última semana, a sétima rodada de negociações visando um cessar-fogo dos ataques israelenses no território libanês. Enquanto o governo de Netanyahu mantém sua ofensiva, o Centro de Operações de Emergência do Ministério da Saúde Pública indicou que desde o início das agressões em 2 de março, ao menos 4.335 civis já foram mortos.

<><> 'Não permitiremos que Israel fique em nossa terra', afirma presidente do Líbano

O presidente do Líbano, Joseph Aoun, afirmou nesta terça-feira (11/08) que as negociações com Israel estão “progredindo”, mas declarou que “não permitiremos que Israel permaneça, nem mesmo em um único centímetro de nossa terra, nem que um único soldado de seu exército fique em nosso solo”.

“Não há discordância entre os libaneses quanto aos objetivos, desde a retirada israelense e o retorno dos prisioneiros até a reconstrução do que foi destruído”, disse Aoun, segundo um comunicado da Presidência libanesa após uma reunião com uma delegação da Instituição Maronita para a Propagação.

O líder acrescentou que as conversas continuam sendo preferíveis aos “resultados da guerra destrutiva travada contra nós” e observou que os ataques de Israel “foram reduzidos” desde a assinatura do acordo preliminar para as negociações.

Aoun também disse que slogans alegando que “o que é tomado à força só pode ser restaurado à força” têm sido ouvidos repetidamente, mas que “a realidade no terreno provou que essa afirmação está errada”.

5 de agosto

Seus comentários surgem após a sétima rodada de negociações entre as delegações de Beirute e Tel Aviv em Roma na semana passada, enquanto os ataques israelenses ao Líbano continuam.

Nesse sentido, os libaneses do sul que foram deslocados pelos soldados israelenses continuam impedidos de retornar para suas casas devido à presença militar e aos ataques contínuos de Israel.

“Chegou a hora de o povo do Sul descansar e viver em segurança em suas terras, em vez de continuar travando guerras em seu nome por objetivos que não são libaneses”, disse o presidente.

Aoun enfatizou que sua prioridade era reconstruir o Estado, independentemente do custo, apesar da oposição daqueles que buscam minar seus fundamentos e impedir sua reconstrução.

A Agência Nacional de Notícias do Líbano informou que, desde a manhã desta terça-feira, o Exército israelense incendiou diversos campos e pomares nas áreas de Sarda e Wazzani. Os incêndios se alastraram para a região de Wata Khiyam, com colunas de fumaça sobrevoando a área.

Além disso, veículos militares também avançaram na cidade de Hadatha em direção aos arredores orientais de Aita al-Jabal, no distrito de Bint Jbeil, enquanto as forças israelenses disparavam tiros de metralhadora contra a parte leste da cidade.

Em outro comunicado, o Centro de Operações de Emergência do Ministério da Saúde Pública informou que um ataque de drone israelense na cidade de Nabatieh deixou ao menos duas pessoas feridas.

Segundo o ministério, a área foi alvo de dois ataques. O segundo atingiu uma equipe de resgate da Associação Al-Rissala, que já havia chegado para prestar auxílio aos dois feridos, e danificou uma ambulância.

Desde o início da agressão israelense contra o Líbano em 2 de março, cerca de 4.335 civis foram mortos e pelo menos 12.227 foram feridos.

 

Fonte: BBC News Persa/Opera Mundi

 

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