sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Aproximação sino-russa gera temor no Norte Global, que opta por mais tensão em vez de diplomacia

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialista afirmou que união entre Moscou e Pequim gera apreensão ao Japão, que escolheu aumentar os gastos militares ao invés de conversar. Analista declara que investidas contra navios comerciais russos aumentam ruídos entre Kremlin e Ocidente.

O presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez uma série de declarações nesta quarta-feira (12) sobre sinalizações de possíveis apreensões e sequestro de navios comerciais russos, as quais classificou como "pirataria".

"Vemos que as autoridades de alguns países, violando o direito marítimo internacional, tentam restringir a navegação dos navios de nossas empresas de exploração econômica. De forma pacífica, ressalto. E, recentemente, chegaram ao ponto de cogitar a possibilidade de apreender nossos navios e vender os bens que nos foram roubados. É claro que isso nada mais é do que pirataria e hostilidade."

O líder do Kremlin também comentou sobre a inclusão de Moscou na lista de principais ameaças do Japão, ato no qual Putin não vê sentido.

"Gostaria de ressaltar que não estamos ameaçando o Japão, não temos absolutamente nenhuma reivindicação contra eles."

Putin observou nesta quarta-feira a etapa final dos exercícios da Frota do Pacífico a bordo do cruzador de mísseis Varyag. Participaram da ação cerca de 60 navios, submarinos e embarcações de apoio, por volta de 30 aeronaves, helicópteros e drones, além de mais de 13 mil militares. Eles atuaram nas águas do mar do Japão, do mar de Okhotsk e na parte noroeste do oceano Pacífico.

Em entrevista à Sputnik Brasil, Ricardo Cabral, doutor em história e relações internacionais, especialista em história militar e conflitos contemporâneos, disse acreditar que a movimentação recente contra a Rússia, tanto sobre seus navios comerciais quanto o Kremlin na lista de principais ameaças do Japão, se dá pela cada vez maior aproximação entre Moscou e Pequim.

De acordo com Cabral, a China assumiu o espaço deixado pelo Ocidente ao iniciar as rodadas de sanções à Rússia, em 2022. O especialista enxerga muita sinergia entre os dois países e acredita que a tendência é que essa cooperação cresça ainda mais ao longo dos próximos anos.

O Ocidente, por sua vez, tenta responder a essa parceria de diferentes formas, sendo uma delas aumentar a pressão militar na região do Pacífico asiático, onde Rússia e Japão fazem fronteira marítima. Cabral ressalta que Tóquio tem investido mais a cada ano em defesa, solicitando um orçamento militar de US$ 56 bilhões (R$ 290,88) para 2027.

"O orçamento japonês é o quarto maior [do mundo] sem a gente identificar efetivamente ameaças ao Japão. É claro, eles identificaram a Rússia como ameaça por questões de uma maior cooperação militar com os chineses, tem também a questão norte-coreana. Ou seja, nesse momento, Tóquio é um governo mais nacionalista e tende a enxergar ameaças."

Para Cabral, o Japão, assim como o Ocidente, peca em não tentar resolver questões com a Rússia de maneira diplomática.

Na visão do especialista, Putin está certo ao classificar como pirataria as ameaças de apreensão e bloqueios marítimos em águas internacionais de navios russos.

O analista militar entende que o líder russo tem direito de começar a realizar comboios de embarcações escoltadas por navios militares, o que representaria uma escalada das tensões entre Moscou e Ocidente.

"[Bloqueio marítimo] é um problema, acredito, muito maior para o Ocidente do que para os próprios russos, que têm várias maneiras de passar com a sua esquadra, até porque é do interesse do Ocidente o petróleo, o gás, o urânio, fertilizantes, grãos [russos] que são levados por esses navios para os portos ocidentais europeus."

Cabral destaca que o discurso europeu russófobo, capitaneado por membros da União Europeia, como Ursula von der Leyen, não condiz com as ações de nações como a Alemanha e o Reino Unido, que continuam tendo relações comerciais indiretas com a Rússia, apesar de publicamente atacarem Moscou e defenderem sanções.

"A decadência econômica europeia está intimamente ligada à crise energética. A crise energética é porque os russos forneciam energia barata e os europeus, de uma forma insana, cortaram esse suprimento em vez de buscar diplomacia para resolver as questões que poderiam, que aliás já estavam encaminhadas para serem resolvidas na diplomacia."

<><> Expansão da OTAN para o Pacífico deixa uma guerra 'cada dia mais perto'

Em entrevista à Rádio Sputnik Brasil, o historiador Bernardo Kocher afirmou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), ao começar a navegar em outros mares, como o Pacífico, se prepara para uma guerra contra a Rússia e a China.

Para o historiador, esta ação da aliança atlântica tem potencial para iniciar uma "guerra generalizada". Mais cedo, Putin alertou contra os planos do Ocidente de posicionar novas armas na região.

"Espero que alguma solução política se coloque entre essa busca desesperada no capitalismo europeu e norte-americano por enfrentar a competição chinesa e russa. [...] Do jeito que está — eu, pelo menos, sou pessimista —, a guerra está chegando cada dia mais perto da gente."

<><> 'Japão sempre foi um país sem autonomia'

O comandante Robinson Farinazzo, especialista militar e oficial da reserva da Marinha do Brasil, afirmou à Rádio Sputnik Brasil que "o Japão sempre foi um país sem autonomia" e que, desde a Segunda Guerra Mundial, está sob o "tacão" dos Estados Unidos.

Para o analista, o governo de Tóquio enfrenta uma "fragilidade estratégica muito grande", uma vez que o arquipélago japonês é carente de recursos vitais para o funcionamento do país, como combustíveis e minerais.

"O Japão é um país sem recursos naturais. Ele tem zero de recursos naturais. Então ele depende de importação de petróleo, de minério de ferro, de alimentos, do que vocês pensarem."

¨      Rússia coloniza e apaga o passado de cidade invadida

Halyna Artemova morou por quase 40 anos em Mariupol, no número 87 da Avenida dos Metalúrgicos. "É minha cidade amada. Só de ver as fotos, fico com lágrimas nos olhos. Conheço cada rachadura no asfalto, cada árvore", conta a professora de inglês à DW. Durante um ataque da Rússia, em março de 2022, o prédio onde morava, na cidade ucraniana às margens do Mar de Azov, foi atingido por um míssil.

Na casa vizinha, no número 85 da mesma rua, o fotógrafo Yeven Sosnovski e a esposa moraram por 20 anos. "Fiz tudo sozinho, o acabamento interno e os móveis. Investimos muito e queríamos passar lá nossos anos de aposentadoria em paz", lembra ele. Após o impacto do míssil, a casa deles também pegou fogo. Os moradores foram expulsos pelas tropas russas, sem poder levar comida nem roupas.

A casa de Yeven virou um estacionamento. Já onde Halyna Artemova morava há agora um prédio novo. A incorporadora russa Su-2007, que atua nos territórios ucranianos ocupados por Moscou, demoliu vários edifícios destruídos durante a guerra na Avenida dos Metalúrgicos e construiu arranha-céus no lugar. Eles fazem parte do complexo residencial batizado de "Quarteirão de Leningrado".

A DW não tem acesso às regiões da Ucrânia ocupadas pela Rússia e também não pode fazer reportagens diretamente em Mariupol. No entanto, por meio de entrevistas com ex-moradores da cidade, imagens de satélite e pesquisas na internet, é possível traçar, em parte, como anda atualmente a vida na cidade na região de Donetsk, no leste do país.

<><> Os novos moradores da Avenida dos Metalúrgicos

Em comunidades da internet, quem se mudou para os novos apartamentos na Avenida dos Metalúrgicos troca experiências. Os posts indicam que a maioria desses moradores adquiriu os apartamentos para uso próprio ou para aluguel.

Eles estão interessados em saber como receber móveis da Rússia ou qual creche e qual escola devem escolher para os filhos. Nos chats, alguém também ressalta que, ao apresentar documentos, o mais importante é que eles sejam de origem russa. Nem todos terminaram ainda a reforma interna dos apartamentos, e algumas famílias com crianças pequenas reclamam: "É hora de descansar! Acabem de uma vez por todas com essas malditas obras! Ou será que vocês são pró-Ucrânia e contra as leis russas?"

Segundo o especialista em economia Vyacheslav Shiryayev, os apartamentos nos novos empreendimentos de Mariupol são comprados principalmente por recém-chegados: membros das forças de segurança russas, funcionários públicos e pessoal de logística do exército. "Além disso, há algumas poucas pessoas que simplesmente gostariam de viver à beira-mar, mas não têm condições financeiras para morar na Crimeia ou em Sochi", explica ele.

Nos territórios ucranianos ocupados pela Rússia, o governo de Vladimir Putin oferece financiamento habitacional com juros favoráveis, a uma taxa anual de 2%, para todo o prazo do empréstimo, desde que o mutuário tenha cidadania russa. O teto do financiamento é de 6 milhões de rublos (R$ 370 mil), e o capital próprio aportado deve ser de, no mínimo, 10%.

<><> Imóveis ficaram mais caros na região

Dezenas de edifícios residenciais estão em construção em Mariupol e muitos já foram ocupados. Segundo dados do sistema bancário russo, a cidade ocupa o primeiro lugar entre os territórios ocupados no que diz respeito à concessão de financiamento imobiliário. Em um ano, os preços dos imóveis subiram mais de 30%, principalmente devido à localização, à beira-mar. Segundo Shiryayev, não é possível encontrar algo parecido com isso na Rússia. Mas ele diz que os apartamentos são de péssima qualidade. "As incorporadoras economizam em tudo – e mesmo assim cobram preços exorbitantes", acrescenta o economista.

O Quarteirão de Leningrado, composto por 15 de edifícios com 12 a 15 andares, fica próximo ao centro da cidade e a apenas dez minutos de carro da praia. Os apartamentos de um e dois quartos custam entre 7,5 milhões de rublos e quase 10 milhões de rublos (entre R$ 470 mil e R$ 620 mil), já os de três quartos estão disponíveis a partir de 10 milhões de rublos. Os preços por metro quadrado variam, dependendo do tamanho do apartamento, do prédio e do andamento da construção – entre 120 mil rublos e 217 mil rublos (R$ 7,5 mil e R$ 13,5 mil). Recém-chegados têm direito a descontos de até 12%.

Moradores do complexo residencial relatam nas comunidades online que estão protegendo seus financiamentos "contra riscos de guerra". Se um apartamento for destruído, os donos não precisariam mais pagar os empréstimos ao banco, mas também perderiam o imóvel. "Se um proprietário sobreviver à destruição do apartamento, ele tem direito à assistência social", escreve um morador. Ninguém nos fóruns menciona que, há poucos anos, outras pessoas moravam no local onde hoje fica o Quarteirão de Leningrado.

<><> Vítimas da invasão russa

Segundo a ONU, 90% dos prédios da cidade foram danificados ou destruídos durante os ataques de 2022. A mídia estima que o número de mortos chegue a dezenas de milhares. Antigos moradores da Avenida dos Metalúrgicos, com quem a DW conseguiu conversar, relatam ter visto vizinhos mortos e feridos. "Na manhã de 21 de março, saí do porão e vi um corpo carbonizado caído em frente à entrada. Não dava para reconhecer quem era. Um senhor idoso acamado, do sétimo andar, morreu no incêndio. Outro homem pulou do sexto andar durante o incêndio e morreu. No quinto andar morava um médico. Quando o míssil atingiu o prédio, ele estava de plantão, mas sua esposa morreu queimada", recorda Yeven Sosnovski.

Halyna Artemova também tem lembranças da invasão russa, que ocorreu em 2022. "Um homem e o filho dele, ambos da casa vizinha, morreram quando saíram para buscar água. No número 89, uma mulher ficou soterrada sob uma laje de concreto após o impacto de um foguete e morreu. No prédio número 91, um foguete atingiu o primeiro andar, matando uma família inteira", conta ela, que também foi ferida por um estilhaço. A professora de inglês conseguiu deixar Mariupol com a mãe idosa e o filho. Yeven Sosnovski foi atingido por um projétil. Ele também fugiu da cidade com a esposa e a sogra.

Muitos moradores dos prédios atingidos por tiros, cujos apartamentos, no entanto, não foram destruídos, permaneceram no local. Segundo informações obtidas pela DW, as autoridades russas estão agora exigindo que eles deixem suas casas. Em troca, foram prometidos novos apartamentos.

<><> Sobreviventes fazem apelo a Putin

Em 2025, moradores do antigo prédio 91 da Avenida dos Metalúrgicos se dirigiram ao presidente russo, Vladimir Putin, por meio de um vídeo. Como cenário, escolheram o complexo no Quarteirão de Leningrado, que ainda estava em construção. Na gravação, afirmaram que o prédio havia sido danificado durante "confrontos armados" e posteriormente demolido. No lugar, agora está sendo construído um "edifício residencial com financiamento imobiliário" – e os moradores tiveram a notícia de que não receberiam apartamentos no local. Em vez disso, podiam aceitar imóveis vagos como indenização, apartamentos de refugiados que não podem retornar à cidade ocupada de Mariupol. No vídeo, uma mulher pede a Putin que leve em consideração os interesses e os direitos dos moradores nas futuras construções.

Moradores dos prédios 77, 79, 81, 85, 87, 89 e 91, onde hoje fica o Quarteirão de Leningrado, também lançaram um apelo a Putin por meio de um vídeo semelhante. Nele, eles reclamam que há três anos são obrigados a morar em apartamentos alugados, embora as autoridades russas tivessem prometido indenizações. "Fomos abandonados, nos sentimos desamparados e inúteis", diz uma mulher na gravação, acrescentando que as vítimas do bombardeio, que perderam tudo, não têm condições de arcar com os financiamentos.

Segundo uma fonte consultada pela DW, que prefere se manter anônima, após os apelos dos moradores, as forças de ocupação em Mariupol deixaram claro que "tais declarações são inadequadas". A fonte diz que nenhum dos moradores dos antigos prédios da Avenida dos Metalúrgicos recebeu um apartamento nos novos edifícios do Quarteirão de Leningrado. De acordo com outro entrevistado, as pessoas foram realojadas em imóveis na periferia da cidade ou em albergues.

<><> "Nossa vida cotidiana foi roubada"

Aqueles que fugiram, em sua maioria, demonstram compreensão pelos antigos vizinhos que permanecem na cidade. Nem todos tiveram a oportunidade de deixar Mariupol e recomeçar em outro lugar. No entanto, eles repudiam a ocupação russa. "A população local está sendo expulsa", lamenta Halyna Artemova.

Assim como outros entrevistados que deixaram a cidade, ela diz que Mariupol começou a se desenvolver fortemente alguns anos antes da invasão russa, e que as pessoas queriam viver lá. "Nossa vida cotidiana foi roubada. Para alguns talvez, fosse desinteressante, mas era boa. Íamos ao mercado, sabíamos a quem procurar, tomávamos um café, encontrávamos uma colega de escola com o seu cachorro e trocávamos cumprimentos", lembra ela. Hoje, Halyna Artemova mora com o filho em Kiev. Yeven Sosnovski também está morando na capital ucraniana. "Estão construindo sobre ossos humanos e agindo rapidamente para apagar os rastros dos crimes", diz ele sobre as ações dos russos em Mariupol.

Nem Halyna Artemova nem Yeven Sosnovski pensam em voltar à cidade natal e fazer o recadastro dos imóveis deles de acordo com as normas das forças de ocupação russas. Também não está claro se eles seriam autorizados a entrar na região. No entanto, a Ucrânia não oferece indenização pela perda dos apartamentos, pois as autoridades não podem avaliar a situação sem acesso ao território ocupado.

"Eles estão construindo esses edifícios coloridos onde era um cemitério. Eu adoraria bombardeá-las, mas só se não houvesse ninguém nos prédios. É de enlouquecer", diz um morador de uma das antigas casas na Avenida dos Metalúrgicos. O entrevistado, que morou lá por décadas, lembra como o filho deu os primeiros passos em um apartamento que hoje não existe mais. E é assim que ele descreve a cidade: "No centro ainda está tudo bem. Mas basta andar um pouquinho para a esquerda ou para a direita que você já sente o cheiro da morte."

 

Fonte: Sputnik Brasil/Prensa Latina/DW Brasil

 

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