Aproximação
sino-russa gera temor no Norte Global, que opta por mais tensão em vez de
diplomacia
Em
entrevista à Sputnik Brasil, especialista afirmou que união entre Moscou e
Pequim gera apreensão ao Japão, que escolheu aumentar os gastos militares ao
invés de conversar. Analista declara que investidas contra navios comerciais
russos aumentam ruídos entre Kremlin e Ocidente.
O
presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez uma série de declarações nesta
quarta-feira (12) sobre sinalizações de possíveis apreensões e sequestro
de navios comerciais russos, as quais classificou
como "pirataria".
"Vemos
que as autoridades de alguns países, violando o direito marítimo internacional,
tentam restringir a navegação dos navios de nossas empresas de exploração
econômica. De forma pacífica, ressalto. E, recentemente, chegaram ao ponto de
cogitar a possibilidade de apreender nossos navios e vender os bens que nos
foram roubados. É claro que isso nada mais é do que pirataria e
hostilidade."
O líder
do Kremlin também comentou sobre a inclusão de Moscou na lista de
principais ameaças do Japão, ato no qual
Putin não vê sentido.
"Gostaria
de ressaltar que não estamos ameaçando o Japão, não temos absolutamente nenhuma
reivindicação contra eles."
Putin
observou nesta quarta-feira a etapa final dos exercícios da Frota do
Pacífico a bordo do cruzador de mísseis Varyag. Participaram da
ação cerca de 60 navios, submarinos e embarcações de apoio, por volta
de 30 aeronaves, helicópteros e drones, além de mais de 13 mil militares.
Eles atuaram nas águas do mar do Japão, do mar de Okhotsk e
na parte noroeste do oceano Pacífico.
Em
entrevista à Sputnik Brasil, Ricardo Cabral, doutor em história e
relações internacionais, especialista em história militar e conflitos
contemporâneos, disse acreditar que a movimentação recente contra a
Rússia, tanto sobre seus navios comerciais quanto o Kremlin na lista de
principais ameaças do Japão, se dá pela cada vez maior aproximação entre Moscou
e Pequim.
De
acordo com Cabral, a China assumiu o espaço deixado pelo Ocidente ao
iniciar as rodadas de sanções à Rússia, em 2022. O especialista enxerga muita
sinergia entre os dois países e acredita que a tendência é que essa
cooperação cresça ainda mais ao longo dos próximos anos.
O
Ocidente, por sua vez, tenta responder a essa parceria de diferentes formas,
sendo uma delas aumentar a pressão militar na região do Pacífico
asiático, onde
Rússia e Japão fazem fronteira marítima. Cabral ressalta que Tóquio tem
investido mais a cada ano em defesa, solicitando um orçamento militar de
US$ 56 bilhões (R$ 290,88) para 2027.
"O
orçamento japonês é o quarto maior [do mundo] sem a gente identificar
efetivamente ameaças ao Japão. É claro, eles identificaram a Rússia como ameaça
por questões de uma maior cooperação militar com os chineses, tem também a
questão norte-coreana. Ou seja, nesse momento, Tóquio é um governo mais
nacionalista e tende a enxergar ameaças."
Para
Cabral, o Japão, assim como o Ocidente, peca em não tentar resolver
questões com a Rússia de maneira diplomática.
Na
visão do especialista, Putin está certo ao classificar como pirataria as
ameaças de apreensão e bloqueios marítimos em águas internacionais de navios
russos.
O
analista militar entende que o líder russo tem direito de começar a realizar
comboios de embarcações escoltadas por navios militares, o que
representaria uma escalada das tensões entre Moscou e Ocidente.
"[Bloqueio
marítimo] é um problema, acredito, muito maior para o Ocidente do que para os
próprios russos, que têm várias maneiras de passar com a sua esquadra, até
porque é do interesse do Ocidente o petróleo, o gás, o urânio, fertilizantes,
grãos [russos] que são levados por esses navios para os portos ocidentais
europeus."
Cabral
destaca que o discurso europeu russófobo, capitaneado por membros da União Europeia, como Ursula
von der Leyen, não condiz com as ações de nações como a Alemanha e o Reino
Unido, que continuam tendo relações comerciais indiretas com a
Rússia, apesar de publicamente atacarem Moscou e defenderem sanções.
"A
decadência econômica europeia está intimamente ligada à crise energética. A
crise energética é porque os russos forneciam energia barata e os europeus, de
uma forma insana, cortaram esse suprimento em vez de buscar diplomacia para
resolver as questões que poderiam, que aliás já estavam encaminhadas para serem
resolvidas na diplomacia."
<><>
Expansão da OTAN para o Pacífico deixa uma guerra 'cada dia mais perto'
Em
entrevista à Rádio Sputnik Brasil, o historiador Bernardo
Kocher afirmou que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), ao
começar a navegar em outros mares, como o Pacífico, se prepara para uma
guerra contra a Rússia e a China.
Para o
historiador, esta ação da aliança atlântica tem potencial para iniciar
uma "guerra generalizada". Mais cedo, Putin alertou contra os
planos do Ocidente de posicionar novas armas na região.
"Espero
que alguma solução política se coloque entre essa busca desesperada no
capitalismo europeu e norte-americano por enfrentar a competição chinesa e
russa. [...] Do jeito que está — eu, pelo menos, sou pessimista —, a guerra
está chegando cada dia mais perto da gente."
<><>
'Japão sempre foi um país sem autonomia'
O
comandante Robinson Farinazzo, especialista militar e oficial da reserva
da Marinha do Brasil, afirmou à Rádio Sputnik Brasil que "o
Japão sempre foi um país sem autonomia" e que, desde a Segunda Guerra
Mundial, está sob o "tacão" dos Estados Unidos.
Para o
analista, o governo de Tóquio enfrenta uma "fragilidade estratégica
muito grande", uma vez que o arquipélago japonês é carente de
recursos vitais para o funcionamento do país, como combustíveis e minerais.
"O
Japão é um país sem recursos naturais. Ele tem zero de recursos naturais. Então
ele depende de importação de petróleo, de minério de ferro, de alimentos, do
que vocês pensarem."
¨
Rússia coloniza e apaga o passado de cidade invadida
Halyna
Artemova morou por quase 40 anos em Mariupol, no número 87 da Avenida dos
Metalúrgicos. "É minha cidade amada. Só de ver as fotos, fico com lágrimas
nos olhos. Conheço cada rachadura no asfalto, cada árvore", conta a
professora de inglês à DW. Durante um ataque da Rússia, em março de 2022, o prédio onde morava, na cidade
ucraniana às margens do Mar de Azov, foi atingido por um míssil.
Na casa
vizinha, no número 85 da mesma rua, o fotógrafo Yeven Sosnovski e a esposa
moraram por 20 anos. "Fiz tudo sozinho, o acabamento interno e os móveis.
Investimos muito e queríamos passar lá nossos anos de aposentadoria em
paz", lembra ele. Após o impacto do míssil, a casa deles também pegou
fogo. Os moradores foram expulsos pelas tropas russas, sem poder levar comida
nem roupas.
A casa
de Yeven virou um estacionamento. Já onde Halyna Artemova morava há agora um
prédio novo. A incorporadora russa Su-2007, que atua nos territórios ucranianos
ocupados por Moscou, demoliu vários edifícios destruídos durante a guerra na Avenida dos
Metalúrgicos e construiu arranha-céus no lugar. Eles fazem parte do complexo
residencial batizado de "Quarteirão de Leningrado".
A DW
não tem acesso às regiões da Ucrânia ocupadas pela Rússia e também não pode
fazer reportagens diretamente em Mariupol. No entanto, por
meio de entrevistas com ex-moradores da cidade, imagens de satélite e pesquisas
na internet, é possível traçar, em parte, como anda atualmente a vida na cidade
na região de Donetsk, no leste do país.
<><>
Os novos moradores da Avenida dos Metalúrgicos
Em
comunidades da internet, quem se mudou para os novos apartamentos na Avenida
dos Metalúrgicos troca experiências. Os posts indicam que a maioria desses
moradores adquiriu os apartamentos para uso próprio ou para aluguel.
Eles
estão interessados em saber como receber móveis da Rússia ou qual creche e qual
escola devem escolher para os filhos. Nos chats, alguém também ressalta que, ao
apresentar documentos, o mais importante é que eles sejam de origem russa. Nem
todos terminaram ainda a reforma interna dos apartamentos, e algumas famílias
com crianças pequenas reclamam: "É hora de descansar! Acabem de uma vez
por todas com essas malditas obras! Ou será que vocês são pró-Ucrânia e contra
as leis russas?"
Segundo
o especialista em economia Vyacheslav Shiryayev, os apartamentos nos novos
empreendimentos de Mariupol são comprados principalmente por recém-chegados:
membros das forças de segurança russas, funcionários públicos e pessoal de
logística do exército. "Além disso, há algumas poucas pessoas que
simplesmente gostariam de viver à beira-mar, mas não têm condições financeiras
para morar na Crimeia ou em Sochi", explica ele.
Nos territórios ucranianos ocupados pela
Rússia,
o governo de Vladimir Putin oferece
financiamento habitacional com juros favoráveis, a uma taxa anual de 2%, para
todo o prazo do empréstimo, desde que o mutuário tenha cidadania russa. O teto
do financiamento é de 6 milhões de rublos (R$ 370 mil), e o capital próprio
aportado deve ser de, no mínimo, 10%.
<><>
Imóveis ficaram mais caros na região
Dezenas
de edifícios residenciais estão em construção em Mariupol e muitos já foram
ocupados. Segundo dados do sistema bancário russo, a cidade ocupa o primeiro
lugar entre os territórios ocupados no que diz respeito à concessão de
financiamento imobiliário. Em um ano, os preços dos imóveis subiram mais de
30%, principalmente devido à localização, à beira-mar. Segundo Shiryayev, não é
possível encontrar algo parecido com isso na Rússia. Mas ele diz que os
apartamentos são de péssima qualidade. "As incorporadoras economizam em
tudo – e mesmo assim cobram preços exorbitantes", acrescenta o economista.
O
Quarteirão de Leningrado, composto por 15 de edifícios com 12 a 15 andares,
fica próximo ao centro da cidade e a apenas dez minutos de carro da praia. Os
apartamentos de um e dois quartos custam entre 7,5 milhões de rublos e quase 10
milhões de rublos (entre R$ 470 mil e R$ 620 mil), já os de três quartos estão
disponíveis a partir de 10 milhões de rublos. Os preços por metro quadrado
variam, dependendo do tamanho do apartamento, do prédio e do andamento da
construção – entre 120 mil rublos e 217 mil rublos (R$ 7,5 mil e R$ 13,5 mil).
Recém-chegados têm direito a descontos de até 12%.
Moradores
do complexo residencial relatam nas comunidades online que estão protegendo
seus financiamentos "contra riscos de guerra". Se um apartamento for
destruído, os donos não precisariam mais pagar os empréstimos ao banco, mas
também perderiam o imóvel. "Se um proprietário sobreviver à destruição do
apartamento, ele tem direito à assistência social", escreve um morador.
Ninguém nos fóruns menciona que, há poucos anos, outras pessoas moravam no
local onde hoje fica o Quarteirão de Leningrado.
<><>
Vítimas da invasão russa
Segundo
a ONU, 90% dos prédios da cidade foram danificados ou destruídos durante os
ataques de 2022. A mídia estima que o número de mortos chegue a dezenas de
milhares. Antigos moradores da Avenida dos Metalúrgicos, com quem a DW
conseguiu conversar, relatam ter visto vizinhos mortos e feridos. "Na
manhã de 21 de março, saí do porão e vi um corpo carbonizado caído em frente à
entrada. Não dava para reconhecer quem era. Um senhor idoso acamado, do sétimo
andar, morreu no incêndio. Outro homem pulou do sexto andar durante o incêndio
e morreu. No quinto andar morava um médico. Quando o míssil atingiu o prédio,
ele estava de plantão, mas sua esposa morreu queimada", recorda Yeven
Sosnovski.
Halyna
Artemova também tem lembranças da invasão russa, que ocorreu em 2022. "Um
homem e o filho dele, ambos da casa vizinha, morreram quando saíram para buscar
água. No número 89, uma mulher ficou soterrada sob uma laje de concreto após o
impacto de um foguete e morreu. No prédio número 91, um foguete atingiu o
primeiro andar, matando uma família inteira", conta ela, que também foi
ferida por um estilhaço. A professora de inglês conseguiu deixar Mariupol com a
mãe idosa e o filho. Yeven Sosnovski foi atingido por um projétil. Ele também
fugiu da cidade com a esposa e a sogra.
Muitos
moradores dos prédios atingidos por tiros, cujos apartamentos, no entanto, não
foram destruídos, permaneceram no local. Segundo informações obtidas pela DW,
as autoridades russas estão agora exigindo que eles deixem suas casas. Em
troca, foram prometidos novos apartamentos.
<><>
Sobreviventes fazem apelo a Putin
Em
2025, moradores do antigo prédio 91 da Avenida dos Metalúrgicos se dirigiram ao
presidente russo, Vladimir Putin, por meio de um vídeo. Como cenário,
escolheram o complexo no Quarteirão de Leningrado, que ainda estava em
construção. Na gravação, afirmaram que o prédio havia sido danificado durante
"confrontos armados" e posteriormente demolido. No lugar, agora está
sendo construído um "edifício residencial com financiamento
imobiliário" – e os moradores tiveram a notícia de que não receberiam
apartamentos no local. Em vez disso, podiam aceitar imóveis vagos como
indenização, apartamentos de refugiados que não podem retornar à cidade ocupada
de Mariupol. No vídeo, uma mulher pede a Putin que leve em consideração os
interesses e os direitos dos moradores nas futuras construções.
Moradores
dos prédios 77, 79, 81, 85, 87, 89 e 91, onde hoje fica o Quarteirão de
Leningrado, também lançaram um apelo a Putin por meio de um vídeo semelhante.
Nele, eles reclamam que há três anos são obrigados a morar em apartamentos
alugados, embora as autoridades russas tivessem prometido indenizações.
"Fomos abandonados, nos sentimos desamparados e inúteis", diz uma
mulher na gravação, acrescentando que as vítimas do bombardeio, que perderam
tudo, não têm condições de arcar com os financiamentos.
Segundo
uma fonte consultada pela DW, que prefere se manter anônima, após os apelos dos
moradores, as forças de ocupação em Mariupol deixaram claro que "tais
declarações são inadequadas". A fonte diz que nenhum dos moradores dos
antigos prédios da Avenida dos Metalúrgicos recebeu um apartamento nos novos
edifícios do Quarteirão de Leningrado. De acordo com outro entrevistado, as
pessoas foram realojadas em imóveis na periferia da cidade ou em albergues.
<><>
"Nossa vida cotidiana foi roubada"
Aqueles
que fugiram, em sua maioria, demonstram compreensão pelos antigos vizinhos que
permanecem na cidade. Nem todos tiveram a oportunidade de deixar Mariupol e
recomeçar em outro lugar. No entanto, eles repudiam a ocupação russa. "A
população local está sendo expulsa", lamenta Halyna Artemova.
Assim
como outros entrevistados que deixaram a cidade, ela diz que Mariupol começou a
se desenvolver fortemente alguns anos antes da invasão russa, e que as pessoas
queriam viver lá. "Nossa vida cotidiana foi roubada. Para alguns talvez,
fosse desinteressante, mas era boa. Íamos ao mercado, sabíamos a quem procurar,
tomávamos um café, encontrávamos uma colega de escola com o seu cachorro e
trocávamos cumprimentos", lembra ela. Hoje, Halyna Artemova mora com o
filho em Kiev. Yeven Sosnovski também está morando na capital ucraniana.
"Estão construindo sobre ossos humanos e agindo rapidamente para apagar os
rastros dos crimes", diz ele sobre as ações dos russos em Mariupol.
Nem
Halyna Artemova nem Yeven Sosnovski pensam em voltar à cidade natal e fazer o
recadastro dos imóveis deles de acordo com as normas das forças de ocupação
russas. Também não está claro se eles seriam autorizados a entrar na região. No
entanto, a Ucrânia não oferece indenização pela perda dos apartamentos, pois as
autoridades não podem avaliar a situação sem acesso ao território ocupado.
"Eles
estão construindo esses edifícios coloridos onde era um cemitério. Eu adoraria
bombardeá-las, mas só se não houvesse ninguém nos prédios. É de
enlouquecer", diz um morador de uma das antigas casas na Avenida dos
Metalúrgicos. O entrevistado, que morou lá por décadas, lembra como o filho deu
os primeiros passos em um apartamento que hoje não existe mais. E é assim que
ele descreve a cidade: "No centro ainda está tudo bem. Mas basta andar um
pouquinho para a esquerda ou para a direita que você já sente o cheiro da
morte."
Fonte: Sputnik
Brasil/Prensa Latina/DW Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário