China
aprova o primeiro implante cerebral comercial do mundo para reverter a
tetraplegia
O NEO,
implante cerebral desenvolvido na China, recebeu autorização para uso clínico
em pessoas com tetraplegia causada por lesão medular cervical. O dispositivo
capta sinais do córtex motor e, com ajuda de inteligência artificial e
reabilitação, conseguiu fazer um paciente voltar a escrever o próprio nome após
seis anos de paralisia.
Desenvolvido
pela empresa Neuracle Technology em parceria com pesquisadores da Universidade
de Tsinghua, o sistema representa uma mudança importante no desenvolvimento das
interfaces cérebro-computador. Pela primeira vez, uma tecnologia desse tipo
deixa o ambiente experimental e passa a ser autorizada como dispositivo médico
comercial.
<><>
Implante transforma sinais do cérebro em comandos para recuperar movimentos
Uma
lesão na medula espinhal pode interromper a comunicação entre o cérebro e os
músculos sem impedir que o cérebro continue produzindo os comandos necessários
para movimentá-los. O dispositivo vai atuar exatamente nessa brecha que entram
as interfaces cérebro-computador, conhecidas pela sigla BCI. Ao invés de
depender da passagem do sinal pela região lesionada da medula, o sistema
registra diretamente a atividade cerebral e tenta descobrir o que a pessoa
pretendia fazer. Algoritmos de inteligência artificial interpretam esses
padrões e os transformam em comandos que podem controlar equipamentos externos.
O NEO
segue esse princípio, mas utiliza uma abordagem diferente de alguns dos
implantes mais conhecidos. O dispositivo registra a atividade do córtex motor a
partir da superfície da dura-máter, membrana que reveste e protege o cérebro,
sem precisar penetrar diretamente no tecido cerebral. Ainda assim, a
implantação exige uma cirurgia, que dura aproximadamente uma hora e meia. A
posição do dispositivo busca reduzir alguns dos riscos associados a eletrodos
que penetram no tecido cerebral, como hemorragias e alterações provocadas pela
cicatrização.
Foi com
essa tecnologia que Dong Hui, de 39 anos, conseguiu recuperar parte dos
movimentos das mãos. O paciente ficou tetraplégico após um acidente, seis anos
antes do procedimento, e passou a não conseguir realizar tarefas simples, como
segurar uma caneta. Depois da cirurgia e de 11 meses de reabilitação, os sinais
captados pelo implante foram utilizados para controlar uma luva robótica
durante o treinamento. Em determinado momento, ele conseguiu escrever o próprio
nome e depois acrescentou uma palavra: “Obrigado”. Apesar do sucesso, é
importante lembrar que o resultado não significa que a lesão medular tenha sido
curada.
<><>
Implante cerebral chinês chega aos hospitais após anos de pesquisas
O caso
de Dong Hui é surpreendente pelo estágio em que essa tecnologia chegou. O órgão
regulador chinês autorizou o NEO para uso em pessoas com tetraplegia provocada
por lesões na região cervical da medula, desde que elas atendam aos critérios
clínicos estabelecidos. Essa autorização coloca o dispositivo em uma posição
diferente da de muitos projetos de interfaces cérebro-computador que ainda
estão restritos a pesquisas e testes clínicos. A tecnologia passa a seguir o
caminho de outros dispositivos médicos que, depois de anos de desenvolvimento,
chegaram ao atendimento de pacientes.
O
sistema também combina o implante com uma estratégia de reabilitação. Durante o
treinamento, os sinais produzidos quando o paciente tenta movimentar a mão são
interpretados pela inteligência artificial e utilizados para controlar a luva
robótica. A proposta é aproveitar tanto os comandos produzidos pelo cérebro
quanto os sinais sensoriais que continuam chegando da mão para estimular a
capacidade do sistema nervoso de se reorganizar.
Esse
conceito, chamado de bridging neural repair, é uma das principais
características do NEO. Ao invés de usar um equipamento para compensar um
movimento perdido, a tecnologia busca ajudar o cérebro e o sistema nervoso a
trabalharem novamente de forma coordenada. A autorização também mostra a
importância que as interfaces cérebro-computador ganharam dentro da estratégia
tecnológica chinesa.
• O que promete a Neuralink de Elon Musk —
e o que ela já conseguiu
Imagine
a seguinte situação: você é uma pessoa normal que trabalha, paga suas contas,
sai com sua família para passear, se diverte com os amigos, etc. De repente,
algumas situações estranhas passam a acontecer. Começa com pequenas coisas:
você perde a chave do carro que acabou de guardar, esquece de dar comida para o
cachorro, guarda o pote de sal na geladeira.
Mas
depois, vai ficando pior: você esquece nomes e endereços. Perde compromissos
que nem consegue lembrar que agendou. Não consegue dizer o que comeu no almoço.
A situação começa a ficar preocupante e você procura um médico. O diagnóstico
logo chega: primeiros estágios de Alzheimer, uma doença sem cura.
O
médico, então, te dá uma escolha: iniciar um tratamento medicamentoso, que tem
apenas a função de retardar o progresso da doença, e continuar vivendo até se
esquecer de tudo e de todos, provavelmente alocado em uma casa de repouso. Ou,
então, experimentar uma novidade: implantar um chip em seu cérebro, patenteado
por uma empresa privada, que enviará estímulos elétricos diretamente ao órgão e
supostamente restaurará funções perdidas, incluindo o movimento e a
comunicação.
Pode
parecer loucura, mas é exatamente isso que a Neuralink, empresa de Elon Musk,
está fazendo. E ela já tem três cobaias.
<><>
O que é a Neuralink?
A
Neuralink foi criada em 2016 e tem Elon Musk como co-fundador e principal
acionista. Seu objetivo é desenvolver interfaces cérebro-computador (BCIs, na
sigla em inglês) para conectar o cérebro humano diretamente a dispositivos
eletrônicos. As promessas são muitas, sendo que a principal é ajudar no
tratamento de pessoas com doenças como paralisia, Alzheimer, Parkinson, lesões
medulares e similares.
Mas as
ambições futuras de Musk incluem permitir uma interface direta entre nossos
cérebros e dispositivos eletrônicos e também integrar mais facilmente nossa
consciência com a inteligência artificial. Existem até conversas sobre o
aprimoramento das funções humanas por meio do auxílio dos BCIs, o que nos
tornaria, efetivamente, ciborgues.
“Sei
que está soando como um episódio de Black Mirror, mas tudo que está gravado na
memória você poderia fazer upload. Você poderia guardar suas memórias como um
backup e depois restaurá-las. E, eventualmente, você poderia baixá-las em um
novo corpo ou no corpo de um robô. O futuro vai ser estranho”, afirmou Elon
Musk.
E Musk
ainda vai além. O executivo sugeriu que os primeiros produtos da Neuralink
incluirão "telepatia", que permitirá aos usuários controlar um
telefone ou computador "apenas pensando", além de recursos que
poderão restaurar a visão de pessoas cegas.
Por
lidar com algo que está no futuro, a empresa depende de constantes rodadas de
financiamento. Mas os negócios vão bem: em 2022, seu valor era estimado em
cerca de 2 bilhões de dólares (R$ 12 bilhões). Em 2023, subiu para mais de 7
bilhões (R$ 42 bilhões) e, em 2024, foi para 8 bilhões (R$ 45,5 bilhões).
Ainda
não é nada em comparação à SpaceX, por exemplo, que vale US$ 232 bilhões (R$
1,3 trilhão), mas a Neuralink é um projeto a longo prazo.
<><>
O caso de Noland Arbaugh
Em
janeiro de 2024, aos 30 anos de idade, o estadunidense Noland Arbaugh se tornou
a primeira pessoa a receber o dispositivo da Neuralink que permite controlar um
computador por meio do pensamento. Ele ficou tetraplégico após um acidente de
natação em 2016, que o deixou sem movimento abaixo dos ombros.
O chip
da Neuralink permite que ele controle um computador com a mente. Ele faz isso
detectando os pequenos impulsos elétricos gerados pelos pensamentos do homem e
traduzindo-os em comandos digitais, como mover o cursor na tela.
Em uma
entrevista recente à BBC, Arbaugh disse que, quando acordou da cirurgia que
implantou o dispositivo, já conseguiu controlar o cursor na tela apenas
pensando em mover os dedos. Com o tempo, sua habilidade de usar o implante foi
melhorando e ele agora consegue até mesmo jogar xadrez e videogames.
"Honestamente, eu não sabia o que esperar — parecia algo de ficção
científica", disse ele.
A
tecnologia, entretanto, ainda é muito nova e sujeita a falhas. Em maio de 2024,
cerca de quatro meses após a implantação, 85% dos fios do chip de Arbaugh se
desconectaram do cérebro, o que comprometeu sua funcionalidade. A Neuralink
constatou que aproximadamente 54 dos 64 fios se soltaram, o que impactou a
precisão e a latência do dispositivo. Para evitar a necessidade de uma nova
cirurgia, a Neuralink reprogramou o chip para funcionar utilizando apenas os
fios que restaram.
Arbaugh
afirmou na entrevista que está ciente dos riscos envolvidos, mas que está
empolgado em estar contribuindo para a pesquisa. "Se tudo der certo, então
poderei ajudar sendo um participante da Neuralink. Se algo terrível acontecer,
sei que eles aprenderão com isso", disse ele. O paciente também afirmou
que espera que o dispositivo, eventualmente, permita que ele controle sua
cadeira de rodas ou até mesmo um robô humanoide futurista.
A
Neuralink atualmente tem dois estudos em andamento nos EUA para seus
dispositivos. O primeiro deles, chamado de Estudo Prime, projetado para cerca
de cinco voluntários, permite que pacientes paralisados controlem dispositivos
externos, como computadores ou smartphones, com a mente. É o caso de Arbaugh.
Já o segundo estudo, o Convoy, é projetado para três pacientes e permite que
eles controlem dispositivos como braços robóticos.
Em
janeiro de 2025, Elon Musk revelou que a Neuralink já instalou o chip em outros
dois pacientes além de Arbaugh. O segundo paciente, segundo Musk, já consegue
até mesmo jogar Counter-Strike.
<><>
Como funciona
O chip
é instalado por uma máquina robótica que se assemelha, a grosso modo, a um
secador de salão de cabeleireiro. A cirurgia não requer anestesia, dura menos
de uma hora e o paciente tem alta no mesmo dia. “Você remove um pedaço do
crânio do tamanho de uma moeda e pode sair andando depois”, disse Musk ao
revelar o dispositivo.
Os fios
que conectam o chip à massa cerebral possuem cerca de 1/20 do diâmetro do
cabelo humano. Eles ficam em contato com os neurônios no cérebro para receber e
enviar sinais. Segundo a Neuralink, o processo não causa nenhum tipo de dano ao
órgão. “Você pensa que, se espetar algo com um fio, com certeza vai sangrar,
mas, numa escala tão pequena, isso não acontece”, disse Musk.
A
bateria do chip dura o dia todo, é carregada sem fio e se conecta via Bluetooth
ao seu celular, com o sinal podendo alcançar até 10 metros de distância. No
futuro, a ideia de Musk é que o procedimento tenha um preço acessível para que
várias pessoas possam fazer uso.
<><>
Nem todo mundo enxerga com bons olhos
A
comunidade científica tem demonstrado preocupações com as notícias divulgadas
pela Neuralink. Alguns cientistas apontam que o modo da empresa de divulgar
suas descobertas — por meio de conferências e posts nas redes sociais — vai
contra o método científico, que inclui a revisão por pares e o detalhamento dos
experimentos em artigos publicados em periódicos. Esse tipo de abordagem impede
que outros cientistas verifiquem a veracidade das afirmações divulgadas e
também que façam outros estudos a partir do que foi observado.
Até
agora, o único artigo científico produzido pela Neuralink foi publicado em um
periódico sem relação com o campo da engenharia neural e com Elon Musk como um
dos autores.
Outra
polêmica é em relação a Arbaugh. A escolha dele como participante levanta
muitas dúvidas porque a ética médica exige que os pacientes sejam adequadamente
informados sobre a pesquisa (o que não está acontecendo, já que não há
divulgação científica tradicional), que a seleção dos voluntários seja justa (e
Arbaugh pode ter sido escolhido apenas por ser fã de Musk), que os voluntários
possam se retirar da pesquisa a qualquer momento (como fazer isso com um chip
no cérebro?) e que as empresas envolvidas se comprometam a não ferir os
pacientes, algo que, argumenta-se, a Neuralink ainda não pode garantir. O que
acontecerá, por exemplo, quando o chip de Arbaugh se tornar obsoleto?
Por
fim, outra grande preocupação é sobre a coleta irrestrita de dados que poderá
ser feita por esses chips. Existe um temor de que os dados pessoais de cada
voluntário possam ser armazenados inadequadamente, de modo a estarem sujeitos a
invasões e vazamentos. Além disso, teme-se que a liberdade pessoal de cada
participante seja tolhida, uma vez que ter um chip monitorando sua vida possa
gerar alterações de comportamento. E, é claro, existe a possibilidade de que a
Neuralink e outras empresas do setor usem os dados pessoais de seus pacientes
para o lucro.
Ainda
não é certo o que vai acontecer com a Neuralink e se suas ambiciosas pretensões
irão se concretizar. Mas é seguro dizer que Musk está confiante nos resultados
e que, em breve, veremos mais notícias sobre avanços realizados pela companhia.
Se vai ser para o bem ou para o mal, só o tempo dirá.
Fonte:
Xataka Brasil

Nenhum comentário:
Postar um comentário