O
fascismo e seus espelhos
A
ausência (e incoerência) doutrinária do mussolinismo não era um acidente. Há
uma ironia perturbadora no coração do fascismo: ele existiu antes de saber o
que era. Benito Mussolini pegou emprestado a palavra fascio do vocabulário da
esquerda italiana, fundou um movimento de veteranos ressentidos e
anticomunistas em 1919, e só mais de uma década depois se deu ao trabalho de
formular uma doutrina. O conceito veio para justificar o poder já conquistado.
O fascismo é, antes de tudo, uma prática em busca de teoria.
Uma
doutrina era secundária porque o fascismo surgira primeiro para ser pensado
depois. Na prática, Benito Mussolini não o criou. Apenas nomeou e
conceitualizou a estrutura de um movimento que existiria com ou sem ele. Benito
Mussolini pode ter criado o Fascismo, mas não criou o fascismo. Esse movimento
é revelador sobre o que ele é; e sobre o que continua sendo. Por isso, ao se
estudar o Fascismo e os fascismos, é preciso ler com atenção tanto o discurso,
quanto a prática.
Nesse
caso, o que o fascismo diz de si próprio? Como ele se entende? E no que isso
pode ser útil para compreender possíveis análogos contemporâneos?
Para
começar, é preciso sempre lembrar que o regime de Benito Mussolini durou mais
de vinte anos. Com tanto espaço temporal, intensificado pela ausência de
preocupação teórica, é natural que o fascismo se contradiga conforme os anos.
Cada ciclo – do surgimento como Fasci à absorção pelo nazismo na República de
Saló – fez com que o discurso fosse modificado e adaptado às necessidades do
momento. O antiliberalismo da doutrina contradiz as medidas liberais dos
primeiros anos de Benito Mussolini no Executivo. Contudo, por mais que discurso
e prática sejam, por vezes, incompatíveis, é preciso olhar para ambos.
Existe
uma frase atribuída a um militante fascista dos anos 1920 que deveria ser lida
e relida por qualquer pessoa que pretenda entender o fenômeno: “O punho é a
síntese de nossa teoria”. Benito Mussolini ia além: dizia que ele próprio era a
definição do fascismo. Em outra oportunidade, quando questionado sobre qual era
o seu programa, declarou que seria quebrar os ossos dos adversários; e o quanto
antes, melhor.
Antes,
nos programas do Partido Nacional Fascista, 1920, consta que os fascistas não
se sentiam “presos a qualquer tipo particular de forma doutrinária”.
Messianismo, violência, autoritarismo e ausência programática, em poucas frases
temos um panorama de algumas das características mais clássicas (embora
incompletas) do fascismo. E mais comuns à extrema direita contemporânea.
Isso
não é anedota, mas a chave de leitura de todo o fascismo italiano, e talvez de
qualquer fascismo. A ausência deliberada de programa foi transformada em
virtude, em marca de virilidade, em prova de superioridade sobre o racionalismo
liberal e o esquematismo marxista.
A
Doutrina do Fascismo, publicada em 1932 na Enciclopedia Italiana (redigida ao
menos em parte pelo filósofo Giovanni Gentile, e não apenas por Benito
Mussolini) apareceu quase quinze anos depois da fundação dos Fasci di
Combattimento. Nessa época, Adolf Hitler estava prestes a ascender na Alemanha
e movimentos análogos espalhavam-se pela Europa. A doutrina, portanto, não
antecedeu o movimento: ela o justificou retroativamente, deu-lhe verniz
filosófico num momento em que o fascismo já não precisava convencer – apenas
administrar o poder que havia conquistado.
Daí a
contradição que percorre o texto de ponta a ponta. A Doutrina condena o
teleologismo marxista e liberal, mas, em seguida, aplica exatamente esse
raciocínio, ao apresentar o Estado Fascista como destino da civilização.
Critica o liberalismo, mas os primeiros anos de Benito Mussolini no executivo
foram marcados por políticas francamente liberais. O antigo socialista, expulso
do partido em 1914 após receber financiamento da embaixada francesa para
defender a entrada da Itália na Primeira Guerra, fundou seu movimento reunindo
veteranos, intervencionistas e grupos antissocialistas. Uma coalizão cuja
coesão não era doutrinária, mas emocional e ressentida.
Diante
de toda essa fungibilidade, é fundamental entender que o fascismo é maleável
desde o seu nascimento com esse nome. Podemos chamar os movimentos de extrema
direita contemporâneos de fascismo ou de qualquer outra determinação que
quisermos, mas isso não vai mudar a sua essência. Chamar de populismo não vai
fazer com que o bolsonarismo, por exemplo, subitamente se torne mais moderado.
Sobre isso, Paxton (1998, p. 09) lembra: “Devemos ter uma palavra e, na falta
de outra melhor, devemos empregar a palavra que Benito Mussolini pegou
emprestado do vocabulário da esquerda italiana em 1919”.
Isso
tem consequências diretas para quem tenta compreender e combater o fascismo
hoje. A armadilha clássica é buscar a coerência onde ela não existe e concluir
que, sem coerência, não há fascismo. Mas o fascismo é coerente precisamente em
sua incoerência performática. Ele muda de discurso conforme o ciclo político
exige. O programa de 1919, quando o movimento por pouco não desapareceu, é
radicalmente distinto do discurso da República de Saló, seu último estágio
mussolinesco.
Entre
um e outro, houve medidas liberais, golpe autoritário, alianças com a Igreja,
alianças com o capital, e uma guerra que o próprio Benito Mussolini não
conseguia mais controlar.
Reconhecer
esse padrão não é exercício de erudição histórica. É, talvez, a condição mínima
para não ser surpreendido quando o punho volta a se apresentar como síntese de
uma teoria.
• O fascismo subimperial na América
Latina. Por Alberto Toscano
Quando
os intelectuais latino-americanos de esquerda, exilados por conta das ditaduras
militares apoiadas pelos Estados Unidos, tentaram avaliar a pertinência da
categoria de fascismo para pensar sua experiência política, tiveram a
oportunidade de destacar o fato de que se tratava de um fascismo subimperial ou
“dependente”. Submetido à hegemonia do império dos Estados Unidos, não estava,
portanto, voltado à criação de novos Estados com novos modelos de vida
socioeconômica baseados em um padrão contrarrevolucionário de mobilizações
pequeno-burguesas. Em vez disso, as diversas juntas militares estavam voltadas
a uma reintegração pacificada – baseada na violência exterminista contra
movimentos de esquerda, operários e indígenas – à ordem capitalista existente
e, porventura, até mesmo a democracias parlamentares tuteladas.
No
seminário “As fontes externas do fascismo: o fascismo latino-americano e os
interesses do imperialismo” (realizado em 1978 na Cidade do México), que
discuto detalhadamente no apêndice deste livro, o pensador marxista equatoriano
Agustín Cueva – em debate com Ruy Mauro Marini, Theotônio dos Santos e Pío
García – apresentou o fascismo das ditaduras militares como alavanca e
catalisador de amplas transformações econômicas que só poderiam ocorrer
mediante uma aplicação excepcional, terrorista e de massas do poder concentrado
das classes e do Estado. Para Cueva, era importante situar o surgimento das
ditaduras militares fascistas no contexto de uma crise mundial, ainda que não
homogênea, do capital. Como ele observou,
“a
ordem do sistema capitalista imperialista gera situações em que […] o domínio
da burguesia monopolista só pode ser mantido por meio do terrorismo, o qual,
além disso, serve como uma valiosa alavanca extraeconômica para a recomposição
dos mecanismos de acumulação de capital, que foram gravemente afetados pela
crise. Por esse motivo, a guerra política contra os setores populares, que
caracteriza sobretudo a fase inicial da contrarrevolução burguesa, é seguida,
em casos de verdadeira fascistização, por uma autêntica guerra econômica contra
as grandes massas trabalhadoras.”
Para
Cueva, “o terror fascista permite acelerar a conclusão de uma série de
‘tarefas’ econômicas até então ‘obstruídas’ por determinado nível da luta de
classes, enquanto, num círculo vicioso infernal, tal conclusão requer a
manutenção de uma boa dose de terror”. Embora Cueva não torne essa ressonância
explícita, é difícil não ouvir os ecos da observação de Marx no Livro I de O
capital, segundo a qual todos os diferentes momentos e modalidades da
acumulação primitiva (entre os quais “o extermínio, a escravização e o
soterramento da população nativa nas minas, o começo da conquista e saqueio das
Índias Orientais, a transformação da África numa reserva para a caça comercial
de peles-negras”), “todos eles […] lançaram mão do poder do Estado, da
violência concentrada e organizada da sociedade, para impulsionar
artificialmente o processo de transformação do modo de produção feudal em
capitalista e abreviar a transição de um para o outro. A violência é a parteira
de toda sociedade velha que está prenhe de uma sociedade nova. Ela mesma é uma
potência econômica”.
Mas
como o poder do Estado é modulado pelos fascismos do passado e do presente? Em
seus seminários de 1980 sobre aparatos de captura e a máquina de guerra –
reflexões que, em certa medida, viriam a inspirar Mil platôs, obra escrita em
coautoria com Félix Guattari –, Gilles Deleuze voltou-se à fase final da
ditadura militar no Brasil a fim de analisar a relação do capitalismo com o
Estado. Reservando a terminologia do fascismo para o “Estado suicida”, mais bem
exemplificado pelo nazismo em tempos de guerra, e sem detectar quaisquer
possibilidades revolucionárias iminentes, Deleuze definiu a trajetória do
Brasil em termos de uma alternativa (que também dissimula uma espécie de
complementariedade) entre uma “social-democracia” que buscaria fortalecer um
mercado interno por meio da adição de “axiomas” (expansão de direitos sociais e
trabalhistas, reconhecimento de minorias, bem-estar social, pleno emprego etc.)
e um “totalitarismo” que, longe de ser identificado com um Moloch ou um Estado
“total”, caracterizava-se, em última instância, pelo esforço de buscar um
“mínimo do Estado”, que permitisse a conjugação dos fluxos decodificados de
capital e trabalho abstrato e impulsionasse concretamente “a liberação dos
preços”. Inspirando-se em Paul Virilio, Deleuze buscou, assim, separar a noção
de totalitarismo da elisão polêmica realizada pelos nouveaux philosophes entre
comunismo e fascismo, ao mesmo tempo que a associava ao tipo de neoliberalismo
que já estabelecera uma aliança fecunda e duradoura com as ditaduras latino-americanas
(paradigmaticamente no Chile dos Chicago Boys, com a bênção de Hayek e
Friedman, embora Deleuze também classificasse a Espanha franquista como
“totalitária”). Essa concepção contraintuitiva do totalitarismo tem afinidades
consideráveis com a teorização de Ruth Wilson Gilmore sobre o “Estado
anti-Estado”, explorada nas páginas deste livro, e nos permite ir além do senso
comum da Guerra Fria sobre o Estado autoritário e refletir sobre a afinidade
eletiva (e eleitoral) entre o fascismo tardio e o “neoliberalismo”.
Conforme
exploro brevemente ao referir-me à implantação do fascismo italiano sob a
bandeira do “Estado de Manchester”, o fascismo, pace Deleuze, carrega em seu
código genético a noção seletiva de um “Estado mínimo” do ponto de vista
socioeconômico, ao passo que é acompanhado por uma visão marcial e “ética” do
Estado extremamente repressiva e até mesmo aparentemente monolítica
(“estatolátrica”). Tal dualidade na ideologia e na prática fascistas do Estado
é reforçada e agravada por sua orientação jurídica em direção a um Estado dual
– para usar o conceito de Ernst Fraenkel, que abordo neste livro. Essa é uma
dimensão que os teóricos críticos do bolsonarismo também têm destacado, de
maneiras que refratam e iluminam as tendências globais do fascismo tardio, ao
mesmo tempo que fazem justiça à singularidade de suas formações específicas:
combinando as dimensões jurídica, político-econômica e libidinal do fenômeno,
Rodrigo Nunes sublinhou a conjunção de dinâmicas permissivas e punitivas do
bolsonarismo em um “estado de natureza diferencialmente distribuído”, enquanto
Safatle traçou uma anatomia de suas origens a partir do caráter bifacetado do
Estado, ao mesmo tempo protetor e predador, uma dualidade que remonta a uma
matriz colonial de violência estatal e a uma predisposição social ao fascismo
ancorada na divisão ontológica racializada – ela própria enraizada na história
da escravidão nas plantations – entre cidadãos-sujeitos dignos, respeitáveis e
de bem, e aqueles “sujeitos degradados ao status de ‘coisas’ (e a degradação
estruturante ocorre no âmbito das relações escravistas, embora em geral perdure
mesmo após a abolição formal da escravidão) [que] serão alvo de uma morte sem
lágrimas”.
Fonte:
Fonte: Por Sergio Schargel, em A Terra é Redonda/Blog da Boitempo

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