No
centenário de Fidel, Cuba vive batalha existencial contra neocolonialismo
No
centenário do nascimento de Fidel Castro, a luta pela soberania em Cuba está
sendo travada mais uma vez por conta do bloqueio econômico de mais de seis
décadas, incrementado este ano com um embargo energético que culminou em uma
crise humanitária no país.
Por
diversos dias, no início de agosto, Cuba esteve mergulhada na escuridão. O
Sistema Elétrico Nacional foi completamente desconectado e o arquipélago
retornou àquele período de espera incerto em que os alimentos começam a
estragar, os celulares ficam sem bateria e qualquer tarefa doméstica depende do
retorno da energia.
Estes
não são os primeiros apagões, nem o início da crise. Há meses, esse tipo de
situação acontece, e alguns desses episódios duram mais de 24 horas. A escassez
de combustível e peças de reposição paralisam usinas termelétricas antigas,
enquanto milhões de cubanos reorganizam suas rotinas de trabalho, descanso,
alimentação e estudo.
O
professor de história cubana Julio César Pérez Vendecia observa essa situação
da cidade de Matanzas. Nascido em uma família humilde de agricultores, seus
quatro irmãos tiveram a oportunidade de estudar. Ele se formou em Educação em
1997 e dedicou boa parte da sua vida ao ensino.
“Todos
nós tivemos a mesma oportunidade de estudar”, disse a Opera Mundi. É por isso
que ele evita falar do legado de Fidel Castro como uma peça de museu. “Há um
conjunto de obras, uma filosofia e uma continuidade”. Essa continuidade, para
ele, se baseia na educação, saúde e defesa da soberania cubana.
Com a
Revolução Cubana vitoriosa em 1º de janeiro de 1959, derrubando Batista e
direcionando suas primeiras ações contra esse regime, diversas reformas na ilha
foram pensadas e realizadas, como uma reforma agrária que distribuiu e
nacionalizou grandes propriedades. Inclusive as terras da família Castro que
também foram nacionalizadas e redistribuídas entre pequenos agricultores.
Para
Fidel, a soberania dependia de mais do que apenas uma bandeira. Um país onde
parte da população era analfabeta, não tinha acesso a cuidados médicos ou era
condenada a trabalhar em terras alheias, permaneceu dependente.
A
campanha de alfabetização de 1961, por exemplo, levou milhares de jovens para
áreas rurais e montanhas; a rede de saúde expandiu-se para territórios onde
antes não havia médicos, e o ensino universitário deixou de ser privilégio de
uma minoria.
Décadas
depois, Fidel decidiu impulsionar o conceito que tomou forma na Escola
Latino-Americana de Medicina (ELAM), um projeto criado durante seu governo, em
1999, para formar 10 mil médicos para o mundo em desenvolvimento (hoje a ELAM
tem 32 mil formados).
Um dos
alunos da ELAM foi Leandro Nascimento Bertoldi, um médico brasileiro da Bahia.
O curso de medicina não era oferecido em sua cidade, e sua família não tinha
condições de enviá-lo para estudar em outra cidade. “Seria impossível para mim
estudar aqui”, disse a Opera Mundi. A bolsa cubana permitiu que ele se tornasse
o segundo membro de sua família com um diploma universitário. Na ELAM,
acrescentou, jovens pobres eram treinados para retornar aos territórios “onde
ninguém queria trabalhar” e cuidar das populações mais vulneráveis.
“Para
mim, é um dos maiores projetos de solidariedade e integração entre nações em
desenvolvimento”, afirmou Bertoldi. A medicina que ele aprendeu começou no
bairro, antes do hospital: prevenção, atenção primária e conhecimento do
território.
Esse
mesmo compromisso com a ciência permitiu que Cuba desenvolvesse uma indústria
de biotecnologia, tornando-se o único país da América Latina a imunizar sua
população, criando suas próprias vacinas contra a covid-19.
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De Cuba à África
O
internacionalismo cubano não se limitava aos jalecos brancos. Em 1975, quando
Angola conquistou a independência de Portugal, tropas sul-africanas avançaram
da Namíbia – então ocupada por Pretória – em apoio às forças que lutavam contra
o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).
O
governo angolano pediu ajuda e Cuba respondeu com a Operação Carlota, batizada
assim em homenagem à escrava negra Carlota Lucumí que liderou uma revolta de
escravos na ilha caribenha no ano de 1843. Essa intervenção militar durou anos:
o MPLA recebeu apoio cubano e soviético, enquanto os Estados Unidos e o regime
do apartheid sul-africano apoiaram outro movimento, a União Nacional para a
Independência Total de Angola (UNITA), liderada por Jonas Savimbi.
Entre
1987 e 1988, as forças angolanas e cubanas detiveram o Exército sul-africano em
Cuito Cuanavale, batalha dirigida pessoalmente por Fidel Castro, enquanto Cuba
enviava novas tropas para o sudoeste de Angola, perto da fronteira com a
Namíbia.
A
batalha alterou o equilíbrio militar e abriu negociações que culminaram nos
acordos de dezembro de 1988, que estabeleceram a retirada gradual das tropas
cubanas e a implementação de uma resolução das Nações Unidas exigindo eleições
e a retirada da África do Sul da Namíbia, país que conquistou sua independência
em março de 1990.
Mais
tarde, Nelson Mandela agradeceu a Fidel Castro pelo papel de Cuba na guerra. A
ilha socialista não ganhou nenhum território ou recurso africano, e quase dois
mil combatentes cubanos morreram a mais de dez mil quilômetros de sua ilha, em
uma guerra contra o colonialismo e o racismo.
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Do bloqueio ao cerco energético dos EUA
Fidel
Castro governou Cuba durante grande parte dos mais de 60 anos em que os Estados
Unidos tentaram isolar economicamente a Revolução. O embargo, portanto,
tornou-se não apenas uma condição definidora da economia cubana, mas também uma
das principais questões políticas em torno das quais o revolucionário construiu
seu conceito de soberania.
Para o
professor de história Julio César Pérez Vendecia, é precisamente nesse contexto
que se pode mensurar a relevância duradoura da ideologia de Fidel Castro. O
acadêmico argumenta que Cuba conseguiu sobreviver a sucessivas pressões
externas devido à existência de uma cultura política de resistência e defesa da
soberania, construída ao longo de décadas.
Saúde
pública, educação e desenvolvimento científico foram apresentados por Fidel
durante décadas como demonstrações concretas de que a soberania cubana
consistia não apenas em independência política, mas também na capacidade de
garantir direitos sem subordinar o país aos Estados Unidos. É precisamente
sobre algumas dessas capacidades que a crise energética agora exerce pressão.
E que a
geração que governa Cuba hoje precisa defender, sem a presença do líder que
conduziu a Revolução por quase meio século, as estruturas sociais e a soberania
que ele considerava inseparáveis.
• Única filha de Fidel Castro reflete
sobre o homem que ela nunca quis chamar de pai
Desde
muito pequena, Alina Fernández recebia visitas frequentes de Fidel Castro
(1926-2016). Mas ela passou grande parte da infância sem saber o motivo.
O homem
que governou Cuba com mão de ferro por quase 50 anos era seu pai biológico.
Alina
nasceu em Havana em 1956, fruto de um caso extraconjugal entre Castro e Naty
Fernández, uma bela jovem da alta sociedade da capital cubana.
Na
época, ele ainda era um dos líderes do movimento guerrilheiro que, três anos
depois, iria depor o ditador Fulgencio Batista (1901-1973) e instalar um regime
comunista autocrático na ilha do Caribe.
Nas
décadas que se seguiram, calcula-se que até três milhões de pessoas tenham
fugido do país rumo aos Estados Unidos. A própria filha de Castro foi uma
delas.
Castro
governou entre 1959 e 2008 e morreu de câncer em novembro de 2016. Ele teria
celebrado seu centésimo aniversário em 13 de agosto de 2026.
Em
Miami, nos Estados Unidos, Fernández, sua única filha reconhecida, recebeu a
reportagem da BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. Ela conversou sobre
sua história de vida, ligada a um dos mais famosos e controversos políticos do
século 20, que ela nunca quis chamar de "pai".
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Primeiras lembranças e visitas noturnas
Sua
primeira recordação de Fidel Castro é de um homem barbudo que aparecia na TV
nos horários em que, antes, eram apresentados desenhos do Mickey.
"Mickey
Mouse desapareceu", relembra ela, hoje com 70 anos de idade. O personagem
foi substituído por "homens barbudos pendurados em veículos, que me
assustavam bastante e passavam dias na tela da TV".
A
transformação do país dividiu muitas famílias, incluindo a dela própria.
Sua mãe
aprovou a revolução. Mas seus outros parentes preferiram deixar tudo para trás
e tomar um avião para os Estados Unidos — incluindo Orlando Fernández, que
Alina acreditava na época ser seu pai.
Alina
Fernández crescia sem compreender totalmente tudo isso. E, paralelamente, ela
começou a receber visitas esporádicas do novo líder cubano.
Ela
lembra que Castro brincava com ela no chão da sala de estar e trazia presentes,
um deles bastante peculiar.
"Ele
me deu um boneco vestido como ele", relembra Fernández. "Eu costumava
puxar os pequenos fios de barba porque, para mim, era um boneco de
brinquedo."
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A verdade revelada
Quando
tinha 10 anos de idade, Fernández ficou sabendo a verdade sobre seu pai
biológico.
"Minha
mãe me contou", relembra ela. "Ela ia me mudar de escola e não queria
que alguém na rua dissesse para mim sem pensar."
Àquela
altura, Castro já havia passado a ser uma espécie de figura paterna com suas
visitas esporádicas. Ainda assim, a notícia trouxe o que ela chama de
"sensação de traição e mentira".
Fernández
explica que muitas pessoas do seu entorno, incluindo sua melhor amiga, sabiam
dos rumores em torno do seu verdadeiro pai.
"Era
um segredo que todos conheciam", explica ela.
Fernández
não adotou o sobrenome Castro. Ela passou anos se recusando a reconhecer em
público quem era o seu pai verdadeiro.
"Eu
costumava responder 'não' quando me perguntavam se eu era filha dele e achava
indigno aparecer um dia com o sobrenome trocado. Não via razão para isso."
À
medida que crescia em Cuba, a frustração e o desencantamento de Fernández
aumentavam, não apenas com seu pai, mas com o novo sistema imposto ao país.
Muitas
pessoas, quando ficavam sabendo que Fidel Castro era seu pai, entregavam cartas
a ela, para que fossem encaminhadas ao líder.
"Eram
pessoas cujos familiares haviam sido executados e tentavam obter permissão para
deixar o que, para elas, era o inferno na Terra", relembra ela.
Havia
também o culto da personalidade em torno do líder.
"Um
homem que dava discursos de sete horas pela televisão e éramos forçados a
assistir e estudar em sala de aula no dia seguinte...", relembra
Fernández. "Era um pesadelo. Você se sentia como se vivesse em um
hospício."
Castro
passou a visitá-las com menos frequência depois que ela e sua mãe passaram uma
temporada na França. O próprio Castro as mandou para lá, segundo a filha, para
criar distância da sua mãe.
Dali em
diante, Alina Fernández conta que o líder cubano passou a irromper
ocasionalmente na sua vida, com decisões súbitas e erráticas, como rejeitar
seus pretendentes ou transferi-la para outra escola.
"Eram
sempre ideias malucas", relembra ela. "Aprendi a viver sem depender
dele."
Questionada
sobre como era Fidel Castro em particular, Fernández o descreve como
inteligente, perspicaz, educado e com uma "curiosidade infinita". Mas
ela também conta que seu pai mentiu para ela diversas vezes.
"Ele
se esquecia de ter me contado algo e me oferecia outra versão
posteriormente", relembra ela.
As
conversas entre pai e filha também não fluíam com facilidade.
"Ele
era uma pessoa de monólogos", conta Fernández. "Se ele quisesse falar
comigo, não era falar comigo, mas fazer com que eu o ouvisse falar."
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A fuga de Havana
Fernández
conta que, desde muito cedo, queria sair de Cuba.
Ela se
sentia cada vez mais distante do seu pai, rejeitava o sistema que ele havia
construído e sofria a escassez que flagelava o dia a dia do país.
Ela
conta que tentou viajar para o exterior várias vezes, mas o regime não
permitiu.
No
início dos anos 1990, o colapso do bloco soviético levou ao chamado Período
Especial em Cuba, uma era de extremas dificuldades, marcada pela fome e pelos
apagões.
Naquela
época, Fernández já era uma dissidente declarada e receava ser presa, mesmo
sendo filha do comandante-chefe da nação.
"O
ruído da porta de um carro qualquer, no meio da noite, me fazia pensar que
estavam vindo me buscar", relembra ela.
Sua
grande oportunidade veio em 19 de dezembro de 1993, com uma operação
meticulosamente organizada por amigos próximos.
Uma
mulher espanhola emprestou seu passaporte e deu uma passagem de avião. Outra
pessoa alterou o documento para que ela pudesse utilizá-lo e Fernández pegou um
táxi para o aeroporto de Havana.
"No
momento em que entrei no táxi, comecei a falar como uma espanhola para praticar
porque, quando chegasse ao aeroporto, se eles me fizessem falar, eu precisaria
ter sotaque", relembra ela. "E enganei completamente o
motorista."
Com uma
peruca e forte maquiagem para não ser reconhecida, Fernández chegou ao
aeroporto.
"Passei
pela alfândega sem problemas", ela conta. "O voo estava atrasado, de
forma que me sentei calmamente lendo um livro e pensei 'bem, o que tiver que
acontecer irá acontecer'."
Depois
da longa espera, o embarque ocorreu sem incidentes. Ela voou para Madri, na
Espanha, e, mais tarde, conseguiu autorização para entrar nos Estados Unidos.
Fernández
pediu permissão de saída de Cuba para sua única filha, que tinha 16 anos de
idade. Com a mediação do líder dos direitos civis americano Jesse Jackson
(1941-2026), as duas foram finalmente reunidas, a tempo de comemorar juntas a
chegada do Ano Novo de 1994.
Fernández
morou alternadamente entre os Estados Unidos e a Espanha, até se estabelecer
permanentemente em Miami em 2001.
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'Aos 40 anos, eu me tornei realmente a filha de Castro'
Desde o
início do seu exílio, o relacionamento que ela tentou esconder por décadas
passou a ser um instrumento para denunciar a situação na ilha.
"Fiz
aqui aquilo que nunca quis fazer em Cuba (falar sobre Fidel Castro ou
reconhecer que eu era parte da sua família). Aos 40 anos, eu realmente me
tornei filha de Fidel Castro", ela conta.
Em
1997, ela publicou sua autobiografia Alina: Memoirs of Fidel Castro's Rebel
Daughter ("Alina: Memórias da Filha de Fidel Castro, Ed. Ática, 1998). O
livro foi um best-seller na Espanha e traduzido para vários idiomas.
Questionada
sobre como ela recebeu a notícia da morte de Fidel Castro, em 25 de novembro de
2016, ela responde: "nem com grande tragédia, nem com grande alegria. Não
foi um choque para mim."
Atualmente,
sob a presidência de Miguel Díaz-Canel (herdeiro político dos Castros), Cuba
passa por uma situação descrita por muitos como mais extrema que o Período
Especial, marcada por apagões constantes, deterioração generalizada, escassez e
fome, em meio às seis décadas de embargo dos Estados Unidos.
Para
Fernández, a crise atual é fruto do sistema político e econômico imposto pelo
seu pai.
"Quando
o Estado controla todas as empresas, todos ficam sem liderança."
Fonte:
Opera Mundi/BBC News Mundo

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