sexta-feira, 14 de agosto de 2026

No centenário de Fidel, Cuba vive batalha existencial contra neocolonialismo

No centenário do nascimento de Fidel Castro, a luta pela soberania em Cuba está sendo travada mais uma vez por conta do bloqueio econômico de mais de seis décadas, incrementado este ano com um embargo energético que culminou em uma crise humanitária no país.

Por diversos dias, no início de agosto, Cuba esteve mergulhada na escuridão. O Sistema Elétrico Nacional foi completamente desconectado e o arquipélago retornou àquele período de espera incerto em que os alimentos começam a estragar, os celulares ficam sem bateria e qualquer tarefa doméstica depende do retorno da energia.

Estes não são os primeiros apagões, nem o início da crise. Há meses, esse tipo de situação acontece, e alguns desses episódios duram mais de 24 horas. A escassez de combustível e peças de reposição paralisam usinas termelétricas antigas, enquanto milhões de cubanos reorganizam suas rotinas de trabalho, descanso, alimentação e estudo.

O professor de história cubana Julio César Pérez Vendecia observa essa situação da cidade de Matanzas. Nascido em uma família humilde de agricultores, seus quatro irmãos tiveram a oportunidade de estudar. Ele se formou em Educação em 1997 e dedicou boa parte da sua vida ao ensino.

“Todos nós tivemos a mesma oportunidade de estudar”, disse a Opera Mundi. É por isso que ele evita falar do legado de Fidel Castro como uma peça de museu. “Há um conjunto de obras, uma filosofia e uma continuidade”. Essa continuidade, para ele, se baseia na educação, saúde e defesa da soberania cubana.

Com a Revolução Cubana vitoriosa em 1º de janeiro de 1959, derrubando Batista e direcionando suas primeiras ações contra esse regime, diversas reformas na ilha foram pensadas e realizadas, como uma reforma agrária que distribuiu e nacionalizou grandes propriedades. Inclusive as terras da família Castro que também foram nacionalizadas e redistribuídas entre pequenos agricultores.

Para Fidel, a soberania dependia de mais do que apenas uma bandeira. Um país onde parte da população era analfabeta, não tinha acesso a cuidados médicos ou era condenada a trabalhar em terras alheias, permaneceu dependente.

A campanha de alfabetização de 1961, por exemplo, levou milhares de jovens para áreas rurais e montanhas; a rede de saúde expandiu-se para territórios onde antes não havia médicos, e o ensino universitário deixou de ser privilégio de uma minoria.

Décadas depois, Fidel decidiu impulsionar o conceito que tomou forma na Escola Latino-Americana de Medicina (ELAM), um projeto criado durante seu governo, em 1999, para formar 10 mil médicos para o mundo em desenvolvimento (hoje a ELAM tem 32 mil formados).

Um dos alunos da ELAM foi Leandro Nascimento Bertoldi, um médico brasileiro da Bahia. O curso de medicina não era oferecido em sua cidade, e sua família não tinha condições de enviá-lo para estudar em outra cidade. “Seria impossível para mim estudar aqui”, disse a Opera Mundi. A bolsa cubana permitiu que ele se tornasse o segundo membro de sua família com um diploma universitário. Na ELAM, acrescentou, jovens pobres eram treinados para retornar aos territórios “onde ninguém queria trabalhar” e cuidar das populações mais vulneráveis.

“Para mim, é um dos maiores projetos de solidariedade e integração entre nações em desenvolvimento”, afirmou Bertoldi. A medicina que ele aprendeu começou no bairro, antes do hospital: prevenção, atenção primária e conhecimento do território.

Esse mesmo compromisso com a ciência permitiu que Cuba desenvolvesse uma indústria de biotecnologia, tornando-se o único país da América Latina a imunizar sua população, criando suas próprias vacinas contra a covid-19.

<><> De Cuba à África

O internacionalismo cubano não se limitava aos jalecos brancos. Em 1975, quando Angola conquistou a independência de Portugal, tropas sul-africanas avançaram da Namíbia – então ocupada por Pretória – em apoio às forças que lutavam contra o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA).

O governo angolano pediu ajuda e Cuba respondeu com a Operação Carlota, batizada assim em homenagem à escrava negra Carlota Lucumí que liderou uma revolta de escravos na ilha caribenha no ano de 1843. Essa intervenção militar durou anos: o MPLA recebeu apoio cubano e soviético, enquanto os Estados Unidos e o regime do apartheid sul-africano apoiaram outro movimento, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), liderada por Jonas Savimbi.

Entre 1987 e 1988, as forças angolanas e cubanas detiveram o Exército sul-africano em Cuito Cuanavale, batalha dirigida pessoalmente por Fidel Castro, enquanto Cuba enviava novas tropas para o sudoeste de Angola, perto da fronteira com a Namíbia.

A batalha alterou o equilíbrio militar e abriu negociações que culminaram nos acordos de dezembro de 1988, que estabeleceram a retirada gradual das tropas cubanas e a implementação de uma resolução das Nações Unidas exigindo eleições e a retirada da África do Sul da Namíbia, país que conquistou sua independência em março de 1990.

Mais tarde, Nelson Mandela agradeceu a Fidel Castro pelo papel de Cuba na guerra. A ilha socialista não ganhou nenhum território ou recurso africano, e quase dois mil combatentes cubanos morreram a mais de dez mil quilômetros de sua ilha, em uma guerra contra o colonialismo e o racismo.

<><> Do bloqueio ao cerco energético dos EUA

Fidel Castro governou Cuba durante grande parte dos mais de 60 anos em que os Estados Unidos tentaram isolar economicamente a Revolução. O embargo, portanto, tornou-se não apenas uma condição definidora da economia cubana, mas também uma das principais questões políticas em torno das quais o revolucionário construiu seu conceito de soberania.

Para o professor de história Julio César Pérez Vendecia, é precisamente nesse contexto que se pode mensurar a relevância duradoura da ideologia de Fidel Castro. O acadêmico argumenta que Cuba conseguiu sobreviver a sucessivas pressões externas devido à existência de uma cultura política de resistência e defesa da soberania, construída ao longo de décadas.

Saúde pública, educação e desenvolvimento científico foram apresentados por Fidel durante décadas como demonstrações concretas de que a soberania cubana consistia não apenas em independência política, mas também na capacidade de garantir direitos sem subordinar o país aos Estados Unidos. É precisamente sobre algumas dessas capacidades que a crise energética agora exerce pressão.

E que a geração que governa Cuba hoje precisa defender, sem a presença do líder que conduziu a Revolução por quase meio século, as estruturas sociais e a soberania que ele considerava inseparáveis.

•        Única filha de Fidel Castro reflete sobre o homem que ela nunca quis chamar de pai

Desde muito pequena, Alina Fernández recebia visitas frequentes de Fidel Castro (1926-2016). Mas ela passou grande parte da infância sem saber o motivo.

O homem que governou Cuba com mão de ferro por quase 50 anos era seu pai biológico.

Alina nasceu em Havana em 1956, fruto de um caso extraconjugal entre Castro e Naty Fernández, uma bela jovem da alta sociedade da capital cubana.

Na época, ele ainda era um dos líderes do movimento guerrilheiro que, três anos depois, iria depor o ditador Fulgencio Batista (1901-1973) e instalar um regime comunista autocrático na ilha do Caribe.

Nas décadas que se seguiram, calcula-se que até três milhões de pessoas tenham fugido do país rumo aos Estados Unidos. A própria filha de Castro foi uma delas.

Castro governou entre 1959 e 2008 e morreu de câncer em novembro de 2016. Ele teria celebrado seu centésimo aniversário em 13 de agosto de 2026.

Em Miami, nos Estados Unidos, Fernández, sua única filha reconhecida, recebeu a reportagem da BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. Ela conversou sobre sua história de vida, ligada a um dos mais famosos e controversos políticos do século 20, que ela nunca quis chamar de "pai".

<><> Primeiras lembranças e visitas noturnas

Sua primeira recordação de Fidel Castro é de um homem barbudo que aparecia na TV nos horários em que, antes, eram apresentados desenhos do Mickey.

"Mickey Mouse desapareceu", relembra ela, hoje com 70 anos de idade. O personagem foi substituído por "homens barbudos pendurados em veículos, que me assustavam bastante e passavam dias na tela da TV".

A transformação do país dividiu muitas famílias, incluindo a dela própria.

Sua mãe aprovou a revolução. Mas seus outros parentes preferiram deixar tudo para trás e tomar um avião para os Estados Unidos — incluindo Orlando Fernández, que Alina acreditava na época ser seu pai.

Alina Fernández crescia sem compreender totalmente tudo isso. E, paralelamente, ela começou a receber visitas esporádicas do novo líder cubano.

Ela lembra que Castro brincava com ela no chão da sala de estar e trazia presentes, um deles bastante peculiar.

"Ele me deu um boneco vestido como ele", relembra Fernández. "Eu costumava puxar os pequenos fios de barba porque, para mim, era um boneco de brinquedo."

<><> A verdade revelada

Quando tinha 10 anos de idade, Fernández ficou sabendo a verdade sobre seu pai biológico.

"Minha mãe me contou", relembra ela. "Ela ia me mudar de escola e não queria que alguém na rua dissesse para mim sem pensar."

Àquela altura, Castro já havia passado a ser uma espécie de figura paterna com suas visitas esporádicas. Ainda assim, a notícia trouxe o que ela chama de "sensação de traição e mentira".

Fernández explica que muitas pessoas do seu entorno, incluindo sua melhor amiga, sabiam dos rumores em torno do seu verdadeiro pai.

"Era um segredo que todos conheciam", explica ela.

Fernández não adotou o sobrenome Castro. Ela passou anos se recusando a reconhecer em público quem era o seu pai verdadeiro.

"Eu costumava responder 'não' quando me perguntavam se eu era filha dele e achava indigno aparecer um dia com o sobrenome trocado. Não via razão para isso."

À medida que crescia em Cuba, a frustração e o desencantamento de Fernández aumentavam, não apenas com seu pai, mas com o novo sistema imposto ao país.

Muitas pessoas, quando ficavam sabendo que Fidel Castro era seu pai, entregavam cartas a ela, para que fossem encaminhadas ao líder.

"Eram pessoas cujos familiares haviam sido executados e tentavam obter permissão para deixar o que, para elas, era o inferno na Terra", relembra ela.

Havia também o culto da personalidade em torno do líder.

"Um homem que dava discursos de sete horas pela televisão e éramos forçados a assistir e estudar em sala de aula no dia seguinte...", relembra Fernández. "Era um pesadelo. Você se sentia como se vivesse em um hospício."

Castro passou a visitá-las com menos frequência depois que ela e sua mãe passaram uma temporada na França. O próprio Castro as mandou para lá, segundo a filha, para criar distância da sua mãe.

Dali em diante, Alina Fernández conta que o líder cubano passou a irromper ocasionalmente na sua vida, com decisões súbitas e erráticas, como rejeitar seus pretendentes ou transferi-la para outra escola.

"Eram sempre ideias malucas", relembra ela. "Aprendi a viver sem depender dele."

Questionada sobre como era Fidel Castro em particular, Fernández o descreve como inteligente, perspicaz, educado e com uma "curiosidade infinita". Mas ela também conta que seu pai mentiu para ela diversas vezes.

"Ele se esquecia de ter me contado algo e me oferecia outra versão posteriormente", relembra ela.

As conversas entre pai e filha também não fluíam com facilidade.

"Ele era uma pessoa de monólogos", conta Fernández. "Se ele quisesse falar comigo, não era falar comigo, mas fazer com que eu o ouvisse falar."

<><> A fuga de Havana

Fernández conta que, desde muito cedo, queria sair de Cuba.

Ela se sentia cada vez mais distante do seu pai, rejeitava o sistema que ele havia construído e sofria a escassez que flagelava o dia a dia do país.

Ela conta que tentou viajar para o exterior várias vezes, mas o regime não permitiu.

No início dos anos 1990, o colapso do bloco soviético levou ao chamado Período Especial em Cuba, uma era de extremas dificuldades, marcada pela fome e pelos apagões.

Naquela época, Fernández já era uma dissidente declarada e receava ser presa, mesmo sendo filha do comandante-chefe da nação.

"O ruído da porta de um carro qualquer, no meio da noite, me fazia pensar que estavam vindo me buscar", relembra ela.

Sua grande oportunidade veio em 19 de dezembro de 1993, com uma operação meticulosamente organizada por amigos próximos.

Uma mulher espanhola emprestou seu passaporte e deu uma passagem de avião. Outra pessoa alterou o documento para que ela pudesse utilizá-lo e Fernández pegou um táxi para o aeroporto de Havana.

"No momento em que entrei no táxi, comecei a falar como uma espanhola para praticar porque, quando chegasse ao aeroporto, se eles me fizessem falar, eu precisaria ter sotaque", relembra ela. "E enganei completamente o motorista."

Com uma peruca e forte maquiagem para não ser reconhecida, Fernández chegou ao aeroporto.

"Passei pela alfândega sem problemas", ela conta. "O voo estava atrasado, de forma que me sentei calmamente lendo um livro e pensei 'bem, o que tiver que acontecer irá acontecer'."

Depois da longa espera, o embarque ocorreu sem incidentes. Ela voou para Madri, na Espanha, e, mais tarde, conseguiu autorização para entrar nos Estados Unidos.

Fernández pediu permissão de saída de Cuba para sua única filha, que tinha 16 anos de idade. Com a mediação do líder dos direitos civis americano Jesse Jackson (1941-2026), as duas foram finalmente reunidas, a tempo de comemorar juntas a chegada do Ano Novo de 1994.

Fernández morou alternadamente entre os Estados Unidos e a Espanha, até se estabelecer permanentemente em Miami em 2001.

<><> 'Aos 40 anos, eu me tornei realmente a filha de Castro'

Desde o início do seu exílio, o relacionamento que ela tentou esconder por décadas passou a ser um instrumento para denunciar a situação na ilha.

"Fiz aqui aquilo que nunca quis fazer em Cuba (falar sobre Fidel Castro ou reconhecer que eu era parte da sua família). Aos 40 anos, eu realmente me tornei filha de Fidel Castro", ela conta.

Em 1997, ela publicou sua autobiografia Alina: Memoirs of Fidel Castro's Rebel Daughter ("Alina: Memórias da Filha de Fidel Castro, Ed. Ática, 1998). O livro foi um best-seller na Espanha e traduzido para vários idiomas.

Questionada sobre como ela recebeu a notícia da morte de Fidel Castro, em 25 de novembro de 2016, ela responde: "nem com grande tragédia, nem com grande alegria. Não foi um choque para mim."

Atualmente, sob a presidência de Miguel Díaz-Canel (herdeiro político dos Castros), Cuba passa por uma situação descrita por muitos como mais extrema que o Período Especial, marcada por apagões constantes, deterioração generalizada, escassez e fome, em meio às seis décadas de embargo dos Estados Unidos.

Para Fernández, a crise atual é fruto do sistema político e econômico imposto pelo seu pai.

"Quando o Estado controla todas as empresas, todos ficam sem liderança."

 

Fonte: Opera Mundi/BBC News Mundo

 

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