sexta-feira, 14 de agosto de 2026

América do Sul deveria ditar sua própria segurança, afirma porta-voz do Ministério da Justiça

A presidência brasileira pode fortalecer respostas conjuntas ao crime organizado e ampliar a autonomia regional diante da influência dos EUA na segurança latino-americana.

Durante a 3ª Cúpula Regional da Aliança para a Segurança, a Justiça e o Desenvolvimento, realizada em Brasília na última semana, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) anunciou a ampliação de US$ 2,5 bilhões (R$ 12,9 bilhões) para US$ 4 bilhões (R$ 20,7 bilhões) do fundo destinado à segurança pública na América Latina e no Caribe entre 2026 e 2028.

O Brasil assumiu, por um ano, a presidência da Aliança para a Segurança, a Justiça e o Desenvolvimento, iniciativa que reúne países latino-americanos e caribenhos, e firmou uma parceria inédita com a Interpol para fortalecer o intercâmbio de informações e a cooperação policial.

Para Brasília, parte dos recursos será direcionada ao programa federal Brasil contra o Crime Organizado, com investimentos em investigação de homicídios, sistema prisional, combate ao tráfico de armas e, sobretudo, na asfixia financeira das organizações criminosas. Os países poderão acessar os financiamentos mediante a apresentação de projetos e o estabelecimento de metas a serem cumpridas até 2030.

Mais do que representar uma injeção de recursos na segurança pública, a iniciativa coloca o Brasil em uma posição de maior coordenação regional, justamente em uma área na qual Washington vem ampliando sua atuação.

<><> Crime sem fronteiras

Apesar do anúncio de investimento, o recurso não representa uma transferência imediata para os cofres da segurança pública brasileira. Como explica Daniel Hirata, assessor especial do Ministério da Justiça e Segurança Pública, responsável pelo suporte técnico e analítico às ações de enfrentamento ao crime organizado, o memorando firmado com o BID abre uma linha de financiamento de médio e longo prazo, que dependerá da apresentação de projetos concretos e executáveis.

"Não se trata de R$ 5 bilhões que ingressam imediatamente no orçamento da segurança pública brasileira", explica Hirata. O acordo também prevê R$ 2 milhões em assistência técnica para qualificar projetos, padronizar metodologias e fortalecer a capacidade de gestão dos órgãos envolvidos.

A avaliação do governo é que o financiamento pode ajudar a suprir uma lacuna histórica da segurança pública, que não contou com a mesma escala de crédito multilateral disponível para outras áreas. Entre as frentes previstas estão investigação de homicídios, combate ao tráfico de armas, sistema penitenciário, recuperação de ativos e desarticulação das estruturas financeiras das organizações criminosas.

O financiamento, no entanto, é apenas uma parte da estratégia. Para Hirata, o avanço das facções exige uma mudança na forma como os países compartilham informações e conduzem investigações. As organizações criminosas atuam em redes que atravessam fronteiras, com drogas, armas e recursos financeiros circulando por diferentes jurisdições.

Nesse cenário, o compartilhamento de inteligência passa a ser uma ferramenta para conectar investigações, localizar foragidos e rastrear ativos, mas depende também de maior integração entre as instituições brasileiras.

"O crime organizado atual opera em redes que atravessam fronteiras."

É nesse ponto que entra a parceria com a Interpol. A organização conecta autoridades de 196 países por meio de uma rede segura e bases de dados compartilhadas. O objetivo, segundo o assessor, é construir uma "arquitetura em camadas", que começa pela interoperabilidade entre órgãos brasileiros, passa pela cooperação regional — como o Mercosul e outras iniciativas sul-americanas — e chega às redes globais.

Um dos encaminhamentos da Cúpula foi a colaboração da Interpol com a Força-Tarefa de Resposta Rápida da Aliança contra a Violência e o Crime Organizado, que terá um projeto-piloto no Brasil para testar mecanismos de cooperação técnica especializada. Hirata ressalta, porém, que o compartilhamento de informações não significa acesso irrestrito a dados e continua submetido à legislação brasileira e às regras de proteção de dados.

<><> Pressão dos EUA na América Latina

A princípio, a coalizão busca unir os países sul-americanos contra o crime organizado, mas também surge em meio à pressão da Casa Branca para ampliar sua influência política e militar na região.

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil avaliam, porém, que a iniciativa vai além de uma resposta aos EUA e pode representar um movimento de autonomia regional diante de um problema que ultrapassou a esfera da segurança pública. O sucesso dependerá da capacidade de superar divergências entre os governos e construir respostas permanentes, com maior integração em segurança e defesa, sem necessariamente assumir o formato de uma aliança militar.

A liderança brasileira também ocorre em um contexto de crescente atuação dos Estados Unidos na agenda de segurança latino-americana. Para Hirata, porém, a presidência da Aliança não deve ser interpretada como tentativa de criar um contraponto a Washington.

Segundo o porta-voz, o Brasil terá a tarefa de coordenar os países-membros e transformar os compromissos firmados em Brasília em ações concretas. A avaliação do Ministério da Justiça é que fortalecer a cooperação latino-americana não significa fechar espaço para parceiros externos, mas ampliar a capacidade da própria região de definir prioridades e construir respostas conjuntas.

"A Aliança não foi concebida como instrumento de disputa geopolítica ou de contraposição aos Estados Unidos ou a qualquer outro país", afirma Hirata. A lógica, segundo ele, é de complementaridade: uma região com instituições mais integradas e mecanismos próprios de cooperação estaria em melhores condições para dialogar com Washington, com outros países e com organismos multilaterais.

Nesse sentido, a presidência brasileira pode ter um efeito que vai além da segurança pública. A criação de diagnósticos comuns, o compartilhamento de informações e a coordenação de respostas podem aumentar a capacidade de negociação dos países latino-americanos diante de diferentes parceiros internacionais.

A avaliação também encontra eco entre especialistas, que veem na articulação regional uma oportunidade para que a América do Sul desenvolva uma agenda própria de segurança e defesa. A ideia não seria criar uma aliança militar nos moldes da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), mas estabelecer mecanismos permanentes para operações coordenadas, troca de inteligência e rastreamento de ativos que atravessem diferentes jurisdições.

"Instituições regionais mais fortes tendem a favorecer parcerias internacionais mais equilibradas. A lógica é de complementaridade, não de confronto ou escolha entre parceiros."

•        Colômbia entra em aliança antidrogas dos Estados Unidos após posse de novo presidente

O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, deu as boas-vindas à Colômbia, nesta quarta-feira (12), como a mais nova integrante da coalizão militar de combate ao narcotráfico, composta por nações do Hemisfério Ocidental com visões alinhadas, após a posse do presidente Abelardo de la Espriella.

Antes de uma reunião com o novo ministro da Defesa da Colômbia, Jorge Eduardo Mora — um major-general da reserva —, Hegseth afirmou que a Colômbia também havia autorizado "operações militares conjuntas para destruir terroristas e redes terroristas".

A reunião da chamada Coalizão das Américas de Combate aos Cartéis ocorreu no Panamá, cujo canal tornou-se um dos primeiros focos da política do presidente Donald Trump para a América Latina.

Após reunião com o secretário, o presidente do Panamá, José Raúl Mulino, disse que o país e os Estados Unidos continuariam trabalhando juntos para fortalecer a segurança e a estabilidade regionais.

"O Panamá é um ponto-chave para a segurança regional, e continuamos a trabalhar com nossos aliados nesta área."

Segundo Hegseth, narcóticos como fentanil e cocaína ceifaram mais vidas de cidadãos americanos do que conflitos armados em toda a história do país.

"Sob décadas de negligência globalista, mais de 1 milhão de americanos morreram devido ao fentanil, à cocaína e a outras drogas. Isso representa uma perda maior do que a sofrida pelos Estados Unidos em qualquer guerra em nossos 250 anos de história."

Em fevereiro de 2025, os Estados Unidos classificaram diversos cartéis de drogas como organizações terroristas globais. Entre eles estão o Tren de Aragua, o Cartel de Sinaloa, o Cartel del Noreste, os Carteles Unidos e a MS-13. Desde então, a lista cresceu para incluir outros grupos, como o Cartel de Los Soles, o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

O secretário de Guerra dos EUA também instou os membros da coalizão a se retirarem do Tribunal Penal Internacional (TPI) e classificou o órgão como "falso" e "ilegítimo".

"Incentivo fortemente todos os membros da coalizão a deixarem o TPI e a rejeitarem as tentativas de privar seus governos e tribunais de sua soberania."

•        Escalada da violência no Uruguai: governo não fez 'nada sério' para combater problema, diz analista

Dados do governo do Uruguai mostram que o país registrou 195 homicídios no primeiro semestre de 2026, o maior número para o período dos últimos oito anos. Prato cheio para a oposição uruguaia, a gestão do presidente Yamandú Orsi iniciou medidas para enfrentar a alta da violência, mas ainda sem sucesso.

Com pouco mais de 3 milhões de habitantes e berço de políticas progressistas na América do Sul, o Uruguai é historicamente considerado um oásis regional no quesito segurança pública. Porém, números recentes divulgados pelo Ministério do Interior, responsável pela área, ligaram um alerta no governo Orsi: houve aumento de 6,6% no número de homicídios no primeiro semestre deste ano, sendo três em cada quatro assassinatos cometidos com arma de fogo.

Na região metropolitana de Montevidéu, que concentra a maior parte da população uruguaia, a polícia identificou que os acertos de contas ligados ao tráfico de drogas foram responsáveis por mais de 70% das mortes. O índice levou o governo a reavaliar suas estratégias. O professor de relações internacionais da Universidade Anhembi Morumbi João Estevam lembra, em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que um fator torna a situação no Uruguai ainda mais preocupante: o avanço da violência também no interior do país.

"Isso tudo ocorre, obviamente, com o aumento da atividade do narcotráfico no Uruguai. Há um processo de aumento da violência no país que não vem de agora e que está ligado à própria reestruturação do crime organizado na América Latina, com uma lenta inserção do país na chamada economia do crime. Por isso, esse aumento na taxa de homicídios está vinculado à atuação das facções", explica.

Segundo o especialista, até recentemente o Uruguai se destacava como um país consumidor de drogas como a cocaína, a exemplo dos Estados Unidos e de países europeus, embora em escala muito menor. Contudo, nos últimos anos, a localização estratégica do país no Atlântico Sul passou a despertar o interesse das facções devido à importância logística. "O Uruguai tem se inserido como um país de trânsito particularmente importante. Isso está vinculado, sobretudo, à forma como o narcotráfico vem se rearranjando", acrescenta.

Apesar desse cenário, Estevam não vê uma crise "absoluta" de segurança pública, diferentemente do que ocorre em países sul-americanos como Equador, Peru e Paraguai. Segundo ele, o principal desafio é conter a expansão das facções criminosas, principalmente das organizações locais, conhecidas na literatura criminal como gangues. "Não se vê um processo parecido com o de outras regiões, em que são necessárias medidas tão drásticas ou mesmo uma situação de emergência social", frisa.

Nesse enfrentamento, o professor considera primordial ampliar a cooperação entre os países da América do Sul. Para isso, defende uma maior integração na área de inteligência policial, tanto para o compartilhamento de informações quanto para a realização de operações conjuntas.

"Estamos falando de atores que estão extremamente vinculados, longe das vistas do Estado. É um processo antigo de transnacionalização e regionalização do narcotráfico, não só no Uruguai, mas em todos os países da região. E há ainda o financiamento dessas redes, que se concentra no Norte Global. Estamos falando de contas em paraísos fiscais e de uma série de políticas de regulamentação financeira", afirma.

<><> Como o governo Yamandú enfrenta a violência no Uruguai?

Já o historiador, pesquisador e palestrante Daniel Osowicki, que atua nas áreas de relações internacionais, geopolítica, história contemporânea e estudos da religião, ressalta ao podcast Mundioka que as medidas adotadas pelo governo Yamandú Orsi ainda não se mostraram eficazes, pelo contrário. Aliado a isso, pesquisas apontam que 46% da população desaprova a atual gestão, contra uma aprovação de apenas 29%.

O especialista cita o recente assassinato de uma criança de 12 anos, durante um acerto de contas entre famílias ligadas ao tráfico, como símbolo da atual situação uruguaia. Para enfrentar o problema, o governo ampliou o número de operações nas regiões com maior concentração de facções e adotou a medida mais polêmica: o emprego do Exército em áreas consideradas críticas.

"Não houve uma grande reestruturação no combate ao narcotráfico. No Uruguai, o responsável pela política de segurança pública é o ministro do Interior, que também está sendo fortemente questionado pela falta de resultados", diz.

Entre as iniciativas mais criticadas, segundo o especialista, está a mobilização de unidades das Forças Armadas, com veículos blindados, para patrulhar bairros considerados mais críticos. A decisão reacendeu o debate sobre o papel do Exército em operações dessa natureza.

"Agora, eu acho que foi uma medida tomada para demonstrar que se estava fazendo alguma coisa. Por que estou falando isso? Porque realmente foi uma medida tomada muito rapidamente, sem treinamento. Já no primeiro dia das rondas, um dos carros do Exército apresentou problemas mecânicos. Tudo isso acabou sendo aproveitado pela oposição para voltar a criticar essas medidas", afirma.

O especialista conclui que, apesar da tentativa do governo de demonstrar maior presença do Estado nas áreas mais complexas, a iniciativa não representa uma solução para enfrentar a alta da violência.

"O Uruguai não fez absolutamente nada sério para combater esse problema, pensando sempre que é um país de apenas 3 milhões de habitantes, onde seria fácil enfrentar qualquer desafio. Não é um tema de direita ou esquerda, mas uma questão de consciência política coletiva de que a situação chegou a um nível grave", finaliza.

 

Fonte: Sputnik Brasil

 

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