sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O “braço esquerdo” do antipetismo

No dia 31 de julho, o site A Terra é Redonda divulgou o artigo de Eduardo Luiz Zen intitulado “As raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro”.No dia 3 de agosto, Luis Nassif afirmou que texto seria “o melhor estudo feito sobre a natureza do governo Lula e, consequentemente, do Partido dos Trabalhadores”. Estas considerações sobre o tema serão divididas em duas partes, e esta é a primeira.

Se esse é o “melhor estudo”, temo pelo pior. Primeiro: a “natureza do governo Lula” não define, “consequentemente”, a “natureza do PT”. Nem vice-versa. Segundo: não é possível discutir a influência do neoliberalismo no governo Lula e no PT, sem levar em consideração a influência do neoliberalismo no Brasil e no mundo, entre outras variáveis que compõem a luta de classes e a luta entre os Estados no atual período histórico.

Terceiro e mais importante: a análise de Eduardo Luiz Zen é repleta de erros, inconsistências e lacunas que afetam suas premissas e conclusões. Para começo de conversa, a história do PT não costuma ser contada a partir de uma ruptura com suas origens”, entre outros motivos porque não existe uma história do PT. Existe uma disputa de interpretações. E parte dessa disputa versa, exatamente, sobre continuidades e rupturas. Se só houvesse rupturas, o PT não seria mais o PT, em nenhum sentido. E se só houvesse continuidades, o PT não teria vencido cinco das nove eleições presidenciais ocorridas desde 1989.

Eduardo Luiz Zen critica a tese da ruptura com as origens, tese que efetivamente – pela esquerda ou pela direita – não consegue explicar como “aquilo deu nisso”. Mas no lugar desta tese da ruptura com as origens, Eduardo Luiz Zen propõe uma visão que me parece igualmente esquemática, segundo a qual o presente estaria quase que totalmente previsto no passado. Por consequência, não haveria história, não haveria política, não houve nem haverá escolhas; tudo o que aconteceu já estaria escrito nas origens. Só faltando concluir que razão teriam, supostamente, os que disseram ser um erro criar o PT.

Ademais, Eduardo Luiz Zen dá como incontestavelmente verdadeira uma afirmação que precisaria ser provada: a de que o PT seria o “braço esquerdo do neoliberalismo”. Aceita esta tese, a história do Brasil desde 1989 até hoje teria sido um jogo de faz-de-conta, no qual a suposta verdadeira esquerda estaria mascarada de ferro e jogada nas masmorras, enquanto seu lugar de direito estaria ocupado por um partido-farsante.

Que os governos petistas conviveram e seguem convivendo com o neoliberalismo, Henrique Meirelles e Gabriel Galípolo não nos deixam mentir. Que poderia e deveria ter havido mais conflito, tampouco tenho dúvida. Que setores do PT se converteram ao social-liberalismo, tenho provas todo santo dia (a mais recente é a êxito da OSS dirigida por Ludhmila Hajiar). Mas daí a tratar o conjunto do PT como “braço esquerdo do neoliberalismo”, há uma grande diferença. Cabendo perguntar ainda qual seria o efeito prático dessa tese sobre nosso engajamento nas eleições 2026.

Minha impressão é de que Eduardo Luiz Zen adota como método uma espécie de “conta de chegar reversa”. Ele tem uma tese sobre o PT atual e busca “comprovar” esta tese “adaptando” a história do Partido ao figurino da tal tese. Um exemplo disso é sua descrição das “três matrizes principais na formação do partido: o novo sindicalismo do ABC, a esquerda católica ligada à Teologia da Libertação e a intelectualidade paulista”.

Eduardo Luiz Zen diz que a “literatura” costuma apontar estas três matrizes, as quais ele acrescenta “estudantes radicalizados, egressos da luta armada, organizações trotskistas, novos movimentos sociais e a corrente pragmática reunida em torno de Lula”. E complementa: “a partir dos aportes dessas matrizes e dos demais componentes da formação petista, é possível identificar seis raízes que ajudam a explicar sua práxis posterior. O neoliberalismo não foi posteriormente enxertado nessa árvore. Seus germes já estavam nessa combinação”.

Adianto que é a primeira vez que leio acerca da “intelectualidade paulista” como uma matriz principal na formação do PT. Acrescento também que a taxonomia de Eduardo Luiz Zen é – aos meus olhos – uma mixórdia. Mas isso são detalhes. O grave mesmo é seu determinismo sociológico, que atribui parte do suposto neoliberalismo petismo à influência do “operário da multinacional”.

Quem quer que tenha vivido ou estudado as lutas travadas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quem quer que tenha refletido sobre a ação do sindicalismo cutista e do PT nos anos 1980 e início dos anos 1990, sabe que havia de tudo um pouco: posições conflitantes, tendências em confronto, correlações de força diversas. Eduardo Luiz Zen faz terraplenagem disso tudo e constrói uma interpretação segundo a qual tudo já estaria mais ou menos pré-determinado pelo pecado original: os caras trabalhavam em empresas estrangeiras (fato que vale apenas para parte da respectiva categoria).

Algo particularmente curioso nesta “narrativa” de Eduardo Luiz Zen é a expectativa implícita de que o sindicalismo fosse capaz de produzir uma “crítica à inserção dependente do país” e a defesa do “controle nacional da produção”. A mim parece que essas e outras conclusões extrapolam os limites da consciência sindical. Aliás, em parte foi a percepção desse tipo de limites que levou Lula e muitos outros dirigentes sindicais a capitanearem a criação de um partido, o PT.

O raciocínio adotado por Eduardo Luiz Zen conduz a tratar aquela decisão – decorrência de um salto na consciência de centenas de milhares de militantes e, naquele contexto entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, a maior manifestação prática de emancipação da classe trabalhadora – como se tivesse sido um retrocesso histórico.

Claro que para sustentar essa interpretação somos obrigados a dar como verdadeiras teses que não encontram sustento, nem nas resoluções, nem na prática do PT nos anos 1980. Por exemplo, Eduardo Luiz Zen diz que “a dimensão internacional ocupava o lugar da questão nacional” e que “o capital podia ser combatido como relação entre patrão e empregado sem ser enfrentado como poder internacional organizado sobre uma economia dependente”.

Isto pode ser a opinião dele, assim como pode ser a opinião de militantes que atuavam, na época, em organizações de esquerda que lutavam contra o PT. Mas não confere com a dinâmica dos anos 1980, que entrosaram num só caudal a questão social, a questão democrática e a questão nacional, o desenvolvimento e o socialismo.

Noutros momentos, nos anos 1990 e 2000, predominaram no movimento sindical cutista posições diferentes daquela que predominara nos anos 1980. E isso teve, como é obvio, uma influência sobre o PT. Mas essa influência não estava pré-determinada. Não se tratou apenas ou principalmente de uma continuidade, nem tampouco de uma ruptura. Foi uma metamorfose, fortemente influenciada pelo contexto dos anos 1990, onde teve grande destaque o colapso do socialismo soviético. Aliás, chega a ser incrível que este “detalhe” não compareça na análise feita por Eduardo Luiz Zen.

Dito de outra maneira: não dá para discutir as mudanças nas concepções de parte do PT, desconsiderando as mudanças na correlação de forças mundial. Ou alguém acha que seria possível manter as mesmas concepções e a mesma prática do período anterior? Mas uma coisa é discordar das escolhas predominantes num ambiente de derrota, outra coisa é dizer que tudo já estava pré-determinado pelo suposto vilão ideal: o “operário de multinacional”.

Concordo com Eduardo Luiz Zen que “a identidade atribuída ao operariado do ABC foi (…) mais radical do que sua práxis”. Mas esse raciocínio se aplica, também, ao movimento comunista brasileiro e ao nacionalismo trabalhista. Entretanto, o fato histórico e político é que foi Lula, não Luiz Carlos Prestes ou Leonel Brizola, que se consolidou nos anos 1980 como grande expressão do conjunto da esquerda e da classe trabalhadora brasileira. E, na contramão do que ocorria em boa parte do mundo, manteve essa condição nas décadas seguintes. E isso aconteceu em parte porque, ao contrário do que Eduardo Luiz Zen diz, o “operário” não “desapareceu como força pública organizada”. Ficou mais fraco? Certamente. Desapareceu? Não.

Depois de espancar o operário da multinacional, Eduardo Luiz Zen se dedica a espancar o que ele chama de “pobrismo”. Neste caso o alvo da crítica não é o novo sindicalismo, mas sim as comunidades eclesiais de base.

Por suposta culpa delas, diz Eduardo Luiz Zen, “a pobreza deixou de ser apenas uma condição a superar e passou a conferir autenticidade, autoridade e pureza. O trabalhador remete à produção, ao conflito entre capital e trabalho, à organização coletiva e aos direitos universais. O pobre remete à carência, ao cadastro, ao benefício e à proteção focalizada. A passagem de um sujeito ao outro antecipou a política social do lulismo: financismo no comando da economia e pobrismo na administração de suas consequências”.

Como fez no caso do novo sindicalismo, Eduardo Luiz Zen faz terraplanagem da história e vincula, sem mediações, o que ele diz ser a posição teórica e prática das CEBs nos anos 1970 e 1980 ao que ele diz serem as políticas públicas dos governos petistas a partir dos anos 2000. Na minha opinião, nos dois casos ele apela para a caricatura. Mas, para além disso, o fato é que não se pode compreender como “aquilo supostamente teria dado nisso”, desconsiderando o contexto histórico. Nem se pode desconsiderar a importância que teve e segue tendo a atuação dos setores mais pobres da classe trabalhadora, na luta política e social das últimas décadas.

Eduardo Luiz Zen busca amparo para sua “tese” na opinião, como sabemos, sempre mucho coerente de Mangabeira Unger, segundo o qual o “pobrismo” seria o “complemento social do financismo brasileiro”. Se isso fosse verdade, por qual motivo o grande capital promove uma guerra permanente contra as políticas sociais do governo Lula?

Que certas políticas de combate à pobreza são estruturalmente limitadas, não tenho dúvidas. Que setores da esquerda abandonaram as reformas estruturais e não conseguem enxergar além das políticas públicas, tampouco há como negar. Mas, igualmente, não há como negar que tanto a extrema-direita quanto a direita tradicional, ambas neoliberais, desancam as políticas sociais dos governos petistas, usando argumentos parecidos aos de Eduardo Luiz Zen.

Eduardo Luiz Zen não parece se dar conta deste parentesco entre algumas de suas opiniões e as de parte da tal intelectualidade paulista. Pelo contrário, ele afirma que uma “terceira raiz” do PT teria sido, exatamente, “a intelectualidade ligada à USP”, que ele acusa de fornecer ao PT “boa parte de seu vocabulário sobre autoritarismo, populismo, patrimonialismo, corporativismo e sociedade civil”. Que alguma desta influência existe, não tenho dúvida.

Mas basta olhar a trajetória e as ideias de, entre outras e outros, Marilena Chauí, Antonio Candido e de Florestan Fernandes para perceber que a “intelectualidade ligada à USP” que contribuiu para a criação do PT não pode ser confundida com a intelectualidade paulista que esteve na origem do PSDB nem pode ser reduzida àqueles que vieram para o PT na expectativa de fazer um partido social-democrata. A esse respeito, vale atentar para a trajetória de Francisco Weffort, que em 1994 foi de mala e cuia para o ninho tucano.

Alguém poderia sugerir que Fernando Haddad seria a prova cabal da influência, no PT, da “intelectualidade ligada à USP”. Acontece que a presente influência de Fernando Haddad – seja lá como a interpretemos – é fato historicamente recente, tendo relação direta e indireta com a emergência do neofascismo e com a debacle do PSDB. Duas outras variáveis que – como o já citado colapso do socialismo soviético – não comparecem na análise de Eduardo Luiz Zen.

O curioso é que, neste mesmo período em que cresceu a influência de Fernando Haddad no PT, cresceu também a influência dos que defendem o nacional-desenvolvimentismo e uma interpretação positiva acerca do papel do varguismo, do trabalhismo e da industrialização. Assim como cresceu o que podemos chamar de “questão regional petista”, contrapondo a seção paulista do Partido a de outras regiões do país.

Nesse sentido, a maneira como Eduardo Luiz Zen descreve os fenômenos mais confunde do que esclarece o que está em jogo. Por exemplo: segundo ele, na “tradução petista, o sujeito portador da modernidade deixou de ser o barão do café ou o industrial tradicional e passou a ser o operário do ABC, acompanhado pelo intelectual da USP. São Paulo continuava a ser o centro dinâmico do país e o palco decisivo da luta de classes: concentrava o grande capital, a vanguarda operária e a interpretação autorizada do conflito”.

Literariamente pode soar meio poético dizer que “Lula completa essa narrativa: o retirante nordestino torna-se sujeito político quando ingressa no mundo industrial paulista. O Nordeste fornece o pobre; São Paulo o transforma em trabalhador moderno. A velha locomotiva ganhou uma tripulação vermelha”. Mas, sem falar dos problemas de mérito, qual seria a decorrência política desta interpretação que Eduardo Luiz Zen faz?

Paradoxamente, Eduardo Luiz Zen afirma que esta “intelectualidade paulista” teria nos legado “uma relação profundamente negativa com a história brasileira. O passado nacional foi reduzido a uma sucessão de escravidão, oligarquia, racismo, autoritarismo, patrimonialismo e barbárie. Quem não encontra na história nenhuma herança utilizável dificilmente imagina algo grandioso para construir em nome do país. A crítica necessária ao passado converteu-se em desprezo pela história comum e incapacidade de projetar o futuro”.

Até mesmo quem frequentou o curso de história na USP tem dificuldade de compartilhar dessa visão segundo a qual predominaria – exatamente naquele estado cuja elite cultua os bandeirantes e se apresenta como quatrocentona – uma intelectualidade hiper-niilista acerca da história pátria. Mas mesmo que isso fosse verdade, ainda restaria explicar o que seria, para Eduardo Luiz Zen, a “herança utilizável” que permitiria imaginar “algo grandioso” para construir “em nome do país”.

Por outro lado, não deixa de ser curioso que Eduardo Luiz Zen faça esta crítica e, ao mesmo tempo, tenha uma “relação profundamente negativa” com a história recente da classe trabalhadora e da esquerda brasileira. Frases como “não encontra na história nenhuma herança utilizável” e “desprezo pela história comum” cabem muito bem na sua – dele, Zen – visão sobre a trajetória da maior parte dos trabalhadores com consciência de classe, que desde o final os anos 1970 fundaram e até hoje sustentam o PT.

Para completar seu giro de metralhadora, Eduardo Luiz Zen critica “a cultura da ruptura e a rejeição do reformismo. As reivindicações imediatas podiam ser apoiadas, mas as transformações estruturais verdadeiras eram remetidas à superação do capitalismo. O PT não foi uma social-democracia que posteriormente abandonou as reformas. Nasceu denunciando o reformismo e colocando-se à esquerda dele. O problema apareceu quando a revolução deixou de existir como estratégia concreta. As reformas haviam sido concebidas sobretudo como acúmulo para a ruptura, não como um projeto histórico autônomo capaz de ocupar seu lugar. Quem considera as reformas impossíveis sem a revolução acaba, enquanto a revolução não chega, administrando aquilo que existe. O socialismo permaneceu no horizonte e nos símbolos. No presente, restaram a administração das vulnerabilidades e a aceitação da estrutura econômica: radicalismo no discurso, melhorismo na política social e neoliberalismo na organização da economia”.

Ou seja: segundo a “narrativa” de Eduardo Luiz Zen, aquele mesmo PT que – por influência pelo “operário da multinacional” – supostamente teria abandonado a crítica à dependência, também teria – por influência dos radicais – supostamente adotado uma visão super-revolucionária. Aqui, novamente, considero que Eduardo Luiz Zen pratica a arte da caricatura, desconsiderando por exemplo que sempre existiu, no PT, um conflito entre diversos tipos de reformismo e diversos tipos de revolucionarismo.

 

Fonte: Por Valter Pomar, em A Terra é Redonda 

 

Nenhum comentário: