O
“braço esquerdo” do antipetismo
No dia
31 de julho, o site A Terra é Redonda divulgou o artigo de Eduardo
Luiz Zen intitulado “As raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro”.No dia 3
de agosto, Luis Nassif afirmou que texto seria “o melhor estudo feito sobre a
natureza do governo Lula e, consequentemente, do Partido dos Trabalhadores”.
Estas considerações sobre o tema serão divididas em duas partes, e esta é a
primeira.
Se esse
é o “melhor estudo”, temo pelo pior. Primeiro: a “natureza do governo Lula” não
define, “consequentemente”, a “natureza do PT”. Nem vice-versa. Segundo: não é
possível discutir a influência do neoliberalismo no governo Lula e no PT, sem
levar em consideração a influência do neoliberalismo no Brasil e no mundo,
entre outras variáveis que compõem a luta de classes e a luta entre os Estados
no atual período histórico.
Terceiro
e mais importante: a análise de Eduardo Luiz Zen é repleta de erros,
inconsistências e lacunas que afetam suas premissas e conclusões. Para começo
de conversa, a história do PT não “costuma ser contada a partir de
uma ruptura com suas origens”, entre outros motivos porque não existe uma
história do PT. Existe uma disputa de interpretações. E parte dessa disputa
versa, exatamente, sobre continuidades e rupturas. Se só houvesse rupturas, o
PT não seria mais o PT, em nenhum sentido. E se só houvesse continuidades, o PT
não teria vencido cinco das nove eleições presidenciais ocorridas desde 1989.
Eduardo
Luiz Zen critica a tese da ruptura com as origens, tese que efetivamente – pela
esquerda ou pela direita – não consegue explicar como “aquilo deu nisso”. Mas
no lugar desta tese da ruptura com as origens, Eduardo Luiz Zen propõe uma
visão que me parece igualmente esquemática, segundo a qual o presente estaria
quase que totalmente previsto no passado. Por consequência, não haveria
história, não haveria política, não houve nem haverá escolhas; tudo o que
aconteceu já estaria escrito nas origens. Só faltando concluir que razão
teriam, supostamente, os que disseram ser um erro criar o PT.
Ademais,
Eduardo Luiz Zen dá como incontestavelmente verdadeira uma afirmação que
precisaria ser provada: a de que o PT seria o “braço esquerdo do
neoliberalismo”. Aceita esta tese, a história do Brasil desde 1989 até hoje
teria sido um jogo de faz-de-conta, no qual a suposta verdadeira esquerda
estaria mascarada de ferro e jogada nas masmorras, enquanto seu lugar de
direito estaria ocupado por um partido-farsante.
Que os
governos petistas conviveram e seguem convivendo com o neoliberalismo, Henrique
Meirelles e Gabriel Galípolo não nos deixam mentir. Que poderia e deveria ter
havido mais conflito, tampouco tenho dúvida. Que setores do PT se converteram
ao social-liberalismo, tenho provas todo santo dia (a mais recente é a êxito da
OSS dirigida por Ludhmila Hajiar). Mas daí a tratar o conjunto do PT como
“braço esquerdo do neoliberalismo”, há uma grande diferença. Cabendo perguntar
ainda qual seria o efeito prático dessa tese sobre nosso engajamento nas
eleições 2026.
Minha
impressão é de que Eduardo Luiz Zen adota como método uma espécie de “conta de
chegar reversa”. Ele tem uma tese sobre o PT atual e busca “comprovar” esta
tese “adaptando” a história do Partido ao figurino da tal tese. Um exemplo
disso é sua descrição das “três matrizes principais na formação do partido: o
novo sindicalismo do ABC, a esquerda católica ligada à Teologia da Libertação e
a intelectualidade paulista”.
Eduardo
Luiz Zen diz que a “literatura” costuma apontar estas três matrizes, as quais
ele acrescenta “estudantes radicalizados, egressos da luta armada, organizações
trotskistas, novos movimentos sociais e a corrente pragmática reunida em torno
de Lula”. E complementa: “a partir dos aportes dessas matrizes e dos demais
componentes da formação petista, é possível identificar seis raízes que ajudam
a explicar sua práxis posterior. O neoliberalismo não foi posteriormente
enxertado nessa árvore. Seus germes já estavam nessa combinação”.
Adianto
que é a primeira vez que leio acerca da “intelectualidade paulista” como uma
matriz principal na formação do PT. Acrescento também que a taxonomia de
Eduardo Luiz Zen é – aos meus olhos – uma mixórdia. Mas isso são detalhes. O
grave mesmo é seu determinismo sociológico, que atribui parte do suposto
neoliberalismo petismo à influência do “operário da multinacional”.
Quem
quer que tenha vivido ou estudado as lutas travadas no final dos anos 1970 e
início dos anos 1980, quem quer que tenha refletido sobre a ação do
sindicalismo cutista e do PT nos anos 1980 e início dos anos 1990, sabe que
havia de tudo um pouco: posições conflitantes, tendências em confronto,
correlações de força diversas. Eduardo Luiz Zen faz terraplenagem disso tudo e
constrói uma interpretação segundo a qual tudo já estaria mais ou menos
pré-determinado pelo pecado original: os caras trabalhavam em empresas
estrangeiras (fato que vale apenas para parte da respectiva categoria).
Algo
particularmente curioso nesta “narrativa” de Eduardo Luiz Zen é a expectativa
implícita de que o sindicalismo fosse capaz de produzir uma “crítica à inserção
dependente do país” e a defesa do “controle nacional da produção”. A mim parece
que essas e outras conclusões extrapolam os limites da consciência sindical.
Aliás, em parte foi a percepção desse tipo de limites que levou Lula e muitos
outros dirigentes sindicais a capitanearem a criação de um partido, o PT.
O
raciocínio adotado por Eduardo Luiz Zen conduz a tratar aquela decisão –
decorrência de um salto na consciência de centenas de milhares de militantes e,
naquele contexto entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, a maior
manifestação prática de emancipação da classe trabalhadora – como se tivesse
sido um retrocesso histórico.
Claro
que para sustentar essa interpretação somos obrigados a dar como verdadeiras
teses que não encontram sustento, nem nas resoluções, nem na prática do PT nos
anos 1980. Por exemplo, Eduardo Luiz Zen diz que “a dimensão internacional
ocupava o lugar da questão nacional” e que “o capital podia ser combatido como
relação entre patrão e empregado sem ser enfrentado como poder internacional
organizado sobre uma economia dependente”.
Isto
pode ser a opinião dele, assim como pode ser a opinião de militantes que
atuavam, na época, em organizações de esquerda que lutavam contra o PT. Mas não
confere com a dinâmica dos anos 1980, que entrosaram num só caudal a questão
social, a questão democrática e a questão nacional, o desenvolvimento e o
socialismo.
Noutros
momentos, nos anos 1990 e 2000, predominaram no movimento sindical cutista
posições diferentes daquela que predominara nos anos 1980. E isso teve, como é
obvio, uma influência sobre o PT. Mas essa influência não estava
pré-determinada. Não se tratou apenas ou principalmente de uma continuidade,
nem tampouco de uma ruptura. Foi uma metamorfose, fortemente influenciada pelo
contexto dos anos 1990, onde teve grande destaque o colapso do socialismo
soviético. Aliás, chega a ser incrível que este “detalhe” não compareça na
análise feita por Eduardo Luiz Zen.
Dito de
outra maneira: não dá para discutir as mudanças nas concepções de parte do PT,
desconsiderando as mudanças na correlação de forças mundial. Ou alguém acha que
seria possível manter as mesmas concepções e a mesma prática do período
anterior? Mas uma coisa é discordar das escolhas predominantes num ambiente de
derrota, outra coisa é dizer que tudo já estava pré-determinado pelo suposto
vilão ideal: o “operário de multinacional”.
Concordo
com Eduardo Luiz Zen que “a identidade atribuída ao operariado do ABC foi (…)
mais radical do que sua práxis”. Mas esse raciocínio se aplica, também, ao
movimento comunista brasileiro e ao nacionalismo trabalhista. Entretanto, o
fato histórico e político é que foi Lula, não Luiz Carlos Prestes ou Leonel
Brizola, que se consolidou nos anos 1980 como grande expressão do conjunto da
esquerda e da classe trabalhadora brasileira. E, na contramão do que ocorria em
boa parte do mundo, manteve essa condição nas décadas seguintes. E isso
aconteceu em parte porque, ao contrário do que Eduardo Luiz Zen diz, o
“operário” não “desapareceu como força pública organizada”. Ficou mais fraco?
Certamente. Desapareceu? Não.
Depois
de espancar o operário da multinacional, Eduardo Luiz Zen se dedica a espancar
o que ele chama de “pobrismo”. Neste caso o alvo da crítica não é o novo
sindicalismo, mas sim as comunidades eclesiais de base.
Por
suposta culpa delas, diz Eduardo Luiz Zen, “a pobreza deixou de ser apenas uma
condição a superar e passou a conferir autenticidade, autoridade e pureza. O
trabalhador remete à produção, ao conflito entre capital e trabalho, à
organização coletiva e aos direitos universais. O pobre remete à carência, ao
cadastro, ao benefício e à proteção focalizada. A passagem de um sujeito ao
outro antecipou a política social do lulismo: financismo no comando da economia
e pobrismo na administração de suas consequências”.
Como
fez no caso do novo sindicalismo, Eduardo Luiz Zen faz terraplanagem da
história e vincula, sem mediações, o que ele diz ser a posição teórica e
prática das CEBs nos anos 1970 e 1980 ao que ele diz serem as políticas
públicas dos governos petistas a partir dos anos 2000. Na minha opinião, nos
dois casos ele apela para a caricatura. Mas, para além disso, o fato é que não
se pode compreender como “aquilo supostamente teria dado nisso”,
desconsiderando o contexto histórico. Nem se pode desconsiderar a importância
que teve e segue tendo a atuação dos setores mais pobres da classe
trabalhadora, na luta política e social das últimas décadas.
Eduardo
Luiz Zen busca amparo para sua “tese” na opinião, como sabemos, sempre mucho
coerente de Mangabeira Unger, segundo o qual o “pobrismo” seria o
“complemento social do financismo brasileiro”. Se isso fosse verdade, por qual
motivo o grande capital promove uma guerra permanente contra as políticas
sociais do governo Lula?
Que
certas políticas de combate à pobreza são estruturalmente limitadas, não tenho
dúvidas. Que setores da esquerda abandonaram as reformas estruturais e não
conseguem enxergar além das políticas públicas, tampouco há como negar. Mas,
igualmente, não há como negar que tanto a extrema-direita quanto a direita
tradicional, ambas neoliberais, desancam as políticas sociais dos governos
petistas, usando argumentos parecidos aos de Eduardo Luiz Zen.
Eduardo
Luiz Zen não parece se dar conta deste parentesco entre algumas de suas
opiniões e as de parte da tal intelectualidade paulista. Pelo contrário, ele
afirma que uma “terceira raiz” do PT teria sido, exatamente, “a
intelectualidade ligada à USP”, que ele acusa de fornecer ao PT “boa parte de
seu vocabulário sobre autoritarismo, populismo, patrimonialismo, corporativismo
e sociedade civil”. Que alguma desta influência existe, não tenho dúvida.
Mas
basta olhar a trajetória e as ideias de, entre outras e outros, Marilena Chauí,
Antonio Candido e de Florestan Fernandes para perceber que a “intelectualidade
ligada à USP” que contribuiu para a criação do PT não pode ser confundida com a
intelectualidade paulista que esteve na origem do PSDB nem pode ser reduzida
àqueles que vieram para o PT na expectativa de fazer um partido
social-democrata. A esse respeito, vale atentar para a trajetória de Francisco
Weffort, que em 1994 foi de mala e cuia para o ninho tucano.
Alguém
poderia sugerir que Fernando Haddad seria a prova cabal da influência, no PT,
da “intelectualidade ligada à USP”. Acontece que a presente influência de
Fernando Haddad – seja lá como a interpretemos – é fato historicamente recente,
tendo relação direta e indireta com a emergência do neofascismo e com a debacle
do PSDB. Duas outras variáveis que – como o já citado colapso do socialismo
soviético – não comparecem na análise de Eduardo Luiz Zen.
O
curioso é que, neste mesmo período em que cresceu a influência de Fernando
Haddad no PT, cresceu também a influência dos que defendem o
nacional-desenvolvimentismo e uma interpretação positiva acerca do papel do
varguismo, do trabalhismo e da industrialização. Assim como cresceu o que
podemos chamar de “questão regional petista”, contrapondo a seção paulista do
Partido a de outras regiões do país.
Nesse
sentido, a maneira como Eduardo Luiz Zen descreve os fenômenos mais confunde do
que esclarece o que está em jogo. Por exemplo: segundo ele, na “tradução
petista, o sujeito portador da modernidade deixou de ser o barão do café ou o
industrial tradicional e passou a ser o operário do ABC, acompanhado pelo
intelectual da USP. São Paulo continuava a ser o centro dinâmico do país e o
palco decisivo da luta de classes: concentrava o grande capital, a vanguarda
operária e a interpretação autorizada do conflito”.
Literariamente
pode soar meio poético dizer que “Lula completa essa narrativa: o retirante
nordestino torna-se sujeito político quando ingressa no mundo industrial
paulista. O Nordeste fornece o pobre; São Paulo o transforma em trabalhador
moderno. A velha locomotiva ganhou uma tripulação vermelha”. Mas, sem falar dos
problemas de mérito, qual seria a decorrência política desta interpretação que
Eduardo Luiz Zen faz?
Paradoxamente,
Eduardo Luiz Zen afirma que esta “intelectualidade paulista” teria nos legado
“uma relação profundamente negativa com a história brasileira. O passado
nacional foi reduzido a uma sucessão de escravidão, oligarquia, racismo,
autoritarismo, patrimonialismo e barbárie. Quem não encontra na história
nenhuma herança utilizável dificilmente imagina algo grandioso para construir
em nome do país. A crítica necessária ao passado converteu-se em desprezo pela
história comum e incapacidade de projetar o futuro”.
Até
mesmo quem frequentou o curso de história na USP tem dificuldade de
compartilhar dessa visão segundo a qual predominaria – exatamente naquele
estado cuja elite cultua os bandeirantes e se apresenta como quatrocentona –
uma intelectualidade hiper-niilista acerca da história pátria. Mas mesmo que
isso fosse verdade, ainda restaria explicar o que seria, para Eduardo Luiz Zen,
a “herança utilizável” que permitiria imaginar “algo grandioso” para construir
“em nome do país”.
Por
outro lado, não deixa de ser curioso que Eduardo Luiz Zen faça esta crítica e,
ao mesmo tempo, tenha uma “relação profundamente negativa” com a história
recente da classe trabalhadora e da esquerda brasileira. Frases como “não
encontra na história nenhuma herança utilizável” e “desprezo pela história
comum” cabem muito bem na sua – dele, Zen – visão sobre a trajetória da maior
parte dos trabalhadores com consciência de classe, que desde o final os anos
1970 fundaram e até hoje sustentam o PT.
Para
completar seu giro de metralhadora, Eduardo Luiz Zen critica “a cultura da
ruptura e a rejeição do reformismo. As reivindicações imediatas podiam ser
apoiadas, mas as transformações estruturais verdadeiras eram remetidas à
superação do capitalismo. O PT não foi uma social-democracia que posteriormente
abandonou as reformas. Nasceu denunciando o reformismo e colocando-se à
esquerda dele. O problema apareceu quando a revolução deixou de existir como
estratégia concreta. As reformas haviam sido concebidas sobretudo como acúmulo
para a ruptura, não como um projeto histórico autônomo capaz de ocupar seu
lugar. Quem considera as reformas impossíveis sem a revolução acaba, enquanto a
revolução não chega, administrando aquilo que existe. O socialismo permaneceu
no horizonte e nos símbolos. No presente, restaram a administração das
vulnerabilidades e a aceitação da estrutura econômica: radicalismo no discurso,
melhorismo na política social e neoliberalismo na organização da economia”.
Ou
seja: segundo a “narrativa” de Eduardo Luiz Zen, aquele mesmo PT que – por
influência pelo “operário da multinacional” – supostamente teria abandonado a
crítica à dependência, também teria – por influência dos radicais –
supostamente adotado uma visão super-revolucionária. Aqui, novamente, considero
que Eduardo Luiz Zen pratica a arte da caricatura, desconsiderando por exemplo
que sempre existiu, no PT, um conflito entre diversos tipos de reformismo e
diversos tipos de revolucionarismo.
Fonte:
Por Valter Pomar, em A Terra é Redonda

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