Exame
do Super El Niño e do que ele revela
Em
1998, um El Niño monstruoso assolava o Pacífico, alterando os padrões
climáticos em todo o planeta – que acabara de vivenciar uma sequência de meses
com temperaturas recordes. O então vice-presidente dos EUA, Al Gore,
preparava-se para uma coletiva de imprensa sobre a turbulência climática. Um
assessor ligou para Paul Rauber, editor da revista Sierra, para perguntar se
ele tinha alguma pista sobre a relação entre o fenômeno e as mudanças
climáticas.
“ Temos
algo sobre isso na nossa última edição”, respondeu Rauber.
“ Está
no topo da minha pilha”, respondeu o assessor.
O
artigo tinha como título “A Mão Invisível” e sugeria: “À medida que a atividade
humana aquece a Terra, o El Niño torna-se mais violento. Estamos mesmo fazendo
isso conosco mesmos?”. Eu era o autor. Em 1997, ao presenciar a chegada de um
segundo super El Niño após apenas 14 anos, mergulhei no tema. Já vinha
abordando as mudanças climáticas em meus textos havia quase uma década, mas
essa foi minha primeira imersão profunda na ciência climática.
Entrevistei
muitos cientistas, incluindo alguns dos maiores nomes da área. Charles Keeling,
que em 1958 liderou a criação da estação de monitoramento de Mauna Loa, que
ainda é o principal local de medição de CO² do mundo (e que o governo Trump
quer fechar, por razões óbvias). Wallace Broecker, que identificou a
interconexão global das correntes oceânicas e sua capacidade de causar mudanças
climáticas abruptas. Em nossa entrevista, Broecker repetiu a frase que deve ter
incluído, de alguma forma, em todas as suas conversas: “O clima da Terra é como
uma fera furiosa e nós a cutucamos com vara curta”. Kevin Trenberth,
cientista-chefe do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (outra instituição
que está sendo desmembrada sob o Trump). Trenberth descobriu que a
probabilidade de dois super El Niños repetirem-se tão próximos um do outro era
de apenas uma vez a cada 2 mil anos…
Embora
saber se o aumento do aquecimento global estava impulsionando os fenômenos El
Niño permanecesse uma pergunta sem resposta, os cientistas repisavam uma
pergunta crucial: o que acontece quando a variabilidade climática periódica,
como a provocada por El Niño, se soma ao aquecimento global? Como isso ampliará
o caos que um El Niño normalmente causa – secas, incêndios florestais,
tempestades torrenciais, branqueamento de corais, colapso agrícola? Parece que
em breve obteremos novas respostas para essa pergunta.
O El
Niño monstruoso que se forma no Pacífico parece estar a caminho de ser o mais
intenso já registrado, e por larga margem. Suas temperarturas uperarão em muito
as dos super El Niños recentes de 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Zeke Hausfather,
cientista climático da Berkeley Earth, contextualiza a situação. Seus
comentários são ainda mais surpreendentes porque ele tem a reputação de ser
reservado em suas conclusões, como confirma na primeira linha de uma publicação
recente em seu site Climate Brink.
“No
geral, sou bastante ponderado na forma como discuto dados climáticos. Houve
apenas uma vez nos últimos anos em que fiquei verdadeiramente chocado: quando
as temperaturas globais de setembro de 2023 foram 0,5°C mais altas do que
qualquer setembro já registrado. Era só uma vez até hoje. Com as simulações de
julho já disponíveis, provenientes de 667 partes, de um conjunto de 14 modelos
de previsão sazonal diferentes, tudo indica que o El Niño deste ano não só tem
grandes chances de ser o evento mais forte desde que registros confiáveis
começaram a ser feitos, como pode acabar sendo o mais forte por uma margem
realmente impressionante.”
“A
mediana multimodelo para o pico do evento… está atualmente em 3,6°C,
aproximadamente 0,8°C mais quente do que o recorde anterior de 2,75°C,
estabelecido em 2015-16. Vale contextualizar: a diferença entre o El Niño mais
forte e o quinto mais forte dos últimos 150 anos é de apenas cerca de 0,5°C. Os
modelos estão prevendo um ponto fora da curva como jamais observamos antes.”
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Algo novo após 150 anos de El Niño
Hausfather
relata outros fatos impressionantes. As temperaturas oceânicas no Pacífico
Central estão subindo mais rápido do que nunca, mesmo com o fenômeno La Niña em
curso. Em meados de julho, elas estavam mais quentes do que em qualquer outro
momento nos 45 anos de registros de medições por satélite. “Nenhum El Niño
chegou a ser tão quente em julho”, afirma. 2026 já estava a ponto de ser um dos
anos mais quentes já registrados. Essas condições aumentaram a probabilidade de
superar 2024, como o ano mais quente. Devido ao mesmo fenômeno, 2027 quase
certamente baterá o recorde, com projeções em torno de 1,7°C, ultrapassando por
mais uma vez a meta do Acordo de Paris, de aquecimento máximo de 1,5°C acima
dos níveis pré-Revolução Industrial.
O
planeta já está em seu 11º ano de temperaturas globais recordes ou próximas a
recordes. Isso sobrecarregou a atmosfera com vapor d’água, que alimenta
inundações e alagamentos. Cada grau Celsius representa 7% mais umidade na
atmosfera. Este El Niño explode em um mundo já afetado pelo aquecimento global.
Só pode intensificar a situação.
* * *
Para
compreender a ligação entre o El Niño e as mudanças climáticas, é crucial
entender exatamente o que é esta sazonalidade climática. Os oceanos absorvem a
maior parte do calor solar acumulado pelo planeta. O Pacífico é o maior oceano,
cobrindo quase metade da superfície da Terra. Seu maior coletor solar é o
Pacífico Ocidental tropical. O El Niño é o seu mecanismo de descarga de calor.
É o responsável pela maior variabilidade climática interanual do mundo e, no
geral, o maior evento regular do planeta, além da mudança das quatro estações.
Por
meio de uma complexa sequência de interações, o aumento do calor enfraquece os
ventos alísios, mantendo a massa de água quente a oeste. Essa massa migra então
para leste, no padrão clássico de uma língua, vista nas representações de um El
Niño em sua plenitude. O fenômeno recebeu esse nome, que em espanhol significa
“A Criança”, porque tende a ter seus maiores efeitos por volta do Natal. Os
pescadores no Peru sentiram seus efeitos porque a superfície quente impede a
ressurgência de água fria que alimenta as populações de peixes, reduzindo
drasticamente as capturas.
À
medida que a língua quente se estende pelo Pacífico, seus efeitos se irradiam
por todo o sistema oceânico e atmosférico global. Ela altera as correntes de
vento globais, como a corrente de jato, o que provoca mais chuvas em algumas
regiões, enquanto seca outras. O El Niño é como uma bola de bilhar que se choca
contra um triângulo, espalhando as bolas por toda a mesa. O termo usado para
descrever isso é teleconexões. Os impactos mais típicos são a falha das monções
na Índia, secas e incêndios na Austrália, Indonésia e Amazônia, e inundações ao
longo da costa do Pacífico na América do Sul e no leste da África. O calor
recorde que atualmente impulsiona uma temporada de incêndios devastadora na
França e na Espanha está em linha com super El Niños anteriores, assim como as
ondas de calor na América do Norte.
Em um
mundo em aquecimento, o maior coletor de calor solar do planeta não tende a
liberá-lo com mais frequência e intensidade, na forma de El Niño? Essa é a
lógica que explorei em meu artigo de 1998. Mas o sistema climático é
incrivelmente complexo, e os registros de temperatura remontam apenas a um
período limitado. Os cientistas são cautelosos. Eles tendem a projetar que o
aumento da temperatura afetará os El Niños no futuro, devido à lógica básica.
Mas ainda estão debatendo os impactos reais. A ciência chega lentamente à
conclusão de que os El Niños estão se tornando mais frequentes e intensos
devido ao aquecimento global.
“É um
tema muito controverso, uma questão crucial que precisa ser respondida
corretamente”, afirmou Kim Cobb, cientista climática da Universidade Brown, no
New York Times, em um artigo recente intitulado “As mudanças climáticas estão
intensificando o El Niño? Um debate acirrado”.
De
dezesseis cientistas que falaram ao jornal, oito disseram ver evidências
convincentes de que as mudanças climáticas provavelmente estão aumentando a
intensidade dos eventos El Niño. Entre eles está Michael McPhaden, cientista
sênior da Agência Oceênica e Atmosférica dos EUA (a NOAA). Alertou que a
ciência é “muito incerta”, mas afirmou que o desenvolvimento de outro El Niño
forte este ano seria “bastante notável”. Se o fenômeno atual atingir as
proporções que muitos preveem, isso significaria que três dos seis eventos mais
fortes desde 1950 ocorreram nos últimos 11 anos.
Repito:
esses são os 11 anos mais quentes já registrados no planeta.
Uma das
afirmações mais definitivas sobre a ligação entre o El Niño e as mudanças
climáticas foi feita por Wenju Cai, cientista climático da Universidade
Oceânica da China. Utilizando modelagem computacional avançada para construir
um registro de El Niños passados, Cai e sua equipe chegaram a diversas
conclusões importantes. Eles compararam o período de 1901-1960 com o de
1960-2020. Três quartos das simulações do modelo encontraram eventos no período
mais recente com intensidade média cerca de 10% maior. Eles compararam as
simulações a um cenário em que os gases de efeito estufa estivessem nos níveis
anteriores à Revolução Industrial. A probabilidade de esses aumentos terem
ocorrido em um cenário assim seria de 2,5% a 10%. “É praticamente impossível
que isso aconteça sem as mudanças climáticas”, disse Cai ao New York Times .
McPhaden,
participante do estudo e cientista-chefe do Laboratório Ambiental Marinho do
Pacífico da NOAA em Seattle, um centro de pesquisa sobre o El Niño, escreveu :
“Uma manifestação desse ciclo amplificado é que eventos fortes de El Niño e La
Niña estão se tornando mais intensos e frequentes, exatamente como observamos
em registros históricos mais recentes. Os grandes eventos são os que têm maior
impacto. Esse ciclo amplificado se traduz em secas, inundações, ondas de calor,
incêndios florestais e tempestades severas mais extremas e frequentes,
associadas El Niño…”
Quais
são as implicações mais amplas disso tudo? É inegável que o mecanismo de
liberação de calor intensificará os extremos climáticos devastadores que já
ocorrem em todo o planeta. Se o El Niño e seu fenômeno complementar, o La Niña,
forem amplificados pelo aquecimento global, isso cria um ciclo de
retroalimentação que torna esses extremos ainda mais destrutivos.
* * *
Ainda
assim, à medida que as alterações climáticas atingem novos patamares, grande
parte do mundo parece estar afastando-se da ação climática. Nos EUA, Trump
desmantela instituições científicas sobre o clima e a mina o desenvolvimento de
fontes de energia limpa, enquanto o Partido Republicano junta-se ao coro dos
negacionistas. Os Democratas abafar o debate sobre clima em nome da
acessibilidade, o que é irônico, tendo em conta o aumento das contas dos
supermercados, dos seguros de habitação e de uma infinidade de outros custos.
Na Europa, que já foi líder na luta contra as alterações climáticas, as nações,
sob pressão econômica, revertem seus compromissos de alcançar neutralidade
carbônica. As emissões de gases do efeito-estufa continuam a aumentar, embora
na China, em exceção positiva, comecem a cair.
Isso
leva a uma sensação de dissonância cognitiva global. A intensificação dos
impactos climáticos em todo o mundo deveria estimular uma resposta de crise.
Deveríamos reconhecer que esta é uma emergência global. Em vez disso, estamos
caminhando na direção oposta. Mas há uma lógica esquizofrênica em tudo isso, um
clássico dilema. Há um conhecimento generalizado de que enfrentamos uma
situação crítica. Mas não conseguimos, coletivamente, compreender o que isso
significa, a transformação maciça dos sistemas econômicos e energéticos que
será necessária. Refugiamo-nos na negação, branda ou radical, que nos permite
continuar com nossas rotinas.
A
questão é: o que nos despertará? O que nos levará a finalmente confrontar a
necessidade? Quando as pessoas pressionarão os governantes a agir, enquanto
fazem mudanças necessárias em suas próprias vidas? É possível esperar que o que
acontecerá nos próximos meses será alarmante a ponto de provocar a resposta
necessária. Mas já estou nisso há tempo suficiente para ter visto muitos
eventos que, pensei, provocariam o mesmo. A destruição de Nova Orleans pelo
furacão Katrina. A devastação de Nova York pela supertempestade Sandy. Por mais
que deteste admitir, não estou otimista. Mas nós, que estamos conscientes,
precisamos aproveitar esta oportunidade. Precisamos denunciar a situação de
emergência que o mundo enfrenta — especialmente a mídia, que não faz a conexão
entre desastres e mudanças climáticas.
Seja
como for, já estamos na era dos extremos climáticos. Eles só irão se
intensificar daqui para frente — até o momento, ainda incerto, em que zeremos a
poluição climática. Ainda que caminhemos rumo ao zero, também precisaremos
priorizar a adaptação climática em todos os níveis, do local ao nacional e
internacional. Precisamos preparar nossas comunidades para as tempestades,
inundações, ondas de calor, secas e incêndios que estão por vir. Enquanto isso,
precisamos continuar fazendo tudo o que pudermos para reduzir a poluição
climática e desmistificar a ideia de que podemos manter o rumo atual. Se
continuarmos assim, a adaptação se tornará cada vez mais difícil e, por fim,
impossível.
No
processo de adaptação, devemos focar em oportunidades duplas de adaptação e
redução. Por exemplo, áreas úmidas podem amortecer inundações e a elevação do
nível do mar, além de absorver carbono. Práticas agrícolas sustentáveis podem
reduzir a poluição no campo e, ao mesmo tempo, absorver carbono no solo.
Edifícios com melhor isolamento podem proteger contra temperaturas extremas e
reduzir o consumo de energia.
Lidar
com as mudanças climáticas também oferece oportunidades para construir uma
sociedade mais justa. As alterações climáticas expõem todas as fragilidades da
sociedade, como a insegurança alimentar generalizada. O impacto imediato deste
El Niño agravará a situação, com a quebra de safras e aumento dos preços. Nas
próximas décadas, a insegurança alimentar provavelmente terá o impacto
climático mais abrangente sobre as populações humanas. Muitas pessoas já não
têm comida suficiente. Devemos abordar essa questão de qualquer forma, com
esforços abrangentes para garantir que as pessoas tenham o suficiente. Será
necessária uma sociedade forte para lidar com o que está por vir.
Sempre
esperei que as múltiplas crises que se abatem sobre a humanidade nos tornassem
uma espécie mais sábia, mais humilde diante das consequências de nossa
arrogância coletiva. Devo dizer que, ao ler notícias sobre o que está
acontecendo ao redor do planeta, muitas vezes sinto um aperto no estômago. Me
revolta que tenhamos ido tão longe enquanto permitimos que interesses poderosos
destruam nosso futuro coletivo. Em algum momento, precisamos despertar. Façamos
tudo o que pudermos para que este El Niño “impressionante” seja esse momento.
Que “A Criança” nos faça refletir sobre nós mesmos e sobre o mundo que estamos
deixando para elas.
Fonte:
Por Patrick Mazza, em The Raven| Tradução: Antonio Martins, para Outras
Palavras

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