sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Quais são as alternativas ao Estreito de Ormuz?

Meses de bloqueios e incertezas em torno do Estreito de Ormuz levaram os exportadores de petróleo a buscar alternativas para contornar essa importante rota marítima.

Autoridades iranianas insistiram que a hidrovia permaneceria fechada e que as negociações não seriam retomadas a menos que os Estados Unidos cumprissem um acordo firmado em junho e oferecessem compensações a Teerã por supostas violações.

Mas o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, garantiu na segunda-feira (10/08) que a Marinha americana já controla o Estreito de Ormuz. "Nós removemos as minas de todo o estreito", disse a jornalistas na Casa Branca.

A estreita passagem marítima entre o Irã e Omã é uma das rotas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo. Antes da guerra com o Irã, cerca de 20% das exportações globais de petróleo bruto passavam pelo local, saindo do Golfo Pérsico em direção a mercados da Europa, Ásia e América do Norte.

Diante da interrupção prolongada, a Arábia Saudita demonstrou que consegue redirecionar volumes substanciais para longe do Estreito de Ormuz. Os Emirados Árabes Unidos, por sua vez, tiveram menos sucesso, apesar de contarem com portos e oleodutos projetados especificamente para essa finalidade.

<><> A Arábia Saudita conseguiu absorver parte das exportações

A guerra entre Estados Unidos e Irã aumentou a importância das rotas alternativas pelo Mar Vermelho.

A Arábia Saudita está enviando seu petróleo bruto por meio do Oleoduto Leste-Oeste, que liga os campos petrolíferos do leste do país ao porto saudita de Yanbu, no Mar Vermelho. Isso permite que o reino mantenha as exportações para os mercados globais sem passar por Ormuz.

Durante abril e maio, os embarques sauditas de petróleo a partir da costa do Golfo caíram de 47,5 milhões de toneladas no ano anterior para apenas 6,3 milhões de toneladas, segundo dados da plataforma PortWatch, do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No mesmo período, as exportações pelo Mar Vermelho aumentaram de 29,6 milhões para 54,8 milhões de toneladas. O acréscimo de 25,2 milhões de toneladas compensou cerca de 61% do volume perdido no lado do Golfo Pérsico.

A mudança mostra que o Oleoduto Leste-Oeste não é apenas uma solução de emergência, mas também uma ferramenta importante para manter o fluxo do petróleo saudita durante um fechamento de Ormuz.

Os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, anunciaram recentemente um bloqueio marítimo contra a Arábia Saudita, mas o impacto da medida ainda não está claro.

Enquanto a Arábia Saudita trabalha para eliminar gargalos em seu sistema Leste-Oeste, seu vizinho oriental, os Emirados Árabes Unidos, avaliam ampliar a capacidade paralela ao Oleoduto de Abu Dhabi (ADCOP).

<><> Emirados Árabes Unidos ainda penam

No papel, os Emirados Árabes Unidos parecem bem preparados. O ADCOP transporta petróleo bruto de Habshan, em Abu Dhabi, até Fujairah, no Golfo de Omã, fora do Estreito de Ormuz. Fujairah e o porto vizinho de Khor Fakkan também dispõem de importantes instalações portuárias de águas profundas na costa leste do país.

No entanto, embora esses portos estejam fora do Estreito de Ormuz, continuam suficientemente próximos do Irã para permanecerem vulneráveis a drones e mísseis. Durante os confrontos, o porto de Fujairah foi atacado, e embarcações que operavam próximo à costa leste dos Emirados também foram atingidas.

O tráfego marítimo na costa dos Emirados voltada para o Golfo Pérsico caiu para 12 milhões de toneladas em abril e maio, ante 68,5 milhões no mesmo período de 2025, segundo dados de rastreamento de embarcações da plataforma PortWatch, do FMI. O movimento nos portos alternativos dos Emirados também recuou, de 13,7 milhões para 6,3 milhões de toneladas.

Em outras palavras, em vez de absorver a carga desviada do Golfo Pérsico, esses portos alternativos também registraram queda nos embarques.

Um dos problemas é a capacidade física. Fujairah não consegue substituir rapidamente o enorme volume movimentado por grandes instalações do Golfo Pérsico, como Jebel Ali.

Mas o risco de guerra é pelo menos tão importante quanto a capacidade. Uma rota alternativa tem utilidade limitada se armadores e seguradoras considerarem seu destino quase tão perigoso quanto o próprio Estreito de Ormuz.

<><> Novos oleodutos não resolverão a crise atual

Governos e especialistas do setor discutem alternativas mais amplas.

O economista Hassan Mansour afirma à DW que as propostas incluem novos oleodutos ligando o Iraque a Omã e à Jordânia, além de rotas marítimas mais longas ao redor de todo o continente africano, passando pelo Cabo da Boa Esperança, na África do Sul. Mas esses projetos seriam caros e levariam anos para serem construídos.

Segundo Mansour, um oleoduto entre Basra, no Iraque, e Aqaba, na Jordânia, poderia levar de cinco a sete anos para ficar pronto e custar entre 8 bilhões e 10 bilhões de dólares (R$ 41,5 bilhões e R$ 51,8 bilhões).

Já uma ligação entre Basra e Omã poderia custar entre 10 bilhões e 15 bilhões de dólares (R$ 51,8 bilhões e R$ 77,8 bilhões), enquanto projetos mais amplos envolvendo Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos e Omã também exigiriam investimentos significativos.

Ele pondera que o desvio das embarcações pelo Cabo da Boa Esperança pode acrescentar centenas de milhares de dólares em custos de transporte a cada viagem.

"Em resumo, esses projetos não podem resolver o problema imediato do mercado de petróleo", afirma Mansour.

A rota pelo Mar Vermelho também tem sua própria vulnerabilidade de segurança. Navios que seguem em direção ao Canal de Suez precisam passar pelo estreito de Bab el-Mandeb, onde ataques dos houthis têm ameaçado repetidamente a navegação comercial.

Em outras palavras, evitar um gargalo pode significar tornar-se dependente de outro.

<><> Uma alternativa por Israel?

O primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, argumentou que a região precisa de "rotas alternativas, em vez de depender dos gargalos do Estreito de Ormuz e do Estreito de Bab el-Mandeb para garantir o fluxo de petróleo".

Segundo o jornal The Times of Israel, isso poderia ser alcançado por meio de "oleodutos e gasodutos seguindo para oeste através da Península Arábica até Israel e nossos portos mediterrâneos".

Netanyahu afirmou que essa rede significaria "eliminar para sempre os gargalos" e insistiu que ela seria "definitivamente possível".

<><> Catar, Kuwait e Bahrein não têm saída fácil

As tentativas de contornar Ormuz não são novas, mas a guerra expôs a vulnerabilidade dessas alternativas, pontua Rahman Ghahremanpour, analista político baseado em Teerã.

"Esses oleodutos podem reduzir o impacto do Estreito de Ormuz, mas, em tempos de guerra, eles próprios são vulneráveis", diz, observando que drones iranianos e houthis podem alcançar tanto Fujairah quanto o Mar Vermelho.

Segundo ele, o problema é ainda mais grave para Catar, Kuwait e Bahrein. "Ao contrário da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, eles não possuem litoral fora do Golfo Pérsico. Qualquer rota alternativa exigiria cooperação com outros países, possivelmente envolvendo Iraque, Síria, Jordânia ou Israel."

Por isso, afirma, esses países continuarão dependentes de Ormuz no curto prazo.

<><> Estreito de Ormuz continua difícil de substituir

As rotas alternativas podem tornar as exportações de energia do Golfo menos vulneráveis, como demonstra a experiência saudita. Além disso, a ampliação dos oleodutos existentes poderia reduzir ainda mais o impacto da atual crise.

Antes do conflito, porém, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e derivados passavam diariamente pelo Estreito de Ormuz. A capacidade atual das rotas alternativas representa apenas uma fração desse volume.

Ghahremanpour também alerta que "oleodutos, sozinhos, não resolvem o problema". "Portos, terminais e oleodutos também podem ser atacados", lembra.

Ao mesmo tempo, segundo o analista, o fechamento de Ormuz também impõe limitações a Teerã.

"Se o Irã mantiver Ormuz fechado por muito tempo, a percepção de que a interrupção é temporária pode desaparecer, e uma coalizão internacional muito mais ampla poderá se formar contra Teerã", disse. "O objetivo do Irã é evitar que essa coalizão se forme."

¨      Países do Golfo devem aceitar controle iraniano sobre Estreito de Ormuz, diz jornal

Os países do Golfo Pérsico estão prontos para aceitar o acordo atual em consideração que prevê o controle do Irã sobre o tráfego marítimo no Estreito de Ormuz, ao avaliar que uma escalada militar entre os Estados Unidos e o país persa colocaria a infraestrutura energética das nações árabes em risco, conforme noticiado pelo jornal The Wall Street Journal (WSJ) na segunda-feira (10/08). 

Segundo o periódico norte-americano, os Estados da região não estão satisfeitos com o mecanismo de passagem marítima negociado entre Omã e Irã, mas entendem ser “a opção menos ruim” do que a continuidade das hostilidades entre Washington e Teerã. 

Um ponto é que o acordo, que promete liberar os envios de energia através da travessia do Ormuz, estagnaram nos últimos dias. As autoridades iranianas exigem a retirada de sanções ocidentais, a reparação pelos danos causados ao país, além da proibição de navios de guerra norte-americanos e israelenses no estreito. Por outro lado, os Estados Unidos se recusam a aceitar um tratado que permita a Teerã impor bloqueios à sua navegação. 

“Enquanto o bloqueio naval dos Estados Unidos continuar, as condições necessárias para a reabertura do Estreito de Ormuz não existirão”, afirmou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, durante uma coletiva na segunda-feira, enfatizando que o fechamento da rota marítima foi “resultado da agressão militar dos Estados Unidos e de Israel” contra o país persa.

De acordo com o WSJ, a maior ameaça à região se trata de um conflito prolongado que bloqueie ainda mais fluxos de energia e “assuste investidores estrangeiros e turistas”. Autoridades do Golfo, conforme o jornal, “estão cada vez mais frustradas com o que veem como a falta de uma estratégia clara por parte dos Estados Unidos à medida que a guerra se arrasta, colocando em risco sua segurança nacional e economias”.

Desta forma, os países do Golfo estudam alternativas diferentes para contornar o Estreito de Ormuz, expandindo os oleodutos para o Mar Vermelho e o Golfo de Omã, além de investir em instalações de armazenamento para que possam transportar mais petróleo durante períodos de menos ataques.

“Autoridades do Golfo dizem que seus colegas iranianos ameaçaram durante todo o conflito atacar a infraestrutura energética regional caso o presidente [Donald] Trump cumpra suas ameaças de escalada”, destacou o WSJ.  “Autoridades da região reconhecem que suas instalações de energia e água são vulneráveis e provavelmente alvos importantes para o Irã como forma de interromper o fornecimento de energia e pressionar os Estados Unidos”.

¨      Trump diz que EUA têm ‘controle’ sobre Ormuz. Já o Conselho Supremo de Segurança do Irã garanter que via continua fechada

Apesar das tensões militares e do impasse nas negociações, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse nesta terça-feira (11/08) que a situação com o Irã está “indo bem” e que as forças norte-americanas estão no “controle total” do Estreito de Ormuz.

“Controlamos totalmente o Estreito de Ormuz. Temos controle sobre ela. Ninguém mais, apenas nós. Nossa Marinha é inacreditável, e as coisas estão indo muito bem para o nosso país”, alegou o republicano a repórteres na Base Conjunta Andrews.

“Eu não confio no Irã. Sou a última pessoa a confiar no Irã. Eles mentiram para mim o tempo todo. Temos controle total sobre o Estreito de Ormuz neste momento. Eles não têm controle”, reforçou.

A declaração se dá mesmo enquanto o país persa detém o bloqueio da via estratégica. Horas antes do posicionamento de Trump, o novo secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã, Mohsen Rezaei, reiterou que Ormuz “não será aberto” até que os Estados Unidos “mudem o seu comportamento e aceitem as condições” de Teerã, de acordo com a agência Tasnim.

O novo dirigente iraniano afirmou que o acordo referente à rota marítima que está sendo negociado com Omã deve ser visto “em separado” do bloqueio e não significará a sua reabertura. Enfatizou também que Teerã não deve abrir mão de seus direitos nacionais diante de qualquer ameaça, apontando que as decisões a serem tomadas agora deverão ser “mais fortes do que antes”, baseadas em uma compreensão precisa da situação.

No começo da semana, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, destacou que Ormuz não será reaberto enquanto Washington mantiver o bloqueio naval contra Teerã, não liberar os fundos iranianos congelados e não reparar por suas “ações destrutivas”.

“Enquanto o bloqueio naval dos EUA continuar, as condições necessárias para a reabertura do Estreito de Ormuz não existirão”, afirmou Baqaei à imprensa na ocasião.

<><> Irã diz que novo acordo de defesa Arábia Saudita-Paquistão-Turquia sinaliza desconfiança nos EUA

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baqaei, afirmou nesta segunda-feira (10/08) que o novo acordo de defesa assinado entre Arábia Saudita, Paquistão e Turquia sinaliza que os países mudaram sua percepção referente à segurança regional e notaram que ela não pode ser garantida confiando em potências estrangeiras, como os Estados Unidos.

A posição foi dada em uma coletiva semanal, durante a qual Baqaei abordou o tratado trilateral de defesa mútua firmado pelas três nações do Oriente Médio na última sexta-feira (07/08), tendo como pano de fundo a guerra promovida por Washington e Tel Aviv contra o país persa. Os três signatários foram fortemente afetados pelo bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, uma medida retaliatória tomada por Teerã contra os países agressores.

 “Qualquer plano baseado nas realidades geopolíticas e históricas da região, que seja abrangente e inclusivo, que identifique corretamente o inimigo e a ameaça, tem chance de ajudar a fortalecer a segurança e prevenir instabilidade e abusos por parte do inimigo sionista e seus aliados”, destacou. “Os países da região não podem se basear na alegação de segurança fornecida pelos EUA, como no passado”.

Segundo o representante, os ataques do regime sionista e dos norte-americanos ao Líbano, Palestina e Síria, bem como suas ameaças no Oriente Médio, fortaleceram a compreensão de que as nações da região não podem mais contar com as alegações falsas dos Estados Unidos para garantir segurança.

O porta-voz iraniano também disse que o próprio governo norte-americano contribuiu para a insegurança na região, argumentando que o Estado de Israel não poderia ter realizado suas ações militares sem o apoio de Washington.

Embora os três países sejam aliados-chave dos Estados Unidos na região, apenas a Turquia mantém relações com Israel. Ainda assim, Istambul se manifesta publicamente contra Israel em determinados momentos, com o presidente Recep Tayyip Erdogan frequentemente comparando o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu ao líder nazista Adolf Hitler, acusando o regime sionista de cometer genocídio em Gaza e oferecendo consistentemente apoio diplomático ao Hamas.

Baghaei também afirmou na segunda-feira que as negociações com Omã sobre o acordo de cessar-fogo estão “progredindo de forma suave e construtiva.” Conforme o porta-voz, o acordo foi alcançado sobre um mapa de rotas marítimas, enquanto algumas questões técnicas permanecem sem solução.

 

Fonte: DW Brasil/Opera Mundi

 

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