Quando
o colonizador chama a resistência de terrorismo
Ao
longo da história, quase todas as lutas de libertação nacional foram
classificadas como “terrorismo” pelas potências que exerciam o domínio colonial
ou a ocupação estrangeira. Essa estratégia não é nova.
O
Império Britânico chamava de terroristas os combatentes do IRA (Exército
Republicano Irlandês) na Irlanda do Norte e os guerrilheiros do EOKA
(Organização Nacional de Combatentes Chipriotas) em Chipre. A França
qualificava a Frente de Libertação Nacional (FLN) argelina como uma organização
criminosa.
O mesmo
ocorreu com a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), o Movimento Popular
de Libertação de Angola (MPLA), a Organização do Povo do Sudoeste Africano
(SWAPO), na Namíbia, e até com o Congresso Nacional Africano (ANC), de Nelson
Mandela.
A
história, porém, absolveu esses movimentos e condenou os regimes coloniais que
pretendiam perpetuar sua dominação.
Esse
padrão revela uma constante de que quem ocupa um território, de procurar
retirar do povo ocupado qualquer legitimidade para resistir.
A
desumanização da resistência é uma estratégia colonial para, ao rotular todo
resistente como “terrorista”, deslocar o foco da ocupação ilegal, do apartheid e
da negação da autodeterminação para a reação dos povos ocupados.
Essa
narrativa, entretanto, encontra limites claros no próprio Direito
Internacional.
Desde a
Carta das Nações Unidas, passando pela Resolução 1514 (XV), sobre a
descolonização, e pela Resolução 2625 (XXV), que reafirma o princípio da
autodeterminação dos povos, consolidou-se o entendimento de que povos
submetidos à dominação colonial, à ocupação estrangeira ou a regimes racistas
possuem o direito de lutar por sua libertação.
Diversas
resoluções posteriores da Assembleia Geral das Nações Unidas reconheceram a
legitimidade dos movimentos de libertação nacional e admitiram que essa
resistência pode assumir formas de luta armadas, desde que sujeitas às normas
do Direito Internacional Humanitário.
É
precisamente por isso que a comunidade internacional jamais equiparou
automaticamente movimentos de libertação nacional a organizações terroristas.
O
Direito Internacional Humanitário regula a forma como os conflitos armados
devem ser conduzidos e impõe obrigações a todos os beligerantes, inclusive aos
movimentos de resistência.
Porém,
ele não elimina o direito político e jurídico de um povo resistir à ocupação.
Confundir essas duas dimensões interessa apenas às potências ocupantes, porque
transforma um conflito de natureza política e jurídica em mera questão
policial.
A
própria história do chamado Estado de Israel revela essa contradição.
Antes
de 1948, Irgun e Lehi eram considerados organizações terroristas pelo governo
britânico, em razão de atentados como a explosão do Hotel King David e o
assassinato do mediador da ONU, Folke Bernadotte.
Anos
depois, seus líderes chegaram ao governo, e Menachem Begin recebeu o Prêmio
Nobel da Paz. Isso demonstra que o rótulo de “terrorista” muitas vezes expressa
circunstâncias políticas, mais do que uma definição jurídica permanente.
No
cenário contemporâneo, essa discussão permanece atual. A Palestina continua
reconhecida pelas Nações Unidas como um território submetido à ocupação,
enquanto o Saara Ocidental permanece inscrito na lista de Territórios Não
Autônomos da ONU, aguardando a concretização do direito de seu povo à
autodeterminação.
Nesse
contexto, o Movimento de Resistência Islâmica (Hamas), surgido durante a
Primeira Intifada, e a Frente Polisario, reconhecida pelas Nações Unidas como
representante do povo saaraui no processo de paz relativo ao Saara Ocidental,
inserem-se na tradição histórica dos movimentos de libertação nacional.
Assim
como ocorreu com o ANC sul-africano, a FLN argelina, a SWAPO namibiana, a
FRELIMO moçambicana e tantos outros movimentos, ambos fundamentam sua atuação
na reivindicação do direito de seus povos à autodeterminação frente à ocupação
ou à dominação estrangeira.
Isso
não significa que toda ação militar praticada por organizações de resistência
esteja automaticamente legitimada pelo Direito Internacional.
As
normas do Direito Internacional Humanitário aplicam-se a todas as partes em
conflito e vedam ataques deliberados contra civis, independentemente da causa
defendida.
Contudo,
eventuais violações dessas normas não anulam, por si só, a legitimidade
jurídica da luta pela autodeterminação nem transformam automaticamente um
movimento de libertação nacional em uma organização terrorista perante o
Direito Internacional. São questões distintas, frequentemente confundidas por
conveniência política.
Não
existe colonialismo sem resistência. Nunca existiu.
A
resistência francesa contra a ocupação nazista, os guerrilheiros vietnamitas,
os combatentes argelinos, os sul-africanos que enfrentaram o apartheid, os
movimentos de libertação africanos, a Frente Polisario e a resistência
palestina demonstram que nenhum povo aceita indefinidamente a perda de sua
terra, de sua soberania e de sua dignidade.
A
verdadeira pergunta, portanto, não é porquê existe resistência.
A
pergunta que o mundo deveria fazer é porquê ainda persistem ocupações
militares, processos coloniais e regimes que negam a povos inteiros o direito
de decidir seu próprio destino.
Enquanto
houver colonização, apartheid, anexações ilegais e negação da autodeterminação,
haverá movimentos de resistência armada.
E o
Direito Internacional, apesar das pressões políticas e das tentativas de
criminalizar os movimentos de libertação, continua afirmando o princípio
elementar de que a liberdade dos povos não constitui um ato de terrorismo, mas
um direito fundamental da humanidade.
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EUA reivindicam invasões e intervenções na América Latina
como modelo para política de Trump
O
governo de Donald Trump nos EUA descartou a retórica de democracia, direitos
humanos e corresponsabilidade com outros países do hemisfério estadunidense
para proclamar talvez a versão mais honesta em décadas da política de
Washington nas Américas em mais de meio século: “a dominação estadunidense do
hemisfério ocidental nunca mais será questionada”, afirma o Departamento de
Estado.
Em
um vídeo oficial divulgado pelas
redes sociais, o Departamento de Estado ofereceu uma lição de história da
Doutrina Monroe durante os últimos 200 anos — ressuscitada pelo presidente
Trump como sua política interamericana, dando-lhe o apelido de “Doutrina
Donroe”.
Não há
menção à política da Boa Vizinhança, ou à “Aliança para o Progresso” do
presidente John Kennedy (que incluiu a
Baía dos Porcos, esquadrões paramilitares da CIA e mais), seguida pela retórica
de interesses compartilhados (incluindo o apoio a golpes de Estado,
intervenções e mais), e depois pela retórica de direitos humanos de Jimmy Carter, pelas declarações
de Ronald Reagan em apoio à “liberdade” na América Central e, mais tarde, pelo
vínculo entre democracia e livre comércio com Bill Clinton e pela era de nova
cooperação tanto com George W. Bush quanto com Barack Obama.
A
ausência de tanta retórica para os países parceiros é preenchida com a Doutrina Monroe do século XXI.
No
vídeo oficial, Kevin Marion Cabrera, atual embaixador dos Estados Unidos no
Panamá, narra a história do hemisfério tendo a Doutrina Monroe como eixo.
Começa pelo México: “[A Doutrina Monroe] foi invocada quando os franceses
instalaram um imperador no México, forçando sua retirada posterior”, explica
Cabrera sem mencionar jamais Benito Juárez nem as ações do povo mexicano.
Com
orgulho, o narrador assinala que o que começou como uma doutrina defensiva
contra as potências europeias nas Américas transformou-se em uma declaração
imperial quando, em 1895, o então secretário de Estado Richard Olney anunciou
que “hoje os Estados Unidos são praticamente soberanos neste continente e seu
mandato é lei sobre os súditos aos quais confina em sua interposição”. Essa
declaração, afirma o embaixador Cabrera, “redefiniu a doutrina, que já não era
apenas uma advertência, já era uma proclamação de primazia regional”.
Caso
alguém questione o uso do termo “imperial”, o embaixador-narrador confirma
justamente essa maneira de definir a doutrina quando sustenta que a guerra
contra a Espanha, no final do século XIX, permitiu que os Estados Unidos
surgissem como “uma potência imperial genuína com domínio sobre o Caribe”. O
vídeo de cinco minutos avança rapidamente em sua narrativa histórica, relatando
a declaração do presidente Theodore Roosevelt de que “se um país
latino-americano cair no caos, então os Estados Unidos aparecerão e resolverão
a situação”, e conta que os Estados Unidos apoiaram a independência do Panamá,
mas com a condição de que Washington manteria sua soberania sobre o novo Canal
do Panamá.
O
roteiro continua e salta quase meio século para chegar novamente a Cuba.
“Quando os mísseis soviéticos foram descobertos em Cuba em 1962, Kennedy não
teve que inventar um novo esquema, simplesmente invocou a doutrina.
Essas
armas tinham que sair”. Segundo esse mesmo roteiro, Ronald Reagan aplicou a
mesma lógica em 1985 para “justificar a oposição estadunidense ao regime
sandinista apoiado pelos soviéticos na Nicarágua”. O narrador cita a declaração
de Reagan de que “as ameaças ideológicas exigem a mesma resposta que as
militares”.
Mas o
objetivo do vídeo é chegar ao presente, “onde a doutrina encontrou seu campeão
mais recente no presidente Donald Trump”. O sequestro do presidente
venezuelano Nicolás Maduro, nesta narrativa,
“emitiu um sinal retumbante por todo o hemisfério”, e o vídeo passa a oferecer
um trecho de Trump declarando horas depois da conclusão daquela operação: “sob
nossa nova doutrina de segurança nacional, a dominação estadunidense do hemisfério
ocidental jamais será questionada novamente”.
Certamente
não é por acaso que o vídeo do Departamento de Estado foi divulgado um dia
antes de o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ter programada uma viagem ao
Panamá para presidir a próxima reunião da Coalizão Anticartel das Américas,
também conhecida como a coalizão do Escudo das Américas.
“O
fórum da Coalizão Anticartel das Américas, sediado por nossos bons amigos no
Panamá, indica uma mudança decisiva em nossa luta regional contra os cartéis e
os narcoterroristas”, declarou o comandante do Comando Sul dos Estados Unidos,
general Francis Donovan. “Não podemos apenas nos reunir e discutir. Temos que
agir juntos, trabalhando ombro a ombro para aplicar uma fricção sistêmica total
sobre essas redes terroristas e salvaguardar nosso hemisfério”.
O
general Donovan, ao que parece, ainda não teve tempo de assistir ao novo vídeo
do Departamento de Estado sobre o que o comandante em chefe Trump batizou, em
sua própria homenagem, de “Doutrina Donroe”. Mas certamente o embaixador
estadunidense no Panamá poderá compartilhar ali o esquema renovado da doutrina:
“o que começou como uma advertência às potências europeias evoluiu para um
esquema de dominação regional, que permanece como a pedra angular da estratégia
estadunidense no hemisfério atualmente”.
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‘Cater Force One’: Irã difunde vídeo satirizando fuga de
Trump de avião presidencial
O governo do Irã divulgou um
novo vídeo satirizando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, desta vez com
relação ao episódio em que o mandatário saiu escondido dentro de um furgão de
catering, abandonando o avião presidencial norte-americano quando este deixava
a Turquia, em julho passado.
“Grande
discurso! Grande jato! A câmera captou a cena. Cater Force One! Cater Force One! Força Aérea para as câmeras, caminhão de
comida para a fuga. Cater Force One! Postura de rei só até chegar o alerta”,
diz a voz no vídeo iraniano feito com inteligência artificial.
A
paródia iraniana faz menção a um episódio que aconteceu em julho passado, após
vista de Trump à Turquia para a reunião de chefes de
Estado da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Segundo
reportagem publicada nesta segunda-feira pelo diário estadunidense The
Washington Post, ao deixar a Turquia, Trump teria entrado no avião
presidencial Air Force One pela porta principal, mas saído escondido por uma
via alternativa, por onde um furgão de catering abastecia a aeronave com
mantimentos.
Ainda
de acordo com a reportagem, a medida tinha como objetivo resguardar o
presidente pelo temor de um possível ataque iraniano contra o avião
presidencial.
O
diário norte-americano afirma que analistas próximos ao mandatário alegaram que
Teerã poderia aproveitar sua presença em território próximo ao do país persa
para tentar vingar a morte do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo assassinado
durante os ataques lançados por Estados Unidos e Israel em 28 de fevereiro,
quando esses países iniciaram esse novo conflito na região.
“Marra
na porta da frente, fuga pela porta dos fundos. Segue com o chamariz, cortinas
bem fechadas. Cater Force One! Cater Force One! Cater Force One! Toda aquela
pose de durão foi por água abaixo”, segue dizendo o vídeo difundido em perfis
iranianos nas redes sociais.
Após
fugir pela saída do furgão de catering, Trump teria sido levado a uma aeronave
menor, na qual deixou o país de forma oculta.
Horas
depois da publicação da reportagem, o próprio mandatário admitiu que a
informação veiculada pelo The Washington Post é verídica, em
mensagem publicada nas suas redes sociais.
Nos
Estados Unidos, a reportagem gerou discussões sobre o fato de que a manobra
significou jornalistas que acompanhavam a comitiva como iscas involuntárias –
já que elas não teriam sido informadas sobre a ameaça de um ataque iraniano
contra o avião presidencial.
Fonte: Por
Sayid Marcos Tenório, em Opera Mundi/La Jornada

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