Sudeste
Asiático une forças contra cartéis de golpes online
Por
anos, governos do Sudeste Asiático trataram os fraudadores online da região
principalmente como assunto para a polícia, agências de combate ao tráfico de
pessoas e autoridades de fronteira. Mas esses órgãos aparentemente não
conseguiram conter o crescimento dos cartéis internacionais de golpes
cibernéticos.
A
indústria ilícita utiliza cada vez mais sistemas bancários internacionais,
criptomoedas, redes de telecomunicações, empresas de fachada e rotas de tráfico
humano, enquanto alguns de seus centros de golpes (conhecidos como scam
centers) operam sob a proteção de grupos armados ou politicamente influentes.
Os
tentáculos destas redes se estendem pelo planeta, inclusive até o Brasil. Neste
ano, elas entraram na mira da Polícia Federal brasileira depois que o Itamaraty
repatriou brasileiros que foram traficados até a região de fronteira entre
Camboja e Vietnã. Atraídas por falsas ofertas de emprego, as vítimas eram
submetidas, nestes centros de golpe, a trabalho forçado, sendo obrigadas a
aplicar fraudes cibernéticas sob privação de liberdade, agressões e ameaças.
Agora,
os governos da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em
inglês) parecem cada vez mais dispostos a enfrentar a ameaça de forma conjunta.
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Conversas entre governos
Sinais
dessa mudança ficaram evidentes numa reunião realizada em Bangcoc, na semana
passada, entre o primeiro-ministro da Tailândia, Anutin Charnvirakul, e o
presidente Min Aung Hlaing, chefe do governo militar de Mianmar.
Os dois
lados concordaram em intensificar o combate aos centros de golpes localizados
ao longo da fronteira comum, trocar informações e interromper conjuntamente os
fluxos financeiros criminosos.
A
Tailândia também ofereceu apoio à participação de Mianmar no Grupo Egmont, uma
rede internacional de unidades de inteligência financeira. O Parlamento
birmanês, apoiado pelos militares, já havia aprovado a aplicação da pena de
morte para pessoas flagradas operando centros de golpes na internet.
Durante
visita ao Camboja no fim de julho, o vice-ministro das Relações Exteriores da
Indonésia, Arif Havas Oegroseno, propusera a criação de uma força-tarefa
conjunta para combater estas quadrilhas.
Já na
semana passada, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, e o tailandês
Charnvirakul, realizaram conversas em Jacarta. Eles concordaram que seus países
devem liderar os esforços para fortalecer a capacidade da Asean de resistir à
atuação desses grupos.
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Ameaça à segurança econômica
Só em
2025, as fraudes cibernéticas provocaram perdas globais estimadas em algo entre
88,3 e 114,1 bilhões de dólares (R$ 457 e R$ 591 bilhões), segundo a
Organização das Nações Unidas (ONU). Uma parte relevante do setor tem sede no
Sudeste Asiático.
Inteligência
artificial, criptomoedas, comunicações criptografadas e tecnologias de deepfake
tornaram essas operações mais baratas e difíceis de detectar.
"Os
golpes cibernéticos no Sudeste Asiático evoluíram para além de uma questão
convencional de cibercrime e devem ser vistos como uma ameaça à segurança
econômica", afirma Hai Luong, professor da Escola de Criminologia e
Justiça Criminal da Universidade Griffith, na Austrália.
Os
governos do Sudeste Asiático já enfrentam pressão dos Estados Unidos, da União
Europeia (UE) e da China, à medida que os cartéis digitais da região atraem
atenção internacional.
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Impacto mundial
Em
outubro de 2025, os Estados Unidos classificaram o Prince Group, um dos maiores
conglomerados do Camboja, como organização criminosa transnacional e impuseram
sanções a 146 pessoas e empresas ligadas ao grupo.
Autoridades
americanas também acusaram Chen Zhi, presidente do Prince Group e nascido na
China, de fraude eletrônica e conspiração para lavagem de dinheiro.
Posteriormente, o Camboja revogou a cidadania de Chen e o extraditou para o seu
país natal.
O
império empresarial do Prince Group abrangia os setores imobiliário, financeiro
e outros segmentos da economia cambojana. Autoridades americanas alegam que
receitas obtidas por meios criminosos eram misturadas a atividades comerciais
legítimas por meio de uma rede internacional de empresas.
O
governo dos EUA também aplicou sanções contra outras pessoas e empresas do
Sudeste Asiático, acusadas de investir em complexos usados para golpes online e
em esquemas de lavagem de dinheiro.
A UE
seguiu o mesmo caminho em julho, impondo sanções ao Prince Group e ao Jin Bei
Group, no Camboja, além do Exército Democrático Karen Benevolente, em Mianmar,
por suposto envolvimento com golpes cibernéticos.
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Camboja contra bancos punidos pelos EUA
Em
2024, o Instituto de Paz dos Estados Unidos estimou que a indústria de golpes
cibernéticos do Camboja gerava mais de 12,5 bilhões de dólares (R$ 65 bilhões)
por ano, valor equivalente a cerca de um terço da economia formal do país.
O
colapso de vários conglomerados ligados a fraudes levantou preocupações sobre
os efeitos econômicos que poderiam atingir o restante do Camboja. Alguns
afirmam que a publicidade negativa associada aos golpes está prejudicando o
setor de turismo e afastando investidores estrangeiros.
O
primeiro-ministro cambojano, Hun Manet, reconheceu que a economia ilícita dos
golpes está prejudicando negócios legítimos. Ele declarou a intenção de
sistematicamente reprimir as redes de fraude online, incluindo maior
fiscalização do setor financeiro.
O Banco
Nacional do Camboja fechou pelo menos seis instituições financeiras desde o
início de 2026. Três bancos comerciais que perderam suas licenças em agosto
haviam sido sancionados pelos Estados Unidos por supostas ligações com redes de
golpes.
Em 4 de
agosto, o governo de Cingapura apresentou uma legislação que ampliaria o
compartilhamento de informações entre a polícia e prestadores de serviços,
permitiria às autoridades desativar contas suspeitas de facilitar golpes e
reforçaria restrições sobre serviços financeiros, de telecomunicações e
digitais fornecidos a suspeitos.
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Foco na infraestrutura financeira
A maior
fraqueza dos países da Asean continua sendo sua fragmentação, diz Sophal Ear,
professor associado da Thunderbird School of Global Management, da Universidade
Estadual do Arizona, nos EUA.
Segundo
o especialista, a infraestrutura financeira usada para movimentar e ocultar
recursos provenientes do crime muitas vezes se mostra mais resiliente do que os
mecanismos de aplicação da lei destinados a desmontá-la. "As organizações
criminosas operam sem dificuldades através das fronteiras, enquanto os governos
continuam respondendo por meio de órgãos separados, com mandatos diferentes e
coordenação limitada".
Mas os
governos da região parecem estar reagindo, a julgar pelo novo Plano de Ação da
Asean para o Combate ao Crime Transnacional no período de 2026 a 2035, que
prevê melhorias no compartilhamento de inteligência entre agências nacionais de
segurança e unidades de inteligência financeira, investigações conjuntas,
melhor coordenação transfronteiriça e fortalecimento da capacidade dos órgãos
responsáveis pelo combate à lavagem de dinheiro.
"O
objetivo comum deve ser identificar e desmantelar as lideranças das
organizações criminosas, suas redes financeiras e a infraestrutura que lhes dá
suporte, e não apenas prender mulas financeiras ou realizar operações contra
centros isolados de golpes no Camboja e em Mianmar", afirma Asha
Hemrajani, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.
Isso
incluiria uma fiscalização mais rigorosa de estruturas corporativas
consideradas de alto risco e da origem dos recursos financeiros, além de uma
postura mais dura contra a lavagem de dinheiro. A Asean também criou
recentemente um grupo de trabalho conjunto para combater este crime.
Fonte:
DW Brasil

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