sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sudeste Asiático une forças contra cartéis de golpes online

Por anos, governos do Sudeste Asiático trataram os fraudadores online da região principalmente como assunto para a polícia, agências de combate ao tráfico de pessoas e autoridades de fronteira. Mas esses órgãos aparentemente não conseguiram conter o crescimento dos cartéis internacionais de golpes cibernéticos.

A indústria ilícita utiliza cada vez mais sistemas bancários internacionais, criptomoedas, redes de telecomunicações, empresas de fachada e rotas de tráfico humano, enquanto alguns de seus centros de golpes (conhecidos como scam centers) operam sob a proteção de grupos armados ou politicamente influentes.

Os tentáculos destas redes se estendem pelo planeta, inclusive até o Brasil. Neste ano, elas entraram na mira da Polícia Federal brasileira depois que o Itamaraty repatriou brasileiros que foram traficados até a região de fronteira entre Camboja e Vietnã. Atraídas por falsas ofertas de emprego, as vítimas eram submetidas, nestes centros de golpe, a trabalho forçado, sendo obrigadas a aplicar fraudes cibernéticas sob privação de liberdade, agressões e ameaças.

Agora, os governos da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, na sigla em inglês) parecem cada vez mais dispostos a enfrentar a ameaça de forma conjunta.

<><> Conversas entre governos

Sinais dessa mudança ficaram evidentes numa reunião realizada em Bangcoc, na semana passada, entre o primeiro-ministro da Tailândia, Anutin Charnvirakul, e o presidente Min Aung Hlaing, chefe do governo militar de Mianmar.

Os dois lados concordaram em intensificar o combate aos centros de golpes localizados ao longo da fronteira comum, trocar informações e interromper conjuntamente os fluxos financeiros criminosos.

A Tailândia também ofereceu apoio à participação de Mianmar no Grupo Egmont, uma rede internacional de unidades de inteligência financeira. O Parlamento birmanês, apoiado pelos militares, já havia aprovado a aplicação da pena de morte para pessoas flagradas operando centros de golpes na internet.

Durante visita ao Camboja no fim de julho, o vice-ministro das Relações Exteriores da Indonésia, Arif Havas Oegroseno, propusera a criação de uma força-tarefa conjunta para combater estas quadrilhas.

Já na semana passada, o presidente da Indonésia, Prabowo Subianto, e o tailandês Charnvirakul, realizaram conversas em Jacarta. Eles concordaram que seus países devem liderar os esforços para fortalecer a capacidade da Asean de resistir à atuação desses grupos.

<><> Ameaça à segurança econômica

Só em 2025, as fraudes cibernéticas provocaram perdas globais estimadas em algo entre 88,3 e 114,1 bilhões de dólares (R$ 457 e R$ 591 bilhões), segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Uma parte relevante do setor tem sede no Sudeste Asiático.

Inteligência artificial, criptomoedas, comunicações criptografadas e tecnologias de deepfake tornaram essas operações mais baratas e difíceis de detectar.

"Os golpes cibernéticos no Sudeste Asiático evoluíram para além de uma questão convencional de cibercrime e devem ser vistos como uma ameaça à segurança econômica", afirma Hai Luong, professor da Escola de Criminologia e Justiça Criminal da Universidade Griffith, na Austrália.

Os governos do Sudeste Asiático já enfrentam pressão dos Estados Unidos, da União Europeia (UE) e da China, à medida que os cartéis digitais da região atraem atenção internacional.

<><> Impacto mundial

Em outubro de 2025, os Estados Unidos classificaram o Prince Group, um dos maiores conglomerados do Camboja, como organização criminosa transnacional e impuseram sanções a 146 pessoas e empresas ligadas ao grupo.

Autoridades americanas também acusaram Chen Zhi, presidente do Prince Group e nascido na China, de fraude eletrônica e conspiração para lavagem de dinheiro. Posteriormente, o Camboja revogou a cidadania de Chen e o extraditou para o seu país natal.

O império empresarial do Prince Group abrangia os setores imobiliário, financeiro e outros segmentos da economia cambojana. Autoridades americanas alegam que receitas obtidas por meios criminosos eram misturadas a atividades comerciais legítimas por meio de uma rede internacional de empresas.

O governo dos EUA também aplicou sanções contra outras pessoas e empresas do Sudeste Asiático, acusadas de investir em complexos usados para golpes online e em esquemas de lavagem de dinheiro.

A UE seguiu o mesmo caminho em julho, impondo sanções ao Prince Group e ao Jin Bei Group, no Camboja, além do Exército Democrático Karen Benevolente, em Mianmar, por suposto envolvimento com golpes cibernéticos.

<><> Camboja contra bancos punidos pelos EUA

Em 2024, o Instituto de Paz dos Estados Unidos estimou que a indústria de golpes cibernéticos do Camboja gerava mais de 12,5 bilhões de dólares (R$ 65 bilhões) por ano, valor equivalente a cerca de um terço da economia formal do país.

O colapso de vários conglomerados ligados a fraudes levantou preocupações sobre os efeitos econômicos que poderiam atingir o restante do Camboja. Alguns afirmam que a publicidade negativa associada aos golpes está prejudicando o setor de turismo e afastando investidores estrangeiros.

O primeiro-ministro cambojano, Hun Manet, reconheceu que a economia ilícita dos golpes está prejudicando negócios legítimos. Ele declarou a intenção de sistematicamente reprimir as redes de fraude online, incluindo maior fiscalização do setor financeiro.

O Banco Nacional do Camboja fechou pelo menos seis instituições financeiras desde o início de 2026. Três bancos comerciais que perderam suas licenças em agosto haviam sido sancionados pelos Estados Unidos por supostas ligações com redes de golpes.

Em 4 de agosto, o governo de Cingapura apresentou uma legislação que ampliaria o compartilhamento de informações entre a polícia e prestadores de serviços, permitiria às autoridades desativar contas suspeitas de facilitar golpes e reforçaria restrições sobre serviços financeiros, de telecomunicações e digitais fornecidos a suspeitos.

<><> Foco na infraestrutura financeira

A maior fraqueza dos países da Asean continua sendo sua fragmentação, diz Sophal Ear, professor associado da Thunderbird School of Global Management, da Universidade Estadual do Arizona, nos EUA.

Segundo o especialista, a infraestrutura financeira usada para movimentar e ocultar recursos provenientes do crime muitas vezes se mostra mais resiliente do que os mecanismos de aplicação da lei destinados a desmontá-la. "As organizações criminosas operam sem dificuldades através das fronteiras, enquanto os governos continuam respondendo por meio de órgãos separados, com mandatos diferentes e coordenação limitada".

Mas os governos da região parecem estar reagindo, a julgar pelo novo Plano de Ação da Asean para o Combate ao Crime Transnacional no período de 2026 a 2035, que prevê melhorias no compartilhamento de inteligência entre agências nacionais de segurança e unidades de inteligência financeira, investigações conjuntas, melhor coordenação transfronteiriça e fortalecimento da capacidade dos órgãos responsáveis pelo combate à lavagem de dinheiro.

"O objetivo comum deve ser identificar e desmantelar as lideranças das organizações criminosas, suas redes financeiras e a infraestrutura que lhes dá suporte, e não apenas prender mulas financeiras ou realizar operações contra centros isolados de golpes no Camboja e em Mianmar", afirma Asha Hemrajani, da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Cingapura.

Isso incluiria uma fiscalização mais rigorosa de estruturas corporativas consideradas de alto risco e da origem dos recursos financeiros, além de uma postura mais dura contra a lavagem de dinheiro. A Asean também criou recentemente um grupo de trabalho conjunto para combater este crime.

 

Fonte: DW Brasil

 

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