sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Os inimigos da pátria sempre estiveram aqui, Trump e Rubio são só suportes

A vassalagem frente aos interesses estrangeiros sempre foi a tônica das classes dominantes brasileiras. Os senhores da terra e do comércio de escravizados nunca se preocuparam com a constituição de um projeto de nação nos trópicos. Seus rebentos foram buscar lustro na Universidade e em Paris.  Não à toa, como diz o Presidente Lula, o Brasil foi um dos últimos países da América a erguer uma Universidade. 

A institucionalização do Brasil só começou a ganhar forma com a vinda da Corte de Dom João VI, fugindo de Napoleão Bonaparte em 1808. Cabe ressaltar que até essa data a colônia era uma mera exportadora dos frutos da terra e do ouro das Minas Gerais para Portugal. Isso, por si só, já demonstra a diferença abissal entre a colonização dos EUA, do Canadá, da Austrália e da Nova Zelandia e a dos países colonizados pelas então potências ibéricas: Portugal e Espanha. 

Incapazes de romper com o escravismo colonial, como escreveu Jacob Gorender, que nos EUA levou a uma guerra entre o Sul escravista e o Norte industrialista, com a vitória do Norte, aqui no Brasil, sem guerra o “Sul venceu”, completou Darcy Ribeiro. 

 Nos legando a vergonhosa herança de ser o último país a abolir a escravização. 

A ausência de projeto, a visão torpe, tacanha e mesquinha nos colocou à margem da Revolução Industrial e nos consolidou como um país exportador primário: primeiro do açúcar, depois do café, da borracha, entre outros. 

A ausência de um enfrentamento entre o atraso e o progresso, e o massacre a todas as formas de insubordinação dos de baixo: Palmares, balaiada, canudos, malês, inconfidência mineira, entre muitas outras, criou um sólido vínculo entre as nascentes forças militares e as oligarquias agraristas. Vem daí o epíteto de “coronel” dado o poder de mando dos senhores que tinham poder de vida e de morte em seus territórios. É deste cenário que surge a ingerência das forças armadas todas as vezes que há contestação sólida ao status quo dominante. Fato inaugurado com a Proclamação da República em 1889 liderada por Deodoro da Fonseca, como uma resposta dos latifundiários à abolição da escravatura. 

Séculos XX e XXI: o viralatismo das elites 

O menosprezo pelo desenvolvimento do país atravessou os séculos. Incapazes de ousar, os “donos” do poder optaram pelo mais fácil: exportar sua produção e importar os bens produzidos no estrangeiro. O fortalecimento dos EUA pós 1ª guerra e após a Doutrina Monroe, derivou os olhos da burguesia brasileira para o “irmão do Norte”. Entrou com toda força no território brasileiro o American way of life. Trazido inicialmente pelos jornais e depois consolidado pelo cinema, as rádios e a televisão. Sem nenhum espírito de ousadia criativa, optou-se para a substituição de importações: trazendo para cá as multinacionais ao invés de investir na construção de parques industriais nacionais. A presença do capital estrangeiro no país sem contrapartida nacional levou a uma brutal remessa de lucros para o exterior e ampliou a dominação econômica dos EUA sobre a economia brasileira.  

A 2ª guerra mundial e a decisão do governo brasileiro em aderir a luta contra o Eixo: Alemanha, Itália e Japão, depois de uma certa indecisão, permitiu que Vargas garantisse além do armamento, a construção, pelos EUA, da CSN, da FNM e da Álcalis. Foi a partir da guerra que as forças armadas brasileiras elegeram as forças norte-americanas como espelho. Já que até aquele momento eram francesas as formações militares por aqui. 

O espírito nacionalista de Vargas preocupava os EUA, principalmente depois da criação da Petrobras como uma empresa estatal. Já que o petróleo vinha se tornando a principal commoditie do mundo. Foi aí que o viralatismo ampliou a sua presença já que foi uma batalha difícil não permitir a entrega da nossa empresa. O golpe de 1964, dez anos depois foi o coroamento dessa subordinação. 

Atualmente, com a financeirização da economia, a associação entre o capital nacional e os fundos americanos fazem com que parte dos financistas daqui operem diretamente contra os interesses do país. Juntando-se isso com a subordinação extremo-direitista dos bolsonaros e seus asseclas, forma-se o caldo de cultura para que Marco Rúbio e seu chefe Donald Trump se arvorem em intervir política e economicamente nos rumos do Brasil. 

Falta grandeza e vergonha na cara para grande parte da Faria Lima. Falta decoro e honestidade aos parlamentares e governantes estaduais que se subordinam a isso. 

A altivez e a defesa da pátria passam longe deles. 

É obvio que temos que repudiar a ingerência da Casa Branca sobre o processo eleitoral brasileiro. Mas, com toda a certeza, o maior inimigo do Brasil é a quinta-coluna. Derrotá-los é uma questão de honra. 

¨      Lula disputa reeleição contra Trump e Marco Rubio. Por Aquiles Lins

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está disputando sua reeleição à Presidência contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e contra o seu secretário de Estado, Marco Rubio. Esqueçam Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema. A disputa que já está sendo travada é Lula-Alckmin versus Trump-Rubio. É o que fica claro a partir da divulgação pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos de um vídeo que exalta a Doutrina Monroe.

A mensagem de Washington ultrapassa em muito uma declaração sobre política externa. Ao apresentar Trump como o “mais recente defensor” de uma doutrina historicamente utilizada para afirmar a hegemonia dos Estados Unidos sobre as Américas e proclamar que a “dominância americana” no Hemisfério Ocidental não será mais questionada, o Departamento de Estado estabelece também quais governos representam obstáculos a esse projeto. O Brasil sob o comando de Lula, que novamente tenta sua vocação de ser uma potência, está necessariamente entre eles: além de ser o maior país da América Latina, tem a China como principal parceiro comercial, participa ativamente dos Brics e sustenta uma política externa baseada na multipolaridade e na autonomia diante das grandes potências.

É por isso que auxiliares de Lula passaram a enxergar com maior nitidez uma articulação de Marco Rubio destinada a desgastar o governo brasileiro e dificultar a reeleição do presidente. A leitura faz sentido quando o vídeo é colocado ao lado das ações adotadas por Washington desde a volta de Trump à Casa Branca. O governo estadunidense já recorreu a tarifas contra produtos brasileiros, investigação comercial contra o Pix e diversas outras ações do Brasil, sanções e restrições de vistos contra autoridades e pressões diplomáticas, chegando a relacionar algumas de suas medidas ao tratamento dado pelo Estado brasileiro a Jair Bolsonaro.

A interferência estadunidense na eleição brasileira, portanto, não precisa começar com um pedido explícito de votos para determinado candidato. Ela começa quando uma potência estrangeira utiliza seu peso econômico e diplomático para aumentar o custo político de um governo que pretende derrotar. Se tarifas prejudicam setores da economia brasileira, se sanções alimentam a narrativa da oposição contra as instituições nacionais e se Washington transforma aliados de Bolsonaro em interlocutores privilegiados, essas decisões produzem efeitos dentro do processo político brasileiro. Trump e Rubio não precisam estar na urna para participar da eleição.

O interesse dos Estados Unidos na derrota de Lula também é objetivo. Uma vitória do atual presidente significaria mais quatro anos de um Brasil empenhado em diversificar suas relações internacionais, aprofundar os Brics e preservar seus vínculos econômicos com a China. Uma vitória de forças alinhadas ao trumpismo abriria a possibilidade inversa: aproximar novamente Brasília da estratégia de Washington para conter Pequim e reconstruir uma esfera de influência norte-americana na América do Sul. A eleição brasileira passou, dessa maneira, a integrar a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.

Marco Rubio ocupa posição central nessa estratégia. Sua proximidade política com aliados da família Bolsonaro e sua atuação na ala mais ideológica do governo Trump ajudam a conectar o projeto continental da Casa Branca à disputa brasileira. Para Washington, interessa menos saber qual nome da direita chegará competitivo a outubro do que criar as condições para que Lula não permaneça no Palácio do Planalto. O candidato brasileiro pode mudar; o interesse estratégico do império decadente, não.

A eleição presidencial de 2026 começa, assim, antes da campanha formal e com atores que não aparecerão na cédula. Lula e Alckmin terão adversários brasileiros, mas enfrentarão uma máquina de poder instalada em Washington que declarou publicamente sua intenção de restabelecer a “dominância americana” sobre o continente. Trump e Rubio já escolheram o projeto que desejam derrotar no Brasil. Por isso o país precisa acordar e reeleger Lula no primeiro turno, para dar uma resposta clara e uníssona de que o Brasil é do povo brasileiro.

¨      Flávio Bolsonaro não consegue sustentar a marca que herdou do pai. Por Moisés Mendes

A marca Bolsonaro, o mais importante ativo da direita brasileira desde 2018, está sob ameaça. A fragilização desse bem com valor intangível, em plena campanha, não favorece os herdeiros de Bolsonaro.

Esse é o dilema que o bolsonarismo tentará escamotear: a marca ficou fraca porque seu criador perdeu forças, ou perdeu forças porque o herdeiro da grife não tem qualidades para mantê-la relevante?

As duas causas se misturam, mas o esgotamento do nome indica que Flávio Bolsonaro é fraco para carregar nas costas a herança política do pai. Tanto que os próprios marqueteiros pretendem tirar o sobrenome das peças de campanha do filho ungido.

Parece um paradoxo. Flávio só se firmou como nome capaz de enfrentar Lula por ser um Bolsonaro. Mas é incompetente para manter esse ativo vivo e decisivo não só para o bolsonarismo, mas para toda a direita.

Mais paradoxos. Desde o final de 2023, pesquisas do Datafolha indicavam que o eleitor não se sentia à vontade para votar em indicados por Bolsonaro. Esta manchete é de setembro daquele ano: 68% dos paulistanos não querem votar em candidato a prefeito indicado pelo ex-presidente. Ricardo Nunes se elegeu como bolsonarista, mas com apoio constrangido de Bolsonaro.

Esta outra manchete é de dezembro de 2025: Datafolha aponta que 50% dos eleitores brasileiros não votariam em nenhum candidato a presidente indicado por Bolsonaro. A mesma pesquisa mostrou Michelle como a preferida para suceder o criador do bolsonarismo, com 22%.

Depois, vinham Tarcísio de Freitas (20%), Ratinho Júnior (12%) e Eduardo Bolsonaro (9%). Flávio aparecia em quinto lugar, com apenas 8%, quase empatado com Ronaldo Caiado, em sexto, com 6%.

Flávio assumiu, ao ser o ungido, uma tarefa que não teria como suportar, como previam os eleitores da direita há pouco mais de meio ano. Mais recentemente, Michelle o denunciou como machista e autoritário, para desafiar sua autoridade e dizer também que ele é fraco.

O Centrão o considera incapaz, ou não teria abandonado sua candidatura. A velha direita negou-lhe apoio, não por discordar do que pensa e do que poderia vir a fazer no governo, mas por ser fraco.

Junta-se à fraqueza do candidato a perda de valor da marca, pela série de circunstâncias que não a favorecem. E esse cenário pode ir comprovando a tese segundo a qual o bolsonarismo seria apenas uma manifestação doentia e transitória do antilulismo.

O que sempre se soube é que o eleitorado lulista é maior do que o eleitorado de esquerda não lulista. E que a direita não bolsonarista é muito maior do que o eleitorado do bolsonarismo. Lula é bem maior do que a esquerda, e Bolsonaro é bem menor do que a direita.

Lula construiu as esquerdas pós-ditadura em torno do seu nome. O nome de Bolsonaro foi usado pela direita como gambiarra para enfrentar Lula e o PT. Bolsonaro só foi grande porque a velha direita o enxergou como salvação para derrotar o lulismo.

É possível resumir que, sem Lula e sem o antilulismo extremado, que ficou desamparado com o fim do tucanismo, Bolsonaro não existiria.E agora percebemos que o bolsonarismo com esse formato, frágil como estrutura política orgânica, porque nem partido próprio conseguiu formar, pode acabar nesta eleição.

O descarte da marca Bolsonaro, orientado por marqueteiros que sabem o que fazem, a partir de pesquisas com quem consome e exala extremismo, é o momento mais doloroso para os herdeiros de um líder fora de combate.

O que virá depois é puro chute. Pode ser o bolsonarismo neopentecostal de Michelle, que será mais evangélico do que bolsonarista. E mais fofo do que virulento, mas também, como significa uma reinvenção, talvez mais perigoso, por tudo o que o mundo da fé representa. E pode ser também o bolsonarismo burocrata de Tarcísio.

Como todos os indicadores até aqui são de derrota de Flávio, ele pode se preparar para a dívida que não terá como pagar a partir de outubro. O filho que ninguém queria como candidato ficará marcado como incompetente até para proteger o nome do pai.

 

Fonte: Por Alberto Cantalice, em Brasil 247

 

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