sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Como Mãe Menininha do Gantois se tornou a maior mãe de santo do Brasil e aconselhou de Pelé a Jorge Amado

Era um compromisso ao qual poucos ousariam faltar. Naquele 10 de fevereiro de 1984, políticos, artistas, escritores e intelectuais convergiram para um mesmo endereço no bairro da Federação, em Salvador.

Antônio Carlos Magalhães, João Durval Carneiro, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Jorge Amado estavam entre os presentes.

Ali, no terreiro do Gantois — ou Ilê Iaomim Axé Iamassê —, comemorava-se o aniversário de 90 anos de uma senhora que, ao longo de sua vida, havia conquistado o respeito e garantido a influência na sociedade baiana do século 20: Maria Escolástica da Conceição Nazaré, mais conhecida como Mãe Menininha do Gantois (1894-1986). Nesta quinta-feira (13/8) completam-se 40 anos da sua morte.

"Mãe Menininha era uma voz de consenso, era a voz que todos ouviam para saber como as coisas deviam ser direcionadas", contextualiza o sociólogo, antropólogo e babalorixá Rodney William Eugênio, doutor pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

"Ela era a ialorixá das ialorixás, aquela diante de quem todas as mais velhas da Bahia se curvavam por tudo o que ela representava, pela própria condição de conciliadora."

Ialorixá é o nome correto para o popular "mãe de santo". Filha única de Maria da Glória e Joaquim Assunção, Menininha se tornou a terceira ialorixá da história do Gantois, posto que ocupou por 64 anos — um recorde. Ela assumiu o cargo, sucedendo sua tia-avó Pulquéria Maria da Conceição, em fevereiro de 1922, aos 28 anos.

Menininha era bisneta de Maria Júlia da Conceição Nazareth, fundadora do terreiro do Gantois — criado em 1849. Descendente de escravizados, sua família era originalmente da Nigéria.

Ela sucedeu Pulquéria em um cenário conturbado do terreiro, já que a natural sucessora, mãe de Menininha, morreu ainda durante o período de luto pela morte da então ialorixá.

"Tornou-se conhecida como uma das maiores e mais renomadas ialorixás da história do candomblé", comenta o sacerdote de umbanda David Dias, pesquisador em ciência da religião na PUC-SP.

"Ela é muito celebrada até hoje, foi mãe de santo de diversos artistas, políticos. As ialorixás baianas, todas elas, têm uma história de luta política muito grande. Por meio das relações que elas foram tecendo com as pessoas das artes e da política, elas também iam garantindo a sobrevivência do candomblé", contextualiza o historiador Guilherme Watanabe, pai de santo do terreiro Urubatão da Guia, em São Paulo, e membro-fundador do Coletivo Navalha.

Foi um percurso de resistência e de alianças, o de Menininha. Quando ela assumiu o cargo, teve de enfrentar o preconceito e a discriminação às religiões de matriz africanas.

"Ela atravessou o processo de perseguição", ressalta Eugênio. "Não à toa, se dizia católica. Ela sabia que se dizer católica era uma estratégia de sobrevivência."

Devota de Santa Escolástica, de quem emprestava o nome, frequentou missas até o fim da vida. Foi pioneira também nesse sentido, garantindo o direito, junto aos religiosos católicos da Bahia, de participar da igreja vestindo os trajes típicos do candomblé.

Mãe Menininha acabou incorporando um peso sociopolítico tão importante que, com o passar do tempo, autoridades políticas, artistas e esportistas costumavam procurá-la antes de tomar grandes decisões. Queriam seus conselhos, queriam sua proteção. Sabiam da influência dela.

Sua casa foi frequentada por músicos como Gilberto Gil, atletas como Pelé, Roberto Dinamite e Djalma Santos, políticos como Luiz Inácio Lula da Silva, Paulo Maluf, Adhemar de Barros, Getúlio Vargas, João Goulart e João Baptista Figueiredo, além dos nomes já citados no início desta reportagem.

<><> Aceitação do candomblé

Em meio a articulações, à medida que reforçava seu papel de respeito e sua posição de carisma, ela teve um papel importante na inserção da religião do candomblé na sociedade brasileira.

"Assumindo a direção do Gantois muito jovem, aos 28 anos, Mãe Menininha […] foi mãe, mulher, líder religiosa, tornando-se uma verdadeira instituição do Brasil", afirma sua biografia oficial, divulgada pela administração do terreiro.

"Deixou ensinamentos de grande valia para a perpetuação da religiosidade de matriz africana na Bahia, com uma forte contribuição ao professar a fé, dando lições de poder, humildade e respeito."

"A sua história se confunde com a própria história do candomblé no Brasil, pelo fato de ser oriunda de família de linhagem nobre africana, uma das responsáveis pela implantação do candomblé na Bahia", prossegue a nota biográfica.

Quando ela assumiu o posto, já era casada com o advogado Álvaro MacDowell de Oliveira, com quem teve duas filhas, Cleusa — que a sucedeu no comando do terreiro — e Carmem, que morreu em 2025 aos 98 anos.

Permaneceu casada, mas decidiu que o marido não poderia morar no Gantois. O advogado sempre foi um apoiador do candomblé e, mesmo sem nunca ocupar um cargo religioso, atuou nas lutas empreendidas por Menininha.

Isso principalmente por conta da Lei de Jogos e Costumes, de 1930. A legislação passou a enquadrar o as práticas religiosas africanas e foi, durante muito tempo, a pedra no sapato de Menininha. A lei acabava fazendo com que batidas policiais ocorressem em terreiros, apreendendo objetos e, em alguns casos, até mesmo agredindo sacerdotes e participantes.

A situação só melhorou em 1976, quando o então governador baiano Roberto Santos sancionou decreto liberando as casas de candomblé de seguirem o mesmo licenciamento previsto pela legislação de "jogos, costumes e diversões públicas". A pressão do Gantois, finalmente, surtira efeito.

Eugênio acredita que a chave para o sucesso foi o fato de Menininha promover "o diálogo interreligioso". "Ela se dizia católica, assumia essa dupla pertença, mas isso tem de ser compreendido dentro de um mundo maior. O candomblé, para ela, era a vivência, a cultura, o ethos… E ela viveu isso no sentido mais amplo", analisa. "Ao mesmo tempo, circulava nos bastidores da política."

"Ela não gosta de aparecer, mas sabia o momento certo de fazer a coisa certa, com toda a discrição", acrescenta ele. "Soube encontrar aliados no poder para manter os benefícios para sua comunidade, isso por força do seu carisma, seu poder de encantamento."

<><> Mulheres sacerdotisas

O bem-sucedido papel de Menininha à frente do terreiro ilustra o fato de que, no Brasil, é comum que mulheres assumam papéis de comando em religiões de matriz africana.

Segundo o sociólogo Eugênio, isso não é inerente desses segmentos, mas uma característica pontual dessas manifestações que passaram a ocorrer "na diáspora", ou seja, por africanos na América e seus descendentes.

"A história do Gantois é uma história de mulheres valorosas, muito fortes, que de alguma forma dialoga com o processo de escravidão e do que foi a presença dessas mulheres, a força dessas mulheres no processo de escravidão", ressalta o sociólogo.

Para começar, como lembra o pesquisador, essas mulheres sempre tiveram — e têm — outras atividades profissionais além do terreiro em si. "Há uma ligação direta com o processo de ganho [que ocorria na escravidão]", pontua. Mãe Menininha trabalhou como quituteira e costureira ao longo da vida. "Modista e fina doceira", como diz sua sinopse biográfica oficial.

"Elas sempre tiveram outras atividades associadas à atividade principal, o terreiro, e uma coisa nunca impediu a outra. As coisas dialogam tranquilamente", diz Eugênio.

"Mãe Menininha tinha essa coisa do ganho e acho que de certa forma as mulheres do terreiro da Bahia, do ganho, são as grandes empreendedoras do Brasil."

Mas o ponto que explica porque muitas mulheres acabaram se tornando sacerdotisas de religiões afro-brasileiras está na própria lógica da organização do trabalho durante o período escravocrata.

"Muitas mulheres assumiam tarefas na cozinha, próximo à casa grande, e muitas tinham o benefício da alforria antes", esclarece. Essa rotina teria dado a elas mais condições para assumirem o serviço religioso.

<><> Na cultura popular

Como não podia deixar de ser, dado extenso rol de amizades com artistas, Mãe Meninha foi homenageada pela cultura popular. Em 1972, Dorival Caymmi lançou Oração de Mãe Menininha, depois regravada em vozes como de Maria Bethânia e Gal Costa.

"A beleza do mundo, hein? Tá no Gantois. E a mão da doçura, hein? Tá no Gantois. O consolo da gente, hein? Tá no Gantois", dizem os versos.

Bahia, Minha Preta, composição feita em 1993 por Caetano Veloso, conhecida na voz de Gal Costa, também traz referências a Menininha do Gantois.

Em 1976, ela foi homenageada no carnaval carioca com o enredo da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel — de autoria de Arlindo Rodrigues, o samba foi interpretado por Elza Soares. Cinco anos atrás, foi a vez da paulistana Vai-Vai homenagear Mãe Menininha.

Jorge Amado, na obra Bahia de Todos-os-Santos, escreveu que "Mãe Menininha está acima de toda e qualquer divergência de ordem política, econômica ou religiosa".

"É a ialorixá de todo o povo da Bahia, sua mão se estende protetora sobre a cidade. Não se trata nem de misticismo nem de folclore e sim de uma realidade do mistério baiano", registrou.

<><> O apelido Menininha

Não há um consenso sobre a explicação do apelido da famosa ialorixá. "Nem mesmo Mãe Menininha sabia dizer quando este apelido lhe foi dado. Dizia ela que este nome a acompanhava desde criança e assim era chamada por sua mãe, tia e avó", comenta o pesquisador David Dias.

Se já era uma apelido anterior ao cargo, o mesmo acabou reforçado pelo fato de ela ter assumido o terreiro tão jovem — uma "menininha" em um contexto em que as sacerdotisas costumam ser anciãs.

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O aspecto franzino, que originou o apelido de “Menininha” (segundo algumas versões), não escondia a grandeza de Maria Escolástica da Conceição Nazareth, ialorixá que, por seis décadas, esteve à frente do Terreiro do Gantois (Ilê Iyá Omi Àsé Iyámasé), uma das lideranças religiosas mais influentes do país.

Nesta quinta-feira (13), completaram-se 40 anos da morte de Mãe Menininha do Gantois, figura central na luta pelo reconhecimento do Candomblé perante a sociedade e o Estado e pelo fim da perseguição policial às religiões de matriz africana.

Nascida em 10 de fevereiro de 1894, em Salvador, no dia de Santa Escolástica, que lhe deu o nome, era filha de Joaquim e Maria da Glória. Possuía ascendência direta dos povos Egbá-Arakê, da região de Abeokuta, na Nigéria, e era bisneta de negros libertos, Maria Júlia da Conceição Nazareth e Francisco Nazareth de Etra — fundadores da linhagem do Gantois.

Mãe Menininha foi iniciada no Candomblé aos oito meses de idade por sua tia-avó e madrinha de batismo, Pulquéria Maria da Conceição (Mãe Pulquéria), e consagrada à orixá Oxum. Menininha seria sua sucessora na função de ialorixá do Gantois. Com a morte repentina de Mãe Pulquéria, em 1918, o processo de sucessão foi acelerado. Por um curto período, enquanto a jovem se preparava para assumir o cargo, sua mãe biológica, Maria da Glória Nazareth, permaneceu à frente do Gantois.

Em 1922, aos 28 anos, tornou-se a quarta ialorixá do Terreiro do Gantois e uma das mais populares mães de santo brasileiras. “Minha avó, minha tia e os chefes da casa diziam que eu tinha que servir. Eu não podia dizer que não, mas tinha um medo horroroso da missão (...): passar a vida inteira ouvindo relatos de aflições e ter que ficar calada, guardar tudo para mim, procurar a meditação dos encantados para acabar com o sofrimento”, disse em relato disponível no livro Mãe Menininha do Gantois: uma biografia (2006).

E chegou a hesitar em aceitar o cargo para o qual os deuses a elegeram. “Quando os orixás me escolheram, eu não recusei, mas balancei muito para aceitar”.

Jorge Amado descreveu Mãe Menininha como uma mulher “pobre, modesta, tímida, que nasceu no candomblé e nele cresceu, no ofício da compaixão e da bondade, nos ritmos antigos, conservando valores profundos da cultura brasileira”.

A gestão de Mãe Menininha coincidiu com um período em que as religiões de matriz africana sofriam intensa repressão na Bahia, com terreiros frequentemente invadidos e fechados por forças policiais e seus rituais criminalizados.

A "Oxum mais bonita", como descreveu Caymmi com a mão da doçura, estabeleceu uma rede de diálogo com autoridades, políticos, intelectuais e artistas. Por meio de diplomacia e trânsito entre diferentes classes sociais, ela conseguiu frear a perseguição policial aos terreiros, abrindo caminho para que o Candomblé ganhasse o status de religião legítima e fosse valorizado como pilar da identidade cultural afro-brasileira.

“Muitos anos atrás, Mãe Menininha já sinalizava que liberdade era pressuposto de luta, assim como foi no período da escravidão. E, em 64 anos como sacerdotisa, do alto de sua generosidade e força, Mãe Menininha usou de diplomacia, diálogo inter-religioso e carisma para combater a perseguição aos terreiros e desmistificar a cultura de matriz africana”, declarou ao Bahia Notícias, a Iyá Kekeré (Mãe Pequena) e neta da Mãe Menininha, Ângela Ferreira, liderança interina do Gantois após a morte de Mãe Carmen em dezembro de 2025.

Como registrou o próprio Jorge Amado, as comemorações do jubileu de ouro de Mãe Menininha como ialorixá do Gantois reuniram a seu redor a cidade inteira, incluindo o governador e ex-governadores, o prefeito, vereadores e deputados, a intelectualidade baiana, banqueiros e industriais, além, é claro, dos filhos e filhas de santo de todos os cantos do Brasil.

Ecumênica, Mãe Menininha mantinha uma relação próxima com o catolicismo e não abria mão de frequentar a missa. Podia receber a comunhão pela manhã e, horas depois, conduzir os rituais do candomblé. Entre uma atividade e outra, dedicava-se às duas filhas, Cleusa e Carmen, que mais tarde assumiriam a liderança do terreiro, além de acompanhar de perto o funcionamento da casa.

A rotina no Gantois era intensa. O terreiro também mantinha suas próprias atividades, como a criação de galinhas e o cultivo de milho. Nos momentos de descanso, encontrava prazer em atividades simples. Zelava cuidadosamente pela extensa coleção de peças de louça que havia recebido de filhos de santo ilustres. Durante os capítulos da novela Selva de Pedra, ninguém se atrevia a interrompê-la. No quarto, mantinha o rádio ao lado da cama, onde ouvia programas evangélicos e música popular. Entre suas cantoras favoritas estava Maria Bethânia, que é sua filha de santo.

 Após a sua morte, seus filhos deixaram seu quarto intacto, com seus objetos de uso pessoal e ritualísticos. O aposento foi transformado no Memorial Mãe Menininha e é uma das grandes atrações do Gantois. O espaço recentemente passou a integrar o Guia Baiano de Museus.

Por trás das grossas lentes dos óculos, havia uma mulher de personalidade firme e determinação incomum. Mãe Menininha não apenas enfrentou o preconceito e ajudou a consolidar o candomblé como uma expressão da cultura negra, como também ampliou as portas do terreiro para novos adeptos.

“Oxum reinava em sua trajetória, afinal foi iniciada aos oito meses de vida, e seu apelido faz jus a essa condição. Menininha era a pequena iniciada que mergulhou na essência legada por suas ancestrais e fez jus ao que lhe foi confiado. O núcleo religioso era a fonte de vida e também de luta por direito a existir e viver com dignidade, assim pensavam as mulheres do Gantois que se tornaram lideranças fortes na Bahia e que conseguiram manter sua comunidade. Assim era Mãe Menininha, a mulher e mãe, a cidadã e sacerdotisa que elencava numa mesma personalidade todos os seus estados de vivência, a fim de proteger seu povo”, afirma Márcia Maria de Souza, Maié Oxum do Gantois.

Sua relação com o catolicismo também ajudou a aproximar universos que, à época, pareciam distantes. Ela chegou a convencer bispos a permitir que mulheres vestidas com os trajes tradicionais do candomblé entrassem nas igrejas. As mesmas vestimentas que usava com elegância no dia a dia do terreiro: o branco dedicado a Oxalá, o dourado de Oxum e o azul de Oxóssi.

No romance Bahia de Todos os Santos, Amado descreve que “Mãe Menininha está acima de toda e qualquer divergência de ordem política, econômica ou religiosa. É a ialorixá de todo o povo da Bahia, sua mão se estende protetora sobre a cidade. Não se trata nem de misticismo nem de folclore e sim de uma realidade do mistério baiano”.

 

Fonte: BBC News Brasil/BN

 

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