O
risco de interferência estrangeira no Brasil
José
Múcio Monteiro, atual ministro da defesa, em uma recente entrevista afirmou que
o Brasil não teria capacidade de se defender de uma possível ação estadunidense
em nosso país, e o mais recomendável era abrir a porteira para eles passarem.
Esta fala, no momento que o somos alvo de ataques econômicos do governo de
Donald Trump é inaceitável, e se torna ainda mais problemática vindo de um
ministro do Estado.
José
Múcio Monteiro, porém, expõe algo, que é o risco de interferência estrangeira
no Brasil, algo que após os ataques econômicos estadunidenses, e a proximidade
das eleições vem ganhando o debate público.
Na
convenção partidária que oficializou seu nome como candidato para as eleições
deste ano, o Presidente Lula fez uma importante intervenção onde afirmou que
precisamos se importar com a Defesa nacional, e que o Brasil precisa se
preparar caso alguém ameace o país.
O
Presidente Lula tem razão, porém é preciso mais que isso, é necessário um
projeto de Defesa Nacional elaborado pelo campo progressista que unifique
soberania, Forças Armadas, defesa e o desenvolvimento.
Os
fatos se impõem e a realidade internacional empurra a necessidade deste projeto
em nossas mãos. O mundo passa por tempos de mudança. A relativa decadência do
imperialismo estadunidenses, a ascensão da extrema direita no cenário
internacional, a crise das instituições multilaterais, colocam em todo o
planeta o papel do Estado e o tema da defesa nacional no centro das elaborações
estratégicas em diversos países.
Se
durante as primeiras décadas do século XXI se alimentou por parte do
neoliberalismo a hipótese do apelo à diplomacia entre as Nações e ao direito
internacional, agora tudo isto vai ao chão com a atuação da extrema direita. A
chantagem política, a agressão econômica como nova forma de guerra híbrida, e o
uso de força contrária à soberania dos povos, se tornaram o linguajar dominante
por parte do imperialismo em decadência.
Diante
da perda da centralidade econômica, a classe dominante estadunidense recorre a
extrema direita, que tem em Donald Trump e no MAGA a expressão política mais
acabada, para tentar reverter sua perda de hegemonia e seu declínio. A
intimidação, as sanções, os tarifaços, a guerra comercial, os bloqueios, a
desestabilização política, e a agressão militar, se tornam a nova dinâmica e o
método principal do imperialismo. O sequestro do Presidente venezuelano Nicolás
Maduro e da primeira combatente Cilia Flores, é o maior exemplo disso.
A
atuação do imperialismo sob o comando do MAGA modifica as relações
internacionais, pois a fronteira entre tempos de paz e tempos de guerra está
cada vez menos compreensível. Diferentes da guerra convencional, onde se fazia
necessário que um soldado estrangeiro invadisse fronteiras, ou que bombas
fossem derramadas em solo, hoje um país pode ser atacado por uma potência
estrangeira de diversas formas.
São
tempos de guerras abertas, misturadas com guerras híbridas, sanções e chantagem
econômicas, bloqueios de cadeias de suprimento, tarifas, captura de sistemas
digitais, ameaças de decisões soberanas, isto tudo com apoio da extrema direita
local. Assim, a interferência estrangeira passa a ser normalizada.
A
tentativa de minar a soberania nacional de países do Sul Global, como o Brasil,
por parte do imperialismo estadunidense, não se dá com a ação exclusivamente
militar. Hoje, podemos dizer que os ataques à soberania se dão por diversas
camadas. Existe a camada econômica, com as tarifas, sanções, restrição
financeira. A camada política, com o financiamento e apoio a grupos de extrema
direita. A informacional, com a ação das big techs, a utilização de fake news
para por meio do algoritmo espalhar desinformação e enfraquecer as
instituições. E por fim, a camada militar
Os
olhos de Donald Trump se voltam à América Latina, que atualiza a Doutrina
Monroe, e enxerga a região e seus minérios críticos, água, biodiversidade,
recursos estratégicos como pertencentes a uma área de influência exclusiva dos
Estados Unidos. Sendo vedado de acordo com o projeto de Segurança Nacional
divulgado pela Casa Branca, que no subcontinente os países façam relações
prioritárias com a China ou qualquer outro país.
Na
América do Sul, Donald Trump conseguiu derrotar as forças de esquerda na
Colômbia, Peru, além de ter aliados consolidados no Paraguai e na Argentina, e
asfixiar a Venezuela e impor uma chantagem ao governo do país. A presença
estadunidense no subcontinente se consolidou ao longo deste ano, com governos
que são ponto de apoio a seu projeto de impedir uma integração sul-americana
que tenha como base a soberania. O Brasil torna-se, portanto, o alvo da vez e
objetivo estratégico do governo estadunidense.
Nosso
país, é o maior e mais rico da região, com biodiversidade, recursos hídricos,
petróleo, alimentos, minerais críticos, e posição geopolítica importante no
cenário internacional. Esses ativos são objeto de consumo do imperialismo.
Diante dessa realidade, do cenário internacional marcado por conflitos, e pelas
agressões do governo de Donald Trump, o campo político da esquerda não pode
tratar o tema da Defesa de forma secundária, ou com preconceito.
Se
quisermos manter nossa soberania precisamos qualificar o que isto significa, é
em essência manter a autonomia do Estado brasileiro sobre seu território, seu
povo, suas riquezas, instituições, caminhos de desenvolvimento, sobre suas
plataformas digitais, satélites, inteligência artificial, fluxos de
comunicação, sua democracia, e liberdade de decidir seus rumos, sem a tutela de
uma potência estrangeira.
A
Defesa nacional, na atual conjuntura internacional, se torna uma condição sine
qua non, uma dimensão necessária para a existência de um país soberano no Sul
Global, e da democracia brasileira. Defesa, democracia e soberania, se tornam
uma trinca necessária de pesos e contrapesos.
Um
projeto democrático, popular e com capacidade de fazer mudanças estruturais
para o Brasil passa sem sombra de dúvidas pelo tema da soberania nacional, e
isto também é a capacidade de controle do território, do espaço aéreo, das
fronteiras marítimas, das comunicações estratégicas, da infraestrutura crítica,
e significa soberania tecnológica e digital. Este último tema é de fundamental
importância, pois quem controla infraestrutura digital interfere de forma
direta em parte da vida social, política e econômica de um país.
Assim,
cabe a pergunta para além de palavreado, o que de fato ameaça a soberania
brasileira? Se, afinal, queremos defender a mesma, precisamos saber o que a
ameaça e como podemos atuar neste caso. A resposta passa pela Amazônia, e o
interesse do capital internacional e do imperialismo na mesma. Pelo pré-sal e o
petróleo, alvos de cobiça estrangeira. Pelas fronteiras terrestres,
descobertas. Pelos dados da população que estão à mercê das big techs. Pelos
cabos submarinos que alimentam o mundo digital. Pelas terras raras e a
necessidade de proteção das mesmas.
Ou
seja, a Defesa nacional envolve aparato tecnológico militar, mas envolve também
software, telecomunicação, cibersegurança, logística, criptografia,
semicondutores, inteligência artificial, e principalmente um Estado forte, com
capacidade de ditar os rumos do país.
Por
exemplo, com uma Petrobrás fraca, sem capacidade de extração, refinamento e
controle do preço do petróleo, ficamos a tensão de potências estrangeiras. Do
mesmo modo, sem um projeto estratégico e empresas estatais para controle de
dados ou das terras raras, estas passam o controle do exterior.
Defesa
é também uma política estratégica e projeto de desenvolvimento de nosso país. O
planejamento estatal que articule políticas de longo prazo, universidades
públicas (com suas pesquisas orientadas), engenharia e ciência nacional,
institutos e empresas públicas estratégicas, startups vindas do capital
privado, para gerar um complexo industrial de defesa nacional é uma
necessidade. Este complexo industrial de defesa deve contribuir para as áreas
de monitoramento de fronteiras, capacidade aeroespacial, desenvolvimento nas
áreas de tecnologia da informação, energia e telecomunicação, e por efeito iria
gerar empregos qualificados, inovação e domínio e absorção tecnológica.
Aqui
vale um apontamento. Seria errado para o Brasil tentar imitar a ação militar
das grandes potências, buscando uma paridade militar, que é impossível. No caso
brasileiro, a Defesa significa capacidade de preservar sua soberania a partir
de elementos estratégicos, e reduzir ao mínimo qualquer capacidade e
possibilidade de agressão militar, chantagem econômica e financeira, ou
tentativa de ação estadunidense. Ou seja, uma defesa territorial moderna, o
controle do espaço aéreo e marítimo, romper a dependência tecnológica e
cibernética, e ter inteligência estratégica. Nosso país não precisa de
aventuras militares, mas sim uma estratégia de dissuasão das ameaças.
Observemos
a guerra do Irã e da Ucrânia. Ambas mostram que tecnologias relativamente
baratas, como drones, munições guiadas, satélites comerciais, guerra
eletrônica, inteligência de sinais, defesa antidrone, são eficientes quando
integradas a dados, comunicação segura, e capacidade de reposição. Não podemos
organizar nossa Defesa buscando imitar o feito pelas grandes potências, nem com
a cabeça no século passado. Um caminho estratégico e nacional é preciso. Romper
a dependência de equipamentos importados, e o investimento nas já citadas
defesa cibernética, sistemas não tripulados, proteção de redes digitais,
parecem um caminho.
Não se
trata também, de mais gastos apenas, por mais que seja preciso destinar uma
taxa maior o PIB e romper o arcabouço fiscal para financiar este necessário
projeto de Defesa. Mas é preciso uma orientação estratégica que guie estes
mesmos gastos.
Ainda
se faz necessário apontar para o tema das Forças Armadas, tratado como um tabu
por parte da esquerda brasileira, precisa ser encarado de forma frontal. As
Forças Armadas brasileiras precisam e podem ter um papel estratégico para nosso
país ao longo do século XXI. Dito isto, elas não podem exercer o papel de poder
moderador, ou de salvaguarda da República, como acreditam ser. Não podem se
colocar acima da vontade popular, sendo subordinados ao poder civíl
democrático, que se materializa na figura do presidente.
A
formação política e cultural das Forças Armadas é alinhada a um anticomunismo e
que enxerga a si mesmo como tutor da República, com elaborações estratégicas
próprias sobre o Brasil, a geopolítica internacional, e criando um universo
próprio. Suas fileiras são formadas em maioria por netos e filhos de militares,
que de geração em geração, convivem entre si, com uma vida social afastada da
vida nacional. Com clubes, sistema de saúde e educação, Justiça, previdência e
visão de mundo próprios.
Em
algum momento precisaremos lidar com este grande elefante no meio da sala e
assumir a necessidade da construção de uma Forças Armadas republicana,
subordinadas à vida civil e ao presidente da nação, modernas e integradas a um
projeto estratégico de Brasil.
Apesar
de tudo isto, não se combate a tutela militar criando um estigma abandonando a
necessidade estratégica da Defesa nacional. O caminho é inverso, passa pelo
campo da esquerda brasileira trazer para si o debate. Como falamos, Defesa,
Democracia e Soberania, são um tripé estratégico que se retroalimenta em um
esquema de pesos e contrapesos. Trazer a Defesa para o centro é tratá-la com
comando civil, orientada pela constituição, e transparência.
Por
fim, a tradição da política externa brasileira precisa manter a não
intervenção, a defesa da autodeterminação dos povos e da paz, da solução
negociada de conflitos e da necessidade da integração regional e da
multipolaridade. Porém, paz e multipolaridade exigem soberania e esta por sua
vez chama para a palavra Defesa.
Não
podemos confundir Defesa com belicismo, assim como não podemos aceitar que o
Brasil seja ameaçado, tutelado ou intimidado por uma potência estrangeira
governada por um assassino amigo de pedófilos.
Nossa
nação precisa de estratégia e capacidade de dissuasão que seja compatível com
seu tamanho, suas riquezas e com os imensos desafios que o mundo enfrenta no
século XXI. Construindo um modelo próprio, com a paz e o multilateralismo com
objetivo. A tarefa de defesa nacional deve ser prioridade e parte inseparável
de um projeto nacional, democrático, popular e capaz de mudar estruturalmente o
Brasil.
Fonte:
Por Gabriel Santos, em A Terra é Redonda

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