Eleições
2026: o que propõe Lula em seu programa?
A chapa
de Luiz Inácio Lula da Silva e Geraldo Alckmin protocolou no TSE, na última
sexta-feira (7), uma primeira versão de seu programa de governo. O documento,
intitulado “Diretrizes para o programa de transformação do Brasil: um país
soberano, democrático, desenvolvido, sustentável e criativo” trata, em suas 84
páginas, de 13 pontos temáticos: democracia, participação social e modernização
do Estado; combate às desigualdades; segurança pública; educação; saúde;
cultura e esportes; direito à cidade; sustentabilidade e digitalização da
economia; segurança alimentar e produção agrícola; segurança e transição
energética; sustentabilidade ambiental; trabalho; e, por fim, soberania
nacional e protagonismo internacional.
Embora
o texto, em sua maior parte, enfoque as iniciativas adotadas pelo atual governo
em resposta à situação herdada do governo anterior, há pontos que sugerem como
um eventual quarto mandato Lula seria. Em nota oficial, a coligação
Lula-Alckmin declarou que o programa “é mais do que um conjunto de propostas. É
um compromisso histórico com o futuro do Brasil. Um projeto construído para
responder aos desafios do nosso tempo sem abrir mão dos valores que sempre
orientaram o nosso país: democracia, desenvolvimento, soberania e justiça
social.”
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Defesa da soberania
Afirmando
que o mundo hoje vive um “ressurgimento do unilateralismo, do protecionismo e
de conflitos sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial”, com “tensões
geopolíticas crescentes e quebras das regras de convivência internacional”, o
programa reconhece que não há possibilidade de projeção internacional soberana
do Brasil sem capacidade de defesa. Por isso, diz que uma defesa baseada na
autonomia estratégica, inovação tecnológica, integração entre defesa e
desenvolvimento e combinação entre persuasão diplomática e capacidade
dissuasória exige um orçamento nacional que possibilite Forças Armadas bem
equipadas e uma indústria de defesa sólida. Afirma ainda que a Inteligência de
Estado, a cargo da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), deve ser fortalecida.
O
programa diz que as regiões de fronteira serão tratadas como espaços
estratégicos de integração e desenvolvimento, nos quais a presença do Estado,
na forma de infraestrutura, serviços públicos e cooperação com países vizinhos
deve aumentar. Declara também que a integração sul-americana é o “primeiro
círculo de projeção estratégica do Brasil”, e que espaços de integração
regional, como o Mercosul, serão aprofundados.
Diz
ainda que, num eventual quarto mandato, Lula buscará diversificar as parcerias
estratégicas do Brasil, e investirá em novos acordos comerciais e na abertura
de novos mercados como forma de enfrentar “agressões comerciais”. “Manteremos o
empenho na construção de uma ordem mundial mais justa e equilibrada, livre da
lógica da submissão, das imposições unilaterais e dos esquemas obsoletos de uma
nova Guerra Fria”, diz o documento, que promete aprofundar a aproximação
geopolítica com o BRICS, o Sul Global e o G20, “espaços fundamentais para a
afirmação dos interesses da maioria da humanidade”. O programa também afirma
que “rejeita a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à
soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas”.
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Economia
No
documento, o novo arcabouço fiscal, sancionado em agosto de 2023 para
substituir o teto de gastos do governo Temer, é tratado em luz positiva.
“Adotamos uma estratégia fiscal inovadora com o novo arcabouço fiscal, que
controlou o crescimento das despesas sem prejudicar a recomposição de gastos
sociais”. O programa afirma ainda que o governo Lula restabeleceu os pisos
constitucionais de saúde e educação – embora o atual ministro da Fazenda, Dario
Durigan, defenda que os pisos constitucionais sejam “revistos” para que o
arcabouço seja mantido.
De
fato, o programa promete manter o novo arcabouço fiscal no novo governo,
associando-o à busca pela redução da taxa de juros: “a taxa de juros é hoje o
que a inflação foi no passado no Brasil: promove concentração de renda e
desorganiza a nossa economia. Para impulsionar ainda mais os investimentos
produtivos e o crescimento econômico de longo prazo, vamos criar as condições
para uma redução sustentada das taxas de juros, com inflação controlada e
assegurando uma política fiscal responsável. Para isso, manteremos o novo
arcabouço fiscal, que controlou o crescimento das despesas sem prejudicar as
políticas sociais e permitiu uma redução significativa do déficit primário.”
Por
outro lado, promete elevar a taxa de investimento da economia, ampliando
particularmente os investimentos em infraestrutura logística e em
infraestrutura social. “Também continuaremos a incentivar os investimentos
privados na indústria, com foco em inovação e em setores portadores de futuro,
para que o Brasil avance posições na corrida tecnológica global”, diz. No que
tange à indústria, se afirma o foco estratégico na “inovação, IA, minerais
críticos e outros ativos capazes de colocar o Brasil de uma vez por todas como
protagonista em áreas portadoras de futuro”. Para os minerais críticos e terras
raras, o programa afirma que uma política específica, capaz de organizar suas
cadeias produtivas, diferenciar seus usos tecnológicos e evitar a simples exportação
de matérias-primas será desenvolvida.
No que
tange à infraestrutura, o programa promete manter “o ritmo nas concessões
rodoviárias” e intensificar “as de ferrovias em duas frentes: leilão de novos
projetos e repactuação dos contratos existentes”. No tema da economia digital,
promete “fomentar o desenvolvimento do ecossistema nacional de tecnologia
digital, desde a cadeia de datacenters até os serviços de nuvem, com destaque
para o fortalecimento da inteligência artificial desenvolvida por empresas
brasileiras”. Promete também desenvolver e sustentar modelos de linguagem em
português e outras línguas, “apoiados numa plataforma nacional de dados para
treinamento e avaliação. Junto disso, estabeleceremos regras e infraestrutura
para uma economia de dados”.
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Segurança pública
Tema
que deve ser um dos principais focos da disputa eleitoral de outubro, a
segurança pública também tem destaque no programa da chapa Lula-Alckmin. A
principal medida defendida é o fortalecimento de um Sistema Nacional de
Segurança Pública a partir da aprovação da PEC da Segurança Pública (hoje
aguardando discussão no Senado), afim de compartilhar mais atribuições entre o
Executivo nacional, Estados e municípios. “Uma vez aprovada a PEC […] criaremos
o Ministério da Segurança Pública para coordenar, em articulação com os estados
e municípios, a execução das políticas nacionais de segurança pública no âmbito
do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP).” Propõe ainda consolidar o
Sistema de Inteligência de Segurança Pública e Justiça Criminal, modernizar o
Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP) e ampliar as Forças Integradas de Combate ao
Crime Organizado (FICCOs), as forças-tarefas permanentes coordenadas pela
Polícia Federal que reúnem órgãos de segurança federais e estaduais. Por fim,
traça a asfixia financeira como principal estratégia para o combate ao crime
organizado.
O
programa também promete fortalecer o sistema penitenciário federal, “ampliando
sua capacidade operacional e de isolamento de lideranças criminosas”, e
implantar um protocolo nacional de classificação e transferência de presos de
alta periculosidade, “baseado em critérios objetivos e evidências”, e cita a
manutenção das Forças Armadas nas fronteiras amazônicas e na Pan-Amazônia, bem
como investimentos em radares, drones, sensores, imagens de satélite e centros integrados de comando e controle como
parte das medidas voltadas à segurança pública.
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Política
O
programa caracteriza a reforma política e eleitoral como uma medida “inadiável
para superar a dissociação entre a representação política e a composição real
da sociedade brasileira, para fortalecer a democracia brasileira, e recuperar a
confiança no sistema político”.
Trata
também das emendas parlamentares, consideradas uma “grave distorção na
elaboração e gestão do orçamento federal”, que, segundo o programa, serão
enfrentadas: “as emendas impositivas e o orçamento secreto são práticas que
mudaram as relações entre o Executivo e o Legislativo, sequestram o orçamento
público, dispersam os recursos e reduzem a eficiência alocativa.”
Também
na seção dedicada à promoção da democracia, o programa propõe avançar na
regulação democrática das redes sociais e das plataformas digitais, “de modo a
impedir que elas difundam desinformação, acolham campanhas de ódio e outras
formas de comunicação nocivas para a democracia.”
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Trabalho
O
programa firma o compromisso do próximo governo de manter sua ação junto ao
Senado para assegurar o fim da escala 6×1 e a redução da jornada de trabalho
para 40 horas, sem redução salarial. Também promete alterar regras trabalhistas
que “induzem a precarização das condições de trabalho, os marcos regressivos
contidos na legislação, as fraudes presentes em muitas terceirizações […]
retomando assistência sindical nas homologações de rescisão do contrato de
trabalho.” Diz também que tornará obrigatória a execução de Planos de Ação nas
empresas com desigualdades salariais entre homens e mulheres.
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Outras medidas
O tema
da educação é um dos poucos em que metas claras aparecem. Um exemplo é o tema
da alfabetização infantil. Reconhecendo que a estratégia nacional voltada à
alfabetização infantil alcançou em 2025 a marca de 66% das crianças
alfabetizadas na idade certa, o programa promete chegar à meta de 80% num
próximo mandato. Afirma também que “o fomento à expansão da educação em tempo
integral terá absoluta prioridade no novo mandato” e promete universalizar o
acesso à internet de qualidade nas escolas brasileiras.
Na
saúde, o programa promete consolidar no Brasil “a maior rede pública de cuidado
ao câncer do mundo”.
Na
cultura, promete trabalhar pela aprovação de uma regulamentação do streaming e
consolidar uma política industrial para o setor audiovisual. Também afirma que
o governo trabalhará por uma lei do direito autoral em ambiente digital e na
regulamentação da inteligência artificial, “para que músicos, autores e
artistas sejam pagos quando as plataformas usarem conteúdo brasileiro”. No que
trata do esporte, a principal novidade prometida é a implementação da
Universidade do Esporte, aprovada no Congresso Nacional, “para formar quadros
técnicos e democratizar o acesso ao esporte”.
Na
questão agrária, o programa promete ampliar o fomento à produção nacional de
bioinsumos e fertilizantes para reduzir a dependência de fertilizantes químicos
importados, e promete avançar na política de reforma agrária, “assentando as
famílias acampadas, estruturando os assentamentos e ampliando o acesso ao
crédito fundiário”. Também destaca a regularização fundiária, especialmente na
região Norte, como essencial, assim como a titulação dos territórios
quilombolas e a regularização fundiária das comunidades tradicionais. Por outro
lado, se compromete a seguir ampliando os recursos do Plano Safra – o deste ano
(2026-27) mais uma vez alcançou um volume recorde, com de 521,1 bilhões ao
agronegócio e 97,3 bilhões à agricultura familiar.
• Lula faz acenos ao agronegócio em novo
plano de governo
O novo
programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) passou a
tratar o agronegócio com maior destaque econômico e financeiro, em contraste
com o texto apresentado na campanha de 2022, quando a proposta vinculava o
setor sobretudo à segurança alimentar, à sustentabilidade e à reforma agrária.
A
mudança ocorre em meio às tentativas do governo de ampliar pontes com o setor,
historicamente mais próximo de forças conservadoras e hoje disputado por
adversários de Lula na corrida presidencial.
No
texto mais recente, o agronegócio aparece como peça central para o desempenho
comercial do país. O programa afirma que “o agronegócio é fundamental para o
desempenho de nossa balança comercial e para a evolução do PIB nacional”. A
proposta também defende que o avanço do setor dependa de “políticas que
integrem a eficiência produtiva à sustentabilidade ambiental e à inovação
tecnológica”.
O
documento ainda aponta a necessidade de agregar valor às exportações
brasileiras. Segundo o plano, “adicionar valor à pauta exportadora é um desafio
que precisamos avançar ainda mais, diminuindo de forma relativa a primarização
das relações comerciais brasileiras”.
A
mudança de linguagem ocorre após o Brasil enfrentar um tarifaço imposto pelo
governo Donald Trump. A cobrança parte hoje de uma base de 25%, mas chegou a
50% no ano passado. Depois de articulação do governo, com apoio considerado
determinante do agronegócio, foram abertas exceções para carne, café e suco de
laranja.
Em
2022, o programa de Lula adotava outra ênfase. O texto tratava o agro dentro de
uma agenda mais associada à produção de alimentos, ao papel social da
agricultura e à reorganização do modelo produtivo. À época, a proposta dizia
que “o fortalecimento da produção agrícola, nas frentes da agricultura
familiar, agricultura tradicional e do agronegócio sustentável, é estratégico
para repensar o padrão de produção e consumo e a matriz produtiva nacional, com
vistas a oferecer alimentação saudável para a população”.
O plano
anterior também vinculava a produção rural à superação da fome, meta que,
segundo a matéria, foi alcançada em julho de 2025 com a retirada do Brasil do
Mapa da Fome. Outro trecho afirmava que “a produção agrícola e pecuária é
decisiva para a segurança alimentar e para a economia brasileira, um setor
estratégico para a nossa balança comercial”.
Na
sequência, o documento de 2022 defendia uma produção agropecuária comprometida
com responsabilidades ambientais e sociais. “Precisamos avançar rumo a uma
agricultura e uma pecuária comprometidas com a sustentabilidade ambiental e
social. Sem isso, perderemos espaço no mercado externo e não contribuiremos
para superar a fome e o acesso a alimentos saudáveis dentro e fora das nossas
fronteiras”, dizia o texto.
A
proposta daquele ano também mencionava a redução dos custos de produção e dos
preços dos alimentos, o estímulo à produção orgânica e agroecológica e a
“democratização na posse e uso da terra”.
Agora,
o programa de um eventual quarto mandato de Lula inclui com mais força a pauta
do financiamento ao setor rural. O texto promete diversificar fontes de
recursos e facilitar o acesso ao crédito. “Buscaremos também continuar
diversificando as fontes de financiamento, estimulando o mercado de capitais e
títulos do agronegócio. Haverá medidas para simplificar ainda mais o acesso ao
crédito, com processos menos burocráticos e critérios claros”, afirma o
documento.
A
ciência e a tecnologia também aparecem conectadas ao agronegócio. Ao tratar de
inovação, o plano diz que a estratégia depende de uma rede de instituições
capazes de financiar modernização produtiva, sustentar pesquisa e
desenvolvimento tecnológico e “conectar a ciência ao agronegócio e à indústria,
inovando a ampliando a produtividade”.
Apesar
dos acenos, a relação de Lula com o setor rural segue como um desafio político.
O tema é explorado por adversários como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo)
e Flávio Bolsonaro (PL). Em iniciativas voltadas ao agro, o presidente tem
feito anúncios de interesse do setor, como uma linha de crédito para produtores
rurais endividados, mas nem sempre comparece aos eventos da área.
Em
diversas agendas federais relacionadas ao agronegócio, o governo tem sido
representado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin, ex-ministro da Indústria,
Comércio e Serviços e interlocutor com maior trânsito entre representantes do
setor.
Neste
ano, Lula não participou do lançamento do Plano Safra voltado à agricultura
empresarial, realizado pela manhã, por estar em viagem oficial ao Paraguai. O
presidente voltou ao Brasil no mesmo dia e compareceu à cerimônia destinada aos
pequenos produtores rurais, público com o qual mantém maior alinhamento
político.
O novo
conjunto de propostas foi apresentado na sexta-feira (7). Além do agronegócio,
o programa prevê mudanças no sistema de emendas parlamentares e reforça
bandeiras do PT, como defesa da soberania nacional, regulamentação das redes
sociais e fim da escala 6×1.
Fonte:
Por Pedro Marin, para Opera Mundi/Brasil 247

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