sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Celso Amorim rebate oposição sobre atritos com Casa Branca terem razões ideológicas

Deputados da oposição e o assessor especial da presidência da República, embaixador Celso Amorim, divergiram em comissão na Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira (12/08), sobre os atritos recentes nas relações bilaterais entre Brasil e Estados Unidos (EUA).

De um lado, Amorim argumentou que as ações dos EUA contra o Brasil, como o recente tarifaço, têm motivação política. Segundo ele, a Casa Branca sob Donald Trump tenta subordinar a América Latina aos interesses do país norte-americano.

“O presidente Lula tem sido firme em reiterar que não aceitaremos que medidas unilaterais sejam utilizadas como pretexto para relativizar a soberania nacional ou impor constrangimentos econômicos para o nosso país”, destacou.

O embaixador citou vídeo publicado pela diplomacia estadunidense, na terça-feira (11/08), em que afirma que a dominação dos EUA sobre a América Latina não deve ser questionada.

“Quem tiver visto o vídeo que foi divulgado ontem pelo Departamento de Estado, e lido pelo embaixador dos EUA no Panamá, verá que o que se quer fazer justamente é relativizar a soberania dos países latino-americanos em geral. Inclusive, naturalmente, o Brasil”, completou.

De outro lado, parlamentares da oposição tentaram responsabilizar o governo do Brasil pelas ações do governo Trump, como sustentou o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara, deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança (PL-SP).

“A atual conversão do Brics em uma linha de frente anti-ocidental demonstra um padrão sistemático de anti-americanismo, que priorizou o debate retórico e a vaidade pessoal em detrimento do pragmatismo comercial estratégico do Estado brasileiro”, afirmou o parlamentar.

O Brics é um grupo político e econômico formado por grandes países emergentes. Entre eles, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Os membros do Brics costumam negar ser um grupo anti-ocidental, citando inclusive a participação da Índia, país historicamente próximo dos EUA.

O deputado Luiz Philippe ainda pediu que o governo brasileiro “destrave” a concessão do visto diplomático ao indicado pela Casa Branca para ser embaixador no Brasil, de Daniel Pérez. A demora levou os EUA a cancelar o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti.

Já o deputado Marcel Van Hatten (Novo-RS) sustentou que houve uma “agressão à soberania dos EUA” por parte do Brasil devido, entre outros motivos, ao bloqueio de contas de empresas estadunidenses no caso do processo envolvendo a rede social X, que se negou a cumprir decisões judiciais do Brasil.

“O que nós estamos vendo é uma agressão brasileira à soberania americana. Dizer que o tarifaço não tem relação com o que o Brasil está fazendo com os EUA é maquiar os fatos”, disse.

O assessor especial da presidência da República Celso Amorim rebateu a tese de que os atritos com a Casa Branca teriam razões ideológicas. Segundo o embaixador, o Brasil está aberto a negociar com qualquer governo, independente das posições políticas.

O embaixador brasileiro acrescentou que o governo federal decidiu não conceder vistos diplomáticos a representantes estrangeiros, de qualquer país, até as eleições de outubro. Ele classificou como “bizarra” a divulgação do indicado para embaixador dos EUA no Brasil antes do Itamaraty aceitar o pedido, o que contraria os tratados internacionais.

“Os EUA ficaram mais de um ano e meio sem embaixador aqui depois que saiu a embaixadora do governo [Joe] Biden. Ficava aqui um encarregado de negócios [dos EUA]. De repente, na proximidade das eleições, às pressas, sem o nosso consentimento, querem creditar outro embaixador”, comentou.

Para o governo brasileiro, existe uma tentativa de Donald Trump de interferir nas eleições brasileiras.

<><> Facções criminosas

O embaixador Celso Amorim foi convidado à Comissão de Relações Exteriores da Câmara para comentar, entre outros assuntos, a decisão dos EUA de classificar as facções criminosas do Brasil como organizações terroristas.

O assessor presidencial explicou que a medida não pode ser descontextualizada das ações recentes da Casa Branca e do momento que o mundo vive. Para o Planalto, a decisão pode ser usada como pretexto para intervenções externas no Brasil, inclusive militares.

“Não se pode ignorar que determinadas interpretações extremas da classificação como terrorista ou narcoterrorista já foram utilizadas para justificar operações de força em outros contextos internacionais”, disse.

Para Amorim, a classificação pode ser manipulada geopoliticamente para interferir nos assuntos internos do Brasil e, por isso, o governo brasileiro tem se posicionado contra essa designação por parte da Casa Branca.

“De acordo com a lei americana, o fato de ser classificada como terrorista, dá poder aos EUA para agir militarmente. Não falo nem só da Venezuela, mas mesmo os mais de 200 que morreram em operações no Pacífico e no Caribe, e sem nenhuma preocupação sequer de prova”, disse.

Amorim se referiu aos ataques dos EUA contra lanchas e embarcações alegando, sem provas, tratar-se de tráfico internacional de drogas.

Pelo outro lado, a oposição defendeu a posição norte-americana sobre as facções no Brasil e criticou o governo por se opor à decisão do governo Trump, como sustentou o deputado General Girão (PL-RN).

“Existe um medo de que as forças especiais americanas entrem aqui no Brasil para pegar os criminosos que estão associados aos terroristas”, justificou o parlamentar.

Amorim rebateu que soberania é o próprio Brasil combater o problema. “Não é chamar ou permitir que venha um russo, americano ou um chinês fazer isso”, respondeu.

Amorim ainda lembrou que a designação das facções como terroristas pode trazer prejuízos econômicos para o país, e que é “total” o desejo do governo de combater o crime organizado.

“Agora, nós não queremos de maneira alguma subordinar a nossa soberania à presença de outros países. Nem da China, nem dos EUA, nem da Rússia, nem de nenhum deles. Isso aqui é uma questão brasileira”, pontuou.

•        Brasil não pode admitir uso de terrorismo como pretexto para intervenção, diz Amorim

O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, alertou nesta quarta-feira (12), para os riscos à segurança nacional decorrentes da classificação, pelos Estados Unidos, do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

Segundo Amorim, em fala realizada durante audiência na Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados, a designação já foi usada anteriormente contra um país vizinho para justificar o uso da força, e a medida adotada por Washington deve ser analisada à luz dessa experiência.

Em fevereiro de 2025, os EUA designaram o grupo narcotraficante Tren de Aragua como organização terrorista. Em novembro do mesmo ano, foi a vez do suposto Cartel de los Soles, do qual faria parte inclusive o presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Em janeiro de 2026, Maduro e sua esposa Cilia Flores foram sequestrados por militares norte-americanos e levados a Nova York, onde a acusação de participar de um cartel de drogas foi retirada da acusação judicial.

Os riscos também ocorrem, disse o assessor especial, pelas diferentes definições e entendimentos de terrorismo, como com grupos armados na Irlanda e no Oriente Médio voltados à libertação nacional.

"Se quiser, em um vocabulário comum comparar essas ações como forma de terrorismo, é uma liberdade que cada um pode ter. Agora, o terrorismo na área internacional, pela definição específica, a ONU [Organização das Nações Unidas] se dedica a isso, e é difícil se chegar a uma definição porque há também diferenças."

Para Amorim, o que não pode acontecer é a classificação ser usada por outro país como justificativa para uma intervenção militar no Brasil.

© telegram SputnikBrasil

"O que não podemos admitir é que um terceiro país utilize isso como pretexto contra para, passando por várias ações, mas chegando no cúmulo, a ação militar."

Amorim defendeu maior cooperação internacional, mas sem intervenção estrangeira. Segundo ele, "a colaboração internacional autêntica será sempre bem-vinda, e o Brasil permanece aberto à construção de soluções conjuntas, preservando a soberania".

O assessor reconheceu o grande impacto do crime organizado sobre a vida dos brasileiros e afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva possui um plano robusto para combater de forma efetiva o crime organizado, inclusive por meio de cooperação com os Estados Unidos.

<><> Indicação de embaixador dos EUA foi 'bizarra'

O assessor especial para Assuntos Internacionais foi questionado sobre o estado atual da relação entre Brasil e Estados Unidos. Amorim, que manteve relações com autoridades estadunidenses ao longo de sua carreira diplomática, criticou a implementação de tarifas contra o Brasil — as tarifas são totalmente contrárias às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) — e comentou a indicação de Daniel Perez para o cargo de embaixador em Brasília.

© telegram SputnikBrasil

Segundo Amorim, a indicação foi "rejeitada" por violar os padrões estabelecidos pela Convenção de Viena. Diante do termo, ele explicou que usa a mesma expressão empregada pela imprensa norte-americana para se referir ao episódio e reforçou que o agrément não foi recusado e que não será concedido em nenhum país durante o período eleitoral.

O assessor explicou que a concessão de agrément é regulada pela Convenção de Viena, aceita pelos Estados Unidos, e que o pedido deve ser feito de forma sigilosa para evitar uma possível crise diplomática. A liturgia não foi seguida por Washington.

"O que aconteceu, bizarramente, foi que os EUA não seguiram de maneira nenhuma. Primeiro eles deram publicidade antes da concessão do agrément, e talvez o mais grave, eles prosseguiram com o processo dentro do Senado americano, sem ter o agrément brasileiro."

O diplomata ressaltou que isso acontece após mais de um ano e meio sem um embaixador norte-americano no Brasil. Em meio ao impasse, o governo estadunidense revogou, em parte, o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

<><> Multipolaridade e proximidade com a Rússia

Durante sua fala na CREDN, Amorim explicou que o Brasil defende uma ordem multipolar global, sem alinhamentos automáticos. "O Brasil tem uma posição de neutralidade" e defende maior cooperação internacional, sem intervenção, preservando a soberania nacional, disse.

Um exemplo dos benefícios desse tipo de posicionamento, ressaltou Amorim, é a posição de destaque do Brasil na diplomacia mundial, sendo procurado por países europeus para mediar conversas com a Rússia.

"Eu tenho sido procurado, eu pessoalmente, em alguns casos o presidente, em outros casos outros funcionários, mas eu posso falar do que eu sei, por embaixadores e ministros de países da Europa Ocidental que pedem a nossa interlocução com a Rússia, porque dizem que o Brasil é um dos pouquíssimos países que tem interlocução com o Ocidente e com a Rússia.

Em 2022, com o início da operação militar especial da Rússia, a Europa optou por unilateralmente abandonar a relação com Moscou e adotar uma política de confronto e sanções, sem pensar no próprio interesse e bem-estar de seus cidadãos.

•        Vieira: atores golpistas invertem responsabilidade e tentam culpar Brasil por agressões estrangeiras

O ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, escreveu um artigo no qual afirma que atores golpistas "invertem" a responsabilidade sobre as agressões recentes ao Brasil. Sem citar nomes, o chanceler comentou os episódios do tarifaço dos EUA e as falas do presidente da Argentina, Javier Milei, sobre Luiz Inácio Lula da Silva.

Publicado pelo Correio Braziliense, Vieira inicia o artigo afirmando que os recentes ataques sofridos por figuras públicas e pelo Poder Judiciário "ilustram a dimensão" do desafio atual para a diplomacia e para a sociedade brasileira.

"Trata-se de comportamentos grosseiros e sem precedentes de líderes estrangeiros, com ataques frontais à nossa soberania e ao nosso regime democrático, […] ainda que as motivações não cheguem a constituir novidade histórica: tentar impor novamente ao mundo uma lógica de lei da selva e de subordinação."

Segundo o chanceler brasileiro, o mundo mudou para pior na era das redes sociais, ricocheteando também nas relações internacionais. Viera salienta que os ataques "inauditos e virulentos" são, "em alguns casos, instigados por brasileiros que abertamente conspiram contra o interesse nacional".

Sem citar nomes, o ministro das Relações Exteriores se refere a Eduardo Bolsonaro, que usou as redes sociais ao longo dos últimos meses para compartilhar vídeos mostrando que estava agindo contra o Poder Judiciário brasileiro nos Estados Unidos. Uma das motivações para as sanções econômicas às exportações do Brasil, inclusive, segundo Washington, foi a suposta perseguição judicial ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

"Percebo, no debate dos últimos dias, a tentativa de alguns de inverter a responsabilidade pelos atos hostis, que é de única e exclusiva responsabilidade de governantes e governos estrangeiros que os praticam, e a ninguém mais. Estão de volta os mesmos atores políticos e sociais que fracassaram na implementação de um golpe de Estado no Brasil e voltaram a fracassar na tentativa de maquiar ou normalizar o golpe, frustrado pela pronta ação das instituições e da sociedade brasileira."

Vieira afirma que a diplomacia do Brasil conquistou respeito ao longo de gerações por ter leituras lúcidas dos sinais recebidos da sociedade brasileira e do mundo. Dessa forma, o chanceler entende que o país deva responder de maneira enérgica a ações que ataquem "nossa soberania e as nossas instituições".

"Esses mesmos atores [golpistas] agora tentam responsabilizar o governo brasileiro pelas agressões de que é alvo e polemizar a respeito da resposta proporcional do Brasil tanto às agressões recebidas como às declaradas manobras de ingerência externa."

Em um trecho direcionado ao presidente Milei, mesmo sem citá-lo nominalmente, Vieira declarou que "agredir, ameaçar, proferir insultos ao anfitrião, seja na casa, seja no país de quem acolhe a visita" é uma atitude condenável, "e nada mudará essa realidade". O chefe do Itamaraty acrescentou, nesse contexto de reprovação, "conspirar contra a própria pátria no exterior".

"Tentam bater no Brasil por meio de autoridades estrangeiras e depois esconder a mão. Não vai funcionar: o brasileiro está atento, conhece bem a sua história e não abre mão de conduzir os destinos do próprio país. Não será governado por controle remoto a partir de uma capital estrangeira."

 

Fonte: Agencia Brasil/Sputnik Brasil

 

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