Celso
Amorim rebate oposição sobre atritos com Casa Branca terem razões ideológicas
Deputados
da oposição e o assessor especial da presidência da República, embaixador Celso
Amorim, divergiram em comissão na Câmara dos Deputados, nesta quarta-feira
(12/08), sobre os atritos recentes nas relações bilaterais entre Brasil e
Estados Unidos (EUA).
De um
lado, Amorim argumentou que as ações dos EUA contra o Brasil, como o recente
tarifaço, têm motivação política. Segundo ele, a Casa Branca sob Donald Trump
tenta subordinar a América Latina aos interesses do país norte-americano.
“O
presidente Lula tem sido firme em reiterar que não aceitaremos que medidas
unilaterais sejam utilizadas como pretexto para relativizar a soberania
nacional ou impor constrangimentos econômicos para o nosso país”, destacou.
O
embaixador citou vídeo publicado pela diplomacia estadunidense, na terça-feira
(11/08), em que afirma que a dominação dos EUA sobre a América Latina não deve
ser questionada.
“Quem
tiver visto o vídeo que foi divulgado ontem pelo Departamento de Estado, e lido
pelo embaixador dos EUA no Panamá, verá que o que se quer fazer justamente é
relativizar a soberania dos países latino-americanos em geral. Inclusive,
naturalmente, o Brasil”, completou.
De
outro lado, parlamentares da oposição tentaram responsabilizar o governo do
Brasil pelas ações do governo Trump, como sustentou o presidente da Comissão de
Relações Exteriores da Câmara, deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança
(PL-SP).
“A
atual conversão do Brics em uma linha de frente anti-ocidental demonstra um
padrão sistemático de anti-americanismo, que priorizou o debate retórico e a
vaidade pessoal em detrimento do pragmatismo comercial estratégico do Estado
brasileiro”, afirmou o parlamentar.
O Brics
é um grupo político e econômico formado por grandes países emergentes. Entre
eles, Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul. Os membros do Brics
costumam negar ser um grupo anti-ocidental, citando inclusive a participação da
Índia, país historicamente próximo dos EUA.
O
deputado Luiz Philippe ainda pediu que o governo brasileiro “destrave” a
concessão do visto diplomático ao indicado pela Casa Branca para ser embaixador
no Brasil, de Daniel Pérez. A demora levou os EUA a cancelar o visto da
embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Viotti.
Já o
deputado Marcel Van Hatten (Novo-RS) sustentou que houve uma “agressão à
soberania dos EUA” por parte do Brasil devido, entre outros motivos, ao
bloqueio de contas de empresas estadunidenses no caso do processo envolvendo a
rede social X, que se negou a cumprir decisões judiciais do Brasil.
“O que
nós estamos vendo é uma agressão brasileira à soberania americana. Dizer que o
tarifaço não tem relação com o que o Brasil está fazendo com os EUA é maquiar
os fatos”, disse.
O
assessor especial da presidência da República Celso Amorim rebateu a tese de
que os atritos com a Casa Branca teriam razões ideológicas. Segundo o
embaixador, o Brasil está aberto a negociar com qualquer governo, independente
das posições políticas.
O
embaixador brasileiro acrescentou que o governo federal decidiu não conceder
vistos diplomáticos a representantes estrangeiros, de qualquer país, até as
eleições de outubro. Ele classificou como “bizarra” a divulgação do indicado
para embaixador dos EUA no Brasil antes do Itamaraty aceitar o pedido, o que
contraria os tratados internacionais.
“Os EUA
ficaram mais de um ano e meio sem embaixador aqui depois que saiu a embaixadora
do governo [Joe] Biden. Ficava aqui um encarregado de negócios [dos EUA]. De
repente, na proximidade das eleições, às pressas, sem o nosso consentimento,
querem creditar outro embaixador”, comentou.
Para o
governo brasileiro, existe uma tentativa de Donald Trump de interferir nas
eleições brasileiras.
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Facções criminosas
O
embaixador Celso Amorim foi convidado à Comissão de Relações Exteriores da
Câmara para comentar, entre outros assuntos, a decisão dos EUA de classificar
as facções criminosas do Brasil como organizações terroristas.
O
assessor presidencial explicou que a medida não pode ser descontextualizada das
ações recentes da Casa Branca e do momento que o mundo vive. Para o Planalto, a
decisão pode ser usada como pretexto para intervenções externas no Brasil,
inclusive militares.
“Não se
pode ignorar que determinadas interpretações extremas da classificação como
terrorista ou narcoterrorista já foram utilizadas para justificar operações de
força em outros contextos internacionais”, disse.
Para
Amorim, a classificação pode ser manipulada geopoliticamente para interferir
nos assuntos internos do Brasil e, por isso, o governo brasileiro tem se
posicionado contra essa designação por parte da Casa Branca.
“De
acordo com a lei americana, o fato de ser classificada como terrorista, dá
poder aos EUA para agir militarmente. Não falo nem só da Venezuela, mas mesmo
os mais de 200 que morreram em operações no Pacífico e no Caribe, e sem nenhuma
preocupação sequer de prova”, disse.
Amorim
se referiu aos ataques dos EUA contra lanchas e embarcações alegando, sem
provas, tratar-se de tráfico internacional de drogas.
Pelo
outro lado, a oposição defendeu a posição norte-americana sobre as facções no
Brasil e criticou o governo por se opor à decisão do governo Trump, como
sustentou o deputado General Girão (PL-RN).
“Existe
um medo de que as forças especiais americanas entrem aqui no Brasil para pegar
os criminosos que estão associados aos terroristas”, justificou o parlamentar.
Amorim
rebateu que soberania é o próprio Brasil combater o problema. “Não é chamar ou
permitir que venha um russo, americano ou um chinês fazer isso”, respondeu.
Amorim
ainda lembrou que a designação das facções como terroristas pode trazer
prejuízos econômicos para o país, e que é “total” o desejo do governo de
combater o crime organizado.
“Agora,
nós não queremos de maneira alguma subordinar a nossa soberania à presença de
outros países. Nem da China, nem dos EUA, nem da Rússia, nem de nenhum deles.
Isso aqui é uma questão brasileira”, pontuou.
• Brasil não pode admitir uso de
terrorismo como pretexto para intervenção, diz Amorim
O
assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais,
Celso Amorim, alertou nesta quarta-feira (12), para os riscos à segurança
nacional decorrentes da classificação, pelos Estados Unidos, do Primeiro
Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações
terroristas.
Segundo
Amorim, em fala realizada durante audiência na Comissão de Relações Exteriores
e de Defesa Nacional (CREDN) da Câmara dos Deputados, a designação já foi usada
anteriormente contra um país vizinho para justificar o uso da força, e a medida
adotada por Washington deve ser analisada à luz dessa experiência.
Em
fevereiro de 2025, os EUA designaram o grupo narcotraficante Tren de Aragua
como organização terrorista. Em novembro do mesmo ano, foi a vez do suposto
Cartel de los Soles, do qual faria parte inclusive o presidente venezuelano,
Nicolás Maduro. Em janeiro de 2026, Maduro e sua esposa Cilia Flores foram
sequestrados por militares norte-americanos e levados a Nova York, onde a
acusação de participar de um cartel de drogas foi retirada da acusação
judicial.
Os
riscos também ocorrem, disse o assessor especial, pelas diferentes definições e
entendimentos de terrorismo, como com grupos armados na Irlanda e no Oriente
Médio voltados à libertação nacional.
"Se
quiser, em um vocabulário comum comparar essas ações como forma de terrorismo,
é uma liberdade que cada um pode ter. Agora, o terrorismo na área
internacional, pela definição específica, a ONU [Organização das Nações Unidas]
se dedica a isso, e é difícil se chegar a uma definição porque há também
diferenças."
Para
Amorim, o que não pode acontecer é a classificação ser usada por outro país
como justificativa para uma intervenção militar no Brasil.
©
telegram SputnikBrasil
"O
que não podemos admitir é que um terceiro país utilize isso como pretexto
contra para, passando por várias ações, mas chegando no cúmulo, a ação
militar."
Amorim
defendeu maior cooperação internacional, mas sem intervenção estrangeira.
Segundo ele, "a colaboração internacional autêntica será sempre bem-vinda,
e o Brasil permanece aberto à construção de soluções conjuntas, preservando a
soberania".
O
assessor reconheceu o grande impacto do crime organizado sobre a vida dos
brasileiros e afirmou que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva
possui um plano robusto para combater de forma efetiva o crime organizado,
inclusive por meio de cooperação com os Estados Unidos.
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Indicação de embaixador dos EUA foi 'bizarra'
O
assessor especial para Assuntos Internacionais foi questionado sobre o estado
atual da relação entre Brasil e Estados Unidos. Amorim, que manteve relações
com autoridades estadunidenses ao longo de sua carreira diplomática, criticou a
implementação de tarifas contra o Brasil — as tarifas são totalmente contrárias
às regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) — e comentou a indicação de
Daniel Perez para o cargo de embaixador em Brasília.
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Segundo
Amorim, a indicação foi "rejeitada" por violar os padrões
estabelecidos pela Convenção de Viena. Diante do termo, ele explicou que usa a
mesma expressão empregada pela imprensa norte-americana para se referir ao
episódio e reforçou que o agrément não foi recusado e que não será concedido em
nenhum país durante o período eleitoral.
O
assessor explicou que a concessão de agrément é regulada pela Convenção de
Viena, aceita pelos Estados Unidos, e que o pedido deve ser feito de forma
sigilosa para evitar uma possível crise diplomática. A liturgia não foi seguida
por Washington.
"O
que aconteceu, bizarramente, foi que os EUA não seguiram de maneira nenhuma.
Primeiro eles deram publicidade antes da concessão do agrément, e talvez o mais
grave, eles prosseguiram com o processo dentro do Senado americano, sem ter o
agrément brasileiro."
O
diplomata ressaltou que isso acontece após mais de um ano e meio sem um
embaixador norte-americano no Brasil. Em meio ao impasse, o governo
estadunidense revogou, em parte, o visto da embaixadora brasileira em
Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.
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Multipolaridade e proximidade com a Rússia
Durante
sua fala na CREDN, Amorim explicou que o Brasil defende uma ordem multipolar
global, sem alinhamentos automáticos. "O Brasil tem uma posição de
neutralidade" e defende maior cooperação internacional, sem intervenção,
preservando a soberania nacional, disse.
Um
exemplo dos benefícios desse tipo de posicionamento, ressaltou Amorim, é a
posição de destaque do Brasil na diplomacia mundial, sendo procurado por países
europeus para mediar conversas com a Rússia.
"Eu
tenho sido procurado, eu pessoalmente, em alguns casos o presidente, em outros
casos outros funcionários, mas eu posso falar do que eu sei, por embaixadores e
ministros de países da Europa Ocidental que pedem a nossa interlocução com a
Rússia, porque dizem que o Brasil é um dos pouquíssimos países que tem
interlocução com o Ocidente e com a Rússia.
Em
2022, com o início da operação militar especial da Rússia, a Europa optou por
unilateralmente abandonar a relação com Moscou e adotar uma política de
confronto e sanções, sem pensar no próprio interesse e bem-estar de seus
cidadãos.
• Vieira: atores golpistas invertem
responsabilidade e tentam culpar Brasil por agressões estrangeiras
O
ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, escreveu um artigo no
qual afirma que atores golpistas "invertem" a responsabilidade sobre
as agressões recentes ao Brasil. Sem citar nomes, o chanceler comentou os
episódios do tarifaço dos EUA e as falas do presidente da Argentina, Javier
Milei, sobre Luiz Inácio Lula da Silva.
Publicado
pelo Correio Braziliense, Vieira inicia o artigo afirmando que os recentes
ataques sofridos por figuras públicas e pelo Poder Judiciário "ilustram a
dimensão" do desafio atual para a diplomacia e para a sociedade
brasileira.
"Trata-se
de comportamentos grosseiros e sem precedentes de líderes estrangeiros, com
ataques frontais à nossa soberania e ao nosso regime democrático, […] ainda que
as motivações não cheguem a constituir novidade histórica: tentar impor
novamente ao mundo uma lógica de lei da selva e de subordinação."
Segundo
o chanceler brasileiro, o mundo mudou para pior na era das redes sociais,
ricocheteando também nas relações internacionais. Viera salienta que os ataques
"inauditos e virulentos" são, "em alguns casos, instigados por
brasileiros que abertamente conspiram contra o interesse nacional".
Sem
citar nomes, o ministro das Relações Exteriores se refere a Eduardo Bolsonaro,
que usou as redes sociais ao longo dos últimos meses para compartilhar vídeos
mostrando que estava agindo contra o Poder Judiciário brasileiro nos Estados
Unidos. Uma das motivações para as sanções econômicas às exportações do Brasil,
inclusive, segundo Washington, foi a suposta perseguição judicial ao
ex-presidente Jair Bolsonaro.
"Percebo,
no debate dos últimos dias, a tentativa de alguns de inverter a
responsabilidade pelos atos hostis, que é de única e exclusiva responsabilidade
de governantes e governos estrangeiros que os praticam, e a ninguém mais. Estão
de volta os mesmos atores políticos e sociais que fracassaram na implementação
de um golpe de Estado no Brasil e voltaram a fracassar na tentativa de maquiar
ou normalizar o golpe, frustrado pela pronta ação das instituições e da
sociedade brasileira."
Vieira
afirma que a diplomacia do Brasil conquistou respeito ao longo de gerações por
ter leituras lúcidas dos sinais recebidos da sociedade brasileira e do mundo.
Dessa forma, o chanceler entende que o país deva responder de maneira enérgica
a ações que ataquem "nossa soberania e as nossas instituições".
"Esses
mesmos atores [golpistas] agora tentam responsabilizar o governo brasileiro
pelas agressões de que é alvo e polemizar a respeito da resposta proporcional
do Brasil tanto às agressões recebidas como às declaradas manobras de
ingerência externa."
Em um
trecho direcionado ao presidente Milei, mesmo sem citá-lo nominalmente, Vieira
declarou que "agredir, ameaçar, proferir insultos ao anfitrião, seja na
casa, seja no país de quem acolhe a visita" é uma atitude condenável,
"e nada mudará essa realidade". O chefe do Itamaraty acrescentou,
nesse contexto de reprovação, "conspirar contra a própria pátria no
exterior".
"Tentam
bater no Brasil por meio de autoridades estrangeiras e depois esconder a mão.
Não vai funcionar: o brasileiro está atento, conhece bem a sua história e não
abre mão de conduzir os destinos do próprio país. Não será governado por
controle remoto a partir de uma capital estrangeira."
Fonte:
Agencia Brasil/Sputnik Brasil

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