A
imigração e os dois racismos
Cerca
de 60 mil imigrantes entraram no enclave espanhol de Ceuta pelo Marrocos,
superando qualquer crise anterior na fronteira. A de 2021 envolveu seis mil
pessoas. Vinham de Guiné-Conacri, Mali, Senegal, Costa do Marfim, Camarões,
entre outros países da África Ocidental e Central.
O
episódio aparece na mídia como “crise migratória”. Tudo se passa como se fosse
um fenômeno isolado, um colapso repentino sem genealogia, como se
repentinamente uma nuvem de gafanhotos ameaçasse cobrir a Europa. O que bate na
porta dela hoje é a miséria fruto do colonialismo, produto tardio da partilha
da África acordada na Conferência de Berlim de 1884-1885. Convocada por
Bismarck, participaram Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, Portugal, Itália,
Espanha e outras potências. Os EUA foram como observadores. Nenhum africano foi
convidado.
Em
1870, cerca de 10% da África estava sob controle europeu. Em 1914, como
resultado da partilha, o percentual saltou para aproximadamente 90%. A
Inglaterra apossou-se de uma porção que ia do Cairo à Cidade do Cabo, Egito,
Sudão, Quênia, Uganda, Rodésia, África do Sul, somando algo em torno de 30% do
continente e um terço de sua população.
A
França apropriou-se de um bloco contínuo no Norte e no Oeste africanos,
Argélia, Marrocos, Tunísia, África Ocidental Francesa, África Equatorial
Francesa, controlando cerca de 35% do território. A Bélgica, por meio da posse
pessoal de Leopoldo II, anexou o Estado Livre do Congo, 2,3 milhões de km²,
oitenta vezes o território belga. Alemanha, Portugal, Itália e Espanha
dividiram o restante: Namíbia, Tanganica, Camarões, Angola, Moçambique e Guiné,
Líbia, Somália, Eritreia. A Espanha o Saara Ocidental, a Guiné Equatorial e o
entorno de Ceuta e Melilla. Apenas a Etiópia, vitoriosa sobre a Itália em Adwa,
em 1896, e a Libéria escaparam da colonização direta.
A
colonização da África foi um regime de extração organizado sobre o trabalho
forçado, a mutilação e o extermínio. No Congo de Leopoldo II, administrado como
propriedade privada do rei belga entre 1885 e 1908, foram impostas cotas de
trabalho às comunidades congolesas garantidas por um sistema de reféns,
incêndio de aldeias e amputação de mãos (como prova de munição não
desperdiçada). Cerca de 10 milhões de congoleses morreram entre 1885 e 1908
pela violência direta, fome e epidemias associadas ao colapso das economias de
subsistência.
Na
colonização alemã, atual Namíbia, após o levante dos povos herero e nama,
dezenas de milhares morreram em campos de concentração no deserto de Omaheke.
Em 2021 o Estado alemão reconheceu o genocídio. No mesmo padrão a repressão
francesa nas guerras de conquista do Magrebe e da África Ocidental, o trabalho
forçado no Império português (contrato angolano e moçambicano, sistema de
coerção que sobreviveu, sob outros nomes, até os anos 1960) e as políticas de
terra e tributação que desestruturaram economias camponesas inteiras sob
domínio britânico do Quênia à Nigéria.
A
miséria africana é fruto da espoliação sistemática, da extração de recursos e
de mão de obra sem reinvestimento correspondente, fronteiras traçadas a régua
sobre mapas europeus sem correspondência com fronteiras étnicas ou econômicas
pré-existentes, o que originou conflitos pós-coloniais e economias
reorganizadas em função exclusiva das metrópoles, monoculturas de exportação
incapazes de sustentar desenvolvimento autônomo.
A
colonização tinha um aparato ideológico que fazia do saque uma obra
civilizacional. O Ato Geral de Berlim invocava a obrigação de “velar pela
conservação das populações indígenas” e de promover “os benefícios da
civilização”. A expropriação de terras, o trabalho forçado e a destruição de
sistemas políticos africanos passava a ser uma obra pedagógica, sanitária e
religiosa.
Havia
uma base de racismo “científico”. Antropologia de raças, frenologia, darwinismo
social. A antropologia física media crânios e ângulos faciais. A frenologia
examinava a conformação do cérebro para aferir as aptidões e o vícios de cada
“raça”. O darwinismo social autorizava povos mais aptos a subjugar povos menos
inaptos. Na hierarquização da humanidade os africanos ficaram no degrau
inferior, incapazes de autogoverno e de progresso histórico autônomo.
Hoje,
quando africanos que vão de algum modo buscar um mínimo do que lhes roubaram,
pelo menos uma vida com alguma dignidade, os neofascistas, os Le Pen, Salvini,
Meloni, etc., reinventam o racismo. Mas é um neorracismo que tem duas vertentes
que evitam cuidadosamente o antigo racismo biológico ou científico. Uma
vertente associa a imigração à criminalidade, à violência, à insegurança. O
discurso da biologia cede lugar à estatística policial, o discurso da “ciência”
passa a ser o do “bom senso” em matéria de segurança pública. Outra vertente é
o “racismo diferencialista”.
Pierre-André
Taguieff identificou, já nos anos 1980, esse “racismo sem raça”, que denominou
de “racismo diferencialista”. Ele se apresenta como defesa de identidades
culturais ameaçadas que exigiriam separação e o “direito à diferença”. Em vez
de desigualdade biológica, incomensurabilidade cultural. O “somos superiores a
eles” converte-se em “não somos contra eles, apenas somos diferentes demais
para viver juntos”.
Étienne
Balibar situa esse racismo na descolonização: “O novo racismo é um racismo da
época da “descolonização”, do deslocamento dos movimentos de populações entre
antigas colônias e antigas metrópoles e da cisão da humanidade no interior de
um único espaço político. Do ponto de vista ideológico, o racismo atual,
centrado entre nós no complexo da imigração, se inscreve no quadro de um
“racismo sem raças” já amplamente desenvolvido fora da França, em especial nos
países anglo-saxões: um racismo cujo tema dominante não é a hereditariedade
biológica, mas a irredutibilidade das diferenças culturais; um racismo que, à
primeira vista, não postula a superioridade de alguns grupos ou povos em
relação a outros, mas “somente” o caráter nocivo da destruição das fronteiras,
a incompatibilidade dos gêneros de vida e das tradições – o que se pôde chamar,
com toda razão, de racismo diferencialista”.
Étienne
Balibar destaca ainda o que Pierre-André Taguieff descreve como o “efeito de
retaliação” do racismo diferencialista: ele neutraliza, inverte e se apropria
dos argumentos do próprio antirracismo. O culturalismo antropológico que fundou
o antirracismo humanista do pós-guerra, o reconhecimento da diversidade e da
equivalência entre as culturas contra a homogeneização imperial, é utilizado
para sustentar que a redução das distâncias culturais e a mistura entre povos
ameaçariam a vitalidade das civilizações.
Em
outras palavras, a imigração desintegra culturas. Para salvaguardá-las é
preciso separá-las. O austríaco Martin Sellner, neonazista, formulou proposta
de reimigração para preservar a “identidade” e “integridade etnocultural” que
circula hoje pelos partidos neofascistas, o alemão AfD, a Rassemblement
National de Le Pen, o Vox espanhol. Deportações em massa justificadas pela
linguagem invertida do direito à diferença, boa para os próprios deportados,
que preservariam suas tradições em comunidades homogêneas.
Segundo
o jornal The Guardian, Donald Trump projeta a criação de um escritório de
reimigração: “A reimigração tornou-se uma palavra da moda para a
extrema-direita global, com movimentos nacionalistas europeus como o
Alternative für Deutschland ignorando acusações de racismo para promover
campanhas publicitárias chamativas que retratam deportações em massa de
migrantes. Donald Trump abraçou o termo”.
O
primeiro racismo hierarquizava a humanidade para justificar o saque das
colônias. O segundo dispensa a hierarquia, separa. Mas separa para deixar os
descendentes dos colonizados exatamente onde o primeiro os havia posto, vivendo
no mesmo nível de degradação material. A história dirá, afinal, que os
selvagens estavam do outro lado, na refinada, culta e branca civilização
europeia.
Fonte:
Por Marcio Sotelo Felippe, em A Terra é Redonda

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