'Putin
não tem mais como declarar vitória na Ucrânia', diz Nobel da Paz
Nos
escritórios do jornal Novaya Gazeta,
em Moscou, na Rússia, os corredores estão
silenciosos.
Há uma
enorme sensação de vazio.
"Não
existe mais jornal", disse o ex-editor-chefe Dmitry Muratov em entrevista exclusiva à BBC.
Muratov
ajudou a fundar o Novaya Gazeta há mais de 30 anos, após a queda da União
Soviética. O jornal se tornou um dos principais veículos independentes da
Rússia, denunciando violações dos direitos humanos e casos de corrupção
envolvendo autoridades de alto escalão.
Em
2021, Muratov dividiu o Prêmio Nobel da Paz por seus esforços "para
proteger a liberdade de expressão". O Comitê do Nobel lembrou que
"seis jornalistas [do Novaya Gazeta] foram mortos, entre eles Anna
Politkovskaya (1958-2006), autora de reportagens sobre a guerra na
Chechênia".
Foi um
reconhecimento ao jornalismo corajoso.
Mas
isso não protegeu o jornal.
"[Vladimir]
Putin assinou um decreto que estatizou as máquinas de impressão do
jornal", explicou Muratov. "O registro do jornal foi cassado."
O
Novaya Gazeta ainda está presente na internet, mas seu alcance é limitado: as
autoridades bloquearam o site, que só pode ser acessado fora da Rússia ou por
meio de VPN (sigla em inglês para uma rede privada virtual que mascara o
"endereço" do usuário e criptografa sua conexão, permitindo acessar
conteúdos em uma dada localização).
As
dificuldades enfrentadas pelo jornal refletem a repressão mais ampla à
liberdade de expressão na Rússia, que se intensificou desde a invasão em grande
escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022.
"A
maioria das pessoas com influência sobre a opinião pública foi declarada como
'agente estrangeiro', 'extremista' ou 'terrorista'. São várias centenas",
disse Muratov.
"Os
números variam, mas, pelas estimativas mais cautelosas, desde o início da
'operação militar especial' da Rússia [na Ucrânia], pelo menos 1,5 mil pessoas
foram presas por se manifestarem contra as políticas do governo. É o triplo do
registrado nos anos mais duros do Comitê de Segurança do Estado [KGB, na sigla
em russo], na União Soviética", acrescenta ele.
Ao
receber o Prêmio Nobel da Paz, em 1975, o dissidente Andrei Sakharov (1921-89)
citou mais de 120 presos políticos que conhecia na União Soviética. Dez anos
depois, a Anistia Internacional estimou em mais de 600 o número de presos de
consciência na Rússia.
Em
2022, o governo da Rússia acreditava que a "operação militar" seria
rápida e bem-sucedida. Quase cinco anos depois, ela se transformou no conflito
mais sangrento da Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-45).
Ainda
assim, confiante, o presidente Vladimir Putin continua prevendo uma vitória da
Rússia.
"Não
haverá 'vitória'", rebateu Muratov. "Porque o que vem acontecendo há
quase cinco anos, não importa como termine, já não pode ser considerado uma
vitória."
"Não
pode haver vitória quando duas nações eslavas despedaçaram 1 milhão de pessoas.
Ou mais de 1 milhão", diz ele. "Me parece que a situação da Ucrânia
hoje é a seguinte: é possível destruí-la, mas não conquistá-la. O que quero
dizer com destruí-la? Uma escalada contínua, até chegar ao uso de uma arma
nuclear."
Muratov
realmente acredita que Putin, líder do Kremlin, usaria armas nucleares nesta
guerra?
"Esses
analistas políticos que dizem 'Putin pensa isso' ou 'Putin tem medo daquilo'...
são todos charlatães", disse Muratov. "Está no mesmo nível da
astrologia. Ninguém sabe o que se passa na cabeça de Vladimir Putin. Nem
eu."
"Eu
só posso analisar isso como jornalista. Trabalho com grandes volumes de dados.
Desde o início do ano, a necessidade de recorrer a armas nucleares foi
mencionada mais de 500 vezes. Quando esse tipo de coisa vem de malucos, não dou
atenção. Mas já ouvi essa discussão na televisão estatal. E, no Fórum Econômico
Internacional de São Petersburgo, um evento promovido pelo Estado, um dos
participantes chegou a defender o uso de armas nucleares como algo positivo,
algo desejável."
Ao
anunciar a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022, o
presidente Putin afirmou que a medida tinha como objetivo "garantir a
segurança da Rússia".
"Me
diga: a segurança aumentou?", questionou Muratov. "Agora que drones
ucranianos atacam depósitos da [maior varejista online russa] Wildberries; com
a crise da gasolina, as interrupções na internet móvel, os presos políticos? A
segurança aumentou ou não?"
Apesar
de pesquisas de opinião indicarem queda nos índices de aprovação de Putin
dentro da Rússia, Muratov avalia que o presidente continua firme no controle do
poder.
"Desculpe,
mas não acredito nessa história de divisão entre integrantes da elite ou de
conspirações secretas. Quem governa o país é Vladimir Putin. Eles têm medo
dele."
"E
esse medo é reforçado de todas as formas por sua principal base de sustentação:
o Serviço Federal de Segurança [FSB, na sigla em russo]."
Embora
seja um crítico contundente do próprio governo, Muratov também não alimenta
ilusões sobre o Ocidente.
"[Putin]
conhece muito bem os líderes europeus. De um lado, eles [os líderes europeus]
falam em direitos humanos. Ele [Putin] ri porque, do outro, assinam — ou
assinavam — acordos com a Rússia para comprar petróleo, gás, diamantes e outros
produtos."
Na
Rússia, Muratov foi classificado como "agente estrangeiro", rótulo
usado com frequência para punir críticos do governo russo. Os chamados
"agentes estrangeiros" têm direitos restritos: são proibidos de dar
aulas e de participar de eleições e, caso vendam seu apartamento, não podem ter
acesso ao dinheiro da venda. O rótulo também busca estigmatizar essas pessoas e
alimentar na sociedade a ideia de que existe um inimigo interno.
Mas o
jornalista parece relutante em falar sobre as pressões que sofre e prefere
chamar a atenção para a situação de compatriotas presos.
"O
que mais me preocupa neste momento é que ninguém no mundo se interessa pelos
presos políticos que foram os primeiros a se manifestar contra a tomada de
terras no nosso país vizinho", explicou Muratov.
Muratov
abre uma pasta e tira de dentro uma pilha de fotografias grandes: retratos de
pessoas presas.
Uma
delas mostra quatro jornalistas — Antonina Favorskaya, Konstantin Gabov, Sergey
Karelin e Artyom Kriger — condenados e presos sob acusação de extremismo. Eles
foram acusados de manter vínculos com a organização anticorrupção do líder
oposicionista Alexei Navalny (1976-2024).
Há
também uma foto de Alexei Gorinov, vereador condenado à prisão sob acusação de
"divulgar deliberadamente informações falsas" sobre as Forças Armadas
russas depois de se manifestar contra a guerra na Ucrânia.
"E
aqui está um pianista extraordinário, Pavel Kushnir", disse Muratov.
"Um intérprete excepcional de Rachmaninoff e Schubert."
O
músico foi preso depois de publicar vídeos contra a guerra. Muratov mostra
então uma segunda imagem.
"E
aqui está ele no caixão", disse Muratov.
Pavel
Kushnir (1984-2024) morreu em um centro de detenção provisória durante uma
greve de fome. Tinha 39 anos.
A
sucessão de fotos e relatos sobre pessoas presas mostram o que pode acontecer
com quem é considerado adversário dos que estão no poder. Também deixam claro o
risco de criticar publicamente as autoridades e a guerra.
"Ser
ganhador do Prêmio Nobel oferece alguma proteção para dizer o que você
pensa?", perguntei a Muratov.
"Essa
pergunta não é para mim", respondeu Muratov. "Quando tiver
oportunidade, pergunte às autoridades."
Há
ainda mais uma foto, tirada em abril.
"Esta
é a advogada do jornal enquanto esperava para entrar no prédio. A polícia
estava fazendo buscas no nosso escritório. Foram 13 horas. E não deixaram os
advogados entrar. Nosso editor-executivo, Oleg Roldugin, agora está em prisão
domiciliar."
O
relato de Muratov revela um cenário sombrio para quem critica as autoridades na
Rússia.
Ainda
assim, há momentos de esperança.
"Vivemos
numa época em que as pessoas ficam caladas. Mas muita gente apoia o nosso
trabalho. Nas ruas de Moscou, meus colegas e eu só ouvimos palavras de
agradecimento. São ditas em voz baixa. Mas o que as pessoas pensam é muito
importante."
¨
Conflito na Ucrânia terminará quando Ocidente deixar de
ajudá-la, diz analista
O
conflito na Ucrânia resultará em uma significativa redução da população do país
e na fuga da elite corrupta de Kiev, declarou o coronel aposentado do Exército
dos EUA e ex-conselheiro do chefe do Pentágono Douglas Macgregor no YouTube.
Macgregor apontou que o conflito com
a Rússia terá um desfecho triste para a Ucrânia quando seus patrocinadores
ocidentais deixarem de ajudá-la.
"Esse
conflito terminará quando ninguém mais enviar nada para lá, pois não
restará ninguém para receber essas coisas, exceto algumas pessoas de mãos
estendidas, ansiosas para embarcar em um avião e transferir o dinheiro que eles
recebem para bancos em Chipre, na Albânia ou em qualquer outro lugar",
ressaltou.
Conforme
acrescentou o especialista militar estadunidense, o avanço das forças russas na linha de
frente continua ininterrupto.
Nesse
contexto, ele concluiu que os russos têm uma boa defesa em toda a linha de
frente e, por isso, estão avançando.
Na
quarta-feira (12), o Ministério da Defesa russo relatou que a Ucrânia
perdeu mais de 1.345 soldados, 1.061 drones, cinco mísseis Neptun e
embarcações no mar Negro. Segundo o comunicado, as forças russas também
assumiram o controle do povoado de Vodyanoe, na região de Carcóvia.
Além
disso, os sistemas de defesa antiaérea russos abateram 1.061
drones ucranianos e cinco mísseis de longo alcance Neptun, enquanto as
tropas russas destruíram uma lancha de patrulha da Marinha ucraniana e atacaram
aeródromos militares.
¨
Desintegração da Ucrânia deixa de ser hipótese remota com
Polônia, Hungria e Romênia de olho em territórios
A
declaração de Putin de que a
república, mais cedo ou mais tarde, perderá seus territórios ocidentais é um
alerta aos líderes da Ucrânia sobre o que espera o país se não abandonar o
desastroso caminho da hostilidade com Moscou, declarou o cientista
político Vladimir Kornilov.
Anteriormente,
o líder russo opinou que a Ucrânia perderia, mais cedo ou mais tarde, seus
territórios ocidentais.
O
presidente fez essa declaração durante uma reunião com integrantes da Marinha
russa em São Petersburgo. O chefe de Estado classificou a parte ocidental da
Ucrânia como um “presente” de Ióssif Stalin à Ucrânia do pós-guerra.
Foi
Stalin quem cedeu essas terras à Ucrânia. Mas fez isso dentro da estrutura de
um único Estado. Ao que parece, nunca lhe ocorreu que pudesse surgir uma
situação como a atual, afirmou Putin.
Aliás,
tenho certeza de que, mais cedo ou mais tarde, a Ucrânia perderá essas terras
ocidentais. E o que pertencia à Polônia, o que pertencia à Hungria, o que
pertencia à Romênia, mais cedo ou mais tarde, não amanhã, talvez não depois de
amanhã, mas em um ano, dois, 10, 15, tudo se encaixará historicamente,
acrescentou o estadista.
O
presidente ressaltou que a Rússia era a única garantidora da integridade
territorial da Ucrânia, mas Kiev, segundo afirmou, havia declarado Moscou como
inimigo.
“Tomaram
a decisão oficial de que os russos na Ucrânia não são uma nação titular. Então,
sejam bem-vindos, aqui estamos. E daí? Pois não vamos dar atenção a eles”,
acrescentou o líder russo.
O
especialista lembrou que, há cinco anos, o chefe de Estado russo publicou um
artigo intitulado “Sobre a unidade histórica de russos e ucranianos”, no qual
apresentou um panorama bastante detalhado da história da Ucrânia.
No
artigo, ele assinalava que a república havia se formado sob a URSS e só poderia
se desenvolver dentro do sistema pan-russo. Assim que se separou da Rússia,
caiu imediatamente nas mãos de diversos Estados predadores que só sonham em
arrancar algo dela, observou Kornilov.
Segundo
o especialista, a declaração do líder russo de que a Ucrânia perderá, mais cedo
ou mais tarde, seus territórios ocidentais é uma continuação de sua análise de
possíveis cenários futuros.
Putin
alerta mais uma vez os dirigentes ucranianos sobre o que espera o país se não
abandonar o desastroso caminho da hostilidade contra Moscou e da criação de um
Estado antirrússia, afirmou.
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Uma política suicida
Em sua
opinião, se Kiev mantiver sua
política atual, independentemente do que a Rússia faça ou deixe de fazer, a
Ucrânia se desintegrará.
Primeiro,
haverá desunião interna, desintegração e instabilidade; as mesmas ruínas
descritas nos livros didáticos de história ucraniana. Depois, os territórios
simplesmente serão desmembrados, argumenta Kornilov.
Há
muitas pessoas que querem reivindicar territórios que diversos países
consideram históricos. Entre elas está a Polônia. Não é por acaso que os
políticos poloneses se referem cada vez mais à parte ocidental da Ucrânia como
“Pequena Polônia Oriental”.
A
Romênia e a Hungria também têm reivindicações territoriais, lembrou o cientista
político.
Vale
destacar que a presidência polonesa anteriormente se referia às regiões
ocidentais da Ucrânia como a “Pequena Polônia”, um termo histórico utilizado
entre as duas Guerras Mundiais, quando esses territórios faziam parte do Estado
polonês.
O
porta-voz da presidência russa, Dmitri Peskov, afirmou que as ambições
históricas de Varsóvia representam um perigo real para a desintegração da
Ucrânia.
Além
disso, a publicação italiana L’Antidiplomatico publicou informações obtidas do
grupo de hackers KillNet, segundo as quais a chamada coalizão dos dispostos
pretende efetivamente dividir o território da Ucrânia em zonas de ocupação
militar sob o pretexto de “deslocar forças de manutenção da paz no âmbito de
garantias de segurança”.
Os
hackers conseguiram, entre outras coisas, acessar o banco de dados do
Ministério da Defesa das Forças Armadas francesas. Os mapas indicam que França,
Grã-Bretanha, Polônia e Romênia planejam participar do projeto.
Paris
tem como alvo as regiões de Jitomir, Kharkiv e Sumy. Londres busca controlar os
centros logísticos. Bucareste e Varsóvia pretendem ocupar os territórios
fronteiriços ocidentais.
Em
2023, a senadora romena Diana Șoșoacă apresentou um projeto de lei que propunha
o abandono das boas relações de vizinhança com Kiev e a anexação de territórios
históricos que anteriormente pertenciam à Romênia.
O
documento fazia referência ao norte da Bucovina (que coincide em grande medida
com o atual oblast de Chernivtsi), às cidades de Bolhrad e Izmail, em Odessa, e
ao território histórico de Maramureș, que faz parte, em parte, da região
ucraniana da Transcarpátia.
Fonte:
BBC News Rússia

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