Milei
desmonta indústria nuclear argentina e ameaça décadas de soberania tecnológica,
denuncia físico argentino
“A energia nuclear argentina não é
apenas uma fonte de eletricidade. É uma construção nacional de mais de sete
décadas, baseada em ciência, engenharia, formação de trabalhadores altamente
qualificados e capacidade industrial.
É,
sobretudo, um dos exemplos mais expressivos de que um país sul-americano pode
dominar tecnologias estratégicas, desenvolver seu próprio ciclo do combustível,
produzir radioisótopos para a medicina, projetar reatores e exportar
conhecimento de alto valor agregado.
Defender
esse patrimônio significa defender a capacidade da Argentina de decidir seu
próprio futuro energético, industrial e tecnológico”.
Com
base nesses princípios, o físico Rodolfo Kempf, pesquisador da
Comissão Nacional de Energia Atômica (CNEA) da Argentina, iniciou sua
entrevista em Buenos Aires afirmando que “o que está em jogo é um projeto de
soberania, desenvolvimento e resistência à ingerência externa”.
Continua
após o anúncio
O risco
é grave, condenou, pois “ao paralisar áreas estratégicas, Javier Milei coloca em risco
todo o desenvolvimento nuclear do país”.
A CNEA
foi criada no início dos anos 1950 por decreto assinado pelo então presidente
Juan Domingo Perón, num momento em que a energia nuclear era vista como
instrumento de reconstrução e industrialização. Mais de setenta anos depois,
esse projeto histórico — que ganha ainda maior relevância — está sob ameaça,
reitera.
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Nosso futuro energético não pode ser decidido em Washington
“A
energia nuclear argentina não deve ser desmontada, terceirizada nem convertida
em simples fonte de urânio e cérebros para potências estrangeiras. Deve ser
preservada, ampliada e colocada a serviço de um projeto nacional e regional de
desenvolvimento. Nosso futuro energético não pode ser decidido em Washington,
nem em qualquer outra capital estrangeira. Deve ser decidido pelos argentinos,
com seus trabalhadores, cientistas, engenheiros e instituições, em cooperação
soberana com seus vizinhos e com o mundo”.
Para o
responsável pela Transição Energética da Coordenadora Nacional de Trabalhadores
da Indústria e dirigente da Central de Trabalhadores da Argentina
(CTA-Autônoma), “o ponto vital é a soberania tecnológica”. “A Argentina não se
limitou a comprar usinas prontas.
No
desenvolvimento de Atucha 1, a primeira usina nuclear da América Latina,
desmontou o pacote tecnológico, comprando tão somente aquilo que não fosse
possível produzir internamente”, desenvolvendo em solo argentino o máximo
possível de materiais, sistemas, equipamentos e conhecimentos. O resultado foi
decisivo por um caminho mais difícil, mas mais valioso, pois construiu
capacidades próprias que lhe permitem dominar grande parte do ciclo do
combustível nuclear.
Na
avaliação de Kempf, “essa autonomia é um ativo estratégico”, pois assim o país
utiliza tecnologia baseada em urânio natural e água pesada e possui capacidade
para fabricar combustíveis. “Tem reservas de urânio e uma história própria de
mineração e processamento, embora parte do combustível utilizado atualmente
dependa de urânio comprado no exterior.
Possui
ainda tecnologia de enriquecimento, ainda que não opere usinas elétricas
baseadas em urânio enriquecido. Em outras palavras: existe uma infraestrutura
humana, científica e industrial que não pode ser tratada como uma mercadoria
qualquer sem comprometer décadas de investimento nacional”, assinalou.
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Energia nuclear exige planejamento de décadas
“Nosso
país também construiu uma experiência nuclear com fins pacíficos reconhecida
internacionalmente. O país possui três usinas de geração: Atucha 1, Atucha 2 e
Embalse. A retomada e conclusão de Atucha 2, interrompida durante os anos 1990
e retomada a partir de 2006, demonstra a diferença entre uma política
energética de longo prazo e uma lógica de curto prazo. A energia nuclear exige
planejamento de décadas, formação de quadros e continuidade institucional. É
justamente o contrário de uma política que trata recursos estratégicos como
ativos a serem vendidos rapidamente”, esclareceu.
Conforme
o especialista, a relevância econômica da energia nuclear vai muito além dos
megawatts produzidos, pois “ela sustenta empregos altamente qualificados,
universidades, centros de pesquisa, metalurgia especializada, engenharia,
indústria de componentes e cadeias produtivas que agregam valor dentro do país.
Também permite que a Argentina exporte tecnologia”.
A
Comissão Nacional de Energia Atômica e a INVAP (empresa da área de serviços de
tecnologia que atua em projetos, integrações, fabricação e entrega de
equipamentos, plantas e dispositivos) já participaram do desenvolvimento e da
exportação de reatores de pesquisa para países como Argélia, Egito e Peru, além
do reator exportado para a Austrália, que produz radioisótopos destinados à
medicina. “Nosso país, portanto, não é apenas consumidor de tecnologia nuclear:
é produtor e exportador de conhecimento”, enfatizou.
Na
medicina nuclear, essa soberania também tem uma dimensão social direta. A
Argentina possui capacidade de autoprodução de radioisótopos para aplicações
médicas. Isso significa que a política nuclear não deve ser apresentada como um
luxo tecnológico, mas como parte de uma infraestrutura nacional que alcança a
saúde pública, a indústria, a pesquisa e a segurança energética.
“Para
um país que pretende se industrializar, ampliar sua infraestrutura e garantir
eletricidade confiável, abandonar a energia nuclear significaria abrir mão de
uma ferramenta estratégica”
A
defesa da energia nuclear é ainda mais forte quando se considera o problema
climático e a necessidade de eletricidade para uma economia industrial, adverte
Kempf, pois, diferentemente das fontes eólica e solar, cuja produção depende
das condições meteorológicas, a geração nuclear oferece fornecimento contínuo e
previsível. “Para um país que pretende industrializar, ampliar sua
infraestrutura e garantir eletricidade confiável, abandonar a energia nuclear
significaria abrir mão de uma ferramenta estratégica justamente quando o mundo
volta a reconhecer sua importância”.
O
governo neocolonial está conduzindo um processo de desmonte da capacidade
nuclear nacional em paralelo ao crescente alinhamento com o governo Trump.
“Assim,
entrega minerais estratégicos, põe na rua trabalhadores qualificados e
interrompe projetos nacionais, transformando uma capacidade soberana em mera
fonte de matérias-primas e mão de obra para empresas estrangeiras”.
O caso
do urânio é emblemático. A Argentina conhece reservas importantes em seu
território, e Milei está interessado em direcionar esse recurso para os EUA, o
que não é uma questão simplesmente comercial.
Afinal,
alerta, “se um país exporta seu mineral estratégico enquanto desmantela a
capacidade de processá-lo, pesquisá-lo e transformá-lo em tecnologia, corre o
risco de repetir o velho padrão periférico: exportar recursos naturais e
importar produtos de maior valor agregado”.
“No
setor nuclear, isso seria particularmente grave, porque significaria entregar
não apenas uma matéria-prima, mas parte de uma cadeia tecnológica construída
durante gerações”, repudia.
Ainda
mais preocupante é a perda de cientistas, técnicos e quadros altamente
qualificados. Cerca de 500 profissionais deixaram a CNEA em direção a empresas
privadas, muitas delas de capital norte-americano, atraídos por salários várias
vezes superiores aos pagos pelo setor público. “Essa sangria representa uma
perda estratégica, já que um engenheiro ou pesquisador não é apenas um
trabalhador substituível, mas parte de um conhecimento acumulado que pode levar
décadas para ser formado. A transferência desses quadros para empresas
estrangeiras pode significar a transferência indireta do próprio patrimônio
intelectual argentino”.
“O
projeto da Central Argentina de Elementos Modulares (Carem) concentra essa
disputa, pois trata-se de um reator modular de pequeno porte de desenho
argentino, desenvolvido ao longo de décadas e apresentado como um dos projetos
mais avançados do mundo em sua categoria. Sua importância não é apenas
energética. Um reator nacional significa propriedade intelectual, capacidade de
engenharia, possibilidade de exportação e independência tecnológica. O CAREM
poderia atender pequenas localidades fora do sistema interconectado e
aplicações industriais que exigem energia confiável, além de inserir a
Argentina no mercado internacional de pequenos reatores modulares.
“Por
isso, a paralisação do CAREM é parte de um processo de desmonte e precisa ser
vista como questão de soberania. Se um projeto argentino é interrompido
enquanto empresas estrangeiras avançam no mesmo mercado, o país corre o risco
de destruir um competidor potencial antes mesmo de colocá-lo em escala
comercial. A pergunta fundamental é simples: por que uma nação que conseguiu
desenvolver tecnologia própria deveria abandonar essa capacidade para se tornar
dependente de fornecedores externos?”, questionou.
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EUA controlam até estruturas de segurança e instalações nucleares
A
ingerência dos EUA também se evidencia na forma institucional e no controle
sobre estruturas e políticas de segurança, condenou Kempf, uma vez que “há
equipamentos de vigilância instalados a partir de pedidos e participação de
órgãos norte-americanos, além de episódios envolvendo representantes
estrangeiros em instalações nucleares”. “Isso nos traz uma questão política
incontornável: até que ponto a segurança de instalações estratégicas
argentinas, que comprometem a sua soberania, pode ser submetida a agendas
definidas fora do país?”, questionou.
Kempf
faz questão de frisar que o problema não é defender uma indústria nuclear sem
controle: segurança, fiscalização e cooperação internacional continuam
indispensáveis, ressalva.
Nossa
própria experiência comum indica o caminho, com a Agência Brasileiro-Argentina
de Contabilidade e Controle de Materiais Nucleares (ABACC), criada no contexto
da aproximação entre os presidentes Alfonsín e Sarney.
É a
prova de que países sul-americanos podem construir “mecanismos próprios de
confiança, controle e cooperação, sem depender da tutela de grandes potências”.
Aprofundar
essa cooperação — em tecnologia, combustíveis, pesquisa e formação de pessoal —
poderia transformar o setor nuclear em um dos pilares de uma integração
energética sul-americana, em vez de fragmentá-lo entre interesses estrangeiros
isolados.
“Há
diferença entre uma Argentina que vende seus especialistas e uma que forma
novas gerações de cientistas e engenheiros para desenvolver tecnologia própria”
A
defesa da energia nuclear argentina, portanto, não é uma defesa abstrata da
tecnologia. É uma defesa de um modelo de desenvolvimento. Kempf demonstra que
“há uma diferença fundamental entre uma Argentina que extrai urânio para
exportá-lo e uma Argentina que transforma urânio em combustível, conhecimento,
eletricidade, radioisótopos, equipamentos, reatores e empregos qualificados. Há
também uma diferença entre uma Argentina que vende seus especialistas e uma que
forma novas gerações de cientistas e engenheiros para desenvolver tecnologia
própria”.
“O
debate, no fundo, é sobre quem decide. Se a Argentina mantém a capacidade de
projetar seus reatores, fabricar seus combustíveis, formar seus cientistas,
produzir sua energia e exportar sua tecnologia, ela decide seu próprio caminho.
Se perde essas capacidades e passa a fornecer urânio e trabalhadores para
empresas estrangeiras, enquanto importa tecnologia e aceita que projetos
nacionais sejam abandonados, deixa de ser protagonista para voltar à condição
de dependência”, ressaltou o físico.
Com
esta convicção, Kempf afirma que “defender a energia nuclear argentina é,
portanto, defender a industrialização, a ciência, o trabalho qualificado, a
saúde, a segurança energética e a soberania. E denunciar qualquer ingerência
externa não significa rejeitar a cooperação internacional: significa exigir que
ela ocorra entre países soberanos”. “A Argentina já provou que é capaz de
construir tecnologia nuclear própria. O desafio agora é impedir que décadas de
conhecimento sejam transformadas em oportunidade para outros países e em
dependência para os argentinos”, concluiu.
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Restringir acesso de estrangeiros à saúde na Argentina 'é
parte da guerra cultural de Milei'
O
governo argentino implementou oficialmente a cobrança de taxas para atendimento
médico a estrangeiros sem residência permanente no país. Esta é a mais recente
de uma série de medidas do presidente Javier Milei para endurecer as
regulamentações de imigração.
A
Resolução 1066/2026 do Ministério da Saúde, assinada pelo Ministro Mario
Lugones, revive um decreto de necessidade e urgência emitido em 2025 que já
havia autorizado a cobrança de serviços de saúde de estrangeiros não
residentes, mas que até então não havia sido regulamentado ou implementado
pelos hospitais dependentes do Estado nacional em todo o país.
"Cuidar
dos recursos dos argentinos também significa administrá-los de forma
responsável e transparente. Isso marca um ponto de virada na proteção das
finanças dos contribuintes na República Argentina", escreveu Lugones em
suas redes sociais.
A lei
prevê uma exceção para emergências médicas, que continuarão a ser tratadas
gratuitamente, independentemente da situação imigratória da pessoa.
Estrangeiros com residência permanente, comprovada por documento de identidade
nacional, mantêm o mesmo acesso ao sistema público de saúde que os
cidadãos do país.
Em
todos os outros casos, o hospital pode cobrar o custo do atendimento
diretamente da seguradora, se a pessoa tiver um plano de saúde privado válido,
ou exigir o pagamento antecipado do valor total do serviço, caso não tenha
cobertura, de acordo com o procedimento operacional aprovado pelo Ministério da
Saúde.
A
medida surge dias depois de Milei ter assinado um decreto de emergência que
autoriza a recusa de entrada ou a expulsão de estrangeiros que difundam
"mensagens de ódio, discriminação ou violência" contra o país ou seus
símbolos nacionais, no contexto do que o governo chamou de "campanha
anti-argentina" após a final da Copa do Mundo de 2026.
A
população estrangeira residente na Argentina, que totaliza quase dois milhões
de pessoas, tem se mantido estável nos últimos anos, segundo dados oficiais
disponíveis até o momento. Na província de Buenos Aires, a mais populosa do
país, os estrangeiros representam menos de 1% das consultas
médicas registradas nos hospitais públicos daquela jurisdição.
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Batalha política
"A
Argentina foi criada como uma nação aberta à imigração, aos estrangeiros e
assim por diante. Na verdade, éramos uma grande mistura de tudo isso. As
medidas anunciadas recentemente estão mais alinhadas com uma agenda
compartilhada por governos conservadores na região e no mundo. Faz parte da
guerra cultural de Milei", disse o cientista político Diego Reynoso à
Sputnik.
O
especialista relacionou o anúncio à recente derrota simbólica do governo, que
foi forçado a suspender sua proposta de reformas no país após protestos generalizados contra a
propriedade estrangeira de terras. "Essa iniciativa busca melhorar a
imagem do governo com uma medida contra estrangeiros, depois de ter perdido o
debate sobre a terra", observou ele.
O
cientista político enfatizou que a medida carece de efeitos práticos: "não
tem impacto concreto, nem fiscal, nem demográfico, nem de qualquer outro tipo,
porque é realmente pequeno. Serve simplesmente para desviar o debate
público"
e "tentar se colocar novamente ao lado" da nação, "onde a
maioria da população diz: o governo defende os cidadãos argentinos",
explicou.
Para
Reynoso, o cálculo oficial aponta para um ganho eleitoral apesar da derrota
anterior na opinião pública: "provavelmente recuperará algum apoio da
população nesta questão, depois de ter perdido amplo apoio, com mais de
dois terços da população contra" os projetos nas Malvinas e a venda de
terras.
Pablo
Yedlin, deputado federal, médico e ex-ministro da Saúde da província de
Tucumán, no norte do país, descreveu a medida como secundária em relação aos
reais problemas enfrentados pelo sistema de saúde. " É absolutamente
irrelevante em relação aos custos do sistema de saúde argentino e
completamente desnecessária, dada a enorme quantidade de problemas que o
sistema de saúde argentino enfrenta atualmente", afirmou.
Ele
também questionou o diagnóstico oficial sobre a superlotação hospitalar:
"os hospitais públicos estão sobrecarregados? Sim, estão sobrecarregados.
Estão sobrecarregados por estrangeiros? Não. Estão sobrecarregados porque
atendem toda a população da Argentina que não tem plano de saúde", disse.
Além
disso, Yedlin apontou que a medida tem um custo diplomático. "O
constrangimento com o Brasil e a retirada de embaixadores — como isso não teria
um custo? Tem um custo enorme e desnecessário para os argentinos. E os futuros
governos terão que resolver esses problemas persistentes", concluiu.
Fonte:
Por Caio Teixeira, Leonardo Wexell Severo, em Diálogos do Sul Global/Sputnik
Brasil

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