sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Crimes da ditadura brasileira: 52 anos da morte de Frei Tito

Em 10 de agosto de 1974, falecia no exílio Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, frade dominicano que se tornou um símbolo da luta contra a ditadura militar no Brasil.

Perfilado aos setores progressistas da Igreja, Frei Tito militou na Juventude Estudantil Católica e desenvolveu um importante trabalho social junto às comunidades carentes de Fortaleza. Após o golpe de 1964, o frade apoiou a resistência contra o regime e ajudou a viabilizar a organização de um congresso clandestino da UNE.

Preso em 1969 sob a acusação de dar apoio à luta armada de Carlos Marighella, Frei Tito foi brutalmente torturado ao longo de meses. Libertado em 1971, ele foi banido do Brasil e partiu para o exílio na França. As sequelas físicas e psicológicas das torturas, no entanto, o acompanharam até o fim da vida. Atormentado pela lembrança dos maus-tratos, o religioso tirou a própria vida.

<><> A juventude de Tito

Tito de Alencar Lima nasceu em 14 de setembro de 1945, em Fortaleza, Ceará. Era o caçula dos 11 filhos de Laura de Alencar e Ildefonso Rodrigues de Lima. Criado no seio de uma família muito religiosa, participou desde pequeno das atividades e tarefas da Igreja Católica. A atuação nas campanhas de caridade despertou o interesse de Tito pelas questões sociais.

Aos 12 anos, o jovem foi aprovado nos exames admissionais do Liceu do Ceará, um dos colégios mais tradicionais do estado. No mesmo período, Tito ingressou na Juventude Estudantil Católica (JEC), o braço juvenil da Ação Católica Brasileira (ACB), movimento que promovia a participação de fiéis leigos nas missões evangelizadoras e nas obras sociais da Igreja. Também se tornou membro da Congregação Mariana, participando do trabalho paroquial junto às comunidades carentes de Fortaleza, em especial a Favela do Dendê.

Em 1963, após assumir o cargo de dirigente regional da JEC no Nordeste, Tito se mudou para Recife. A capital pernambucana vivia um período de intensa efervescência política e cultural. Sob o governo de Miguel Arraes, a cidade se tornara um polo de referência em experiências inovadoras no campo da educação popular e da organização social. Destacava-se, em especial, o Movimento de Cultura Popular (MCP), onde o educador Paulo Freire formulou os preceitos básicos de sua “pedagogia do oprimido”.

Em paralelo ao trabalho desenvolvido na JEC, Tito acompanhou os acirrados debates políticos e as disputas travadas entre trabalhistas e udenistas no início dos anos 60. Ele se aproximou do movimento estudantil, atuando junto à União Cearense de Estudantes Secundaristas, e apoiou as reformas de base propostas por João Goulart.

<><> Carreira eclesiástica e movimento estudantil

O golpe militar de 1964 resultou na extinção de várias iniciativas educacionais e sociais mantidas pela Igreja. Tito e outros militantes ligados à Ação Católica, no entanto, permaneceram ativos na resistência à ditadura e buscaram fortalecer os vínculos com o movimento estudantil, então a principal frente de oposição ao regime.

Em 1965, então com 19 anos, Tito decidiu seguir a carreira eclesiástica, ingressando na Ordem dos Pregadores (ou Ordem Dominicana). Ele concluiu o noviciado em Belo Horizonte e professou seus votos religiosos em 1967, quando foi ordenado sacerdote.

Frei Tito se mudou para São Paulo em 1968, passando a residir no Convento de Santo Alberto Magno, no bairro de Perdizes. O ingresso na ordem religiosa não afetou seu engajamento político. Inspirados pelas novas diretrizes do Concílio Vaticano II e pela Teologia da Libertação, os dominicanos de São Paulo se tornaram opositores convictos da ditadura militar.

Em 1968, Tito ingressou no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). Conciliando a rotina conventual com a militância, ele participou das mobilizações estudantis que denunciavam a violência dos aparelhos repressivos e exigiam a restauração das liberdades civis.

O frade teve papel importante na organização do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), ajudando a viabilizar o empréstimo do sítio em Ibiúna onde foi sediado o encontro. Em 12 de outubro de 1968, o congresso foi invadido por tropas da Polícia Militar e por agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), resultando na prisão de 739 estudantes.

Tito foi um dos militantes presos em Ibiúna, tendo seu nome incluído nos registros dos aparelhos repressivos e passando a sofrer perseguição. Contrariada com o crescimento das organizações revolucionárias e com a agitação do movimento estudantil, a ditadura se encaminhava para sua fase mais violenta, marcada pela prisão, tortura e assassinato de centenas de opositores.

<><> A tortura nos porões do regime

O convento dos dominicanos em Perdizes passou a ser monitorado pela ditadura. Os militares haviam sido informados pelo governo norte-americano de que os frades estariam mantendo contato e prestando apoio logístico para a Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das mais combativas organizações da luta armada contra o regime, comandada pelo guerrilheiro Carlos Marighella.

Na madrugada de 4 de novembro de 1969, uma equipe de agentes do DOPS invadiu o convento durante a “Operação Batina Branca”. A ação foi coordenada pelo delegado Sérgio Fleury, um dos mais infames torturadores do regime. Frei Tito foi detido ao lado de outros frades, incluindo Frei Giorgio Callegari. Carlos Marighella foi assassinado nesse mesmo dia, vitimado por uma emboscada de Fleury.

Tito foi levado para as dependências do DOPS em São Paulo. Ele foi violentamente interrogado e torturado durante cerca de um mês, sofrendo com espancamentos, palmatória e choques elétricos. O frade permaneceu encarcerado no Presídio Tiradentes até fevereiro de 1970, quando foi transferido para a sede da Operação Bandeirante (OBAN), o embrião do DOI-CODI.

Apelidada de “sucursal do inferno”, a sede da OBAN foi cenário de alguns dos abusos mais repulsivos do regime. Lá, Frei Tito amargou torturas ainda mais brutais. O religioso foi colocado na cadeira do dragão, recebendo choques elétricos na cabeça e nos órgãos genitais. Teve o corpo queimado com brasas de cigarros, sofreu privação de sono, água e comida e foi pendurado no pau de arara.

Os militares também torturaram Frei Tito psicologicamente, proferindo insultos à sua fé e ameaçando seus familiares e amigos. Um torturador chegou a introduzir um fio elétrico em sua boca, para que o religioso “recebesse a hóstia”. Os agentes o pressionavam a delatar seus companheiros e a assinar falsas confissões implicando os dominicanos em roubos a bancos.

Em uma noite, após passar várias horas no pau de arara, em desespero diante das torturas e visando proteger seus amigos, Frei Tito tentou o suicídio, cortando seus pulsos. Ele foi socorrido e levado ao Hospital Central do Exército, no Cambuci, onde permaneceu cerca de uma semana em tratamento — enquanto a tortura psicológica continuava.

Ainda na prisão, Frei Tito escreveu uma carta-denúncia detalhada sobre as sevícias sofridas. O texto circulou clandestinamente no país, chegou à imprensa internacional e se tornou uma das primeiras denúncias públicas sobre a tortura em larga escala praticada no Brasil.

Na carta, Frei Tito apelou à Igreja para que se pronunciasse contra as violações de direitos humanos: “A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde. A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo.”

<><> Libertação, exílio e morte

Em 7 de dezembro de 1970, o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Bucher, foi sequestrado em uma operação da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), outra organização da luta armada. A ação foi comandada pessoalmente por Carlos Lamarca.

Para soltar o diplomata, os guerrilheiros exigiram a libertação de 70 presos políticos, incluindo Frei Tito. A ditadura militar dificultou as negociações, prolongando o sequestro por 42 dias, mas acabou atendendo à exigência. Bucher foi libertado em janeiro de 1971.

Banido do Brasil pelo governo de Emílio Garrastazu Médici, Frei Tito se refugiou no Chile de Salvador Allende. Com a crescente instabilidade política e a iminente ameaça de golpe militar, o frade partiu para a Itália. Tito encontrou forte resistência e desconfiança de setores da Igreja Católica em Roma, sendo até mesmo rotulado como “terrorista”.

O brasileiro seguiu então para a França, onde foi acolhido pelos dominicanos do Convento de Saint-Jacques, em Paris. Lá, ele tentou retomar estudos na Sorbonne e passou por tratamento psiquiátrico. Tito carregava sequelas psicológicas profundas da tortura. Sofria com depressão, crises de pânico e alucinações. Era permanentemente atormentado por vozes e visões de Fleury e de outros torturadores.

Frei Tito foi transferido para o ambiente mais calmo do convento de Sainte-Marie de La Tourette, em Éveux, mas o trauma persistia. O sofrimento psíquico acabou por levá-lo ao esgotamento completo. Em 10 de agosto de 1974, Frei Tito tirou a própria vida. Seu corpo foi encontrado enforcado em um bosque nos arredores de Villefranche-sur-Saône. Ele tinha 28 anos.

Tito foi enterrado no cemitério do convento de Éveux. Em sua lápide, a inscrição relatava os suplícios impostos ao frade: “Frei da Província do Brasil. Encarcerado, torturado, banido, atormentado até a morte por ter proclamado o Evangelho, lutando pela libertação de seus irmãos. Tito descansa nesta terra estrangeira”.

Em março de 1983, os restos mortais de Frei Tito foram trasladados ao Brasil. A urna foi recebida por Dom Paulo Evaristo Arns na Catedral da Sé, em São Paulo, em uma missa de corpo presente assistida por 4.000 pessoas. Em seguida, os restos mortais seguiram para Fortaleza, onde foram sepultados no Cemitério São João Batista.

Em 2007, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos publicou relatório detalhando as sevícias sofridas pelo frade dominicano e reconhecendo que sua morte ocorrera em consequência dos atos de tortura praticados por agentes do poder público. A conclusão foi posteriormente referendada pela Comissão Nacional da Verdade.

Em 2016, o Ministério Público Federal denunciou Homero César Machado, ex-capitão de artilharia do Exército, e Maurício Lopes Lima, ex-capitão de infantaria, pelas torturas infligidas a Frei Tito. A Justiça Federal, no entanto, rejeitou a denúncia, com base na Lei da Anistia.

O religioso foi homenageado com o título honorário de Cidadão Paulistano, outorgado pela Câmara Municipal de São Paulo em 2016. Uma rua da capital paulista chamada “Doutor Sérgio Fleury” teve seu nome alterado para “Rua Frei Tito de Alencar Lima” em 2021. A história do frade e da resistência dos dominicanos contra a ditadura inspirou o livro “Batismo de Sangue”, de Frei Betto, e o filme homônimo de Helvécio Ratton.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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