Crimes
da ditadura brasileira: 52 anos da morte de Frei Tito
Em 10
de agosto de 1974, falecia no exílio Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, frade
dominicano que se tornou um símbolo da luta contra a ditadura militar no
Brasil.
Perfilado
aos setores progressistas da Igreja, Frei Tito militou na Juventude Estudantil
Católica e desenvolveu um importante trabalho social junto às comunidades
carentes de Fortaleza. Após o golpe de 1964, o frade apoiou a resistência
contra o regime e ajudou a viabilizar a organização de um congresso clandestino
da UNE.
Preso
em 1969 sob a acusação de dar apoio à luta armada de Carlos Marighella, Frei
Tito foi brutalmente torturado ao longo de meses. Libertado em 1971, ele foi
banido do Brasil e partiu para o exílio na França. As sequelas físicas e
psicológicas das torturas, no entanto, o acompanharam até o fim da vida.
Atormentado pela lembrança dos maus-tratos, o religioso tirou a própria vida.
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A juventude de Tito
Tito de
Alencar Lima nasceu em 14 de setembro de 1945, em Fortaleza, Ceará. Era o
caçula dos 11 filhos de Laura de Alencar e Ildefonso Rodrigues de Lima. Criado
no seio de uma família muito religiosa, participou desde pequeno das atividades
e tarefas da Igreja Católica. A atuação nas campanhas de caridade despertou o
interesse de Tito pelas questões sociais.
Aos 12
anos, o jovem foi aprovado nos exames admissionais do Liceu do Ceará, um dos
colégios mais tradicionais do estado. No mesmo período, Tito ingressou na
Juventude Estudantil Católica (JEC), o braço juvenil da Ação Católica
Brasileira (ACB), movimento que promovia a participação de fiéis leigos nas
missões evangelizadoras e nas obras sociais da Igreja. Também se tornou membro
da Congregação Mariana, participando do trabalho paroquial junto às comunidades
carentes de Fortaleza, em especial a Favela do Dendê.
Em
1963, após assumir o cargo de dirigente regional da JEC no Nordeste, Tito se
mudou para Recife. A capital pernambucana vivia um período de intensa
efervescência política e cultural. Sob o governo de Miguel Arraes, a cidade se
tornara um polo de referência em experiências inovadoras no campo da educação
popular e da organização social. Destacava-se, em especial, o Movimento de
Cultura Popular (MCP), onde o educador Paulo Freire formulou os preceitos
básicos de sua “pedagogia do oprimido”.
Em
paralelo ao trabalho desenvolvido na JEC, Tito acompanhou os acirrados debates
políticos e as disputas travadas entre trabalhistas e udenistas no início dos
anos 60. Ele se aproximou do movimento estudantil, atuando junto à União
Cearense de Estudantes Secundaristas, e apoiou as reformas de base propostas
por João Goulart.
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Carreira eclesiástica e movimento estudantil
O golpe
militar de 1964 resultou na extinção de várias iniciativas educacionais e
sociais mantidas pela Igreja. Tito e outros militantes ligados à Ação Católica,
no entanto, permaneceram ativos na resistência à ditadura e buscaram fortalecer
os vínculos com o movimento estudantil, então a principal frente de oposição ao
regime.
Em
1965, então com 19 anos, Tito decidiu seguir a carreira eclesiástica,
ingressando na Ordem dos Pregadores (ou Ordem Dominicana). Ele concluiu o
noviciado em Belo Horizonte e professou seus votos religiosos em 1967, quando
foi ordenado sacerdote.
Frei
Tito se mudou para São Paulo em 1968, passando a residir no Convento de
Santo Alberto Magno, no bairro de Perdizes. O ingresso na ordem religiosa não
afetou seu engajamento político. Inspirados pelas novas diretrizes do Concílio
Vaticano II e pela Teologia da Libertação, os dominicanos de São Paulo se
tornaram opositores convictos da ditadura militar.
Em
1968, Tito ingressou no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo
(USP). Conciliando a rotina conventual com a militância, ele participou das
mobilizações estudantis que denunciavam a violência dos aparelhos repressivos e
exigiam a restauração das liberdades civis.
O frade
teve papel importante na organização do 30º Congresso da União Nacional dos
Estudantes (UNE), ajudando a viabilizar o empréstimo do sítio em Ibiúna onde
foi sediado o encontro. Em 12 de outubro de 1968, o congresso foi invadido por
tropas da Polícia Militar e por agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política
e Social), resultando na prisão de 739 estudantes.
Tito
foi um dos militantes presos em Ibiúna, tendo seu nome incluído nos registros
dos aparelhos repressivos e passando a sofrer perseguição. Contrariada com o
crescimento das organizações revolucionárias e com a agitação do movimento
estudantil, a ditadura se encaminhava para sua fase mais violenta, marcada pela
prisão, tortura e assassinato de centenas de opositores.
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A tortura nos porões do regime
O
convento dos dominicanos em Perdizes passou a ser monitorado pela ditadura. Os
militares haviam sido informados pelo governo norte-americano de que os frades
estariam mantendo contato e prestando apoio logístico para a Ação Libertadora
Nacional (ALN), uma das mais combativas organizações da luta armada contra o
regime, comandada pelo guerrilheiro Carlos Marighella.
Na
madrugada de 4 de novembro de 1969, uma equipe de agentes do DOPS invadiu o
convento durante a “Operação Batina Branca”. A ação foi coordenada pelo
delegado Sérgio Fleury, um dos mais infames torturadores do regime. Frei Tito
foi detido ao lado de outros frades, incluindo Frei Giorgio Callegari. Carlos
Marighella foi assassinado nesse mesmo dia, vitimado por uma emboscada de
Fleury.
Tito
foi levado para as dependências do DOPS em São Paulo. Ele foi violentamente
interrogado e torturado durante cerca de um mês, sofrendo com espancamentos,
palmatória e choques elétricos. O frade permaneceu encarcerado no Presídio
Tiradentes até fevereiro de 1970, quando foi transferido para a sede da
Operação Bandeirante (OBAN), o embrião do DOI-CODI.
Apelidada
de “sucursal do inferno”, a sede da OBAN foi cenário de alguns dos abusos mais
repulsivos do regime. Lá, Frei Tito amargou torturas ainda mais brutais. O
religioso foi colocado na cadeira do dragão, recebendo choques elétricos na
cabeça e nos órgãos genitais. Teve o corpo queimado com brasas de cigarros,
sofreu privação de sono, água e comida e foi pendurado no pau de arara.
Os
militares também torturaram Frei Tito psicologicamente, proferindo insultos à
sua fé e ameaçando seus familiares e amigos. Um torturador chegou a introduzir
um fio elétrico em sua boca, para que o religioso “recebesse a hóstia”. Os
agentes o pressionavam a delatar seus companheiros e a assinar falsas
confissões implicando os dominicanos em roubos a bancos.
Em uma
noite, após passar várias horas no pau de arara, em desespero diante das
torturas e visando proteger seus amigos, Frei Tito tentou o suicídio, cortando
seus pulsos. Ele foi socorrido e levado ao Hospital Central do Exército, no
Cambuci, onde permaneceu cerca de uma semana em tratamento — enquanto a tortura
psicológica continuava.
Ainda
na prisão, Frei Tito escreveu uma carta-denúncia detalhada sobre as sevícias
sofridas. O texto circulou clandestinamente no país, chegou à imprensa
internacional e se tornou uma das primeiras denúncias públicas sobre a tortura
em larga escala praticada no Brasil.
Na
carta, Frei Tito apelou à Igreja para que se pronunciasse contra as violações
de direitos humanos: “A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única
instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender
e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que
sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças
promovidas pelo regime, antes que seja tarde. A Igreja não pode omitir-se. As
provas das torturas trazemos no corpo.”
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Libertação, exílio e morte
Em 7 de
dezembro de 1970, o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Bucher, foi
sequestrado em uma operação da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), outra
organização da luta armada. A ação foi comandada pessoalmente por Carlos
Lamarca.
Para
soltar o diplomata, os guerrilheiros exigiram a libertação de 70 presos
políticos, incluindo Frei Tito. A ditadura militar dificultou as negociações,
prolongando o sequestro por 42 dias, mas acabou atendendo à exigência. Bucher
foi libertado em janeiro de 1971.
Banido
do Brasil pelo governo de Emílio Garrastazu Médici, Frei Tito se refugiou no
Chile de Salvador Allende. Com a crescente instabilidade política e a iminente
ameaça de golpe militar, o frade partiu para a Itália. Tito encontrou forte
resistência e desconfiança de setores da Igreja Católica em Roma, sendo até
mesmo rotulado como “terrorista”.
O
brasileiro seguiu então para a França, onde foi acolhido pelos dominicanos do
Convento de Saint-Jacques, em Paris. Lá, ele tentou retomar estudos na Sorbonne
e passou por tratamento psiquiátrico. Tito carregava sequelas psicológicas
profundas da tortura. Sofria com depressão, crises de pânico e alucinações. Era
permanentemente atormentado por vozes e visões de Fleury e de outros
torturadores.
Frei
Tito foi transferido para o ambiente mais calmo do convento de Sainte-Marie de
La Tourette, em Éveux, mas o trauma persistia. O sofrimento psíquico acabou por
levá-lo ao esgotamento completo. Em 10 de agosto de 1974, Frei Tito tirou a
própria vida. Seu corpo foi encontrado enforcado em um bosque nos arredores de
Villefranche-sur-Saône. Ele tinha 28 anos.
Tito
foi enterrado no cemitério do convento de Éveux. Em sua lápide, a inscrição
relatava os suplícios impostos ao frade: “Frei da Província do Brasil.
Encarcerado, torturado, banido, atormentado até a morte por ter proclamado o
Evangelho, lutando pela libertação de seus irmãos. Tito descansa nesta terra
estrangeira”.
Em
março de 1983, os restos mortais de Frei Tito foram trasladados ao Brasil. A
urna foi recebida por Dom Paulo Evaristo Arns na Catedral da Sé, em São Paulo,
em uma missa de corpo presente assistida por 4.000 pessoas. Em seguida, os
restos mortais seguiram para Fortaleza, onde foram sepultados no Cemitério São
João Batista.
Em
2007, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos publicou
relatório detalhando as sevícias sofridas pelo frade dominicano e reconhecendo
que sua morte ocorrera em consequência dos atos de tortura praticados por
agentes do poder público. A conclusão foi posteriormente referendada pela
Comissão Nacional da Verdade.
Em
2016, o Ministério Público Federal denunciou Homero César Machado, ex-capitão
de artilharia do Exército, e Maurício Lopes Lima, ex-capitão de infantaria,
pelas torturas infligidas a Frei Tito. A Justiça Federal, no entanto, rejeitou
a denúncia, com base na Lei da Anistia.
O
religioso foi homenageado com o título honorário de Cidadão Paulistano,
outorgado pela Câmara Municipal de São Paulo em 2016. Uma rua da capital
paulista chamada “Doutor Sérgio Fleury” teve seu nome alterado para “Rua Frei
Tito de Alencar Lima” em 2021. A história do frade e da resistência dos
dominicanos contra a ditadura inspirou o livro “Batismo de Sangue”, de Frei
Betto, e o filme homônimo de Helvécio Ratton.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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