Imprensa
comercial transforma Alexandre de Moraes em vilão da liberdade de expressão
Os três
principais jornais da imprensa comercial brasileira — O Globo, Folha de São
Paulo e O Estado de São Paulo — publicaram editoriais em forte tom contra o
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), nesta
quinta-feira (13). Os jornais apresentam a atuação de Moraes em uma
investigação envolvendo o blogueiro maranhense Luís Pablo Conceição Almeida
como uma ameaça à liberdade de imprensa e ao sigilo da fonte.
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No
entanto, informações sobre investigação da Polícia Federal divulgadas pelo UOL
mostram que o episódio envolve suspeitas que vão além da publicação de
informações jornalísticas: segundo a apuração, houve monitoramento de veículos
e trajetos do ministro Flávio Dino e de familiares, além da suspeita de acesso
a sistemas restritos por um agente público. Todo o aparato de monitoramento
teria sido financiado por um político maranhense, no valor de R$ 100 mil.
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Globo acusa Moraes de referendar “abuso”
Em
editorial intitulado “Violação de sigilo de fonte pela PF é inconstitucional”,
O Globo afirma que houve “inconstitucionalidade flagrante” na operação da PF
contra o ex-secretário de Segurança do Maranhão Raimundo Cutrim e o
ex-secretário de Urbanismo de São Luís Diogo Lima.
A
investigação, determinada por Moraes a pedido da Procuradoria-Geral da
República (PGR) e da PF, apura circunstâncias relacionadas a publicações do
blogueiro Luís Pablo sobre o suposto uso irregular de carros oficiais do
Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e seus familiares.
O ponto
central da crítica do jornal é o fato de a PF ter periciado equipamentos de
Luís Pablo, apreendidos anteriormente, e identificado contatos que teriam
fornecido informações ao comunicador.
O Globo
invoca o inciso XIV do artigo 5º da Constituição, que estabelece literalmente:
“É
assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte,
quando necessário ao exercício profissional”
O
jornal reconhece que jornalistas podem ser investigados quando existem indícios
de crimes, mas sustenta que isso não autoriza o Estado a violar o sigilo da
fonte. Tanto a Polícia Federal quanto a Procuradoria-Geral da República
sustentam que o sigilo da fonte não foi violado neste caso, já que o foco da
investigação é o cometimento de crimes e a ameaça à segurança de Dino e sua
família.
O
editorial também questiona a competência do Supremo para conduzir o caso,
argumentando que os investigados não possuem prerrogativa de foro, e critica
sua conexão com o inquérito das fake news, relatado por Moraes.
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Folha fala em “corporativismo” no Supremo
A Folha
de São Paulo adotou linha semelhante. Sob o título “Supremo afronta a liberdade
de imprensa”, o jornal afirma que a investigação levanta dúvidas tanto sobre o
sigilo profissional dos jornalistas quanto sobre a garantia constitucional do
juiz natural.
Segundo
o editorial, Luís Pablo publicou, em novembro de 2025, textos sobre o alegado
uso irregular de veículo do Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e
familiares. Posteriormente, a PF pediu ao Supremo a abertura de uma
investigação por perseguição contra o magistrado.
Após
parecer favorável da PGR, o procedimento acabou sob responsabilidade de Moraes
devido à conexão estabelecida com o inquérito das fake news.
A Folha
considera problemático que uma investigação envolvendo pessoas sem foro
privilegiado tramite diretamente no STF. O jornal também argumenta que
atividades típicas de reportagens investigativas — como acompanhar autoridades
e receber informações confidenciais — não podem ser automaticamente equiparadas
a atos de perseguição.
No
trecho mais duro do editorial, a Folha acusa integrantes do Supremo de terem
colocado interesses corporativos acima das garantias constitucionais:
“Os
ministros do STF sabem muito bem disso, mas resolveram colocar o corporativismo
acima da Constituição que têm por função institucional proteger”
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Estadão diz que Moraes criou “precedente perigoso”
O
Estado de São Paulo foi ainda mais contundente. Em editorial denominado “O
ataque de Moraes à liberdade de imprensa”, o jornal afirma que o ministro teria
atingido um dos fundamentos do Estado Democrático de Direito ao permitir que a
investigação chegasse à possível fonte do comunicador.
O
Estadão estabelece uma relação direta entre liberdade de imprensa e proteção
das fontes jornalísticas e acusa Moraes de utilizar o inquérito das fake news
de maneira abusiva.
Para o
jornal, o caso demonstraria que a investigação, aberta há mais de sete anos,
teria se convertido em mecanismo de intimidação.
O
editorial também questiona a competência do STF e afirma que nem Luís Pablo nem
Raimundo Cutrim têm foro especial perante a Corte.
Assim
como os outros dois jornais, o Estadão cita o artigo 5º da Constituição e
acrescenta o artigo 220, que protege a manifestação do pensamento, a criação, a
expressão e a informação contra restrições.
Ao
final, o jornal pede ao presidente do STF, Edson Fachin, que atue para encerrar
o inquérito das fake news.
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Investigação aponta monitoramento de Dino e familiares
O
enquadramento adotado pelos três editoriais, porém, não contempla todos os
elementos conhecidos da investigação.
Reportagem
da jornalista Daniela Lima, publicada pelo UOL, informa que Raimundo Cutrim,
apontado pela PF como possível fonte de Luís Pablo, teria utilizado sua
condição de agente público para obter informações armazenadas em sistemas de
acesso controlado sobre veículos e deslocamentos relacionados a Dino e seus
familiares.
“Conforme
detalhadamente descrito, na conversa mantida pelo aplicativo fica claramente
demonstrado que quem obteve as informações e imagens divulgadas por Luís Pablo
foi Raimundo Cutrim, sendo possível concluir que para obter acesso às
informações sobre o veículo, o mesmo se prevaleceu de sua condição de agente
público, já que tais informações constam em sistemas com acesso controlado, que
exigem cadastramento prévio de usuário e senha”, diz a PF
A
apuração indica ainda que o monitoramento não teria se limitado a veículos
públicos utilizados pelo ministro. Segundo a PF, teria alcançado também um
automóvel particular pertencente a um irmão de Dino.
O
gabinete do ministro já negou irregularidades no uso dos veículos oficiais. Em
nota citada pelo Globo, afirmou:
“Um
carro blindado foi cedido por solicitação da Secretaria de Segurança do STF, no
âmbito de acordo de cooperação vigente com todos os tribunais do país”.
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Cutrim aparece também em investigação sobre assassinato
Outro
elemento relevante é que Raimundo Cutrim aparece em uma investigação distinta
envolvendo o assassinato do empresário João Bosco Sobrinho, ocorrido em 2022.
Segundo
Daniela Lima, o ex-secretário é investigado sob suspeita de oferecer propina
para que nomes de políticos maranhenses fossem retirados das acusações
relacionadas ao homicídio.
O caso
chegou ao Supremo depois que Gilbson Cutrim, condenado pelo assassinato,
apresentou habeas corpus afirmando que Raimundo Cutrim e aliados teriam
oferecido dinheiro à sua família para que políticos fossem isentados de
envolvimento no crime.
O
procedimento foi distribuído ao gabinete de Flávio Dino em outubro de 2025. De
acordo com a reportagem do UOL, o monitoramento de Dino e de seus familiares
começou dias depois.
A
investigação sobre o assassinato, a apuração referente ao monitoramento de Dino
e outra investigação relacionada ao esquema do INSS tramitam em sigilo e estão
distribuídas entre três ministros diferentes: Dino, Moraes e André Mendonça.
Cutrim, porém, aparece nas três frentes, segundo a reportagem.
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PF encontrou transferência de R$ 100 mil
Há
ainda outro personagem na investigação: Diogo Lima. Segundo a apuração
divulgada pelo UOL, investigadores identificaram uma transferência de R$ 100
mil feita por Lima para Luís Pablo.
O
blogueiro afirmou, em entrevista ao UOL News, que o valor correspondia a um
empréstimo. Também disse que Lima, advogado, auxiliava na análise jurídica do
material publicado.
A PF,
entretanto, registrou outra hipótese em seu relatório:
“Tendo
sido esclarecido o objetivo da transferência de R$100.000,00, chama atenção o
fato de uma pessoa que direciona o teor de matérias jornalísticas de cunho
político, aparentemente sempre buscando demonstrar aspectos negativos de
determinada autoridade ou de grupo político, faça tal pagamento exatamente em
benefício do jornalista responsável por tais publicações, colocando sob
suspeita o aspecto meramente informativo e a legitimidade do uso de um veículo
supostamente de caráter jornalístico”
A
existência dessas suspeitas não elimina a controvérsia constitucional sobre o
sigilo da fonte, mas amplia o contexto no qual a atuação da PF e a decisão de
Moraes estão inseridas.
• Entidades internacionais veem
'precedente perigoso' e 'grave ameaça' à imprensa no Brasil
O
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou na
terça-feira (11/8) uma operação de busca e apreensão da Polícia Federal (PF)
contra Raimundo Cutrim, ex-secretário do governo do Maranhão apontado como uma
das fontes do jornalista Luís Pablo.
A
medida faz parte de uma investigação sobre a obtenção e divulgação de
informações relacionadas ao ministro Flávio Dino, também do STF, e foi tomada
depois que a PF identificou Cutrim a partir da análise de equipamentos
apreendidos anteriormente com o jornalista.
A
investigação começou após Luís Pablo publicar reportagens sobre o uso de
veículos do Tribunal de Justiça do Maranhão por Dino e familiares. Em março, o
jornalista foi alvo de uma primeira operação, quando a PF apreendeu celulares,
notebook e outros dispositivos.
Segundo
os investigadores, a análise desse material levou à identificação de Cutrim
como a pessoa que teria fornecido ao jornalista imagens e informações obtidas
em sistemas de acesso restrito.
Com
base nessas informações, a PF pediu a realização de novas buscas contra Cutrim.
O
pedido recebeu parecer favorável da Procuradoria-Geral da República e foi
autorizado por Moraes. Entre os materiais que poderiam ser apreendidos estão
aparelhos eletrônicos e documentos.
A
medida provocou reação de entidades brasileiras e internacionais de defesa da
liberdade de imprensa porque a identificação da suposta fonte ocorreu a partir
da análise do material retirado do jornalista.
Para
organizações como ARTICLE 19, Repórteres Sem Fronteiras (RSF) e Sociedade
Interamericana de Imprensa (SIP), o caso levanta questões sobre a proteção
constitucional e internacional das fontes jornalísticas.
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Por que a decisão provocou reação de entidades de imprensa
A
controvérsia central não é apenas o conteúdo das reportagens ou a possibilidade
de investigação de eventuais crimes. É também a maneira como a investigação
chegou à identidade de uma fonte jornalística.
A
Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), a Associação
Nacional de Jornais (ANJ) e a Associação Nacional de Editores de Revistas
(Aner) afirmaram que medidas que permitam identificar fontes podem ameaçar uma
garantia prevista na Constituição e criar um precedente de intimidação da
imprensa.
Maria
Tranjan, coordenadora do programa de Proteção e Espaço Cívico da ARTICLE 19
para o Brasil e a América do Sul, afirmou que a decisão é preocupante porque
fontes jornalísticas são protegidas pela Constituição. Segundo ela, medidas de
investigação que possam revelar fontes devem considerar também os efeitos que
isso pode produzir sobre futuras denúncias e sobre o jornalismo investigativo.
A RSF
afirmou que o sigilo da fonte não protege apenas a identidade de um informante,
mas também materiais, comunicações e outros meios capazes de levar à sua
identificação. Para a organização, mesmo quando existe uma justificativa
legítima para investigar riscos à segurança de uma autoridade, medidas que
possam atingir a liberdade de imprensa precisam ser necessárias e
proporcionais.
A
Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP) também criticou o episódio. Em
comunicado publicado na quarta-feira (12/8), a organização afirmou estar
alarmada com a possibilidade de identificação de uma fonte por meio da análise
dos dispositivos apreendidos de um jornalista. Segundo a SIP, a violação do
sigilo profissional constitui uma "grave ameaça ao exercício do
jornalismo" e estabelece um "perigoso precedente para a liberdade de
imprensa no Brasil".
A SIP
citou ainda padrões interamericanos de proteção ao sigilo profissional e
afirmou que a confidencialidade das fontes é uma condição para que pessoas
possam fornecer informações de interesse público sem medo de represálias.
O
Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Maranhão e a Federação Nacional dos
Jornalistas (Fenaj) também se manifestaram em defesa da proteção das fontes.
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Por que a PF investiga a fonte
Em
março, Luís Pablo foi alvo de uma operação determinada por Moraes. Na ocasião,
foram apreendidos celulares, notebook e outros dispositivos utilizados pelo
jornalista. Os equipamentos foram posteriormente devolvidos, depois da extração
dos dados, segundo informações publicadas sobre o caso.
A
partir da análise desse material, a PF afirma ter identificado Cutrim como
fonte do jornalista. Segundo a investigação, mensagens trocadas entre os dois
indicariam o envio de imagens e informações sobre veículos ligados ao Tribunal
de Justiça do Maranhão.
Segundo
informações publicadas pela Folha de S.Paulo, a PF investiga uma transferência
de R$ 100 mil e afirma que o blog poderia funcionar como um veículo para
publicação de matérias pagas e com direcionamento político. Luís Pablo nega ter
recebido dinheiro pelas reportagens.
Segundo
a PF, Cutrim teria usado informações às quais teve acesso em razão de funções
públicas que exerceu no Maranhão para obter dados e imagens relacionados aos
veículos utilizados por Dino e seus familiares. Essas informações teriam sido
repassadas a Luís Pablo e utilizadas nas reportagens.
A
investigação também envolve o advogado Diogo Diniz Lima, ex-secretário
municipal de São Luís. Segundo a PF, investigadores encontraram conversas entre
Lima e o jornalista e identificaram uma transferência de R$ 100 mil. A polícia
apura se o dinheiro teria alguma relação com publicações de interesse do grupo
ligado a Cutrim.
O caso,
portanto, não se limita à identificação de uma fonte. A PF investiga se houve
obtenção indevida de informações restritas, monitoramento do ministro e de seus
familiares e eventual relação financeira por trás das publicações.
É
justamente nesse ponto que está o conflito com a proteção da atividade
jornalística: a investigação chegou à identidade de uma pessoa apontada como
fonte depois que a polícia teve acesso aos dispositivos e às comunicações de um
jornalista.
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O que dizem os investigados
Segundo
informações publicadas pela CNN Brasil, a defesa de Raimundo Cutrim afirmou que
ainda não tinha acesso integral aos autos, que tramitam sob sigilo, e
manifestou preocupação com a exposição de uma fonte jornalística.
O canal
também afirmou que Luís Pablo negou ter perseguido Dino ou seus familiares e
afirmou que as informações sobre o uso de veículo oficial eram verdadeiras. O
jornalista também negou ter recebido pagamento para publicar as reportagens.
Em
nota, a assessoria de Flávio Dino afirmou que a investigação identificou o
monitoramento de veículos particulares do ministro e de familiares, além do
acesso a informações relacionadas à segurança dele.
Segundo
o gabinete, também foram produzidas clandestinamente imagens do ministro e de
sua família, inclusive de seus filhos menores de idade.
Fonte:
Brasil 247/BBC News Brasil

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