sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Sobrosso – nos tempos do bolsonarismo

Remassando o passado, convenço-me de que este livro começou a ser gestado numa ensolarada tarde de domingo. Dentre as várias maneiras de apontar que um texto entra em concepção, uma é detectar o momento em que a alguém acode o desejo de escrever, seja qual for o acicate que lhe impulsione ou o resultado que daí virá. Curiosa reação, exclamar-se-á.

Em face do ocorrido, sentir a necessidade de achegar-se do papel e lá assentar uma contraposição, manifestar uma intenção polêmica que se esforce em rebater, exorcizar por meio do estudo e da compreensão, mesmo reconhecendo a provável inutilidade do ato, o andar do mundo que cisma de ofender-nos. Pois a grave ofensa constrangia à reação. Foi assim naquele negro ensolarado domingo de 17 de abril de 2016, quando fomos descaradamente golpeados.

As denominações que se aplicam aos eventos pretéritos resultam de disputas que custam a acabar; por isso é possível que só a historiografia futura encontre uma forma adequada de nomear o que realmente nos aconteceu na última década – mesmo sem pleno consenso, já que tais denominações ficam na dependência de embates e controvérsias que se longevam, assim como hoje é geralmente acatada a noção de “golpe de 64” conquanto um bando gatos engandolados insista em dizer “revolução”, uso que à época tinha motivo oficial e ora soa apenas ridículo.

De minha parte, desde o presente e no interior da extensa e quase toda malsinada semântica da palavra “golpe”, queria descer ao chão e lembrar que o significado primeiro da palavra é “pancada”, “porrada” que pode ser tão forte e repentina quanto vertiginosa, para emprestar uma caracterização proposta por Petra Costa em Democracia em vertigem (2019) no intuito de expressar a correlação entre a situação de nossa democracia e a de seu eu, e quiçá, por que não?, de nosso nós. Diga-se o que for acerca da precisão dos fatos narrados e das teses assumidas pela documentarista, a narrativa das vertigens paralelas – cuja sutileza é sugestivamente plutarquiana – foi no meu entender o maior achado de sua película.

Ora, deve haver um jeito de falar de si sem recair no vício do autocentramento, derive este do sentimentalismo ou da compreensão encapsulada, atitudes que às vezes dão no mesmo. Falar dos acontecimentos sem que se mostrem alérgicos nem ao si que os vivenciou aflitivamente e carece de elaborá-los nem ao coletivo que precisa estar envolvido nesse trabalho. Como alcançar um modo de falar e lidar com o acontecimento que se espelhe no coro grego: palavra dolente que convida à inteligência do que primeiramente atordoa e entristece?

Não foi por outra razão que num texto antigo sobre Antonio Negri, sem acaso datado de 2017, busquei então tematizar este ponto candente: cantar vitórias é coisa de uma facilidade acabrunhante; difícil é encarar as derrotas, contornando a neurose que paralisa e movimentando o intelecto que compreende, nossa fortaleza. De fato, quantos até hoje não ressentem os sintomas do baque, achando que entre 2019 e 2022 o país foi completamente destruído e ainda sem conseguir acompanhar o noticiário com placidez, chorando as suas e as alheias pitangas?

“Deve haver um jeito de fazer da experiência que inquieta o indivíduo, em vez de reles fulcro de estados d’alma confusos e incomunicáveis, alavanca para o entendimento conjunto, de modo que a retração do intimismo permita o vislumbre de um sentido comum”.

A infância com a anistia e as “Diretas Já”, a adolescência marcada pelo frescor democrático de uma nova Constituição e a maioridade com um operário presidente – vindo nessa toada não sabia o que é sobrosso. No entanto, à mó de ciclo vital de inapelável decadência, o país de repente escancarou-se outra coisa naquele domingo que sintomaticamente coincidia com o primeiro vintênio do massacre de Eldorado dos Carajás, macabro ouropel. Quiçá o único efeito positivo da porretada de 2016 tenha sido abrir-nos os olhos para a miserável katábasis que estávamos prestes a experimentar.

Não ficamos mais sagazes, mas sem dúvida somos hoje menos pueris; um passo à frente que custou muitos para trás. Perdemos a inocência que inclinava a negligenciar com temerária celeridade as profundezas, inclusive os mais abjetos porões de nossa constituição como país; aquela ingenuidade que facultava acreditar que certos personagens e aspectos, embora não liquidados de direito, estariam de fato domados e em via de desaparecimento por obra dos novos tempos, inevitavelmente promissores. Só que entrementes tudo isso veio à tona, mais ou menos repristinado, sob a forma de bolsonarismo.

Foi-se embora a promessa de uma nova vida em que a exigência de felicidade comunicável impunha-se sobre as demais; reentraram em cena a burrice, o individualismo, a violência – o ideal de vida em comum, para parcela significativa dos brasileiros, revirou na realidade de uma vida em armas. Os devidos cuidados não se tomaram ou, em realidade, os desafios é que estavam além de nossas forças? Para tudo piorar, e não podemos esquecê-lo em nenhum momento, sobretudo em respeito à memória das centenas de milhares de brasileiros vitimados, a coisa se deu em boa parte, por capricho do destino, simultaneamente à pandemia de covid-19; má fortuna em dobro que exponenciou todos os dissabores imagináveis.

E daí o sobrosso que intitula este livro. Como sobre os ossos das bestas de eito a constante cutucação forma ferida (“sobreosso”) que molesta, e ainda assim precisam continuar trabalhando e seguindo a vida normal, assim também os brasileiros tivemos de enfrentar todos, de bom ou de mau grado, os anos bolsonaristas, tanto mais complicados pela peste covidiana. “É necessário haver um jeito de falar disso tudo. O sobrosso foi meu, mas poderia e ainda pode ser o de muita gente; e daí a ocasião do compartilhamento”.

Este volume não consiste senão na tentativa de compartilhar o modo que descobri para sentimental e intelectualmente elaborar a derrota, por meio da compilação de textos redigidos no correr dos anos, ou exatamente, com base nas datas de publicação, entre 2017 e 2025, que cristalizaram momentos do processo.

O pronunciamento da sentença final contra a cúpula golpista do bolsonarismo, o derrisório atordoamento do chefe (“foi mal, tava doidão”, confirmando o que muitos pensavam dele ainda no tempo de baixo clero) e o seu consequente encarceramento, afiguraram-se-me marco bastante para o fechamento de um ciclo – o que não implica, por óbvio, cogitar o fim do bolsonarismo entendido como expressão propriamente brasileira do ideal autoritário.

Trata-se de um movimento e um ideário que por seu teor e por sua forma, que vão além do personagem pífio que lhes empresta o nome próprio, serve para substituir em nossas cabeças o velho e polêmico termo “fascismo”, oferecendo entre outras vantagens a de integrar ao conceito particularidades novíssimas (a comunicação digital, a inteligência de whatsapp) e alinhavar a nossa experiência imediata e a história do país, facultando-nos uma instigante dobra sobre nós mesmos, sobre o que somos como nação e em que medida o mundo, ao menos nisso, pode ou não ser tomado conforme o que somos – não me parece absurdo, em vez de ventilar um Donald Trump imperialista gringo de corte tradicional, para efeito compreensivo inseri-lo no bolsonarismo, e por conseguinte no laboratório brasileiro do autoritarismo mundial.

Nosso enraizado autoritarismo é uma instituição nacional que sopita embora insopitável. “Instituição”, digo, no sentido que Maurice Merleau-Ponty atribui à palavra: invés de fado, um campo de sentido que, uma volta aberto, perdura e orienta as ações dos sujeitos a ele submetidos, cobrando-lhes sequência; determina sem destinar, até quando os próprios sujeitos, por qualquer razão que seja, tornam-se instituintes e o transformam, não como o querem, mas como o podem.

Por isso, no curso dos anos, instilado pelas leituras e pela meditação sobre alguns fatos, várias vezes ocorreu-me a ideia de escrever um texto com o título Bolsonaro, um brasileiro, emulando o nome de certas cinebiografias de estrelas da música, ou algo como Bolsonaro e nós.

Nunca cheguei a tanto, mas a verdade é que tais fórmulas seriam apropriadas para designar a substância deste livro, exprimindo com fidelidade o entendimento geral que o subjaz e que pode ser assim sintetizado: Jair Bolsonaro não é uma aberração ou excepcionalidade; ele exprime nossa essência oculta, o quid proprium do brasileiro e de nossa sociedade, uma sociedade autoritária.

Daí o fecho de abóbada do conjunto de materiais e interpretações aqui apresentados encontrar-se no discurso do deputado federal Jair Bolsonaro na sessão que votou o afastamento de Dilma Rousseff em 17 de abril de 2016. A partir dali, acreditei possível delinear com precisão o nosso persistente e peculiar pendor autoritário, isto é, a inclinação que atravessa a história nacional a resolver todos os dilemas por meio da exacerbação da autoridade e da violência, ainda que se manifestando sob formas variadas, as quais nem sempre são à primeira vista congruentes.

Para fornecer um exemplo entre tantos, em coerência com o desejo de morte que nasce dos abismos de seu nadir, o bolsonarismo não faz concessão ao folclórico lero-lero da cordialidade brasileira: sem meias palavras, Jair Bolsonaro louvou torturadores e gostava de falar em “CPF cancelado”, pantomimava arminhas e diagnosticou que os problemas do país seriam menores se a ditadura tivesse matado mais, no auge da pandemia filosofou que morrer faz parte da vida e não se conteve ao galhofar moribundos manauaras que padeciam a falta de oxigênio.

É nessa mesma linha da visceral incordialidade que ganha pleno sentido a retomada do AI-5 e a sua transformação em significante político maior dos anos bolsonaristas, particularmente à maneira de mezinha para os inconvenientes acarretados pela crise sanitária. Salvo engano, antes de Jair Bolsonaro nenhum político de certa relevância nacional elogiava abertamente a ditadura, muito menos o AI-5.

O fascínio pelo AI-5 e a versatilidade em sob um mesmo significante reunir passado, presente, futuro, instrui-nos ainda sobre a particular temporalidade do fenômeno autoritário entre nós e, por decorrência, em sua versão bolsonarista.

O plural tempos presente no subtítulo do livro é a entender-se em dois sentidos. Primeiramente, de forma mais ou menos trivial, remete ao bolsonarismo tanto quanto ao presente e à experiência que dele seguimos fazendo sob o horizonte que ele mesmo nos delineia; assim, pareceu natural que temas de matriz não estritamente bolsonarista (a guerra da Ucrânia, por exemplo) fossem aqui tratados em associação com o ar do tempo respirado, a contragosto, no período; isso, por óbvio, para nem falar da pandemia – é praticamente impossível distinguir os anos de bolsonarismo no poder e os de pandemia nas ruas.

Um segundo sentido mais fundamental impõe-se, contudo. Eu não diria, como fez Umberto Eco relativamente ao fascismo, que o bolsonarismo é eterno; acredito porém que usufrua de uma essencial transtemporalidade configurada pelas raízes bem fincadas em nossa história nacional, aquelas que vieram à tona de modo notável, asquerosamente inconfundível, no voto de seu representante na sessão parlamentar que golpeou Dilma Rousseff com o afastamento.

Ao individuar os tempos, o discurso bolsonarista realizou a façanha de inserir-se no passado, tomando-o para si e conectando-o ao presente, para a partir dali prenunciar um futuro redimido; é uma operação grandiosa que subjaz ao liame então estendido entre 1964 e 2016. Essa complexa temporalidade sonha haurir ao fundo dos tempos as bases fixas e inamovíveis do mundo, intentando configurar uma história que se repete sempre, inclusive quando paradoxalmente promete a revolução que erguerá e consolidará os novos tempos.

Em resumo, o livro busca dar conta, de maneira muito pessoal, dessas múltiplas dificuldades e assim tangenciar um fenômeno que é ao mesmo tempo novo e velho, coerente e ilógico, altissonante e grotesco, tomando-o sob facetas diversas e exprimindo-se em formatos variados. Escusado frisar que a coisa não é fácil; vívidos e claros, os sentimentos transmutam-se ao tangenciar a reflexão, sobretudo quando cabe organizar o material.

Tendo isso em conta, a distribuição dos textos preservou em parte o referido processo subjetivo de afrontamento e elaboração, e por isso nas respectivas seções os textos estão dispostos em rigorosa ordem cronológica e uma nota inicial indica a data de cada um; além disso, visto que os escritos foram nascendo e sendo publicados independentemente, pareceu adequado preservar essa autonomia, o que redundou na dispensa de remissões internas (que seriam muitas) e a manutenção aqui e ali de argumentos aparentemente, mas não realmente, redundantes.

A primeira seção tem por título A tentação autoritária e dedica-se a cavoucar o bolsonarismo investigando como ele finca raízes no passado e, durante a pandemia, reativou o pendor nacional ao autoritarismo; a crise sanitária impôs circunstâncias inéditas que deixaram aflorar de modo especialmente nítido aspectos desse caráter autoritário que, em situação normal, talvez passassem por folclóricos apenas.

A partir disso, patenteia-se a importância da terceira seção do livro, composta de notas que não passam do referido “varejo”: intervenções, relatos do dia a dia, textos circunstanciais, que recendem o calvário do tempo, as inquietações que nos acometem e cobram respostas, ocasionando leituras e açulando a escrita. Daí, nessas páginas, o bem-marcado clima de época e os sentimentos que lhe percorrem, aqui e ali arrevesadamente, tomando direções inusitadas.

Entre as duas seções, como já observado, deve-se conceber uma ação recíproca: o particular vai amoldando o geral ao mesmo tempo que este serve à captura dos fatos miúdos, que em retorno servem de controle às teses maiores. Mediando os dois estratos, estão alguns materiais produzidos em busca de compreensão, tentativas de formular instrumentos para a inteligência da situação ou de aprofundar aspectos do bolsonarismo, mesmo quando sem dele falar, que eu não sentia satisfatoriamente salientados na literatura que acompanhava.

Isso explica que os textos ali alocados sejam os únicos a endossar uma armadura mais acadêmica, embora sem despojar-se do tatear e da experimentação interpretativa que só um não especialista nesses assuntos se permitiria (o que sabia eu de Golbery antes de Jair Bolsonaro?). Nesse sentido, ainda, cumpre entender a constante referência a Marilena Chaui nos textos da segunda seção; o detalhe passaria por só inconveniência, não fosse a razão básica de que desde o instante em que se me antojou a necessidade de elaborar o bolsonarismo, ato contínuo pensei, o que posteriormente confirmou-se, que na filósofa eu colheria instrumentos e orientações preciosos para tanto.

Ao repassar os textos constantes do volume, quedou-me claro que não era apropriado encerrar tanta malsinação sem uma esperança. Não precisava nem podia ser uma invocação do paraíso, a contrabalançar o Inferno que fecha o texto inicial, mas pelo menos um ar renovado muito calhava para afastar o tristilóquio indicando, contra os que tremelicam às tontas só de ouvir o nome do capitão de araque, que nem tudo foi ou está perdido.

Nem o coro dos anjos nem a garganta do inferno, apenas um alento, um refrigério a quem atravessou o livro e consolo aos muitos que ainda sustentam uma condição lutuosa injustificadamente prolongada. Nem sempre a esperança que previne contra o negrume dos tempos é só um urubu embuçado de verde. Um imunizante, por que não?

Onde encontrar essa esperança inteligente sob Jair Bolsonaro e a covid-19, no auge de nosso duplo infortúnio e quando seus efeitos pareciam mais devastadores? Pois sim, foi então que, sem repente e aos cados, demo-nos conta que uma das expressões mais concretas e altivas da abstrata nação, naquele período tribuloso, era o nosso Sistema Único de Saúde. Ele se mostrou mais forte que a má fortuna e a sordidez, o vírus e o mito, graças à gênese democrática que lhe determinou uma estrutura eficaz na efetivação do direito humano à saúde e politicamente resistente à chicanice da classe média e aos desmandos autoritários.

É a prova de que o nosso quid proprium não configura um destino, senão quando a adversidade assim se maquia e nós a abraçamos. A instituição determina somente aquilo que não é por nós mesmos determinado, não de maneira voluntarista, decerto, mas mediante a produção de outras instituições que possam ressignificar o campo de nosso porvir.

O curso das incessantes lutas dos brasileiros contra o que somos, levadas a cabo no esforço de destruir a própria identidade autoritária, suprimindo-se como tais, inclusive em momentos bem mais perigosos do que aquele que vivíamos, graças àquilo que conseguiram inventar e que tomou forma institucional com a Constituição de 1988, deram forma ao longo da pandemia a uma tábua de salvação, em sentido quase literal, e à inequívoca demonstração de que não é necessário que o bolsonarismo e as bolsonarices, robustas quanto o sejam, tenham a última palavra sobre coisa alguma em nossa vida em comum.

É fundamental reconhecer que, ao gritar “Viva o SUS!” durante a pandemia, cada brasileiro prestava homenagem às lutas de outros brasileiros, de maneira igualmente transtemporal, segundo outros tempos porém que aqueles do maldito voto de 17 de abril de 2016 que se enraizavam no autoritarismo atávico. Mais que os espasmos de prazer trazidos pela vacinação e que geravam os justos “vivas”, na matriz teórica do SUS e em sua efetivação prática devemos ler uma maneira singular de conter a nossa inclinação à repetição autoritária.

Tanto me parece assim, que arriscaria dizer que no Brasil atual qualquer política democrática deve formular-se a partir da experiência das lutas e da consequente concretização do SUS, como ideia e como prática democráticas.

Se cedo à tentação de adiantar aqui alguns resultados, explica-se isso antes de tudo pela necessidade de encarar o que denomino o problema da repetição do autoritarismo, questão teórica cuja urgência prática redunda na interrogação acerca dos meios de bloqueio dessa repetição. Ocorreu-me citar mais de uma vez nas páginas que seguem o Arturo Ui de Bertolt Brecht, e realmente não vejo melhor forma de sintetizar a questão maior aqui aflorada senão pelas palavras que fecham a complexa tragicomédia: “Os povos conseguiram dominá-lo, porém, que ninguém saia por aí triunfando precipitadamente – é fértil ainda o colo que o criou!”.

Infeliz, desgraçadamente, continua sendo este o nosso problema, e admito que não teria forças no momento para enfrentá-lo de forma outra que a aqui tentada. Não é impossível que um diário de viagem, sobretudo quando a má ventura impera, valha por si só, ainda que desconheça a rota que leve ao porto seguro e sustente mesmo sérias dúvidas acerca da existência de um lugar do tipo.

 

Fonte: Por Homero Santiago, em A Terra é Redonda

 

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